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18 agosto, 2018

FOTO MÍSTICA #12 - QUINZINHO [1995 ou 1996].


O FOTO-MÍSTICA é um espaço de registo e divulgação da história do FUTEBOL CLUBE DO PORTO. O objectivo é recordar os seus momentos, os seus valores, os seus princípios, a sua cultura, a sua marca, a sua dimensão, as suas gentes. Numa palavra: a sua MÍSTICA. Todos são convidados a participar nesta viagem. Se pretenderem ver divulgada uma fotografia em especial, podem enviar e-mail para rodalma@hotmail.com .


Época: 1995/1996
Local: impossível de confirmar
Data: 1995 ou 1996
Resultado: impossível de confirmar
Aparecem na fotografia: Quinzinho

Às vezes é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma, dizia um personagem d’O Leopardo, filme maior do mestre do cinema italiano Luchino Visconti.

Aos 88 minutos da primeira jornada do campeonato 2017/2018, diante do Chaves, lembrei-me disso mesmo quando Marius Mouandilmadji, avançado nascido no Chade, se estreou a marcar de azul-e-branco, dirigindo-se imediatamente à bandeirola de canto para celebrar o golo. O resultado sentenciava a partida nuns conclusivos 5x0 e os portistas sorriam. Desde logo porque é sempre bom começar a ganhar, mas também porque os avançados africanos têm um je ne sais quoi: eles trazem magia, imprevisibilidade, alegria, magia negra ao jogo. Ver Marius a correr para a bandeirola de canto e inventar um passo de dança traz à memória outros avançados africanos. A nível internacional podemos recordar Roger Milla no Mundial 90; a nível interno um nome ecoa no coração dos portistas: Quinzinho.

Quinzinho (de seu nome Joaquim Alberto da Silva) foi um avançado que se notabilizou ao serviço do FC Porto na década de 90, não tanto pelos golos marcados – que foram poucos (apenas 8 distribuídos por duas temporadas de azul e branco) – mas pela alegria que transmitia às bancadas. Era o chamado rebuçado dos adeptos.

Sir Bobby Robson mandava Quizinho aquecer atrás do banco de suplentes das Antas e como que as bancadas se agitavam. Rapidamente a turba se esquecia do jogo e pedia a Robson, alto e bom som, que fizesse entrar o angolano Quinzinho. A relação entre os dois era digna de figurar nos compêndios: de um lado estava um apaixonado pelo jogo, um homem que respirava futebol de ataque e que adorava o futebol sem “rodriguinhos”, ao primeiro toque. Tudo em Robson inspirava vertigem, tabelas, triangulações, futebol simples, rápido e com a baliza na mira. Um futebol de alta-voltagem, electrizante.

Só que Quinzinho era o ponta-de-lança africano celebrizado por Jorge Bem, o tal Umbabarauma. O seu mundo era outro. Quizinho adorava fintar, torcer os rins aos adversários, jingar no relvado, correr campo fora sem grandes preocupações tácticas ou defensivas. E, quando facturava, apressava-se a mostrar os seus dotes de dançarino de kuduro/kizomba. Sir Robson, no banco, exasperava-se com tais façanhas. Era um Sir, odiava esse tipo de festejos, não gostava de os ver, desesperava-se, tapava a cara, virava-se para a bancada e de costas para o jogo, protestava com Quinzinho. Era também, no fundo, uma encenação de Robson, que percebia como poucos o conceito cénico e artístico do jogo, o futebol como espectáculo de massas.

Óbvio que, perante um treinador britânico, um avançado africano teria sempre dificuldades em impôr-se. Quizinho nunca foi uma opção real para Robson, que o utilizava mais para responder aos caprichos da bancada do que para resolver reais problemas que o jogo trazia.

Quinzinho foi, sem dúvida, um personagem mítico dos anos 90 portistas. A sua áurea inspirava alegria, ânimo, imaginação. Os dragões sempre gostaram de jogadores objectivos e de toque simples, para a baliza. Mas Quizinho era a excepção que confirma a regra: a Quinzinho tudo era permitido, desde toques de calcanhar falhados, fintas em zona proibida, invenções que não lembravam ao diabo, toques habilidosos, a Quizinho tudo o adepto perdoava. Fossem Capucho ou Chainho a arriscar tais artes e seriam imediatamente vaiados e intimados a não repetir a proeza. Quizinho foi pois, de facto, um epifenóneno que ninguém é capaz de explicar. Já era assíduo das Antas na altura e, confesso, também eu pedia a plenos pulmões a entrada do Quinzinho. Aquela corrida desenfreada, aquela fome de bola, o sorriso rasgado quando estava quase a entrar, aquela magia sempre prestes a explodir, aquela imprevisibilidade e potência física, parecia que Quinzinho tinha sido ali colocado para apimentar o jogo e o espectáculo.

Numa reportagem da RTP dos anos 90, perguntaram a Quizinho como festejaria um golo marcado mesmo no final da partida. A resposta saiu natural: “Ao meu jeito de festejar... dançando!”

Rodrigo de Almada Martins

21 julho, 2018

FOTO MÍSTICA #11 - Fernando Couto [1993]


O FOTO-MÍSTICA é um espaço de registo e divulgação da história do FUTEBOL CLUBE DO PORTO. O objectivo é recordar os seus momentos, os seus valores, os seus princípios, a sua cultura, a sua marca, a sua dimensão, as suas gentes. Numa palavra: a sua MÍSTICA. Todos são convidados a participar nesta viagem. Se pretenderem ver divulgada uma fotografia em especial, podem enviar e-mail para rodalma@hotmail.com .


Época: 1992/1993
Local: Estádio das Antas
Data: 06.05.1993
Resultado:  FC Porto 2 x 0 Marítimo SC
Aparecem na fotografia: Fernando Couto e apoiantes do FC Porto

Os momentos de total comunhão entre adeptos e futebolistas de um clube acontecem menos vezes do que seria desejável. No entanto, quando sucedem, é como se a mística se explodisse em milhares de partículas ao vento, enfeitadas de ouro sobre azul.

Foi o que aconteceu naquela tarde em que o sol se espreguiçava pelo relvado das Antas, ao minuto 30 da jornada 34, quando Fernando Couto inagurou o marcador da derradeira partida do campeonato nacional 92/93, lançando em definitivo o FC Porto para a conquista do ceptro de campeão nacional. Kostadinov, aos 74 minutos, havia de sentenciar a partida e, consequentemente, as contas do campeonato, deixando o rival Benfica a 2 pontos de distância.

Fernando Couto, natural de Espinho, não jogou muitos anos como sénior do FC Porto (apenas 4), mas foi o suficiente para marcar indelevelmente a nação portista. Vários factos se juntam para isso: o facto de ser um menino da casa, pelo porte imperial que apresentava, pela longa cabeleira, pelo temor que inspirava nos avançados contrários, pela brutalidade da sua marcação, pelo facto de ter cimentado a expressão central à Porto e por ter sido um dos primeiros imigrantes da famosa geração de ouro do futebol nacional.

Couto era daqueles que não pedia licença para nada. Saltava como queria, cabeceava como queria, marcava como ninguém. Se por acaso a bola passava por ele, o jogador esse não podia passar.

Protagonizou episódios memoráveis, nomeadamente as batalhas campais que alimentou com Mozer. Jogador à moda antiga, para a história fica uma entrevista sua, à entrada do túnel de acesso aos balneários do antigo estádio das Antas, quando após uma pergunta de um repórter de campo sobre o que se tinha passado com Mozer, respondeu alto e bom som, chutando o assunto para canto: “O que se passou ali dentro foi futebol”.

Foi com Mozer também que viveu um dos piores períodos com a camisola portista, quando cedeu a uma provocação do central brasileiro e respondeu com uma cotovelada. Veiga Trigo não deixou passar o lance em claro e deu ordem de expulsão ao defesa nortenho. No final do jogo, Sir Robson sentenciava o sucedido com um humor tipicamente britânico: Benfica 2 x Fernando Couto zero. Logo de seguida, obrigou Coutro a treinar uma semana afastado do grupo de trabalho, no relvado do antigo campo de treinos das Antas.

Nada que impedisse Robson de, anos mais tarde, ir resgatar Couto àquela mítica equipa de Parma, onde o português havia alinhado com Buffon, Sensini, Cannavaro, Dino Baggio, Brolin, Asprilla e Zola.

Protagonizou ainda uma das melhores duplas de centrais de sempre do futebol mundial, ao lado de Jorge Costa, que veio a ser considerada a melhor dupla do Euro 2000. Foi, aliás, o primeiro internacional português a ultrapassar a barreira das 100 internacionalizações, o que atesta bem a relevância da sua carreira a nível internacional.

Fez também uma excelente parelha com Sinisa Mihajlovic na Lázio, vencendo uma Taça das Taças e o Scudetto em 2000, pondo fim a um jejum de 26 anos do clube laziale.

Deixou o FC Porto e nunca voltou a envergar a nossa camisola, embora o regresso fosse algo que vinha à baila todos verões no imaginário portista. Venceu 3 campeonatos e 3 Taças de Portugal de azul-e-branco.

Rodrigo de Almada Martins

16 março, 2018

FOTO MÍSTICA #10 - Vítor Baía [2004].


