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25 maio, 2019

CARTA ABERTA E DE ABRE-OLHOS A TODOS OS PORTISTAS.


Caro Portista,

Escrevo-lhe esta carta antes de jogarmos a 30º final da Taça de Portugal da nossa história.

Vou dizer muitas verdades nesta mensagem. Mas começo com uma grande mentira: o Benfica é o campeão nacional 2018/2019. A partir daqui começam os factos. Vamos a eles.

Contas feitas, o FC Porto faz uma época de bom nível, não se podendo nunca dizer que se trata de uma grande temporada, pois no FC Porto o título nacional é sempre o objectivo número 1. Mas chegar à final da Taça da Liga, terminar a 2 pontos do 1º classificado no Campeonato, alcançar a final da Taça de Portugal e chegar aos quartos-de-final da Champions caindo às mãos do provável vencedor nunca poderá ser considerado uma má época, muito menos uma época para esquecer.

Então porquê este sentimento de frustração, decepção e raiva que afecta muitos portistas? E porquê esta alegria desmedida e cheia de bazófia dos benfiquistas? Por uma razão muito simples: porque nem uns compreendem como perderam o título; nem outros compreendem como o ganharam.

Posso até admitir ser verdade que os portistas confiaram em demasia nos 7 pontos de vantagem sobre o rival e se deixaram de algo forma adormecer, posto que as revelações do caso dos e-mails e a distância pontual e exibicional face ao Benfica de Rui Vitória não auguravam uma recuperação como aquela que foi protagonizada por Bruno Lage.

Mas façamos agora um exercício curioso: como é possível que este Benfica, mesmo tendo sido treinado durante quase toda a primeira metade da temporada por um boneco chamado Rui Vitória, consegue ainda ir a tempo de ser campeão? A resposta mais lógica seria dizer que Lage é um treinador de eleição, uma espécie de novo-Mourinho, mas os factos desmentem essa teoria. Bruno Lage entrou e logo no segundo jogo perdeu a meia-final da Taça da Liga com o FC Porto. E é nesse momento que o campeonato vira definitivamente, quando Vieira se irrita e parte loiça toda, mandando Fábio Veríssimo para a jarra e garantindo que, como diria alguém, “quem se mete com o SLB, leva”. Depois dessa noite, nada mais foi igual no campeonato nacional.

A partir dessa derrota e consequente afastamento da Taça da Liga, o passeio do SLB na liga nacional foi total, não fosse o empate caseiro diante do Belenenses, num dia em que Rubén Dias e Vlachodimos estavam em modo kamikaze. Não fosse esse dia e esses acontecimentos esdrúxulos e não é que o campeonato do Benfica teria sido 100% vitorioso? Estranho, não? Impossível?
Nem por isso. Lembramo-nos certamente de campeões avassaladores, como Mourinho e AVB ou Jesualdo e VP. Mas Mourinho, mesmo em plena época de Apito Dourado, tem em sua defesa o facto da sua equipa ter ganho a Taça UEFA e a Liga dos Campeões em dois anos consecutivos que a afirmaram como a melhor equipa da Europa, enquanto que AVB mostrou também todo o poderio desse FC Porto na Liga Europa. Ou seja, estas equipas eram demolidoras tanto interna, como externamente. Já Jesualdo e VP apresentavam domínios internos e juntaram a isso participações consistentes nas provas europeias, sem alcançarem o tão almejado título. No entanto, a bota bateu sempre certo com a perdigota, por assim dizer.

O caso deste SLB é diferente. E mais: não é de agora. Os últimos campeonatos do SLB, ao contrário dos do FC Porto, apresentam sempre esta dicotomia: domínio interno conjugado com campanhas europeias miseráveis e motivo de vergonha, sendo os famosos 0 pontos na fase de grupos o corolário máximo da incompetência benfiquista nas provas europeias, diante de “gigantes europeus” como o Basileia e o CSKA Moscovo. Tudo isto contrasta, desde logo, com as duas grandes campanhas de SC na Champions League, onde caiu sempre derrotado perante o finalista Liverpool.

Mas então de onde vem esta desproporção verdadeiramente colossal entre campanhas nacionais e campanhas europeias? De onde vem este domínio caseiro na Taça da Liga e no Campeonato e esta incompetência contumaz na Europa? Como é possível que o “glorioso” Benfica seja eliminado de forma tão limpinha por esse tubarão chamado Eintracht Frankfurt?


Olhemos pois à estatística. Um olhar atento, que não vejo a comunicação social focar, é o campeonato verdadeiramente brilhante e colossal feito pelo SLB, que acaba a maratona com esmagadores 87 pontos em 34 jornadas. Para termos uma noção, a incontestada Juventus alcança apenas mais 3 pontos (90), mas em 37 jornadas (ou seja, com mais 9 pontos em disputa). O PSG chega aos 91, também em 37 jogos. O City chega aos 98, mas em 38 jornadas. O poderoso Barcelona alcança os mesmos pontos que o SLB, mas com mais 4 jornadas em cima. Olhemos o próprio Bayern, líder sem rival na Alemanha, que em 34 jornadas tal como em Portugal, chega apenas aos 78 pontos, menos 10 que o SLB.

Mas o que mais impressiona acima de tudo é a capacidade goleadora do SLB, que chega à incrível marca de 103 golos, mais 13 por exemplo que o Barcelona de Messi, Coutinho, Suarez e Dembelé. Um número também bem acima dos 70 golos marcados pela Juventus de CR7, Mandzukic e Dybala. Acima inclusivamente da máquina City (95) de Sané, Sterling, Aguero, De Bruyne, Mahrez e Gabriel Jesus. E acima do Bayern (88) de Robben, Muller, Ribery e Lewandoswski.
Um olhar atento perguntaria imediatamente: mas o que raio se passa em Portugal para uma equipa ser campeã com 87 pontos e 103 golos marcados e o segundo classificado ficar a uns meros 2 pontos, mas com menos 29 golos?
Façamos pois uma comparação aceitável: fases de grupo da Champions*. Escolhamos três épocas consecutivas (17/18 e 18/19), para não levar a discussões sobre a valia dos grupos de cada um. O FC Porto consegue um total de 37 pontos (11+10+16) e 39 golos marcados (9+15+15); o SLB chega aos 15 pontos (8+0+7) e a uns míseros 16 golos marcados (10+0+6). Começam a perceber a inconsistência? O SLB apresenta menos de metade dos pontos do FC Porto e marca também menos de metade dos golos. Afinal de contas, o que se passa na Europa com o “grandioso” Benfica que varre os adversários nacionais com goleadas de mãos cheias?

Tomemos como exemplo também os avançados do SLB**, em especial Seferovic, que termina a temporada com uns bonitos 27 golos marcados, um número que é superior a todos os golos que marcou nas últimas 4 temporadas JUNTAS (125 jogos, 26 golos). Seferovic chega pela primeira vez na sua carreira a uma marca superior a 10 golos. Não lhe parece estranho, caro portista?
Olhemos então para Jonas, que nos seus verdes anos de Valência acertou 51 vezes nas balizas contrárias em 156 partidas, marcando em 32% dos jogos. No SLB apresenta a fantástica contagem de 137 golos em 183 partidas: marca em 74% dos jogos. Parece incrível que, mesmo num ano onde Jonas se debateu com inúmeros problemas físicos nas costas, apresente um golo a cada 2 jogos. Incrível não é? Então porque é que um avançado que apresenta 15 golos em 31 partidas em 18/19 está prestes a terminar a carreira? Ou, ao invés, o que se passa com os centrais do nosso campeonato para não conseguirem deter um avançado de 35 anos com problemas de costas?

A lista dos melhores marcadores do nosso campeonato é, também ela, intrigante, não tendo qualquer tipo de paralelo com nenhum outro campeonato europeu: dos 10 melhores marcadores, 4 são do SLB (Seferovic, Rafa, Felix e Pizzi) . O Barcelona coloca apenas 2 nesta rúbrica, o Real e Atlético 1 cada um; na Série A apenas o Nápoles coloca 2 homens na lista de melhores marcadores; na Alemanha o Borussia também consegue colocar 2. Na Europa, apenas o PSG se aproxima do Benfica com Mbappé, Cavani e Neymar (assumo que possam ser piores que Seferovic, Rafa e Felix…) nos 10 melhores marcadores.

