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assistência: 44.902 espectadores.
árbitros: Olegário Benquerença (Leiria), Bertino Miranda e José Cardinal; 4º Árbitro: Cosme Machado.
FC PORTO: Beto; Fucile, Rolando, Bruno Alves «cap» e Alvaro Pereira; Fernando, Belluschi, Raul Meireles e Guarín; Hulk e Farias
Substituições: Raul Meireles por Miguel Lopes (56m) e Farias por Rodríguez (61m) e Belluschi por Tomás Costa (90m)
Não utilizados: Nuno, Valeri, Maicon e Orlando Sá
Treinador: Jesualdo Ferreira
VISITANTE: Quim; Maxi Pereira, Luisão, David Luiz e Fábio Coentrão; Javi Garcia, Ramires, Carlos Martins e Di Maria; Saviola e Cardozo
Substituições: Javi Garcia por Aimar (62m), Saviola por Weldon (66m) e Carlos Martins por Kardec (82m)
Não utilizados: Moreira, Luís Filipe, César Peixoto e Miguel Vítor
Treinador: Jorge Jesus
golos: Bruno Alves (42m), Luisão (56m), Farias (58m), Belluschi (83m).
disciplina: cartão amarelo a Di Maria (5m), Fucile (5m e 52m), Fábio Coentrão (13m), David Luiz (15m); Javi Garcia (41m), Raul Meireles (45m), Ramirez (78m) e Maxi Pereira (90m); cartão vermelho a Fucile (52m).
E pronto. Lenta, mas inexoravelmente, o campeonato caminha para o seu ocaso. O Dragão despede-se de uma prova que não deixará saudades, dizendo um “até breve” aos seus guerreiros. Um jogo especial, na recepção a um velho rival, mas que não atingiu a importância que poderia ter tido, culpa do afastamento precoce dos portistas, na luta pelo título.
Passando ao lado do ambiente explosivo criado à volta do embate, transformando as imediações do estádio numa espécie de Faixa de Gaza, fortemente militarizada, havia alguma coisa em jogo, mesmo assim. Sopesando numa balança, diria que existia muito. O orgulho. Mais não fosse, a preservação da intocabilidade do santuário. A equipa de Jesualdo tinha, mais do que acertar contas ou resgatar a honra, evitar que o adversário comemorasse no seu próprio terreno. Compreendi, com alguma angústia, os comportamentos errantes de adeptos do Real, comemorando efusivamente o afastamento do inimigo Barcelona da Champions. Haveria maior humilhação para os merengues do que ver o seu solo sagrado pisado, na prova máxima de clubes, pelos catalães?
Num jogo previsivelmente crispado, nervoso, o 4-4-2 do técnico portista demorou a engrenar. Pela frente, mostrando forte personalidade, os encarnados foram um contendor duro, dominando largos períodos da primeira parte, sempre ancorados naquela pressão alta, transformando a linha de meio-campo numa arma letal. Os [ainda] campeões respondiam como podiam. Com valentia e galhardia, lutando bravamente, mostrando temperamento coriáceo, disputando cada lance como se dele dependesse a própria vida. Com óbvia preocupação em parar, por um lado, os letais flanqueadores, e por outro impedir que Carlos Martins pensasse o jogo, os azuis e brancos sentiam enormes dificuldades na ligação sectorial, com repercussões claras na ausência de oportunidades de golo.
Passando por alguns sustos [bola na trave de Di Maria e falhanço à boca da baliza de Javi Garcia] o espírito corporativo e guerreiro dos jogadores portistas foi premiado. Pelo suspeito do costume. Lance de bola parada e cabeceamento imparável de Bruno Alves. O capitão dos dragões respondia, mais uma vez, aos seus imensos detractores, que teimam em lhe colar a imagem de jogador violento, com uma demonstração das suas potencialidades. Impulsão fantástica, controlo total do espaço aéreo e uma força detonadora. O estádio, já em ebulição, explodia de satisfação, vitoriando a sua paixão.
Se a primeira metade não entrava para a história pela beleza estética das jogadas, a segunda foi similar. Mas teve emoção. E muita. Mostrou, igualmente, outro protagonista, apanhado numa maré tremenda de sensações. Olegário Benquerença. A partida estava excelente, do ponto de vista da comoção. Pejada de bons pormenores, com uma entrega total, de parte a parte. Até ao seu momento culminante. A expulsão de Fucile. Reduzido a 10, acossado pelo elástico espartilho táctico de Jorge Jesus, o Porto cambaleou. Foi às cordas. À expulsão seguiu-se novo soco no ânimo. O golo do empate, resultante de uma jogada de insistência, finalizada por Luisão.
Existem, ao longo da ancestral história do clube, momentos decisivos. Uns mais importantes, a nível histórico, do que outros. Mas todos com um denominador comum. A capacidade de resistência, a luta contra o próprio destino, a vontade indómita de superação. E, os estóicos resistentes, souberam merecer a benesse de envergar aquelas camisolas mágicas. Foram brilhantes. Dentes cerrados, peleando até à exaustão, sabendo quão importante era a obtenção dos 3 pontos. Os adversários dirão, jocosamente, que o esforço foi para terceiros [leia-se a equipa da cidade dos arcebispos]. Nada mais falso. O Porto hoje jogava – e procurava vencer – por uma pitada de inconformismo. Pelo desejo egoísta de satisfação própria. Pelo mero acto de se olharem ao espelho e sentirem-se em paz consigo mesmos.