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Época: 2003/2004
Local: Arena Auf Schalke, Gelsenkirschen
Data: 26.05.2004
Resultado:  FC Porto 3 x 0 AS Mónaco
Aparecem na fotografia: Vítor Baía, Ludovic Giuly

Talvez não seja a fotografia mais icónica de Baía nos vários anos que vestiu a camisola azul e branca, mas é talvez a acção mais importante do 99 em toda a sua carreira, a par talvez daquela saída destemida aos pés de Van Nistelrooy, meses antes em Inglaterra. Na Arena Auf Schalke, a primeira parte decorria disputada e tremida, indecifrável, podendo cair para qualquer lado. O ataque monegasco era temível, com Morientes e o supersónico Giuly. O jogo estava perigoso e, aos 23 minutos, o FC Porto não consegue controlar a profundidade do ataque dos homens do principado e Giuly surge isolado na cara de Baía.

O guardião português parece adivinhar o lance e, lesto e felino, corre rápido para a bola e, de forma corajosa, varre o lance em carrinho, apanhando Giuly no seguimento do tackle. A jogada é um verdadeiro 2 em 1: Baía afasta o perigo e Giuly sai mal-tratado da jogada, pedindo a substituição. Para o seu lugar entra o croata Dado Prso, um bom jogador, mas muito semelhante ao estilo de Morientes. O Mónaco ficava assim com dois avançados lentos, demasiado fixos, posicionais, mais estáticos, sem capacidade de atacar e surpreender na profundidade. A partir daí o jogo muda irresistivelmente, o FC Porto consegue subir o bloco sem preocupações nas suas costas e a partir daí é história.

Só percebi o significado de Baía no FC Porto já mais tarde, ao ler a auto-biografia de Morrissey, o grande vocalista dos Smiths. Ao descrever como era viver na Manchester da sua juventude, nos anos 60, o britânico refere – ele que nem é um fã do desporto-rei – a epifania que foi a aparição de George Best naquela cidade.

De repente, a Manchester da chuva, do cimento, a Manchester dos operários fabris, a cidade dos bairros industriais, da poluição, do carvão, do frio, do gelo, do céu de negrume, essa Manchester de cores tristes e depressivas, vê surgir o astro de Best, um super-jogador que namorava as top models mais giras, que surpreendia com cortes de cabelo extravagantes, que usava roupas fashion, que era bonito e que tinha estatuto para quebrar as regras e fazer tudo o que lhe apetecesse. É essa a verdadeira dimensão de Best e é por isso que o seu nome ficará para sempre na memória dos red devils.

Essa é também, de certa forma, a dimensão de Baía na cidade do Porto. Nos finais dos anos 80 e à entrada dos 90’s, o FC Porto era o clube dos andrades, lá do Norte, uma espécie de aldeia gaulesa povoada por feios, porcos e maus. E de repente, no meio de um plantel de homens de barba rija, surge um menino bonito chamado Vítor Baía.

Baía, além disso, tinha um porte de princípe, majestático, intimidante. E, cúmulo dos cúmulos, o rapaz da Afurada falava bem, era descomplexado, enfrentava os jornalistas, gostava de palco, das câmaras. Baía foi uma espécie de George Best para os meninos dos recreios cinzentos nortenhos, cheios de poças de água, de gravilha e terra húmida, que tinham nele o seu ídolo e que, por causa dele, sentiam ainda mais orgulho em dizer-se portistas.

Baía cedo causou ciúmes e invejas na capital. Como era possível que aquele rapaz elegante e ultra-seguro nas balizas tivesse aparecido nas margens do rio Douro? Iniciava-se aí uma relação ambígua entre Baía e a comunicação social. Se por um lado os repórteres o perseguiam, por outro notava-se a forma invejosa e desdenhosa com que se lhe referiam. Quando Baía frangava, era feriado em grande parte do País e as suas falhas eram celebradas e motivo de escárnio. Os Donos da Bola, esse programa odioso, por exemplo, não lhe davam descanso.

Capa de revistas cor-de-rosa, Baía acompanhou sempre na ribalta as várias fases de jogador de futebol em Portugal. Quando apareceu, os jogadores ainda equipavam de calções curtos e roupa justa. Quando terminou a carreira, Baía já usava calções largos e camisolas bem mais confortáveis e era já um senhor respeitado no futebol mundial, a par de muitos outros da sua geração, como Figo, Paulo Sousa, Rui Costa ou Fernando Couto.  O futebol tinha mudado radicalmente e ele soube sempre adaptar-se sem problemas de maior.

Depois de uma passagem azarada por Barcelona – onde Valdano captou a sua áurea dizendo que até a frangar Baía tinha estilo – o menino bonito dos azuis-e-brancos voltou às Antas ainda a tempo de vencer mais títulos nacionais e os troféus europeus de Sevilha e Gelsenkirschen.

Afastado de forma reles e baixa do Euro 2004, quando era inequivocamente o melhor guarda-redes português e um dos melhores da Europa, a par de Casillas, Buffon e Van der Saar, nunca se deixou ir abaixo e apenas pediu a Scolari uma explicação, fosse ela qual fosse. Obviamente que esta nunca chegou, mas de certa forma Baía não se importou. Ganhou a competição mais importante de futebol a nível de clubes e foi eleito o melhor guarda-redes da Europa nesse ano, enquanto que a selecção morria na praia, afogada nos seus fantasmas e na Nossa Senhor do Caravaggio.

O fantasma de Baía acabou por não pairar no Dragão muito por culpa de Helton, que soube agarrar o lugar de forma natural, numa sucessão sem dramas, com aceitação e compreensão da parte de Baía, que até na hora da saída foi um senhor, ao perceber claramente que estava na hora de passar o testemunho. É verdade que depois até houve Iker, mas é hoje indiscutível que a dimensão e o nome de Baía são inigualáveis. Se assim não fosse, em que outro clube do mundo, o maior monstro de sempre das balizas do futebol mundial, Casillas, diria, na sua apresentação, que era grande fã do 99 dos Dragões?

Ainda hoje no futebol amador e nas camadas jovens muita gente adopta o número 99, ainda hoje se diz que uma grande defesa é uma defesa à Baía, ainda hoje se comparam os grandes guarda-redes ao Vítor. A sua áurea é insuperável e por tudo isso, talvez até mais do que pelo que fez dentro dos postes, Baía é o melhor guarda-redes de sempre do FC Porto.

O cântico que os portistas lhe dedicavam, logo depois do famoso “E salta Baía; E Salta Baía olé olé”, é exemplo da dedicação e devoção que lhe concediam:

Seja de Noite ou de dia
No Dragão ou em qualquer estádio
99 é o Baía
Defende o Porto em todo o lado
BAÍA! BAÍA! BAÍA!

Rodrigo de Almada Martins

06 janeiro, 2018

FOTO MÍSTICA #9 - Jorge Costa [1996]

O FOTO-MÍSTICA é um espaço de registo e divulgação da história do FUTEBOL CLUBE DO PORTO. O objectivo é recordar os seus momentos, os seus valores, os seus princípios, a sua cultura, a sua marca, a sua dimensão, as suas gentes. Numa palavra: a sua MÍSTICA. Todos são convidados a participar nesta viagem. Se pretenderem ver divulgada uma fotografia em especial, podem enviar e-mail para rodalma@hotmail.com .


Época: 1996/1997
Local: Estádio das Antas
Data: 20.11.1996
Resultado:  FC Porto 1 x 1 AC Milan
Aparecem na fotografia: Jorge Costa, António Oliveira

Foi uma das histórias que apaixonou o portismo nos anos 90: a cabeçada de George Weah a Jorge Costa, no túnel de acesso aos balneários do Estádio das Antas. O AC Milan era o carrasco daqueles tempos, que saía ano sim ano sim nas fases de grupo da Champions, a par do modesto mas sempre complicado Rosenborg. Falávamos então daquela que era provavelmente a melhor equipa do mundo da altura, com grandes senhores do futebol como Baresi, Maldini, Costacurta, Desailly, Davids, Simone, Baggio, Boban, Dugarry e o melhor jogador africano da altura: o liberiano George Weah.

O histório de confrontos entre as duas equipas não era favorável aos azuis-e-brancos. Na memória de muitos estará, por exemplo, aquela bomba de Jean-Pierre Papin a desfeitear Vítor Baía, após uma exibição memorável dos comandados de Carlos Alberto Silva frente à poderosíssima equipa de Fabio Capello (contava com Gullit e Rijkaard) que, todavia, não chegou para evitar a derrota caseira.

Mas em 96/97 era já tempo de exorcizar este fantasma italiano. Na jornada europeia anterior a que esta fotografia diz respeito, tinha-se dado a célebre reviravolta de San Siro – que será também um dia dissecada aqui no FOTO-MÍSTICA.

No jogo de Milão, que acabou com a vitória a favor do FC Porto (naquela que foi talvez a mais significativa vitória europeia do clube nos anos 90), Jorge Costa havia pisado Weah, num lance sem intenção, logo após este ter facturado de cabeça para o conjunto milanês. Sucede que, naquela altura, os jogadores estavam ainda autorizados a alinhar com brincos, colares e anéis, sendo que o liberiano jogava com um daqueles cachuchos que, ao ser pisado pelo alumínio dos pitons das botas do Bicho, lhe causou um traumatismo num dos dedos.