Há muitos vídeos a circular na internet que adensam as minhas suspeitas, mas qualquer olhar atento é capaz de descortinar os incríveis azares que os adversários do SLB enfrentam quando jogam contra o clube da águia. Podíamos começar por Fábio Cardoso (do Santa Clara, que tem vários azares no conjunto das 2 voltas) e terminar em Júnio Rocha e Borevkovic (Rio Ave), passando pelo Nacional de mãos cheias e pelo Braga (4º classificado, refira-se!) que alcança o incrível parcial de 10x3 com o SLB no conjunto das 2 voltas. Mas se recuarmos na temporada, iremos encontrar muitos mais casos deste género: escorregadelas, cortes na atmosfera, recepções desorientadas, passes ao nível da terceira divisão do Cazaquistão, inúmeros azares com consequências dramáticas.

As minhas suspeitas não são infundadas nem nascem da minha cabeça, caro portista. A comunicação social vem publicitando, embora timidamente, as declarações da testemunha Cássio, jurando em tribunal que ele e os atletas Lyonn e Marcelo foram abordados por um tal de César Boaventura para perderem num jogo da sua equipa de então – Rio Ave – contra o SLB. César Boaventura esse que, segundo Paulo Futre, é grande amigo de LFV e presença assídua no centro de treino do Seixal. Estamos pois em sede do famoso JOGO DA MALA, que vem denegrindo e transformando o futebol português numa lixeira a céu aberto. As palavras de Coentrão no final da temporada causam interrogação. As declarações de Tomané dizendo que a manutenção do Tondela apenas se deve a alguns jogadores e não a todos também deviam alcançar mais destaque. A que é que Tomané se referia? E Coentrão, o que quereria dizer?

E que dizer das declarações de Petit antes do jogo com o SLB, caro portista? Que dizer da abordagem típica dos treinadores portugueses (ao bom estilo de Pepa) quando defrontam o SLB, afirmando sem vergonhas que este não é o seu campeonato e que vai ser muito difícil conseguir o empate, por contraponto com as afirmações de raça e de ganas quando vão enfrentar o FC Porto, dizendo invariavelmente que é um jogo onde vão dar tudo e onde vão lutar pelos 3 pontos? Porquê tamanha diferença de abordagem aos jogos contra o SLB e contra o FC Porto?

Face ao que atrás exponho, só posso concluir que o campeonato português regrediu 70 anos num curtíssimo espaço de tempo, sendo prova disso mesmo os cómicos 10x0 ao Nacional e os 6x2 ao Braga na Luz, verdadeiros expoentes máximos da facilidade que o SLB tem quando defronta os seus adversários, atingindo-se a total negação do desporto e competição profissionais. Voltamos, pois, ao tempo do amadorismo. Tudo isto contrasta, uma vez mais, com os adversários motivadíssimos e super-agressivos que o FC Porto enfrenta semana sim, semana sim, onde cada jogo ganho é uma batalha campal, terminando não raras vezes com adversários em lágrimas e fortemente desiludidos. Mas desiludidos porquê, caro portista? Não seria normal perder com o FC Porto que atinge os quartos-de-final da maior competição de clubes do mundo? Ou há algo mais por detrás destas reacções? Será que há alguma motivação extra que justifique tal disparidade exibicional?

Se isto já não fosse suficientemente mau, temos os árbitros a ajudar à festa. Depois da ida de Veríssimo para a jarra (não deixa de ser cómico que um dos padres vá para a jarra…), nenhum senhor do apito se atreveu mais a incomodar o todo-poderoso SLB. Frederico Varandas disse e bem que depois da jornada 28 começou a falta coragem. Eu sou mais arrojado: depois da jornada 28 começou a faltar vergonha. Podia falar das incríveis actuações dos senhores de negro em Moreira de Cónegos, Braga, Feira e Vila do Conde, com golos em fora-de-jogo, golos anulados aos adversários, penaltys não assinalados ao SLB, etc. No final de um desses jogos, vimos inclusivamente Vítor Bruno (Feirense) a dizer que estava “desiludido com este futebol”. A pergunta que se impõe: mas está desiludido porquê? O que é que Vítor Bruno quer dizer?

Dizendo isto, fico surpreendido quando ouço portistas dizer que temos culpas na forma como perdemos este campeonato. Mas então não é suposto isto ser uma competição profissional e saudável de 11 contra 11 onde é possível que uma equipa roube ocasionalmente pontos aos grandes? Ou alguém acha normal uma segunda volta imaculada como a do SLB? Começamos a entrar na negação do que é o desporto e a negligenciar a palavra competição. Talvez assim finalmente se perceba a facilidade que Renato Sanches tinha em galgar metros e marcar golos no campeonato nacional e a imensa dificuldade que apresenta por essa Europa fora.

Para o FC Porto fica talvez a amargura da abordagem ao jogo com o SLB em casa, deixando Militão castigado no banco, Danilo no banco e apostando em Oliver e no inenarrável Adrian López. E talvez uma aposta pessoal excessiva do Mister na Taça da Liga (que se compreende, atendendo ao historia do clube neste troféu), competição que nasceu para ser o tubo de ensaio dos padres e dos lucílios deste país. E poderíamos ainda acrescentar os problemas na lateral-direita, que nasceu torta e nunca se endireitou. Por lá passaram desde a pré-época João Pedro, Janko, Maxi, Corona, Militão, Mbemba e Manafá. Demasiadas indecisões numa posição que se veio a revelar fulcral na luta pelo título, pois foi por lá que Seferovic carregou Manafá em falta e conseguiu o empate no jogo do Dragão. Fica também a impressão de que faltou uma real alternativa à lesão de Aboubakar, visto que Soares não tem categoria para ser o 9 que o Porto precisa nem Marega chega para todas as encomendas.

Assumindo também os nossos erros, que existiram – não esquecer que não há treinadores nem equipas perfeita! – acredito fortemente que o portista que me lê não se deve deixar intoxicar pela opinião pública. Ao invés de se discutir os diferendos entre SC e as claques, devíamos ver os jornalistas focados no papel que César Boaventura tem no futebol português ou no porquê de Fábio Veríssimo ter ido para a jarra depois do jogo em Braga. A pergunta que deve ser feita: porque é que Veríssimo não ficou definitivamente na jarra depois do assalto que fez ao FC Porto no jogo Feirense x FC Porto da época passada, obrigando Brahimi a berrar a plenos pulmões “nós vamos ganhar”? Porque é que LFV se queixou um dia que Veríssimo não apitava os jogos do SLB? Porque é que um clube tem poder para colocar árbitros na jarra e outros vêm os seus protestos cair em saco roto? Porque é que o senhor director da APAF Luciano Gonçalves – o tal que alegadamente pedia ao SLB 50 bilhetes mais baratos para oferecer ao Centro Recreativo da Batalha – se preocupa com a tarja dos SD e não se foca na prestação dos seus associados nas últimas jornadas do campeonato? Porque é que não há ninguém a discutir os escandalosos “erros” do VAR? Porquê estas incoerências por parte dos organismos que regem o futebol português? Porque é que aquele famoso árbitro da Madeira (Marco Ferreira) foi ao Estádio da Luz pedir uma audiência com Vieira para perceber o que lhe tinha acontecido com a nota? Mas afinal de contas, qual é o verdadeiro poder de Vieira na nossa arbitragem? Porque é que Paulo Gonçalves se encontra a dirigir dossiers de contratações do SLB, mas foi julgado pela Juíza Ana Peres como tendo actuado sem conhecimento e instruções do SLB? Mas que país é este onde tudo o que parece ser, acaba por não o ser? Mas afinal de contas onde para a comunicação social isenta e idónea deste país?

