26ª jornada
[porto, 2 – setúbal, 0]
Agora que as luzes se foram
Só o tango ficou
Desenhado no chão.
E a gardénia esquecida
repete, em surdina, o último verso.
Relembrava-se Gardel, em homenagem ao seu compatriota Lisandro, incontinente fazedor de golos. Mais um degrau ultrapassado, na ascensão rumo ao tetra, num jogo de cariz especial. Não pelo adversário, inócuo e lutando desesperadamente contra o espectro da descida. Mas pelo simbolismo que o mesmo acarretou, realizado poucos dias após o desaparecimento de um dos grandes vultos portistas. Virgílio Mendes, cognome de “o leão de Génova”, tinha a bravura de um indomável soldado de campanha, tenaz defensor do emblema que lhe decorava o peito.
Os golos de Lisandro, o “man of the match”, foram o corolário lógico de um conjunto que, nesta fase, sobrepunha as fileiras cerradas ao deslumbramento estético. Não se jogava bem, no Dragão, mas somavam-se pontos vorazmente.
Nota de destaque, em toda a blogosfera azul e branca, o nascimento de mais um projecto, acompanhado a par e passo, com evidente nervosismo, quase como se de um filho se tratasse. As amadoras tinham a sua casa pronta. Finalmente. O “Dragãozinho” abriu portas, cativando os felizardos presentes na inauguração. Um clube eclético tinha que ter um espaço assim. E lá vigora também a máxima do clube. A vencer, desde 1893…
27ª jornada
[marítimo, 0 – porto, 3]
Maio. Mês de todas as decisões. 4 jogos para o final, numa altura em que a imprensa abanava o fantasma da possível não renovação de Jesualdo. Cirurgicamente, na altura crucial da temporada, os mesmos de sempre procuravam lançar o descrédito, a confusão, o caos. O Jogo titulava que este seria o “mês da verdade”. E ela, tal como o algodão, não enganava. Enquanto a Europa abria a boca de espanto, descobrindo um defesa-esquerdo raçudo, sem cáries, o título era praticamente oferecido, numa bandeja de prata, aos comandados de Jesualdo. O empate leonino em Coimbra, aliado a uma contundente derrota encarnada na Madeira, no feudo do Nacional, faziam os portistas acariciarem o Tetra. Igualmente na pérola do Atlântico, o Porto vencia o Marítimo, sobrevivendo de forma esplendorosa às lesões nucleares de Lucho e Hulk. Com Meireles e Fernando em plano de destaque, soberbos pilares do meio-campo, os adeptos portistas preparavam o arraial, programado para dali a uma semana. Um ano intenso, de lutas e perseguições, de jogadas de bastidores e ódios acumulados, aprestava-se a chegar ao fim. Uma semana. Uma mísera semana para coroar a melhor equipa lusa, aquém e alem fronteiras.
28ª jornada
[porto,1 - nacional, 0]
Com a defesa menos batida da Europa, o 24º titulo deixou de ser uma miragem, transformando-se numa doce realidade. O Primeiro de Janeiro, deliciosamente, colocava em letras garrafais: “Só faltam seis”. E é esse número redondinho que, a partir de agora, assombrará os sonhos dos Neandertais de vermelho. Mais seis anos. Mais seis títulos. E cairá por terra o mito do clube “mais grande” de Portugal. Já falta pouco.
Mas, para abrir as rolhas do precioso champanhe, foi necessário suar e sofrer, em doses industriais. O Nacional foi um adversário notável, provavelmente o mais perigoso a pisar o relvado do Dragão, na temporada finda.
Coube-me a mim o privilégio de escrever a crónica da partida decisiva. E, como sempre faço nas ocasiões históricas, aproveito os momentos que antecedem o inicio das hostilidades para uma revisão. Uma espécie de hibernação reflexiva. Saboreio os passos todos da caminhada, de forma introspectiva, desde as provações e noites de desespero, sustendo a frustração de resultados menos conseguidos, até aos momentos ímpares de felicidade e alegria.
Bastou um golo, para soltar a torrente de contentamento no vulcão humano em que se tinha transformado o Estádio. Todo ele imbuído de enorme carga emocional. Carimbado pelo transportador da mística draconiana, flamejante na sua estampa física, Adónis esculpido em ferro, resistindo indómito a tudo. Bruno Alves, o primeiro a dar a cara e a aconselhar calma, no naufrágio da Figueira, aquando da derrota frente à Naval. E nesse gesto simples, de apaziguamento do descontentamento dos fiéis seguidores portistas, estava encerrada a chave do triunfo. Foi ali, naquele momento, numa derrota, que se forjou o caminho do êxito.