No jogo das Antas, Weah continuou a fazer a cabeça em água à defensiva portista, fruto da sua explosão e técnica apurada. Disse então o nosso Capitão que, nesse dia, não havia outra forma de parar Weah a não ser aumentando um pouco os níveis de agressividade na marcação, mas sempre dentro das regras do jogo. Não foi o único africano com quem Jorge Costa sentiu dificuldades na marcação, aliás. Quando um dia lhe perguntaram qual foi o avançado mais difícil de parar, a resposta saiu pronta: Didier Drogba, naquele difícil Marselha x FC Porto.

No final desse encontro, com o 1x1 a garantir o apuramento directo dos portistas em 1º lugar do grupo, os jogadores demoraram-se um pouco mais do que o habitual no tapete das Antas para celebrar o feito junto dos adeptos. Foi já dentro das cabines que, sem que nada o fizesse prever, Weah se aproximou de Jorge Costa e lhe desferiu uma violenta cabeçada, levando a que este se tivesse que sujeitar, dias mais tarde, a uma cirurgia de correcção da fractura da cana do nariz, que se traduziu num mês afastado da competição. Uma agressão premeditada e violentíssima, a frio, já bem depois do árbitro dar por terminada a partida.

Ainda nos balneários, a confusão foi enorme e sabe-se agora que o liberiano apenas conseguiu embarcar no avião de regresso a Milão porque forneceram uma informação errada a Jorge Costa, não tendo este apresentado a queixa-crime de forma imediata junto do órgão policial.

Na fotografia acima vemos o nosso Capitão ao lado do seu treinador, António Oliveira, na antiga sala de imprensa do Estádio das Antas. A conferência de imprensa teve aliás que ser interrompida, visto que Jorge Costa se sentiu com tonturas, sendo prontamente assistido no local pela equipa médica.

O que se passou depois entra na esfera kafkiana. De um lado, Jorge Costa sempre afirmou não abdicar de um pedido de desculpas; do outro houve menções a insultos racistas por parte do atleta que iniciou a sua carreira no FC Foz, algo que nunca foi corroborado pelos colegas de Weah no AC Milan.

George Weah estava nomeado para a Bola de Ouro relativa à época de 1995, tendo vindo receber a mesma numa cerimónia no Casino Estoril, em Dezembro de 1996. Foi proposto ao Bicho que se apresentasse no referido certame, cara a cara com Weah, tendo o primeiro rejeitado o convite na ausência de um pedido de desculpas público por parte do seu agressor. Jorge Costa confirmou ainda ter sido aliciado por altas instâncias do futebol internacional para, a troco de determinada quantia monetária, retirar a queixa que interpôs contra o jogador africano, o que terminantemente recusou. É bom que se diga que, na altura, a UEFA e a FIFA encetavam esforços no sentido de irradiar qualquer tipo de racismo no futebol e Weah, um jogador de primeira categoria, era a imagem ideal para fazer a ponte entre a Europa e a África, agregando as duas culturas e promovendo uma cultura de fair-play e no to racism. É a única razão que podemos encontrar para o facto de Weah ter sido ainda vencedor, de forma inacreditável, do prémio FIFA Fair-Play de 1996.

Passado um ano, Weah dirigiu uma carta ao português penitenciando-se pelo mal-entendido, justificando a sua atitude com supostos insultos racistas. Jorge Costa nunca aceitou a insinuação de racismo e, por isso, nunca respondeu ao hipócrita pedido de desculpas. A FIFA, no ano de 2000, através do seu porta-voz Keith Cooper, e face à recusa do capitão portista em retirar a queixa-crime, voltou a recuperar a questão, colocando Weah como vítima e Jorge Costa como agressor, numa tentativa de salvar a face do seu prémio Fair-Play.

O processo judicial em território nacional acabou por seguir os seus termos no 1º Juízo Criminal do Tribunal do Porto, que nunca encontrou maneira de notificar o cidadão liberiano para comparecer em audiência de julgamento. Talvez agora seja mais fácil notificar George Weah, eleito Presidente da República da Libéria no passado dia 10 de Dezembro. Basta para isso o envio de uma simples carta rogatória. O Ministério dos Negócios Estrangeiros terá agora a palavra.

Rodrigo de Almada Martins

09 dezembro, 2017

FOTO MÍSTICA #8 - Jardel [1997]


O FOTO-MÍSTICA é um espaço de registo e divulgação da história do FUTEBOL CLUBE DO PORTO. O objectivo é recordar os seus momentos, os seus valores, os seus princípios, a sua cultura, a sua marca, a sua dimensão, as suas gentes. Numa palavra: a sua MÍSTICA. Todos são convidados a participar nesta viagem. Se pretenderem ver divulgada uma fotografia em especial, podem enviar e-mail para rodalma@hotmail.com .


Época: 1996/1997
Local: Estádio do SLB
Data: 11.01.1997
Resultado: SLB 1 x 2 FC Porto
Aparecem na fotografia: Jorge Soares, Mário Jardel

“Tu querias conhecer os pássaros,
voar como o Jardel sobre os centrais”

Nenhuma outra fotografia fará tão jus ao verso imortal de Carlos Tê como este instante, capturado quando Jardel parece pairar no ar muito mais tempo do que Jorge Soares, incapaz de chegar à bola com a cabeça, enquanto que o Super Mário consegue controlá-la com o peito.

A partir daí é história. Quem viu o jogo partilha a mesma ideia: depois da bola bater no peito, parece que se passaram séculos, vimos a bola subir, vimos a bola baixar vertiginosamente e o cérebro teve tempo de questionar o que é que ele ia fazer desta vez. Jardel, com o seu ar ingénuo e calma habitual, parece apenas perguntar a Michel Preud’homme para que lado quer a bola. Quando ela se aproxima do chão, já lá está o seu pé certeiro, a desferir potente e indefensável remate.

Um dos melhores golos de sempre – e foram tantos!... – do brasileiro que o FC Porto foi buscar ao Grémio de Porto Alegre há (pasme-se!) mais de duas décadas: 1996. Como o tempo passa!!

Com a distância que os anos permitem, convém lembrar aos mais novos que Jardel não era propriamente idolatrado por toda a massa associativa azul e branca, exigente por tradição e por mentalidade. Havia muitos que lhe apontavam os defeitos de não saber jogar fora da área, “que era menos um com a bola no pé”, que não sabia correr, que não fintava, que prejudicava o jogo da equipa, que só sabia marcar golos, que isto e aquilo. Talvez por isso, diz-se, Octávio Machado tenha recusado o seu regresso às Antas em 2001, quando já havia sido entrevistado de cachecol ao pescoço no rés-do-chão da Torre das Antas. Acabou por ir parar a Alvalade, ainda a tempo de ser campeão e facturar 67 golos em 62 jogos. A felicidade que teve no jogo, faltou-lhe depois na vida: a passagem por Lisboa foi destrutiva para a vida pessoal do jogador, que se afundou até hoje nos seus próprios mitos e fantasmas.

Mas naquela altura, às críticas, o brasileiro respondia sempre com golos, golos e mais golos. Sem lesões, sem paragens, sem cansaço, na Campeonato ou na Champions, servido por excelentes executantes: Drulovic, Capucho, Zahovic, Edmilson, principalmente estes, alimentaram durante largos anos a veia goleadora do avançado, que ainda hoje detém o recorde do estrangeiro com mais golos na história do FC Porto (175 jogos, 168 golos). Um impressionante registo, uma máquina de golos das antigas, um goleador para a história.

O FC Porto alinhou nesta partida com Hilário, Sérgio Conceição, Jorge Costa, Aloísio, Fernando Mendes, Paulinho, Barroso, Edmilson, Drulovic, Zahovic e Jardel. Segurança e coesão atrás, talento puro à frente e muita mística pelo meio. Uma fórmula de sucesso.
João Vieira Pinto, o adversário mais temido dos anos 90, ainda fez a igualdade, mas o capitão Jorge Costa tratou de a desfazer na segunda parte após recarga, numa baliza onde marcava golos por tradição e convicção.

Mário Jardel viveu os melhores anos da sua vida e da sua carreira na Invicta, protegido por uma Direcção altamente dedicada e profissional e por um grupo de atletas que eram quase como uma família. O avançado brasileiro encontrou no Porto o ninho ideal para a sua personalidade e capacidades individuais, colocando-as ao serviço do colectivo como era regra do Departamento de Futebol. Sagrou-se campeão nacional com António Oliveira (2x) e com Fernando Santos, venceu duas Taças de Portugal e 3 Supertaças Cândido de Oliveira. Será para sempre considerado como o terceiro Bota-de-Ouro do FC Porto (1999), depois do bis do mítico Fernando Gomes. Os adeptos portistas recordar-se-ão para sempre de Jardel naquele seu estilo elegante e aprumado, como na fotografia, de camisola por dentro dos calções e costas direitas. Um avançado que não fazia carrinhos e que só sujava os calções quando era hora de mergulhar para a relva e cabecear de peixinho. Um ponta-de-lança à moda antiga, um alemão nascido por erro abaixo da linha do equador, que jogava parado e com quem a bola parecia ir ter. A sua movimentação típica era de bailado: sob marcação, dava um passo à frente para enganar o defesa e quando o cruzamento pingava, Jardel já estava nas costas do adversário a facturar sem dó nem piedade. Um craque de pé direito, pé esquerdo e, principalmente, de cabeça.