Caros portistas, sejamos claros: o futebol português é uma lixeira a céu aberto, que alimenta várias bocas a notas de euro em função dos interesses do momento. Nunca como hoje, o futebol português esteve tão manietado, tão comprado, tão desprovido de competição na verdadeira acepção da palavra. Nunca como agora vimos treinadores darem-se como derrotados antes das partidas começarem. Nunca como agora vimos tantos erros de centrais e laterais das equipas pequenas contra os grandes. Nunca como agora vimos tantos clubes comprados e arregimentados em favor de um só clube. Nunca como agora vimos tantas filiais e tantos satélites a jogar na principal divisão do campeonato? Nunca como agora vimos tantas missas rezadas por padres e sacristães. Por isso, volto ao princípio: o Benfica campeão nacional 2018/2019 é uma farsa e uma mentira completa.

Vivo em Lisboa há alguns anos e, por isso, tenho um conhecimento exacto da forma como pensa o nosso rival. Sérgio Conceição é perseguido pela comunicação social não por ser “javardo” como lhe chamou um ex-embaixador português, mas sim por ter voltado a colocar as nossas equipas a jogar à Porto, a ganhar fases de grupos da Champions, a entrar em qualquer campo, seja onde for, para ganhar. Com SC vemos todo e qualquer jogador a sujar os calções, a comer a relva, a lutar pela vitória até ao apito final, vemos uma equipa unida e com espírito, aguerrida em todas as fases do jogo, vemos um FC Porto focado em todas as frentes, onde a palavra desistir não tem lugar no dicionário. E isso é a marca do FC Porto de Pedroto/Pinto da Costa: uma equipa de faca nos dentes, do até os comemos, que sabe sofrer quando tem que sofrer e que luta os 90 minutos pela vitória em qualquer partida. E é isso que tanto incomoda o nosso rival, ver o FC Porto de novo com a raça pedrotiana, de novo sem medo de atravessar a Ponte Luiz I. E esse Porto à Porto é o que sempre causou inveja em Lisboa. Afinal de contas como é que aqueles parolos lá do Norte conseguem ganhar tantos títulos e tanta coisa lá fora sem a ajuda do poder central? O que é que eles têm que nós não temos? No fundo, o que é indisfarçável é o medo aterrador que têm do FC Porto, dos seus jogadores, do seu Presidente e das suas gentes. Um medo e uma inveja indisfarçáveis e que explicam muito do país que somos.

Mas para eles tenho uma má notícia: Sérgio Conceição fica no FC Porto.

Estamos já perto do fim, caro portista.

Em Game of Thrones, as primeiras temporadas ocorrem sob a expressão em surdina “the winter is coming”. No futebol português, o longo Inverno já chegou e a longa noite em que o luso-futebol está mergulhado alcança tudo e todos, desde clubes-satélites a clubes com ligações a empresários amigos, passando por jogadores emprestados, ex-jogadores que viraram treinadores, chegando até às relações indecorosas entre Salvador e LFV, sócios comparsas em negócios de construção civil. No meio desta salgalhada alimentada a sacos azuis, sobram apenas uns irredutíveis gauleses, que não se deixam subjugar. Situam-se no norte litoral, são daqueles do antes quebrar que torcer e recusam-se a prestar vassalagem ao centralismo que percorre o país de lés a lés. Nessa cidade, apesar de fria e chuvosa por vezes, o longo inverno não chegou. Aí o sol ainda brilha. Um dia, uma amiga espanhola resumiu da melhor forma o que lhe pareceu essa cidade: é como se tivesse estado mergulhada debaixo de água durante muitos séculos e um dia alguém pegou nela e a puxou para cima. Desde aí que dou por mim sentado do lado de Gaia a imaginar uma mão a pegar numa massa de terra colocada debaixo do rio e a puxar um conjunto de casas e edifícios de granito para a tona, que quando emerge surge ainda a escorrer água. O sol brilha. As gotas escorrem e estão prestes a secar. É a cidade dos gauleses. Tem 5 letras. Chamam-lhe Porto.

Rodrigo de Almada Martins
*Dados europeus retirados do site oficial da UEFA;
**Dados nacionais retirados do site ZeroZero.

Nota final: escrevi no BiBó PoRtO carago!!, a convite do seu mentor, de Agosto de 2012 até 24 de Maio de 2019. São quase 7 anos a discorrer sobre o universo azul e branco. Deixo 149 crónicas, que acabam por ser o espelho do dia-a-dia do clube, destes últimos 7 anos de vitórias e derrotas, mas sobretudo do que significa ser portista e portuense. Tudo o que vi, tudo o que vivi com o FC Porto acaba por estar aqui vertido nestas páginas. Fui imensamente feliz ao fazê-lo. Como diz o filme: por ti fá-lo-ia 1000 vezes. Obrigado a todos.

22 março, 2019

SIR BOBBY ROBSON – O MEU DOCUMENTÁRIO.



A propósito de Bobby Robson, More Than a Manager, documentário agora disponível no Netflix, vieram-me à memória outros tempos e outras histórias, de algo que também ainda está por contar e que, por si só, mereceria um documentário à parte. Falo da história do Departamento de Futebol do Estádio das Antas, daquelas míticas escadas e daquela enigmática entrada para um mundo que era secreto e só acessível a meia dúzia de eleitos.

E esta minha lembrança encerra também uma história curiosíssima com Bobby Robson, Sir Robson, ou por aqui chamado simplesmente de “o Mister”, iniciando um longo percurso português de tratamento dos treinadores por esse curioso nome. Vou contá-la tal como a vivi, tal como de facto aconteceu.

O ano seria 1993 ou 1994, por aí. Desloquei-me às Antas para ver, como de costume, mais um treino do FC Porto. Havia um ambiente especial naquele estádio, na forma de viver o clube, no que o treino representava para os adeptos, no que aquelas instalações logo abaixo do estádio significavam como parte integrante de um complexo onde as equipas de futebol, basquete, andebol, hóquei e natação se misturavam e coincidiam. Os treinos eram vistos pela massa adepta como se de um jogo se tratasse e se algum portista mais ferrenho e mais atento reparasse que um jogador não estava a dar o máximo, era imediatamente chamado à atenção. Misturavam-se portistas de todas as idades, camadas sociais, origens e a verdade é que todos ali pertenciam à mesma família.

Os treinos eram, claro, bem diferentes do que são hoje, mas não tão diferentes como se pode supor. Afinal de contas, pode suceder muita coisa, mas o futebol é algo simples: 22 homens a correr atrás de uma bola e a quererem colocá-la no fundo das redes. Não há muito que inventar ou que mudar. Robson aprendeu com os seus mestres, Mourinho aprendeu com Robson, Villas-Boas aprendeu com Mourinho, Vítor Pereira aprendeu com Villas-Boas e por aí fora. Sérgio Conceição aprendeu com Oliveira, que por sua vez aprendeu com Pedroto. No fundo, o essencial não mudou: o futebol continua, até ver, a ser um desporto de equipa, simples e, por isso mesmo, apaixonante.

Os treinos eram mais básicos do ponto de vista físico, o simples aquecimento com corrida à volta das balizas, as movimentações de aquecimento e estiramento, etc. E depois era treino simples com futebol de ataque, jogadas rápidas, triangulações, cruzamentos para a área e muitos homens a finalizar. Futebol de ataque, rápido, para a frente, à Robson! Lembro-me disso e lembro-me de várias vezes ver a bola saltar as redes do campo de treinos e ir bater num qualquer carro estacionado ali defronte do pavilhão e das piscinas.

Não sei se era da idade ou do facto de ser pequeno e franzino, mas lembro-me das bolas duras da Adidas, pesadas como pedras, que nos faziam olhar para quem batia os cantos e as colocava na área de forma tensa como verdadeiros heróis.

No final do treino, lá iam os jogadores para os banhos e massagens e a nós restava-nos imaginar o que sucederia nesse santuário sagrado: o balneário do FC Porto. Sei que esperávamos muito, de forma interminável até que finalmente, a conta-gotas, lá começavam a sair os jogadores, deambulando perante jornalistas, adeptos comuns e outros funcionários.