Não terão sido os mais emocionantes minutos que o estádio já presenciou. Ou os mais bem jogados. Mas foram, sem dúvidas, merecedores de uma imensa ovação. A equipa uniu-se. Passou para a frente, noutro lance de insistência, com Belluschi como protagonista inicial e o seu compatriota Farias a ficar com os louros. Letal, o argentino incendiou novamente a Invicta. A partir daí, o jogo foi jogado como uma arritmia cardíaca, com ataques e contra-ataques, comandados pelo pulsar do coração, pelo palpitar da ansiedade.
Faltava algo. Um feito grandioso e eloquente, capaz de fazer perdurar na memória futura o esforço tenaz de um punhado de guerreiros. Guarin quase o conseguia, quando o remate em arco beijou o travessão da baliza de Quim. Mas os 15 minutos de fama, profetizados por Andy Warhol, foram sonegados por Belluschi. O argentino, pés de veludo e tiques de artista conseguiu um remate indefensável. Um balázio onde cabia toda a raiva, frustração e desapontamento de uma temporada deprimente e que tarda em finalizar. O 3-1 manteve o Estádio do Dragão intocável, em relação a festas alheias. O cair do pano foi, felizmente, feito em ambiente de euforia. Como devia ser sempre…
Análise final: Sensação de dever cumprido. Depois da inglória saída de cena na Champions, da perda da Taça da Liga e do prematuro afastamento na luta pelo título, os pupilos de Jesualdo souberam acabar a época com dignidade. Vestindo uma nova roupagem, com o 4-4-2 a consolidar um futebol mais apoiado, fluido, já não dependente das arrancadas de Hulk ou de um momento de inspiração.
Melhor em campo: Muito por onde escolher. Bruno Alves, pela serenidade que demonstrou, ao longo da partida. Farías, pelo instinto assassino que demonstra. Beto, seguro entre os postes, realizando duas defesas de enorme grau de dificuldade. Belluschi, pelo momento de antologia, recordação que fica. Ou Guarin, resgatado a um opróbrio, funcionando como pêndulo nas transições rápidas. Opto por dois, repartindo os louros da vitória. Alvaro Pereira, indomável no flanco esquerdo, apoiando o ataque na 1ª metade, conseguindo esticar o jogo, em inferioridade numérica, até à área adversária. Raçudo a defender, protagonista de inúmeros duelos, com vários cortes providenciais. E, claro, Fernando. Sempre Fernando, homem no meio da tormenta, com a capacidade de adivinhar sempre onde a bola iria cair. Eficaz na protecção do seu espaço, alargando a área de intervenção, na altura do sufoco, foi um bombeiro exemplar, acorrendo a potenciais zonas de perigo, numa cobertura que o tornou omnipresente.
Arbitragem: Já aqui escrevi, uma vez, acerca de Olegário, que o juiz de campo foi perseguido, durante grande parte da carreira, por um estigma. Alimentado cirurgicamente pelo pasquim ao serviço dos encarnados, o lance em que Baía defende, pretensamente, a bola dentro da baliza, num célebre Porto-Benfica, serviu para coagir, anos a fio, o árbitro. Com notáveis serviços prestados, a partir daí, à “instituição”, julguei que a sua elevação a árbitro de elite, com presença garantida no Mundial, o tornasse isento. Erro crasso. Olegário foi uma nau à deriva. Num ambiente de enorme hostilidade, o juiz de campo tinha uma tarefa hercúlea. Decidido a segurar disciplinarmente o encontro, enredou-se na sua própria estratégia. Com vários pecadilhos, nesse campo, prejudiciais a ambas as equipas, borrou notoriamente a pintura ao expulsar o defesa uruguaio do Porto, por pretensa simulação. Fucile foi agarrado, não uma, mas duas vezes, dentro da área. A partir daí, a sucessão de equívocos atingiu um nível verdadeiramente grotesco. A cereja no topo do bolo: o soco de Luisão [julgo que a Belluschi], com a admoestação a ter a cor…amarela.
Existem, igualmente, vários lances difíceis de ajuizar, em ambas as áreas. Com a SportTv, curiosamente, a preferir brindar os espectadores com repetições sucessivas dos lances ocorridos, apenas, na área portista, fica uma certeza. Olegário merece o Mundial e os recentes elogios de Platini. Estão bem um para o outro.
Nota final: É algo imutável. Tudo o que tem um início terá, forçosamente, o seu fim. Quando se começa a escrever sobre uma paixão (e esta, que tem as cores bem definidas, o azul vivo e o branco da transparência, é uma chama obsessiva, que nos acalenta a toda a hora) nunca imaginamos o termo, o ponto final, o THE END em língua anglo-saxónica. Sem grandes parangonas, esta foi a minha última crónica. Ironicamente, contra um rival detestável. Foram alguns anos (sinceramente, não me recordo da data de início na colaboração com o BiBó PoRtO), visceralmente vividos como se aqui fosse o último reduto, onde um punhado de indefectíveis ia dando voz aos feitos portistas, mesclando a glória cantada com a raiva de ver o clube sofrer com ataques mesquinhos. Um blogue que se foi tornando, regularmente, num espaço de tertúlia, de acutilância, ganhando relevo na blogosfera desportiva. Numa mistura de emoções, agora que escrevo as derradeiras palavras, fica o orgulho de ter contribuído para uma causa que, como diria o poeta, não se vê, mas que se sente. Cá dentro, no nosso íntimo. No momento da saída, mais do que exaltar as qualidades dum espaço de referência, fica o pedido de que o blogue continue crítico, não se limitando a glorificar o Dragão, mas apontando o dedo ao que vai mal, no reino do putativo campeão. A qualidade alcançada, semana após semana, não pode ser depauperada em guerrilhas espúrias. Foi uma honra ter partilhado este espaço com vocês.