Nas Antas só foi infeliz por uma vez, ao serviço do Sporting, quando falhou o único penalty dos vários que dispôs na temporada 2001/2002. Nesse dia, quando foi substituído, foi brindado talvez com uma das maiores assobiadelas que as Antas guardam memória. Eu estava lá e recordo-me do seu ar de incredulidade e desilusão junto da Curva Sul: mãos nas ancas como era seu timbre e a abanar a cabeça, em jeito de mágoa. Parecia simplesmente não compreender o ódio que as gentes do Porto lhe demonstravam, quando ele tanto tinha contribuído para as páginas gloriosas do clube. Jardel não foi capaz de perceber que não era ódio que os ultras destilavam, mas sim apenas tristeza, muita tristeza de não o poderem ver vestido de azul-e-branco.

Depois de Galatasaray e Sporting, Jardel tornou-se num autêntico globetrotter do futebol mundial, com passagens pelo Bolton, Ancona, Newell’s Old Boys, Alavés, Goiás, Beira-Mar, Anorthosis, United Jets, Criciúma, Ferroviário, América (CE), Flamengo (PI), Chemo More e Rio Negro (AM), terminando a carreira em 2011 no Al-Taawon da Arábia Saudita. Mário Jardel, o Super Mário, continua a tentar descobrir o seu Norte. Procura, no fundo, outras Antas para a sua vida.

Rodrigo de Almada Martins

06 maio, 2017

FOTO MÍSTICA #7 - Tri-Campeão [1997]

O FOTO-MÍSTICA é um espaço de registo e divulgação da história do FUTEBOL CLUBE DO PORTO. O objectivo é recordar os seus momentos, os seus valores, os seus princípios, a sua cultura, a sua marca, a sua dimensão, as suas gentes. Numa palavra: a sua MÍSTICA. Todos são convidados a participar nesta viagem. Se pretenderem ver divulgada uma fotografia em especial, podem enviar e-mail para rodalma@hotmail.com.



Época: 1996/1997.
Local: Estádio D. Afonso Henriques.
Data: 17.05.1997.
Resultado: Vitória de Guimarães 0x4 FC Porto.
Aparecem na fotografia: Artur, Drulovic, Rui Barros, Zahovic, Silvino, Domingos, Jardel e Paulinho Santos.
Às portas do Tri-Campeonato era um FC Porto muito diferente do de hoje aquele que se apresentava no antigo D. Afonso Henriques para alcançar um feito inédito: a conquista do ceptro do terceiro campeonato consecutivo.

Dos 16 atletas convocados para o jogo, 11 eram portugueses, a maioria deles prata da casa. Entre os 5 estrangeiros presentes, um era portuense por adopção (Aloísio), enquanto que Zahovic, Drulovic e Artur já contavam com vários anos de futebol português nas pernas. Apenas Jardel se apresentava como novidade, a estrela da companhia, o homem vindo directamente do Brasil com um único propósito: fazer golos.

E fez muitos. Neste jogo logo 2. No final da temporada acabaria com 30 golos em 34 jogos, na sua temporada de estreia em Portugal.

Nos anos do Super Mário o FC Porto aperfeiçoou e consolidou o sistema táctico de 4x3x3, que havia de fazer sucesso interno nos anos seguintes. Sérgio Conceição jogava aberto na direita, Drulovic fazia o mesmo na esquerda e os dois tinham instruções directas para ganhar a linha de fundo e cruzar para o matador brasileiro. Zahovic, mais atrás, pautava o jogo ofensivo da equipa, municiando os companheiros e aparecendo também em zonas de finalização. Mas o plantel oferecia outras soluções: Edmilson e Artur, por exemplo, não eram tanto extremos de ir à linha, mas mais de diagonais para o meio, tendo por isso terminado o campeonato com 16 e 10 golos, respectivamente.

Quando as coisas se complicavam, António Oliveira possuía no banco mais três armas secretas de alto gabarito: Rui Barros, Folha e Domingos Paciência entravam amiúde para resolver missões mais complicadas.

Mas o tri-campeonato assentou muito mais na segurança defensiva do que nos artistas lá da frente. Barroso, além do pé-canhão, destacava-se pela sua capacidade de intercepção e recuperação. Paulinho era pau-para-toda-a-obra no meio-campo e terminou a época como o jogador com mais minutos em campo. João Pinto, Jorge Costa, Aloísio e Fernando Mendes (também Rui Jorge) formavam uma defesa experiente e inexpugnável, capaz de proteger uma baliza nem sempre segura: Hilário, Silvino e Wozniak nunca lograram afastar o fantasma de Vítor Baía.

No lado dos vimaranenses, havia históricos da bola lusitana: Neno, José Carlos, Alexandre, Quim Berto, Paneira, Meira e Riva, só para citar alguns. Dois deles haviam de se mudar para o FC Porto, embora com níveis de sucesso muito diferentes: Nuno Capucho e Fredrik Söderstrom.

Contudo, a noite era claramente azul e branca. De ouro sobre azul, melhor dizendo. O FC Porto não podia falhar e não falhou. Zahovic abriu o activo aos 24 minutos, para gáudio da falange azul e branca que se havia deslocado à Cidade-Berço. Aos 61’ Jardel ampliava a contagem e repetia a dose aos 65’. Zahovic fecharia as contas do jogo.

Os últimos minutos já eram de festa para os Dragões. O título estava assegurado e o FC Porto sagrava-se tri-campeão nacional pela primeira vez na sua história. Um feito impensável 10 anos antes, quanto mais nos 20 ou 30 anteriores. Ora, se este sucesso já não pertence à geração de Viena, pode-se dizer que estes rapazes ainda beberam dessa seiva: João Pinto era por assim dizer o elo de ligação entre os dois balneários e essas duas décadas, a de 80 e a de 90.

O Capitão retirar-se-ia no início da temporada seguinte, no jogo de apresentação do plantel, numa cerimónia carregada de simbolismo que culminou com o depósito da camisola do FC Porto e por assim dizer da mística portista nos braços de Jorge Costa. Esse foi um momento-chave do portismo para as épocas seguintes, um transmissor de legado, sublinhado pelas lágrimas do Presidente Jorge Nuno Pinto da Costa e do próprio João Pinto. Quem lá esteve certamente se lembra da emoção e solenidade do momento. O tempo havia de dar razão e explicar aquela passagem de testemunho: Jorge Costa, depois de João Pinto, foi o segundo português a erguer a mítica Taça dos Campeões Europeus.

A mística transitava pois de geração em geração, de balneário para balneário, de homem para homem. No campo, muito mais que a qualidade, sobressaía a raça, a alma e a ambição. O FC Porto podia não ter os melhores talentos, mas comia a relva, como se orgulhavam de dizer os portistas de então.

Quando se dá o apito final, os jogadores não resistem e correm para celebrar junto da bancada azul-e-branca. A fotografia simboliza o gesto que muitos portistas haviam de imortalizar nos dias seguintes: três dedos orgulhosamente levantados para o ar. Três dedos que simbolizavam fundamentalmente três coisas: orgulho, paixão e superação. O Tri, com um discípulo de Pedroto ao leme, significava bem mais do que 3 campeonatos consecutivos: era o afirmar pleno e o cimentar da posição do FC Porto no panorama futebolístico nacional, numa altura em que Jorge Schnitzer, David Borges, Nuno Santos e Nuno Luz, a partir dos estúdios da SIC e do programa Donos da Bola, orquestravam uma campanha baixa e reles contra as hostes nortenhas.

O Tri consolidou o domínio interno portista no futebol português, afastou fantasmas das Antas e projectou o clube para novos voos. Na terra que viu nascer Portugal, celebrava o clube da cidade que deu nome a Portugal.

PORTO! PORTO! PORTO!

Rodrigo de Almada Martins

FONTES UTILIZADAS, A QUEM AGRADECEMOS:
  • Zero Zero
  • Fotobiografia do Tri
  • FC Porto Notícias

22 abril, 2017

FOTO MÍSTICA #6 - Yuran [1994]

O FOTO-MÍSTICA é um espaço de registo e divulgação da história do FUTEBOL CLUBE DO PORTO. O objectivo é recordar os seus momentos, os seus valores, os seus princípios, a sua cultura, a sua marca, a sua dimensão, as suas gentes. Numa palavra: a sua MÍSTICA. Todos são convidados a participar nesta viagem. Se pretenderem ver divulgada uma fotografia em especial, podem enviar e-mail para rodalma@hotmail.com.



Época: 1994/1995.
Local: Estádio da luz.
Data: 02.10.1994.
Resultado: sl benfica 1x1 FC Porto.
Aparecem na fotografia: Yuran, Kulkov e jogadores do sl benfica.
Foi um dos grandes momentos que os portistas viveram nas bancadas do antigo estádio da luz. E logo protagonizado por quem.

Sergey Yuran não marcou muitos golos com a camisola do FC Porto, mas o seu papel no título de 94/95 foi importantíssimo, muito devido à impressionante capacidade física que, aliada à sua garra, lhe permitia pressionar e desgastar as defesas adversárias como poucos.

A sua transferência para as Antas, consumada a 3 de Setembro de 1994, é mais uma das muitas jogadas de mestre do Presidente Pinto da Costa junto dos rivais de Lisboa, apenas suplantada pelos episódios Futre, Deco e João Moutinho. E, para cúmulo, Yuran veio envolvido num pacote 2 em 1: com ele chegou também o centro-campista Kulkov (mais atrás na fotografia), detentor de fina técnica e de sentido táctico apuradíssimo.