O jogador de futebol tinha já uma aura específica, mas não tinha o epíteto de superstar ou de celebridade que hoje tem. Eram, apesar de tudo, homens comuns, que os adeptos tocavam, interagiam, com quem era possível conversar, chegar perto, estabelecer relação. Quase todos os atletas eram portugueses, o que ajudava a aumentar a identificação entre o adepto e o clube. Não que não fossem já admirados ou idolatrados, mas era diferente. Claro que eram assediados, havia a caça ao autógrafo (hábito entretanto perdido em favor da selfie no Instagram), havia as adeptas que iam para os treinos esperar os jogadores, levá-los até ao carro, quiçá oferecendo-se para ir com eles até casa… Existia isso, sim, mas tudo feito de uma forma mais ingénua, mais clara, sem o culto da celebridade que hoje separa indelevelmente os jogadores da sua massa adepta, tornando-os mais distantes, menos individualizados, menos palpáveis, mais desconhecidos.

Num final desses treinos, e já após ter conseguido recolher autógrafos de mais de meia equipa, desde Vinha a Timofte, passando por João Pinto ou Kostadinov, entre muitos outros, eis que surge Sir Bobby, com aquele seu ar traquina de peter pan reencarnado, de criança num corpo de homem já envelhecido. Cabelo branco, olhos infinitamente azuis (olhos que sempre tiveram um brilho especial, sincero, parecendo prestes a rebentar em choro como a maioria dos olhos azuis), calça inglesa larga, em mangas de camisa. Sai apressado, a correr.

É preciso parar e perceber o que significou Robson no FC Porto. Não era apenas mais um treinador, era por si só um espectáculo dentro do espectáculo, um homem especial, um homem do futebol, que vivia e respirava o desporto-rei. Sabia interagir com a bancada, entendia a componente cénica do jogo, sabia ser teatral, enervava-se, vivia o jogo ou, pelo menos, fingia enervar-se e viver o jogo, pois sempre me deu a ideia de Robson ser um homem que actuava para uma plateia, percebendo melhor do que ninguém o que o adepto queria ver, o que o adepto procurava, o que o adepto sentia. No fundo era um entertainer. Robson adorava futebol, respirava aquela relva como se fosse a praia da sua vida e por isso entendia bem o que os outros sentiam.

E foi por isso, creio, que quando sai disparado do Departamento de Futebol a correr em direcção ao carro, com certeza já atrasado para algum almoço previamente alinhavado, pede desculpa a todos e diz que naquele dia não pode parar para autógrafos nem fotografias, “sorry, sorry, I have to hurry….pressa pressa, hoje no possível, sorry!

Robson era de facto um gentleman, um homem com pedigree e de charme irresistível, que não sabe estar mal em nenhuma situação, sempre mais elegante que os outros, mais genuíno, autêntico, carinhoso, afável, um homem que compreendia o outro, que parecia perceber o que os outros sentiam, um autêntico Sir, que era engraçado e espirituoso mesmo sem o saber ou sem fazer deliberadamente por isso.

Fiquei decepcionado, como qualquer miúdo de 8 ou 9 anos, com a saída rápida de Robson. Era o autógrafo que mais desejava e talvez por isso decidi não me dar por vencido e seguir atrás do Mister, que já subia a rampa em direcção ao seu automóvel, apressado mas dizendo adeus a toda a gente, no seu jeito gingão inglês. Até que Robson repara no miúdo que segue atrás dele, de caderno – um caderno de capa dura, amadeirado, muito pequeno, com folha de qualidade superior, oferecido pelos Avós – e caneta na mão. O primeiro impulso é pedir desculpa, “sorry kid, I can’t, it’s too late, tarde, tarde, sorry”. Mas logo depois, como se a sua consciência lhe estivesse a dizer algo como “mas vais deixar aqui a criança triste sem o autógrafo?”, gira sobre si mesmo, dá uns passos para descer a rampa, aproxima-se de mim e diz “Sorry kid”, pega na caneta, assina no caderno e faz-me uma festa na cabeça. Bobby Robson nunca esqueceu as suas origens do nordeste inglês, onde cresceu numa região mineira e onde o sentimento de pertença à comunidade é mais forte do que tudo. A sua extrema humildade saltava à for da pele, era-lhe intrínseca.

E assim, de forma rápida, deu meia volta a correr e em duas passadas alcançou o carro, saindo imediatamente depois das Antas. Este é o Robson que eu recordo, mais do que o Robson do documentário, que por acaso até negligencia, talvez em demasia, a passagem do britânico por Portugal. Para uma criança como eu, é óbvio que Sir Bobby ficou para mim como para Paul Gazza Gascoigne:

“It’s Sand, Earth and Sir Bobby”

Para finalizar esta recordação, e para provar que nada disto é fantasia ou fruto da minha imaginação, partilho uma fotografia desse dia, onde juntamente com o meu primo, me deixei fotografar logo à saída do departamento de futebol com um dos meus ídolos: o grande capitão e eterno nº2 João Pinto. Parece já que foi noutra vida, mas por incrível que pareça é mesmo a nossa vida.

Rodrigo de Almada Martins

15 março, 2019

O MOMENTUM MUDOU.


No futebol, confesso, sou de feelings. Não sou apologista de crenças adivinhatórias ou espíritas, mas sim de ler o que se passa nas entrelinhas, as declarações dos intervenientes, o jogo jogado, a forma e ímpeto dos jogadores, o momentum. E esse momentum é o que me leva às premonições, às tais adivinhas, aos feelings. Feelings, wo-o-o feelings…..

No jogo em casa, contra o principal rival, é justo dizer que não estava com boas sensações. As coisas são o que são e, de facto, o momentum do rival era superior, mais colorido e mais entusiasmante. Sentia-se no ar que a equipa que que vinha jogar ao Dragão aparecia numa boa fase, vibrante até. A derrota, em nossa casa, doeu muito e os portistas dignos desse nome certamente que dormiram mal  nas noites seguintes. Já dizia alguém que “o problema não é perder, mas sim a cara com que a gente fica”. Bem verdade.

Sucede que o momentum, esse algo indefinido mas que tudo define, mudou. Desde logo porque o FC Porto, depois dessa derrota, venceu dois jogos bastante complicados, cada um à sua maneira: frente à Roma, permitindo mais uma saborosa qualificação para os quartos-de-final da maior competição de clubes do mundo; diante do Feirense, num jogo fora de portas, perante uma equipa aflita (e todos sabemos como custa vencer equipas que estão para lá da linha de água). Pelo contrário, depois da vitória no Dragão, o nosso rival não venceu os dois jogos que disputou: Dínamo de Zagreb (derrota, fora) e Belenenses (empate, casa).

A época é longa e ainda vai no adro. Abril está a chegar e Maio, o mês de todas as decisões, ainda parece distante. Vêm aí pausa para selecções, mais jogos europeus, mais Taça de Portugal e, claro, jogos do campeonato. Só os mais fortes sobrevivem, diz o lema. E Abril e Maio aí estão para o provar. As pernas, essas, vão pesar, as lesões vão reaparecer, o cansaço acumulado vai originar cansaço mental, os treinadores serão postos à prova e, a dada altura, terá que haver cedências, fazer opções, tomar decisões.

O rival, parece-nos, já as fez, apostando tudo no campeonato nacional. Tem ainda uma meia-final da Taça de Portugal para jogar, onde o rival Sporting tudo fará para salvar o que lhe resta da época. O FC Porto, esse, irá a Braga com a eliminatória praticamente ganha, mas convém não deixar o adversário galvanizar-se durante os – longos – 90 minutos (vide Atlético Madrid em Turim).

Sucede que o empate frente ao grupo comandado por Mestre Silas – a propósito: grande trabalho deste treinador ao leme de um clube que já não se sabe bem no que se transformou e que por si só mereceria uma crónica em separado – veio alterar todas as previsões e análises feitas. Com efeito, depois da vitória no Dragão, um empate caseiro frente ao Belenenses acaba por vir provar a imaturidade e falta de estaleca da equipa de Lage. As contas fazem-se no fim, a verdade é que o rival segue na frente e que se o campeonato terminasse hoje, o FC Porto não seria o campeão nacional.