E pronto. Soltou-se o ansiado grito. O “CAMPEÕES, CAMPEÕES, NÓS SOMOS CAMPEÕES”, ouviu-se por toda a Invicta, essa cidade perene, cantada por poetas. No Estádio, que me atrevo a designar pelo mais belo palco à face da terra, estavam 50.000. Mas no Mundo inteiro, transformado em hora e meia num anfiteatro de emoções, estavam milhões. Pessoas anónimas, de todos os credos, raças e religiões, com aquele ponto de ligação. A fé inquebrantável no Porto. A diáspora portista, independentemente do fuso horário, resplandecente de felicidade. O palmarés tinha agora mais um pontinho. O 24º!
29ª jornada
[trofense, 1 – porto, 4]
Do Tetra emergia uma figura, tornada consensual na hora da vitória. Jesualdo Ferreira conseguia, finalmente, o reconhecimento merecido. De postura “low-profile”, avesso a mediatismos bacocos, com a sisudez a ser a imagem de marca, o técnico português atingia um patamar apenas ao alcance dos eleitos. Reconstruindo sabiamente um plantel sempre sangrado por necessidades de tesouraria, o decano treinador atingiu um patamar de maturidade que o tornam a personagem principal de um filme ainda sem fim.
Comprovando que a semana de festa não tinha ensombrado a capacidade futebolística, os Dragões atingiram outra marca notável. A 11ª vitória consecutiva, fora de portas, praticamente condenando à descida de divisão o seu opositor. A equipa, mantendo a bitola da seriedade competitiva, dizimou literalmente o adversário, com golos a dobrar da dupla argentina, Farías e Lisandro, numa clara demonstração de classe e vontade contínua de vencer. Os campeões crónicos são assim. Profissionais até à medula. Sem relaxamentos.
30ª jornada
[porto, 1 – braga, 1]
Ainda não tinha terminado a temporada, e já se preparava cuidadosamente a próxima. Maicon, defesa-central brasileiro e titular do Nacional, era anunciado como o mais novo reforço do ataque…ao Penta. Antes do jogo final da Superliga, os adeptos portistas tiveram novo motivo de celebração. A Liga Intercalar foi vencida, com mérito, pelos jovens azuis e brancos, numa final nervosamente decidida na lotaria das grandes penalidades. Mais uma prova inequívoca de que, longe das luzes da ribalta, se trabalha denodadamente e com qualidade nas camadas jovens. O jogo final, de consagração, recebeu o Braga de Jesus, um treinador na altura em bolandas, com os média a fazerem eco do interesse de vários grandes (Porto incluído) na sua contratação. O resultado, o menos importante num dia de festa, não fez justiça ao melhor jogo azul e branco, com mais um golo do inevitável Farías, sôfrego aproveitador de todos os minutos concedidos para deixar a sua marca. O fecho da competição foi celebrado, com a devida pompa e circunstância, provando que os novos empossados campeões “never walk alone”. Caia o pano no Dragão, deixando logo um rasto de nostalgia, pelo período sabático que se seguiria, sem a bola a rolar.
A comemoração do título foi quase coincidente com a enxurrada de parabéns, provenientes de vários quadrantes, pelo aniversário do blogue. O terceiro, num mês de Maio pródigo em festejos. Cada vez mais imprescindível para quem acompanha o quotidiano do Dragão, o Bibó Porto Carago apagou as velas num clima de festa, rodeado de amigos. Para o ano há mais!
NOTA - finalizada hoje a viagem do TETRA, é hora de nos centrarmos definitivamente no trajecto a caminho do PENTA e esse, começa já daqui a pouco, pelas 21:15, no Estádio Municipal de Aveiro, onde o FC Porto irá defrontar o Leixões, no primeiro jogo de preparação mais a sério, onde a malta do BiBó PoRtO estará em peso e força... aos que não possam estar presentes, e porque as boas tradições devem ser mantidas, passem por cá a partir das 20h30 e deleitem-se a "VER" esse jogo em (mais uma) transmissão em directo.Etiquetas: liga 2008-09, o último bastião do paulo pereira