Artur Jorge havia chegado a Carnide para treinar os vermelhos e decide que os russófonos não teriam lugar na equipa. Bobby Robson e o seu adjunto José Mourinho – que os conheciam do Hospital São José em Lisboa, por serem visitas assíduas de Cherbakov, que ficara paraplégico após um terrível acidente na Avenida da Liberdade – após tomarem conhecimento de que os dois futebolistas eram jogadores livres, não deixaram escapar a oportunidade e o empresário Paulo Barbosa intermediou o negócio.

A transferência dos dois soviéticos (Yuran é ucraniano e Kulkov é russo) na imagem foi alvo de forte polémica. Quando confrontado com a fama de Yuran e Kulkov gostarem demasiado de vodka e de se fazerem acompanhar de esculturais russas à bôite Maxime, o Presidente teve pronta resposta: "Não contratámos dois santos nem eu sou o abade das Antas". Também Sir Bobby Robson alinhava pelo mesmo diapasão e dizia que "Vamos dar-lhes uma nova oportunidade na vida", sabendo que ser vermelho é estar perdido na vida.

Rumaram pois à cidade Invicta para se sagrarem campeões nacionais, sendo ainda hoje os dois únicos estrangeiros campeões nacionais em épocas consecutivas por clubes diferentes. No final da temporada, os dois seguiriam para o Milwall, após breve e bem sucedida passagem pelo Spartak de Moscovo. Yuran não mais regressou a Portugal devido a um processo em tribunal após um acidente a altas horas da madrugada na Avenida da Boavista. Da colisão de 24 de Novembro de 1994 resultou a morte de Ângelo Oliveira, sendo que Yuran acabou por ser condenado a 1 ano de prisão efectiva por homícido por negligência (pena que não cumpriu, ao abrigo da Lei da Amnistia) e ao pagamento de 3 mil contos à família da vítima - a sentença, branda, não agradou aos familiares da vítima. Kulkov ainda regressou ao campeonato nacional para jogar no Alverca em 1999/2000.

O disparo de Yuran, aos 66 minutos, simboliza a conversão de um infiel. Kulkov acompanha o lance de perto, também em busca de purificação espiritual. Na fotografia podemos ver que Yuran parece gritar no momento do disparo, tal é a fé que deposita naquele remate. Paulo Madeira bem se esforça para efectuar o corte, mas a sua facies denuncia que corre para uma missão impossível. A bola já passou o crivo defensivo e vai perfurar as redes de Preud’homme. Um tiro de pé esquerdo, à queima-roupa, indefensável. Abel Xavier, aqui ainda católico e de cabelo preto, apenas esboça uma reacção. Depois do golo, Yuran corre para o banco de suplentes para abraçar o jovem Bicho, que não se inibe de lhe dar uns bons cachaços.

Isaías havia de empatar a contenda já na segunda parte, mas o golo de Yuran é inesquecível, por representar a redenção de um pecador. O ucraniano seria expulso aos 74 minutos, juntando-se nos balneários a Paulinho Santos, que havia recebido ordem de expusão ainda durante a primeira parte.

No final do jogo, as opiniões contrastavam. Enquanto que Filipovic afirmava que o clube da 2ª circular havia jogado contra uma das melhores equipas do mundo a controlar o seu espaço defensivo, Inácio referia que o Sr. Bento Marques, juiz da partida, tinha ajudado o clube da casa a conseguir o empate, não marcando faltas a favor dos azuis e brancos.

Quando perguntaram a Yuran qual era a melhor recordação dessa temporada, a resposta é pronta:

“Ahhhh, claro que é aquele golo na luz. Marquei o 1-0 aos 65 minutos, fui expulso por dois amarelos aos 75” e o Isaías empatou aos 90”. Acabou 1-1, mas marcar aquele golo foi muito bom, libertador. A caminho do balneário, o José Mourinho, naquele estilo que ainda hoje lhe é característico, agarrou-se a mim e gritava para o ar ”és o maior”, ”estás aqui é para marcar”, ”mostraste aos gajos que és bom”, ”deste-lhes uma lição”. Eu só me ria, enquanto os jogadores do Benfica seguiam cabisbaixos, como o treinador [Artur Jorge] e até o presidente [Manuel Damásio]. O Mourinho deixou a porta do balneário aberta e continuou a falar altíssimo, para os do Benfica ouvirem.”
A redenção e consequente libertação de Sergey Yuran, pelas palavras do próprio, estava assim consumada. Também Kulkov, anos mais tarde, tinha noção do significado daquele golo. Tal como na parábola da ovelha perdida, parece perceber que há mais júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por 99 justos, que não precisam de arrependimento.

“Que momento! Marcou de pé esquerdo, festejou à doido e foi expulso. Um momento à Yuran”
Yuran soube resumir na perfeição o que significou o FC Porto na sua vida, dando razão a Bobby Robson quando este adivinhava uma nova oportunidade na vida:

“O FC Porto era uma família, o benfica… uma brincadeira”
Yuran tem actualmente 47 anos e é treinador do FC Mika da Arménia. Kulkov conta 50 primaveras e treina os sub-21 do Spartak de Moscovo.

FONTES UTILIZADAS, A QUEM AGRADECEMOS:
  • Mais Futebol
  • Zero Zero
  • FC Porto Notícias
  • Jornal de Notícias
Rodrigo de Almada Martins

31 março, 2017

FOTO MÍSTICA #5 - Rui Filipe [1994]


O FOTO-MÍSTICA é um espaço de registo e divulgação da história do FUTEBOL CLUBE DO PORTO. O objectivo é recordar os seus momentos, os seus valores, os seus princípios, a sua cultura, a sua marca, a sua dimensão, as suas gentes. Numa palavra: a sua MÍSTICA. Todos são convidados a participar nesta viagem. Se pretenderem ver divulgada uma fotografia em especial, podem enviar e-mail para rodalma@hotmail.com.


Época: 1994/1995.
Local: Estádio das Antas.
Data: 21.08.1994.
Resultado: FC Porto 2x0 Sporting de Braga.
Aparecem na fotografia: Rui Filipe e jogadores do Braga.
No dia 21 de Agosto de 1994, à passagem do 21º minuto da jornada inaugural do Campeonato Nacional 1994/1995, no Estádio das Antas, Rui Filipe inaugura o marcador para o FC Porto, batendo o guardião bracarense Rui Correia.

Rui Filipe não o sabe, nem ninguém no estádio suspeita, mas este golo dará o pontapé de saída para a mais bela epopeia futebolística de uma equipa em competições nacionais: o PentaCampeonato. Essa jornada gloriosa e inspiradora começa aqui, neste remate de ressaca do nosso querido Rui Filipe.

Mas este golo esconde também um destino cruel. Dentro de 7 dias, Rui Filipe já não fará parte do plantel do FC Porto. Na madrugada de 28 de Agosto, a morte virá prematuramente ao seu encontro, após um brutal acidente de viação em Vale de Cambra, sua terra natal.

Mesmo assim, nesse dia, os azuis e brancos subiram ao relvado do Estádio Mário Duarte, perante uma inaudita e insultuosa impossibilidade de adiamento da partida. Disse um dia o saudoso Prof. Hernâni Gonçalves que “no FC Porto ganhar não é o mais importante. É a única coisa”. Terá razão. Só assim se explica que, tal como na 2ª parte do encontro que vitimou Pavão, os Dragões conseguissem a poder de sangue, suor e lágrimas a vitória. Rui Barros e Emerson garantem essa (triste) vitória para a turma das Antas, que o pudor e o nojo impediram de celebrar.

Já em 1995, alguns meses depois, na noite em que o FC Porto se preparava para conquistar o primeiro campeonato da série do Penta, uma faixa no Estádio de Alvalade não deixava apagar a memória:

“Rui Filipe, este título também é teu”
FONTES UTILIZADAS, A QUEM AGRADECEMOS:
  • Jornal de Notícias
  • Fotobiografia do Tri
Rodrigo de Almada Martins

12 março, 2017

FOTO MÍSTICA #4 - Futre [1987]


O FOTO-MÍSTICA é um espaço de registo e divulgação da história do FUTEBOL CLUBE DO PORTO. O objectivo é recordar os seus momentos, os seus valores, os seus princípios, a sua cultura, a sua marca, a sua dimensão, as suas gentes. Numa palavra: a sua MÍSTICA. Todos são convidados a participar nesta viagem. Se pretenderem ver divulgada uma fotografia em especial, podem enviar e-mail para rodalma@hotmail.com.


Época: 1986/1987.
Local: Estádio das Antas.
Data: 08.04.1987.
Resultado: FC Porto 2x1 Dínamo Kiev.
Aparecem na fotografia: Paulo Futre e Adeptos do Futebol Clube do Porto.
Meio génio, meio louco, na foto está o português que mais se assemelhou a Diego Armando Maradona. Esqueçam Cristiano Ronaldo, esqueçam Luís Figo. Paulo Futre pode não ser certamente o melhor jogador português de todos os tempos, mas é possuidor de qualquer coisa que parece faltar aos demais: a incrível empatia com as bancadas, a paixão irascível pelo jogo, o festejo do golo em comunhão com os adeptos, o mau génio e a piada fácil, a ingenuidade malandra, os modos simples, o bom coração, a dimensão estratosférica de vedeta do futebol, o futebol como parte da própria vida, a loucura de mãos dadas à genialidade, dentro e fora dos relvados. Olhando e ouvindo Futre, vemos um sul-americano nascido por engano na margem sul do Tejo.