Mas não há sombra de dúvida de que este empate fez soar os alarmes na segunda circular e na comunicação social deste país: afinal ainda há quem lhe resista, ainda há quem vá a luz e não leve 10x0, ainda há clubes dispostos a lutar por pontos contra o nosso rival. E essa é uma boa novidade, pois até aqui assistimos a um passeio de Bruno Lage, sem dificuldades de maior e em ritmo de passeio. Mas algo parece ter mudado, não sabemos se se trata das lesões, do cansaço acumulado, da pressão de ir na frente, mas de repente temos algo a que nos agarrar. Que ninguém nos diga que é impossível, porque não é. Já não somos os favoritos a vencer o campeonato, isso é certo, mas vamos vender cara a derrota. E esse é o maior capital que atribuo a Sérgio Conceição: a incapacidade em desistir, em garantir que todos dão o extra-mile, a certeza de que não restarão gotas de suor para expelir, a plena noção de que ali está um bando de guerreiros que não baixa os braços. Este Porto vai à luta e tem estofo e espírito de campeão, não se rende com facilidade.

E é a isto que temos que nos agarrar. Não é muito, bem sei, mas é alguma coisa. O momentum mudou, os benfiquistas já não entram nos escritórios de peito feito e com piadolas básicas, as nuvens deslocaram-se e compete ao FC Porto aproveitá-las. O mundo muda rapidamente e no futebol não é excepção. Temos que fazer a nossa parte e esperar que os outros não tenham estofo de campeão. Porque e isto é escamoteável, os campeões somos nós, o FC Porto. É a isso que nos agarramos.

Rodrigo de Almada Martins

01 fevereiro, 2019

A ANGÚSTIA DO PENALTY - UMA TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO.


Poeira assente, já é tempo de falar abertamente de mais uma Taça da Liga perdida pelo FC Porto (a terceira). Quem acredita em maldições, deve parar de ler imediatamente aqui. Quem, como eu, acredita que o nosso clube perdeu por culpa própria e devido a razões específicas, é convidado a prosseguir.

É verdade que a história dos penaltis já cansa, sendo que o saldo final se traduz em títulos perdidos. O maior erro do FC Porto nos últimos anos é, quanto a mim, o de não ter optado por definir um batedor específico das grandes penalidades, que não ande ao sabor de modas e correntes, sujeito aos delitos de opinião da massa adepta e aos da sua própria consciência mal falhe o primeiro penalti. Se repararmos nos nossos maiores rivais, eles têm batedores estabelecidos: Jonas de um lado; Bas Dost de outro. Se olharmos a nível internacional, por exemplo, Cristiano Ronaldo é o batedor oficial incontestado das suas equipas.

Este dado conta bastante e desde Jackson Martinez que o FC Porto não tem um batedor oficial digno desse nome. Todos os outros parecem oscilar ao sabor do vento e em função dos treinos da semana, conforme o próprio Sérgio Conceição explicou para mostrar o porquê das escolhas (Telles, Militão, Hernâni e Felipe).

Fica a ideia, desde logo, que ficaram de fora os jogadores que naturalmente melhor relação têm com o remate e, consequentemente, com o golo: Brahimi, Corona (substituído), Oliver (substituído), Herrera, Marega, Fernando Andrade, entre outros.

No lado leonino, pelo contrário, os batedores foram mesmo os homens da linha avançada: Dost, Nani e Bruno Fernandes, sendo que o homem da defesa (Coates) foi o único a falhar. A estatística não mente. Há, além disso, o lado psicológico: Dost foi o homem que bateu a penalidade aos 90 minutos do tempo regulamentar e foi o primeiro, uma vez mais, a assumir a responsabilidade quando se partiu para o desempate por esse meio. Há ali uma hierarquia bem definida, que ninguém contesta e que confere uma organização e tranquilidade à equipa.

O facto do FC Porto constantemente alterar os seus batedores e colocar defesas centrais ou laterais a bater penaltis diz bem do nível de pânico a que o clube chegou no que à marca da grande penalidade diz respeito. A abordagem do clube já não é, pois, racional, mas mais do foro emocional. “Foram os que treinaram melhor durante a semana”. Numa semana são uns, noutra semana serão outros e assim vai a carruagem. E a estatística, curiosamente, corrobora a avaliação e as escolhas feitas: os avançados, quando chamados a bater, falham mais do que todos os outros.

Na meia-final da Taça de Portugal da temporada transacta, em Alvalade, o FC Porto já aí tinha optado por escolher quase só defesas para bater os penaltis: Marcano (falhou); Telles (converteu); Felipe (converteu); Reyes (converteu), Sérgio Oliveira (converteu); O FC Porto perdeu por 5x4. Uma vez mais, apenas um jogador que não é defesa foi chamado a bater. Iker estava na baliza.

Em Janeiro de 2018, mais uma derrota na meia-final da Taça da Liga frente ao Sporting. Escolhidos: Telles (converteu); Marcano (converteu); Herrera (falhou); Waris (converteu); Aboubakar (falhou); Brahimi (falhou). Iker na baliza.

Em Novembro 2016 foi a vez de sermos eliminados da Taça de Portugal em Chaves (3x1). Aí foram escolhidos Evandro (converteu); Layun (falhou); Telles (converteu); Depoitre (falhou); André Silva (falhou). José Sá estava na baliza.

Em Maio de 2016 foi a Final da Taça de Portugal, perdida diante do Braga (2x4). E note-se que essa foi a 5ª vez que o FC Porto foi chamado ao desempate de grandes penalidades na Taça de Portugal (tendo ganho os 4 duelos até essa data). Escolhidos: Layun (converteu); Herrera (falhou); R. Neves (converteu); M. Pereira (falhou). Helton estava na baliza.

Em 2014 foi a vez de perdemos a meia-final da Taça da Liga, no Dragão, frente ao Benfica. Escolhidos: Quintero (converteu); Jackon (falhou); Ghilas (converteu); Maicon (falhou); Varela (converteu); Fernando (falhou). Fabiano estava na baliza.

Em números redondos, nos últimos desempates, foram batidos 30 penaltis. O FC Porto converteu 15 e falhou outros 15, tendo um aproveitamento de apenas 50%. Optei por efectuar uma distribuição por posições de campo e por nacionalidades, à procura de alguma conclusão óbvia, conseguindo apenas descortinar que os nossos avançados não lidam bem com a pressão de bater o penalty e que Telles parece ser o nosso melhor batedor (4 penalties, 4 golos):
  • Defesas: total de 14 penaltis, 7 convertidos. Taxa sucesso: 50%
  • Médios: total de 7 penaltis, 4 convertidos: Taxa sucesso: 57% *
  • Avançados: total de 9 penaltis, 2 convertidos. Taxa sucesso: 22%.
  • Portugueses: 5 penaltis, 3 convertidos. Taxa sucesso: 60%
  • Estrangeiros: 25 penaltis, 12 convertidos. Taxa Sucesso: 48%
    * - Apenas incluídos: Fernando, Quintero, Herrera, R. Neves, Evandro, S. Oliveira e Fernando. Os outros, como Brahimi, Hernâni e Varela, foram classificados como Avançados.
Todos sabemos, é certo, que a história pesa. Por alguma coisa, o nosso rival não ganha títulos internacionais há décadas, pese embora chegar amiúde a finais internacionais. O mito de Bella Guttman serve para ensaiar umas brincadeiras, mas claramente não explica tudo. Todos sabemos porque é que o SLB perde finais internacionais: é um problema de bloqueio mental e de falta de cultura de vitória.

Para que o FC Porto não caia de forma indelével nestes mitos e fantasmas, muito ajudaria a que o clube enfrentasse o problema de frente e o quisesse de facto resolver de uma vez por todas, definindo um batedor oficial e treinando-o nos treinos todos os dias, acabando de vez com o mito de que os penaltis não se treinam. Acredito que, se a equipa começar a concretizar os penaltis que vai tendo ao longo do campeonato, consiga preparar-se de forma mais conveniente para este meio de desempate, assim ele surja. Cristiano Ronaldo não teria a estatística que tem dessa marca (131 penaltis, 83% convertidos), a menos que continuemos a acreditar na sorte ou no azar como factor de conquistas de vitórias, coisa que, aliás, é alheia à cultura de trabalho do FC Porto e ao modo de pensar dos adeptos portistas.