Poucos são aqueles que poderão um dia mostrar uma fotografia destas aos filhos, agarrados às vedações para celebrar com os apoiantes, numa total e plena identificação entre jogador, clube e adepto.

Nesta eliminatória que daria acesso a Viena, os soviéticos nunca provaram ser aquilo que se temia: uma máquina cerebral e atlética, fria e racional, o arquétipo do novo modelo totalitário de futebol. Aquela que diziam ser a melhor equipa do mundo da altura acabou por ser vulgarizada pela maior capacidade técnica e união dos azuis-e-brancos. O 2x1 em casa e o 1x2 em Kiev foram prova cabal da tremenda superioridade portista e abriram de par em par as portas do Prater aos Dragões. No momento que a objectiva capta, Futre acaba de marcar um golo que hoje se costuma apelidar de golo à Messi ou golo à Robben: arrancada junto à banda direita, diagonal rápida e explosiva em slalom para o meio deixando para trás os soviéticos Bal e Baltacha, antes de rematar à baliza, contando com um desvio feliz de Zavarov.

Já em Viena, o golo mais bonito de sempre de uma Final da Liga dos Campeões poderia ter sido seu, após ter ultrapassado meia equipa do Bayern, deixando a cabeça em água aos alemães. Seria a versão maradoniana do golo à Inglaterra a nível de clubes. A bola saiu a rasar o poste e o golo mais bonito de sempre ficou para o argelino Madjer.

Futre chega às Antas no decorrer da guerra sem quartel entre Pinto da Costa e João Rocha, em 1984. Os lagartos levaram Jaime Pacheco e Sousa para o Campo Grande, mas o Presidente não teve meias medidas e respondeu ao ataque lançando as garras ao prodígio esquerdino.

É recebido nas Antas sob fortes desconfianças. O balneário azul e branco, em plena década de 80, não era um melting pot como é hoje. À excepção de Inácio, o plantel é composto por homens do Norte, que não aceitam facilmente um miúdo mouro vindo do Montijo.

Acontece que o Paulinho não é um miúdo qualquer. É o mais brilhante e virtuoso esquerdino que o futebol português há-de produzir até à data. Velocidade vertiginosa, drible em progressão, explosividade, atrevimento, energia para dar e vender, tudo culminado num remate poderoso.

Quando entra no Prater, em 1987, Futre já é um dos líderes do balneário, juntamente com Fernando Gomes. Como diz na sua autobiografia: “O Gomes era o General e tinha os seus sargentos: o falecido Zé Beto, Lima Pereira, João Pinto, Frasco e Jaime Magalhães. No início da época seguinte à da minha chegada ascendi a essa condição, juntamente com o André e o Quim”.

Dele, após uma zanga, disse um dia o mítico presidente do Atlético Gil y Gil: “Se Futre fosse uma mulher, seria minha amante”. Numa relação marcada de amor e ódio, em 2004, Futre foi chamado de urgência a Madrid, pois Gil y Gil estava prestes a morrer. Quando chegou ao hospital, o médico informou-o que o histório dirigente rojiblanco havia acabado de falecer. No dia seguinte, os jornais espanhóis titulavam que Gil y Gil estava à espera do El Portugués para abandonar este mundo. No dia do funeral, Futre é um dos homens que carrega o caixão do histórico dirigente colchonero.

Considerado pelos adeptos numa votação online como o melhor jogador de sempre do Atlético de Madrid, confessou mais tarde que Artur Jorge nunca o elogiou durante a sua passagem pelo FC Porto. O Rei Artur redimiu-se assim no momento da sua partida para Espanha: “Sabes porque nunca te elogiei? Porque tudo o que faças, é pouco para ti. Vais ser o melhor jogador do mundo”.

O Rei Artur esteve perto, mas não acertou. Futre viria a perder Bola de Ouro da FIFA em 1987 para Ruud Gullit. Tudo porque o jornalista português, o último a exercer o direito de voto, não podendo escolher o seu compatriota, em vez de votar em Butragueño (já sem hipóteses de alcançar a Bola de Ouro), atribuiu os seus pontos ao holandês, conferindo-lhe a vitória por meros 8 pontos.

Paulo Futre, que em miúdo costumava deixar os treinos do sporting à pressa para apanhar o cacilheiro para o Montijo, rezando para que o mestre do barco fosse seu conhecido para que o deixasse jantar as sobras dos marinheiros, transformou-se num globetrotter do futebol mundial: passou por Atlético de Madrid, AC Milan, West Ham, benfica, Marselha, Reggiana e Yokohama Flugels. Mas aos 30 anos, no seu primeiro adeus ao futebol devido a crónicos problemas no joelho direito, no Hotel Altis, é com umas chuteiras em cima da mesa que, de lágrimas nos olhos e visivelmente emocionado, declara:

“É a olhar para estas míticas chuteiras, com as quais fui campeão da Europa pelo Futebol Clube Porto, em Viena, que quero anunciar-vos o fim da minha carreira de futebolista profissional”
FONTES UTILIZADAS, A QUEM AGRADECEMOS:
  • Paulo Futre, El Portugués (Luís Aguilar)
  • Jornal de Notícias
  • Filhos do Dragão
Rodrigo de Almada Martins

10 fevereiro, 2017

FOTO MÍSTICA #3 - Costinha [2004]


O FOTO-MÍSTICA é um espaço de registo e divulgação da história do FUTEBOL CLUBE DO PORTO. O objectivo é recordar os seus momentos, os seus valores, os seus princípios, a sua cultura, a sua marca, a sua dimensão, as suas gentes. Numa palavra: a sua MÍSTICA. Todos são convidados a participar nesta viagem. Se pretenderem ver divulgada uma fotografia em especial, podem enviar e-mail para rodalma@hotmail.com.



Época: 2003/2004.
Local: Old Trafford, Manchester, Inglaterra.
Data: 09.03.2004.
Resultado: Manchester United 1 x 1 FC Porto.
Aparecem na fotografia: Costinha, Nuno Valente, Wes Brown, Phil Neville.
Poucos golos na história recente do FC Porto serão tão decisivos e emblemáticos como este de Costinha, a 9 de Março de 2004. Na 1ª mão desses oitavos-de-final da Champions League, Benedict McCarthy havia semeado a esperança no coração dos portistas, ao protagonizar uma das mais belas reviravoltas europeias do Dragão, fazendo Sir Alex Ferguson corar de vergonha, ele que após o sorteio tinha referido que o FC Porto comprava os títulos no supermercado. Mas os red devils no seu reduto seriam uma prova dura de superar. Bastaria para isso lembrar o histórico de deslocações portistas àquela cidade britânica: 5x2 em 1977 (com 2 golos de Séninho) e 4x0 vinte anos depois, quando Oliveira decidiu inventar o centro-campista Costa a titular.

Em 2004, Jorge Costa e Vítor Baía, os dois grandes capitães, encabeçam a entrada do FC Porto no relvado inglês. Nunca, até aí, uma equipa portuguesa havia deixado as terras de Sua Majestade com um resultado que não a derrota.

Os primeiros minutos não desmentem a tradição e são de sufoco para o FC Porto, com Paul Scholes a abrir o activo. Pouco depois o mesmo Scholes bisa na partida, mas o golo é (mal) anulado. Van Nistelrooy, o melhor ponta-de-lança do mundo da altura, é uma autêntica seta apontada à baliza de Baía. Giggs, também ele, dá água pela barba à defensiva portista. Na segunda parte, o FC Porto finalmente cresce no jogo e começa a mostrar o porquê de ser o vencedor em título da Taça UEFA. A pressão aumenta e, nos minutos finais, os azuis-e-brancos cercam por completo a baliza do Manchester United, silenciando Old Trafford. O Ministro, como era chamado, decide então a eliminatória mesmo em cima dos 90 minutos, ficando para a posteridade como O Herói de Old Trafford. Enquadremos, pois, o momento da fotografia.

O cronómetro marca 89 minutos. Jankauskas, o gigante lituano, ganha uma falta a meia distância da baliza de Tim Howard. Era a última esperança da nação azul e branca. Não há com certeza um único portista de gema que não se lembre daqueles momentos: uns, como eu, ter-se-ão ajoelhado no tapete da sala, defronte do pequeno ecrã; outros terão acendido uma velinha; alguns terão voltado costas à televisão; uns poucos terão fechado os olhos. Sabíamos que para se ganhar uma Champions não bastava ter talento e bom futebol, era preciso também um pouco de sorte. Se não fosse naquele ano nunca mais seria, tinha de ser ali. Anos e anos de azares na Europa, de erros forçados, de oportunidades perdidas, de arbitragens mais que duvidosas (Hugh Dallas em Munique, quatro anos antes, ainda era uma espinha encravada na garganta)… a vingança teria que ser ali. Aquele era o momento!

Pressentia-se algo no ar. A força da história, a mística, algo surgia ali, invisível mas palpável. A televisão foca então dois miúdos tipicamente ingleses, ruivos, de sardas. Um deles junta as mãos e como que reza, para evitar o pior. Logo depois surge outro adepto britânico na imagem, dos seus cinquentas, a tapar metade da cara como uma criança, como que a não querer ver o que está prestes a suceder. No fundo, era o destino que ali se desenhava, impossível de contrariar. Junto à bola estão três homens: McCarthy, Ricardo Fernandes e Deco. O luso-brasileiro é o primeiro a afastar-se. Sobram dois, mas parece claro que será o sul-africano a bater. Benni McCarthy respira fundo e parte para a bola, o remate sai forte e tenso e o esférico parece ganhar velocidade e efeito à medida que se dirige para a baliza. Tim Howard não esperava um missíl com aquela trajectória e é com dificuldade que rechaça a bola para frente, antes de embater com violência no ferro da baliza.