Longe vão os tempos em que Lucho Gonzalez (85% de taxa de sucesso no Porto) e Hulk (82% em toda a carreira) assumiam a responsabilidade de todos os penaltis do clube, levando a que a margem de aproveitamento dos mesmos fosse muito superior aos dias actuais. Segundo dados do Transfermarket, que não podem servir de grande avaliação, porque incluem épocas onde não há desempates por grandes penalidades, é esta a estatística geral de aproveitamento:


Esta época está a ser, assim a pior ao nível do aproveitamento. O quadro parece ainda sugerir que a selecção de um especialista e a não dispersão dos penaltis por vários batedores ajudam a subir os níveis de sucesso.

Outro ponto que também merece atenção é a utilização dos guarda-redes de forma rotativa nas várias taças. Percebe-se que o treinador não queira colocar o nº 1 a fazer todos os jogos da época, sob pena de perda de motivação dos segundo e terceiro keepers. Mas a verdade é que esse critério tem custado títulos ao clube, já desde a famosa utilização de NES em detrimento de Baía numa Final da Taça de Portugal, diante do Benfica, a poucos dias da Final de Gelsenkirschen.

As opções escolhidas são de respeitar, obviamente, mas não chamem a sorte ou o azar para esta equação, pois ela nada tem a ver com a anormal quantidade de discussões perdidas da marca de grande penalidade. Perdemos por incompetência e continuaremos a perder se não nos debruçarmos sobre o problema com intenções de o resolver.

Rodrigo de Almada Martins

02 janeiro, 2019

LEVEI O MEU SOBRINHO ÀS ANTAS!


Levei-te às Antas, tinhas acabado de fazer 5 anos. Comprei-te os bilhetes com antecedência, pois sabia que a probabilidade dos mesmos esgotarem era grande. Sabes que, em 2018, jogos às 15:00 da tarde não são frequentes. Normalmente joga-se às 20:00 ou às 21:00 e é por isso que nunca te levei antes ao futebol, porque a essa hora estás invariavelmente a dormir.

Fomos-te preparando para o grande dia durante a tua pausa no infantário para Natal. Tudo gerido com pinças, para que à última hora não começasses a chorar e dissesses que só ias ao futebol se os pais fossem também.

Chegado o grande dia, fomos almoçar a tua casa e, mesmo antes de sairmos, fui eu que te vesti: camisola – oferecida por mim quando fizeste 3 anos e que ainda te serve – e calções do Porto, como manda a lei, tal como o indispensável cachecol e uma bandeira de plástico que disseste ser para abanar durante o jogo.

Lá te colocamos no banco de trás, apertamos-te o cinto da cadeira dos pequenos e seguimos VCI fora rumo ao Dragão. Ias lá atrás, entretido com um dos nossos telemóveis, a cantar a tua preferida “O Porto é uma nação”, mas a despertar curiosidade, conforme te indiquei, para o Hino e a Marcha do FC Porto. Ao ver-te, recordei as tantas vezes em que me sentei no banco de trás do Renault 19 – de cor rara, azul à Porto, porque será? – dos meus Avós a caminho das Antas. Ao cabo de 25 anos, afinal de contas, o mundo mudou muito, mas talvez não tenha mudado tanto assim.

Como sempre, estaciono o carro em São Roque, no Jardim da Corujeira. Ao saíres do carro, provocas-me e dizes que o meu carro é do Sporting, por causa do leão da Peugeot à frente. Atravessamos o jardim e o futebol começa então a maravilhar-te. Atiras a primeira pergunta: “Oh Tio, estas pessoas todas são do Porto? Não acredito que sejam todos do Porto”. Parece incrível, sim, mas são. Todos eles, tal como tu, são portistas.

Defronte do antigo matadouro do Porto, um senhor de idade passa por ti e engraça contigo, ao ver-te todo vestido a rigor. Diz-te que espera que no final venhas a abanar o cachecol e faz-te uma festa. Não respondes e ficas a olhar para o senhor e, quando ele desaparece, explicas: “Não devemos falar com estranhos na rua, pois não?”. Explicamos que estás correcto, sim, mas que se estiveres com os teus pais, tios ou avós, podes falar sem problema.

Sobes com alguma dificuldade o caminho todo até ao Dragão, em especial aquelas escadas junto ao Museu onde há uns meses também te levei. É normal, as escadas são íngremes e as tuas pernas ainda são pequenas. Finalmente estamos na fila para entrar no estádio e constato que tens sorte na estreia: um dia de sol em pleno Dezembro, sem frio nem vento, estádio cheio de famílias felizes por poderem ver os craques a horas decentes.

Quando passas os torniquetes, parece-me, sofres o primeiro impacto. A tua Titi tem que ir para outra fila, para a revista exclusiva de mulheres, a multidão aglomera-se na entrada do estádio, a confusão aumenta, tens que te soltar da minha mão durante a revista e o segurança de serviço até te dá um pequeno empurrão para entrares no estádio. Não estás habituado a estas multidões e ficas com o olhar um pouco assustado, à procura da Titi, mas cedo te recompões e voltas ao estado de deslumbramento inicial.

Ao desceres pela primeira vez as escadas da bancada, vislumbras ao fundo o relvado, verde, brilhante, lindo como não há. Pego em ti ao colo para que possas ver melhor todo o esplendor daquele espectáculo pois afinal de contas nunca mais vais entrar pela primeira vez num estádio. Quando te sentas, apontas para uma das arquibancadas, com olhar maravilhado e perguntas se aqueles que estão lá em cima também são do Porto.

Os jogadores estão quase a entrar e tu segues as instruções do speaker, ora levantas as cartolinas, ora abanas a bandeira, ora esticas o cachecol. Não se pode dizer que estejas eufórico, antes estás algo entre o maravilhado e o assustado, incapaz de perceber bem o que fazem ali tantas pessoas juntas. De repente perguntas-me se o Iker Casillas vai jogar, respondo-te que sim e ficas como que mais descansado, como se percebesses a real importância do Iker na nossa equipa. Entretanto toca a tal música do Porto é Uma Nação e pego-te ao colo para que vejas todo estádio a cantar a mesma letra que tu cantas com os teus amigos no infantário.

O jogo começa e tu ora alternas entre o meu colo e o colo da Titi. Tentas seguir a partida, mas o espaço visual é demasiado grande para a tua idade e a tua natural falta de foco. Ora te concentras na bola, ora no jogador que cai, ora na mascote Draco, ora nas bancadas que se erguem como escarpas diante dos teus olhos.

Entretanto o Rio Ave marca e tu tentas acalmar-me: “Tio, nós sabemos que o que importa é participar, não é? Não tem mal não ganhar!”. Pese embora os olhares da tua Tia, tenho que te dar a primeira lição de portismo: Manel, ganhar é importante! Ainda antes do intervalo, o Porto dá a volta ao resultado e pego em ti ao colo nos dois golos do Porto, para que cantes e grites comigo o nome dos craques e as músicas de vitória. Ficas, uma vez mais, entre o maravilhado e o assustado com o barulho que sai do Covil do Dragão.

Chega o intervalo e já estás extenuado. Perguntas se já acabou o jogo e nota-se que os olhos já te pesam. Claramente emoções a mais para um dia só e para um coração tão pequeno. As pipocas ao intervalo ajudam-te a aguentar a segunda parte, entre milho e açúcar. O jogo termina e perguntas se o Porto ganhou. Claro que ganhou!

No trajecto de regresso ao carro, estás completamente derreado e já caminhas mais lento, mais pesado, com as pernas a darem de si. Ainda mal entraste no carro e já caíste de maduro, como se costuma dizer. A tua tia e eu fazemos a viagem com o rádio baixinho, devagar e a conversar em surdina, não vás tu acordar. Pegamos-te ao colo e vamos pôr-te de novo em casa, onde a tua Mãe, que carrega a tua irmã na barriga, te espera. Durante uns momentos não dizes nada e parece que vais voltar a adormecer, mas aos poucos lá vais recuperando e, antes de eu me ir embora, ainda me dizes que gostavas de voltar a ir ao Dragão.

Entretanto, sou eu que te tenho que agradecer, pois foi por tua causa que, ao final de mais de 8 anos, a tua Tia finalmente lá aceitou um convite meu para vir ao futebol. E apesar de não o confessar, tenho a certeza que gostou tanto como tu!

Obrigado, Manel!