E então é aí que se faz história, já em cima do minuto 90. Como tantas vezes com Mourinho, Costinha surge ao segundo poste para a recarga, como se estivesse à espera toda a sua vida que a bola ali fosse cair. O remate é feito meio no chão, a bola sai meio enrolada, mas entra a meia altura, perto do poste contrário, pese embora a agilidade de Howard.

Costinha voa então para a bandeirola de canto, de braços abertos, ciente que está de este ser o golo da sua vida. Vai com as golas da camisa levantadas como é seu timbre, fazendo lembrar outro herói daquele recinto – Cantona. Para cima dele correm todos os outros jogadores. José Mourinho, também ele, protagoniza então um dos mais míticos festejos de que há memória num treinador, saltando da tradicional área dos managers para mergulhar no mar de jogadores amontoados naquele canto do relvado. Nunca como aí o nome que Bobby Charlton inventou para Old Trafford fez tanto sentido: Teatro dos Sonhos. Um sonho, isso mesmo se tratava.

É um momento que marca tudo. Uma época, uma caminhada, uma carreira, um clube.

Tratavam-se apenas dos oitavos-de-final da competição, mas os portistas conheciam aquela equipa melhor que ninguém e sabiam bem do seu potencial. Depois daquilo, a final era o objectivo. Talvez por isso, e ao contrário do habitual, concentram-se nos Aliados não para festejar um troféu, mas sim uma mera vitória numa eliminatória. No entanto, no ar sentia-se outra coisa, o perfume era outro, os ventos eram de vitória. Quem não sente não entende. Quem não viveu, esperemos que viva para vivê-lo.

O avião que chega de Manchester é recebido por milhares de adeptos no Sá Carneiro. Os jogadores mostram-se felizes, embora não eufóricos. Sabiam que havia um longo caminho a percorrer, mas que o mais difícil estava feito. Os ventos sopravam a seu favor. Eram os ventos da história, blowing in the wind...

Olhando para trás, com a frieza que só o tempo permite, parece inegável que foi ali que o FC Porto ganhou a segunda Liga dos Campeões da sua história. Uma Equipa mítica, um Treinador mítico, um Presidente mítico. Depois deste golo de Costinha, um novo vocábulo entrava no dicionário dos portistas e todos os caminhos iam dar a Gelsenkirschen.

FONTES UTILIZADAS, A QUEM AGRADECEMOS:
  • BBC News
  • MaisFutebol
  • UEFA
  • Filhos do Dragão
  • Malha Azul e Branca
  • Basculação
Rodrigo de Almada Martins

26 janeiro, 2017

FOTO MÍSTICA #2 - Pavão [1973]

O FOTO-MÍSTICA é um espaço de registo e divulgação da história do FUTEBOL CLUBE DO PORTO. O objectivo é recordar os seus momentos, os seus valores, os seus princípios, a sua cultura, a sua marca, a sua dimensão, as suas gentes. Numa palavra: a sua MÍSTICA. Todos são convidados a participar nesta viagem. Se pretenderem ver divulgada uma fotografia em especial, podem enviar e-mail para rodalma@hotmail.com.



Época: 1973/1974.
Local: Estádio das Antas, Porto.
Data: 16.12.1973.
Resultado: FC Porto 2 x 0 Vitória de Setúbal.
Aparecem na fotografia: Pavão e Dr. José Santana.
Nenhum dia será tão marcante para o Estádio das Antas e para muitos dos portistas já adolescentes e adultos na década de 70 como aquele 16 de Dezembro de 1973, dia de chuva miúda, a chamada “morrinha” portuense.

Ao minuto 13 da jornada 13 do Campeonato Nacional, defrontavam-se FC Porto e Vitória de Setúbal, Fernando Pascoal Neves – por todos conhecido como Pavão por jogar e driblar com os braços bem abertos – recebe a bola no meio-campo, manda a equipa avançar e, como tantas vezes fizera ao longo da sua (ainda) curta carreira, descobre o melhor seguimento a dar à jogada de ataque. Encontra Oliveira solto no lado direito e endereça-lhe a bola, incentivando “Vai, miúdo!”. Dá um passo em frente e cai inanimado, de bruços, sobre o verde tapete das Antas. Nunca mais se levantaria.

Logo ele que, como depois diria o Dr. José Santana, médico do clube à época, “era homem que não fazia fitas”. Antes da trágica queda, um homem está mais perto de Pavão do que todos os outros. É Octávio Machado, atleta do Vitória de Setúbal de José Maria Pedroto. O natural de Palmela e Rodolfo Reis são os primeiros a acercar-se de Pavão. Vêm o jovem flaviense a revirar os olhos, branco, todo encolhido. Bené deita as mãos à cabeça. Pouco depois chegará também o Dr. José Santana que, apercebendo-se do coma e à falta do desfibrilhador (só chegará ao clube em 1977 por intermédio do Dr. Domingos Gomes), ordena que de imediato se transporte o jogador para o Hospital de São João. A ambulância sai pela Porta da Maratona. A fotografia, podemos ver, revela a urgência e apreensão de todos, desde o médico até aos maqueiros de serviço. De nada servirá. Dentro de 1h30 Pavão já não pertencerá ao mundo dos vivos.

Mas isto é algo que naquele momento ninguém sabe, inclusivé a mulher de Pavão, que assiste a tudo da bancada. Por isso, o jogo continua. Sai Pavão e entra Vieira Nunes para o seu lugar. Chega o intervalo e o mal-estar é evidente, sendo preciso dar ânimo aos jogadores, visivelmente transtornados. Tibi, o guarda-redes portista naquela tarde, relata que lhes disseram nos balneários que “ele estava a melhorar”. A instalação sonora, apercebendo-se também do nervosismo nas bancadas, anuncia aos adeptos que Pavão se encontrava a recuperar. Os jogadores e adeptos são assim poupados das más notícias e, talvez por isso, fazem das tripas coração e conseguem dois golos na 2ª parte, por intermédio de Abel e Marco Aurélio.

Os golos são festejados com o pudor próprio de quem pressente uma desgraça. Não há sorrisos nem cânticos nas Antas que, a pouco e pouco, começam a antecipar uma espécie de cerimónia fúnebre colectiva. A cerca de 10 minutos do fim da partida, um apanha-bolas susurra a Tibi o que todos temiam: “O Pavão morreu”. O mesmo murmúrio começa também a ecoar pelas bancadas. Primeiro baixinho, de forma imperceptível, a medo, como se não fosse verdade. Mas era. Cai sobre as Antas, então, um silêncio ensurdecedor. O FC Porto e o Vitória de Setúbal enfrentam os minutos finais mais penosos de sempre, vagueando pelo relvado sem alma nem objectivo.

À falta de internet, os adeptos socorriam-se então dos rádios portáteis e é desses pequenos aparelhos que lhes chega a confirmação oficial da morte de Pavão. O jogo acaba e os jogadores abraçam-se. A comoção é geral, uma tragédia. Ninguém é capaz de resumir a insignificância do resultado desse dia como o defesa Guedes, afogado em lágrimas: “Meu Deus, como é triste esta grande vitória”. Pedroto, inconsolável, diz que aquele dia 16 de Dezembro é o mais triste da sua vida.

No dia seguinte, o JN titula “Pavão fez um passe e depois morreu”. O DN refere “Octávio em pranto. Pedroto sem voz”. Espreitando pela cortina deste jogo, podemos ver a morte de Pavão como uma dramática machadada no portismo. Estávamos em 1973, no tempo da Outra Senhora, em plena época de jejum de títulos após o já longínquo campeonato de 58/59, quando finalmente Bella Guttman e jogadores da qualidade de Pavão, Rodolfo e Oliveira faziam de novo acreditar na possibilidade de trazer um título para o Norte do País. A eles estava prestes a juntar-se Teófilo Cubillas, um dos melhores do mundo da altura, com apresentação agendada para o dia seguinte a este encontro. O clube recuperava a confiança depois da saída tumultuosa de Pedroto, que em Setúbal mostrava de novo toda a sua mestria e construía um poderosíssimo Vitória.

Mas aquele último passe de Pavão aos 13 minutos, cujo "Vai, miúdo" simboliza a transferência das esperanças do portismo dos anos 70 para os pés de Oliveira, acabou por ceifar pela raiz grande parte das confiança que o clube depositava naquele ano de 1973. E, ironias e coincidências do destino, no banco adversário estava José Maria Pedroto, o homem por quem muitos suspiravam e desejavam ver regressar ao leme dos azuis-e-brancos (Pedroto havia de regressar ao clube 3 anos depois, pela mão de um Pinto da Costa Director do Departamento de Futebol, para construir definitivamente o Porto que dominaria o resto do século XX português).

O resultado final indicava uma vitória para o FC Porto. Mas nunca como aí a derrota do clube fora tão grande, tão avassaladora, tão definitiva. Logo depois do jogo, havia Dale Dover para ver no Pavilhão Américo de Sá num FC Porto x Barreirense. O pavilhão estava cheio, mas só se ouvia o eco da bola laranja a saltar tristemente no taco, como se fossem socos e pancadas secas no coração dos portistas.