Rodrigo de Almada Martins

04 dezembro, 2018

MILITÃO – CENTRAL PARA MARCAR UMA DÉCADA.


Chegou e pegou de estaca. Chama-se Éder Militão e é do FC Porto. Com apenas 20 anos, já fez com que um comentador da nossa praça dissesse “Militão a cavar a falta, com toda a sua experiência”, rindo-se depois e explicando que o jogador era jovem, mas parecia um veterano. Parece brincadeira, mas não é: o brasileiro é de facto um central experiente, manhoso, com muitos jogos nas pernas.

Militão é, para mim, o melhor reforço do FC Porto dos últimos 7 anos, ao nível de jogadores como Hulk, James ou Falcao. Representa o regresso do clube ao modelo de contratações que o fez dominador  depois dos anos 90: contratar promessas sul-americanas a despontar e vendê-los em ponto de rebuçado, por muitos milhões, aos gigantes da velha Europa.


O modelo, não isento de riscos – vide casos de Reyes e Quintero – permite dotar a equipa de jogadores claramente diferenciados do ponto de vista de qualidade individual e garantir vendas profícuas. O problema está no risco associado a este tipo de contratações, cada vez mais dispendiosas, o que implica uma alavancagem maior e uma margem de lucro necessariamente inferior.

Com Militão pode dizer-se que o FC Porto acertou em cheio. A sua experiência, posicionamento, capacidade no jogo aéreo, velocidade para ir buscar bolas nas costas e agressividade nos duelos individuais quase já fizeram esquecer Iván Marcano, o outrora patrão da defesa que continua a aquecer os bancos de suplentes italianos.

É verdade que Militão teve o caminho facilitado para o sucesso: por um lado, Diogo Leite, bastante jovem, tem ainda um longo caminho a percorrer para se afirmar como titular de uma equipa principal como o FC Porto, visto que a diferença de andamento dos escalões jovens portugueses para o primeiro ano de sénior é verdadeiramente abissal; por outro, a lesão de Mbemba impediu o congolês de confirmar as credenciais com que chegou de Inglaterra. Assim, o brasileiro aproveitou a luz verde que o destino lhe concedeu e agarrou a oportunidade de forma aparentemente fácil e sem complexos, apenas ao alcance dos predestinados.

Militão não é apenas um bom central ou um grande central, entendamo-nos. Militão é “o” central brasileiro que o Brasil espera há vários anos, depois dos relativos fracassos que foram David Luiz, Thiago Silva e Marquinhos e da distracção histórica que foi deixar Pepe adquirir a nacionalidade portuguesa. Militão é um diamante não apenas pelo que joga, mas porque efectivamente pode ser o melhor central brasileiro dos últimos anos, com o necessário reflexo na sua cotação de mercado. Acredito mesmo que Militão pode ser o central da canarinha para a próxima década. E todos sabemos a força da chancela escrete no mercado europeu. Numa outra perspectiva, o seu companheiro de zaga, Felipe, apenas teve que apanhar a carruagem e pode muito bem alcançar um lugar no 11 brasileiro à boleia do seu compatriota.

O FC Porto só tem a ganhar com a vinda de Militão. Pode assegurar 1 ou 2 anos de uma defesa com um patrão inequívoco, pode permitir um grande encaixe financeiro, pode voltar a trazer para o FC Porto o epíteto de celeiro de centrais da Europa ou fábrica de centrais do Velho Continente. Não podemos prever quanto tempo Militão vai ficar no FC Porto, mas podemos estar certos de que, enquanto aqui estiver, teremos um patrão à moda antiga. Aproveitemos Militão, pois então!

Saravá!

Rodrigo de Almada Martins

17 novembro, 2018

SÉRGIO CONCEIÇÃO – LEGADO, MÍSTICA, PATRIMÓNIO GENÉTICO.


Depois de quatro anos sem ganhar, era mais ou menos consensual que o FC Porto precisava de algo que rompesse com o passado recente, algo que mudasse radicalmente a forma como as suas equipas se apresentavam em campo, a capacidade mental com que iam para jogo, o compromisso, a capacidade de abrir as defesas contrárias, a mentalidade em momentos adversos do jogo, a resposta dos jogadores perante arbitragens encomendadas. Havia que devolver às equipas do Porto a máxima pedrotiana do clube: entrar em campo, todos os jogos, para ganhar.


Lopetegui e NES eram treinadores abnegados e competentes, mas aos quais faltava claramente qualquer coisa, fosse o conhecimento detalhado daquilo que é o futebol nacional, fosse aquela coisa etérea a que os azuis-e-brancos chamam de mística. Por uma razão ou por outra ficava sempre a sensação de que as nossas equipas falhavam nos momentos decisivos e que, por outro lado, também não faziam tudo o que estava ao seu alcance para atingir os objectivos propostos.

O termo Penta travestido de vermelho corria o risco de claramente pôr fim a um ciclo de 35 anos em que o FC Porto foi claramente dominador no panorama futebolístico nacional. Seria algo com que os portistas dificilmente conseguiriam lidar, habituados que estavam a dizer, vaidosamente, que todo o mundo tenta, mas só o Porto é penta.

Sérgio Conceição, homem da casa, entra no clube no momento mais difícil dos últimos anos, mas também paradoxalmente no momento ideal. Creio seriamente que, no ano transacto, fruto do caso dos e-mails levantado em horário nobre no Porto Canal logo depois dos festejos do tetra benfiquista, o FC Porto iniciou a época 17/18 com 3 pontos de avanço sobre o seu rival directo. Do ponto de vista psicológico, o então campeão iniciou a época algo fragilizado, atormentado e acossado pelo que vinha sendo colocado na imprensa e visto na posição de se ver questionada a veracidade dos títulos conquistados nas temporadas recentes.

Por outro lado, no plano interno, Sérgio Conceição herdava um Mar Azul em crescendo, fruto de uma união surgida últimos meses do mandato de NES, como reacção às escandalosas arbitragens desse final de temporada. Pese embora não ter sido suficiente para alcançar o título, notava-se que algo estava ali a nascer, a despontar: era o tal Mar Azul, ainda envergonhado, mas claramente a salivar por alguém que o potenciasse.

E essa maximização do Mar Azul dá-se com um nome: Sérgio Conceição. Qual cavaleiro salvador, vindo de França para auferir salário consideravelmente menor, regressa a casa o filho pródigo.

Sérgio Conceição não foi apenas mais um jogador do FC Porto. O clube teve vários ex-jogadores que seguiram carreiras profissionais de treinador, mas nem todos têm aquele clutch necessário para treinar o clube. Sucede que o perfil de Sérgio-treinador é exactamente igual ao perfil do Sérgio-jogador: raça, ambição, ódio pela derrota, mau feitio. No fundo, um estilo muito portista de antes quebrar que torcer, de comer a relva.

E aqui entra a importância do contexto histórico de Conceição no Porto. Sérgio carrega consigo o legado de vitória do FC Porto, a génese pedrotiana por excelência. Não é por acaso que a sua cultura de balneário e de união do grupo de trabalho tem tanta importância com SC, ela deriva do valor que António Oliveira dava a isso nas Antas. E não nos podemos esquecer de que Oliveira foi o discípulo por excelência do Mestre Pedroto.

A mentalidade que impregna nas suas equipas, o crescimento que fomenta em cada jogador, a capacidade de união do grupo de trabalho, os dotes comunicacionais agressivos e directos, sem medo da imprensa e sem papas na língua, nem necessidade de agradar a empresários, são tudo características que são dele, mas que podiam também ser de Oliveira ou de Pedroto.

Uma postura de independência, mesmo dentro do próprio clube. E isso, com o Presidente ao leme, não se pode dizer que seja fácil de conseguir. Por isso o disse, no final da época passada, que era curioso ninguém ter reparado que este foi o primeiro título azul-e-branco em que o treinador foi mais aplaudido que o próprio Presidente. E isso nunca aconteceu, nem com Mourinho, nem com Villas-Boas, que até lograram feitos maiores.