A morte de Pavão foi objecto de diversa controvérsia, desde a inexistênca de um desfibrilhador até aos supostos cházinhos mágicos de Bella Guttman, passando pela causa médica (estenose aórtica) e pelo seguro de vida feito pelo próprio algumas semanas antes. Várias hipóteses, muitas conjecturas, poucas confirmações. É nas palavras de Alexandra Neves, filha única de Pavão, que encontramos talvez a solução simples para esta tragédia:

“Um jogador fabuloso que suava a camisola.
Tanto a suou que acabou por morrer com ela vestida”.
Pequeno apontamento biográfico:
Pavão nasceu em Chaves a 12 de Agosto de 1947. Iniciou a carreira no Desportivo de Chaves e foi trazido para o FC Porto por Artur Baeta, a troco de 300 contos. Foi promovido à equipa principal e lançado às feras pelo treinador brasileiro Flávio Costa com apenas 18 anos, num jogo caseiro contra o Benfica, com vitória por 2x0. Rezam as crónicas que terá metido no bolso mais pequeno Mário Coluna, um dos melhores jogadores do adversário. Com Pedroto, um ano depois, Pavão recebeu a braçadeira e foi eleito o dono do meio-campo portista, tornando-se no jogador mais jovem a envergar a braçadeira azul-e-branca. No ano seguinte, conquista a Taça de Portugal no Jamor, diante do Vitória de Setúbal, naquele que foi o único título clube no longo jejum de 19 anos. Fez 12 jogos pela Selecção, estreando-se em Lourenço Marques, frente ao Brasil. Foi o primeiro a ser substituído, pese embora Artur Jorge (então jogador do Benfica), cheio de humildade, ter assumido no fim “substituí o melhor jogador”. Dizia-se naquela altura que o Manchester United de Tommy Docherty namorava o médio portista, a ponto de avançar para uma proposta concreta, o que permitiria a Pavão e à sua mulher custearem as despesas do projecto de um bar na Invicta. Quando morreu tinha 26 anos. Deixou mulher e uma filha.
O FC Porto mandou erguer um busto em homenagem a Pavão, nas Antas, à entrada do antigo Departamento de Futebol. Hoje a estátua encontra-se dentro do Estádio do Dragão, perto da zona de acesso aos balneários.
Passados 10 anos da morte de Pavão, com Pinto da Costa já na presidência, o clube atribuiu uma pensão à família do jogador, de forma a pagar os estudos da sua filha. Pavão repousa no Cemitério de Agramonte, no Mausoléu do FC Porto.

FONTES UTILIZADAS, A QUEM AGRADECEMOS:
  • MaisFutebol
  • Diário de Notícias
  • Jornal de Notícias
  • Futebol Magazine
  • Jornal i
  • O Sol
  • www.paulobizarro.blogspot.com
  • BiBó PoRtO carago!!
  • Reflexão Portista
  • Memória Porto
  • www.foradejogo.net
Rodrigo de Almada Martins













12 janeiro, 2017

FOTO-MÍSTICA #1 - Gomes (85/86)


Inauguramos hoje um novo espaço no BiBó PoRtO, carago!!. Durante o ano de 2017, de 15 em 15 dias, iremos publicar as fotografias que marcam a história do nosso clube, acompanhadas de um pequeno texto enquadrativo. O espaço chamar-se-á FOTO-MÍSTICA. Será uma viagem gráfica pela história do nosso clube, recheada de momentos inesquecíveis. A ordem de publicação das fotografias não obedecerá a nenhum critério de importância, hierarquia, década, temporada ou jogador. No espaço dos tais 15 dias, poderemos viajar do jejum dos anos 60 até aos profícuos anos 90, onde cimentamos a famosa “máquina de ganhar”. Se tivermos tal informação, teremos todo o gosto em indicar o autor do disparo fotográfico. Se gostariam de ver publicada nesta rúbrica uma determinada fotografia, enviem e-mail para rodalma@hotmail.com e tentaremos enquadrá-la de imediato no alinhamento.

Um clube de futebol faz-se destes momentos únicos, irrepetíveis. Algumas fotografias – melhor até que o próprio vídeo – captam esse conceito estranho e impalpável que só o portista sente, mas que dificilmente conseguirá explicar: a MÍSTICA. Porque para enfrentar o Futuro, há que mudar o Presente, tendo em conta os ensinamentos que o Passado nos trouxe.

“Quem não sabe porque ganha, não sabe porque perde”.
Boa viagem neste comboio ao passado chamado FOTO-MÍSTICA.



Época: 1985/1986.
Data: 20.04.1986.
Resultado: FC Porto 4 x 2 Sporting da Covilhã.
Local: Estádio das Antas.
Aparecem na fotografia: Fernando Gomes e Rabah Madjer.
Gomes, o Bi-Bota, dirige-se à bandeirola de campo da Superior Sul e prepara-se para uma semi-volta épica pela bancada dos cativos. Acaba de selar a reviravolta no resultado naquela que foi a última jornada do Campeonato Nacional de 1985/86. Lá atrás vemos a Superior Norte das Antas em delírio, engalanado com as cores azuis e brancas num estádio completamente cheio. A corrida de Gomes é triunfal, eufórica, feliz, própria de quem disse um dia que “marcar um golo é como um orgasmo”. Ao pescoço, Gomes ostenta uma volta (ou fio de ouro?), que balança com a sua corrida, como balançou tantas vezes ao longo da carreira.

Os números não enganam. Na fotografia vemos o melhor avançado de sempre do FC Porto: 13 épocas, 451 jogos, 351 golos, 14 títulos, 48 internacionalizações, 6 títulos de melhor marcador, 2 botas-de-ouro. Ninguém fez melhor que ele.

Se para a geração nascida nos anos 80 e 90, o grande ídolo é Vitor Baía (ainda hoje o número 99 continua a ser a camisola predilecta de muitos que enchem os pavilhões e relvados amadores ao fim-de-semana), para aqueles nascidos em 60 e 70, o ídolo só pode ser um: Fernando Gomes.

Neste dia, nesta foto, faz o 3x2 para o FC Porto e confirma o bi-campeonato para as gentes do Porto aos 59 minutos. Era apenas o 9º título de Campeão Nacional do clube, após uma época em que o plantel foi fustigado por lesões. Apenas 3 minutos antes, havia empatado a contenda, marcando um dos melhores golos da sua carreira, após matar a bola no peito e disparar à meia volta, todo no ar, um míssil ao ângulo superior esquerdo da baliza dos beirões. Mas é neste seu golo triunfal que Gomes, com 28 anos, extravasa todo o seu portismo, ele que estava assim perto de erguer o 4º título de campeão pelo clube.

Não é caso para menos. O Sporting da Covilhã, último classificado, não foi às Antas cumprir calendário. André havia inaugurado o marcador de grande penalidade, mas os leões da serra empataram antes do intervalo, colocando as Antas sob forte apreensão. Além disso, o guarda-redes Jacinto João parecia inultrapassável. Para piorar as coisas, no início da 2ª parte, Artur Semedo bisa na partida e faz o 1x2 para o Covilhã. Mas esta equipa contava com craques como João Pinto, Celso, Lima Pereira, Eduardo Luís, Inácio, Frasco, André, Jaime Magalhães e Futre. Nada era impossível.

A correr para Gomes está o argelino Madjer, contratado nessa época para atacar o bi-campeonato, juntamente com o polaco Mlynarczyk e os brasileiros Juary e Eloi. Na altura desta fotografia Madjer não o sabia, mas o golo de Gomes era o passaporte para a Taça dos Campeões Europeus e para aquele calcanhar mágico de Viena 87.

Poucos são aqueles que, como Fernando Gomes, sabem o que é preciso para se ganhar ao serviço do FC Porto. Em 1978, com apenas 20 anos, ele já era o ponta-de-lança da equipa que acabou com o jejum de 19 anos sem ganhar o título. Havia terminado essa época com 25 golos, sagrando-se melhor marcador. Na temporada a que a foto diz respeito, fez 20 tentos em 30 jogos.

Na Selecção Nacional, Gomes foi sempre vítima da forma odiosa com que o seu clube era tratado pela FPF. Muitas vezes preterido por Jordão ou Nené (dois excelentes jogadores, mas que não chegavam sequer aos calcanhares do Sr. Bi-Bota), nunca conseguiu mostrar com a camisola das 5 quinas as qualidades que evidenciou vários anos ao serviço do clube do seu coração.

Na conferência de imprensa, em entrevista à RTP, Gomes dedica o título à massa associativa do FC Porto e aos jogadores que sofreram lesões naquela época: Zé Beto, Eurico, Semedo e Vitoriano. E no final, visivelmente emocionado, liga este título à figura e à memória de José Maria Pedroto. Porque os génios sabem sempre que se chegaram onde chegaram foi porque estavam apoiados no ombro de gigantes.

FONTES UTILIZADAS, A QUEM AGRADECEMOS:
  • https://bibo-porto-carago.blogspot.com/
  • http://www.foradejogo.net/
  • http://paulobizarro.blogspot.com/
  • http://dragaopentacampeao.blogspot.com/
  • Os Filhos do Dragão (Canal Youtube): Paulo Bizarro | Pedro Cardona - https://www.youtube.com/user/art0of0love
Rodrigo de Almada Martins