Não é por acaso que Sérgio Conceição ganha duas vezes seguidas nos Barreiros, nem é por acaso que SC se mostra tão compenetrado na Taça da Liga. Nem é por igual acaso que SC criou a tal roda no final dos jogos. Há um conhecimento profundo do clube, da sua essência, das suas guerras e dos seus infortúnios, dos seus auspícios e das suas desgraças, dos seus dramas e manias, que gera uma transcendência naquilo que SC representa para o FC Porto.

SC pode não ser o melhor treinador que já passou pelo FC Porto – e para mim não é: tem que melhorar consideravelmente na questão do controlo do jogo. As suas equipas são montadas e estruturadas de base para dominar as partidas, mas não para as controlar. Falta-lhe ainda fazer o trajecto de Sevilha até Gelsenkirschen, a tal mudança de chip que permitiu a Mourinho deixar de ter apenas uma equipa que praticava um grande futebol para uma equipa manhosa que controlava todos os momentos de um jogo de futebol. A primeira equipa ganha uma Taça UEFA, mas só a segunda consegue vencer uma competição como a Champions.

SC tem ainda um longo caminho no sentido de poder transformar a sua equipa numa máquina controladora dos adversários, mas já é desassombradamente um treinador que marca uma era.

Daí que, creio, o FC Porto tem aqui a oportunidade de ouro de perceber que os grandes treinadores se fazem com uma cultura e um berço portistas. Desenganem-se, pois, aqueles que pensam que Cruyff, Rijkaard, Guardiola e Luis Henrique tiveram sucesso no Barcelona apenas porque sim; foi ao contrário: foi o Barcelona que teve sucesso neles. Há várias formas de ganhar, é certo, tanto com Jesualdo Ferreira, como com Carlos Alberto Silva. Mas é mais fácil e mais intuitivo fazê-lo quando se contrata alguém que conhece a génese do clube, seja ele um Oliveira, um Villas-Boas ou um Sérgio Conceição.

No caso de SC, o caso é ainda mais gritante, visto que SC acabou por ser um dos substitutos do grande capitão João Pinto, tabelando com Capucho na ala direita do ataque portista. SC sabe o que eram as Antas, o seu significado e tem noção daquilo que é preciso fazer dentro de campo – muito mais que os outros! – para que o FC Porto saia vencedor.

O perfil de SC, a sua cara franzida, a sua têmpera e o seu olhar intimidador fazem parte desse património genético azul-e-branco e aproximam-no como nenhum outro da massa associativa. Daí que a média de espectadores de 45 mil pessoas por partida só possa surpreender os incautos ou distraídos.

O futebol é cada vez mais um negócio, é certo. Mas mesmo os negócios não vivem sem as pessoas, que vibram e, em última análise, pagam o negócio. E os portistas precisam como de pão para a boca de referências, de gente sua nos cargos, no fundo de gente como nós. Treinar todos treinam, treinar com mística, com cultura, com mentalidade, só alguns.

SC é o porta-estandarte da mística portista hoje em dia e seria atinado montar um projecto de futebol para o futuro em torno desta linhagem e desta mentalidade. Só assim o FC Porto pode continuar próximo dos seus adeptos e das suas gentes. E, paradoxalmente, isso significa também estar mais próximo das vitórias e dos troféus.

Rodrigo de Almada Martins

10 novembro, 2018

UM OBRIGADO A ESQUERDINHA.


A semana passada trouxe-nos uma má notícia: a morte de Esquerdinha. A maioria dos portistas, provavelmente, apenas viu Esquerdinha num campo de futebol, a partir das duras cadeiras das bancadas ou do conforto do sofá. Acontece que quando se segue um clube de futebol, afeiçoamo-nos de tal forma aos jogadores e àqueles que suam a nossa camisola, que sentimos estas perdas como se fosse alguém da Família. E no fundo é disso mesmo que se trata: Esquerdinha era alguém que pertencia – e pertencerá sempre – à grande família portista.

Daí que todos recordassem Esquerdinha com carinho e saudade, ele que também fez parte da Penta-epopeia. Era um defesa-esquerdo que marcava bem o seu opositor, mas que não se coibia de ir ao ataque assistir os companheiros. E que assistências! A dada altura, Esquerdinha + Jardel = GOLO!

O brasileiro era um jogador inconfundível e carismático, de feições amazónicas e um corte de cabelo que não deixava ninguém indiferente. Na retina, ficam grandes exibições de dragão ao peito, nomeadamente uma na qual enfiou no bolso mais pequeno o então melhor jogador do mundo: Luís Figo.

Chegou ao FC Porto vindo do Vitória da Bahia para colmatar a lacuna da lateral-esquerda, quando Fernando Mendes já acusava o peso da idade. Depois disso, enfrentou a concorrência de Rubens Júnior, atleta mais dado à noite do que propriamente a actividades diurnas. Quando foi transferido para o Saragoça, o FC Porto foi buscar Mário Silva ao Boavista para o substituir.

Esquerdinha deu continuidade e incentivou a tradição portista de recrutar laterais-esquerdos em terras de Vera-Cruz, senão vejamos: Branco, Esquerdinha, Alex Sandro e Alex Telles. Desde cedo, encantou a massa associativa azul-e-branca, que sempre apreciou jogadores combativos e atleticamente possantes. Daí à titularidade absoluta e incontestada foi um pequeno passo, com grandes golos de bola parada pelo meio. Em três épocas realizou 87 jogos e fez o gosto ao pé por 9 ocasiões. Conquistou um Campeonato, duas Taças de Portugal e uma Supertaça.

O FC Porto fica mais pobre e o Penta vê partir mais um dos seus intérpretes, depois de Rui Filipe, Victór Nóvoa e Miklós Féher.

No Céu teremos mais um portista a torcer por nós. Obrigado, Esquerdinha!

Rodrigo de Almada Martins

19 outubro, 2018

O CENTRALISMO LISBOETA ATACOU: INFARMED, PGR, IPDJ E STJ.


PREÂMBULO
O FC Porto é um clube de dimensão internacional, mas de cariz marcadamente portuense e nortenho. Se isso é ser bairrista, sejamos pois um clube bairrista. O FC Porto é ainda, por direito próprio, uma força regional poderosa, que assenta a sua existência numa luta arreigada contra o poder central lisboeta e contra a burocrática máquina estatal, que existe para servir a oligarquia de sempre.
Os Actos enunciados abaixo são ataques à cidade do Porto, ao Norte do País e, consequentemente, ao FC Porto. Não os poderemos deixar passar sem o necessário ataque feroz e violento, tão típico das gentes da cidade Invicta, orgulhosas por direito próprio do seu passado, presente e futuro.


ACTO I - INFARMED
Conforme todos prevíamos, o INFARMED não vai transitar para a cidade do Porto. António Costa bem disse por 5 vezes que a sua decisão era para avançar e que o organismo que regula o sector farmacêutico iria mesmo rumar ao Norte do País.
Infelizmente não nascemos ontem nem anteontem e conhecemos o país que temos. Houve aliás portuenses, como Paulo Baldaia, conhecido jornalista da nossa praça, que se manifestaram muito preocupados com esta putativa mudança, dizendo que a descentralização “não se faz assim” e que “é preciso ter cuidado com os trabalhadores”. Paulo Baldaia esquece-se que pertence ao sector que, curiosamente, mais tem sido brindado com mudanças forçadas para Lisboa – o sector da comunicação social, outrora forte e pujante na cidade do Porto e que hoje apenas apresenta 2 ou 3 redacções (pequenas) para amostra.
Depois da decisão do Governo ter sido suspensa, fica muito bem bater no peito, inchar de orgulho e dizer que o Porto não precisa do INFARMED para nada. De facto não precisa, o Porto pode bem viver sem o INFARMED, mas que fazia jeito, lá isso fazia. O interesse da medida não seria albergar meia dúzia de funcionários deste regulador, mas sim atrair a poderosa indústria farmacêutica, criadora de mais-valia e com mão-de-obra altamente qualificada.
Os detractores desta medida avançam que “as coisas não se fazem assim” e que “Viseu e Beja necessitam muito mais”. Não podia estar mais de acordo. Mas se as coisas não se fazem assim, fazem-se como? E se não vão para Viseu nem para Beja e, pelos vistos, nem para o Porto, vão para onde então? A resposta é simples: não vão para lado nenhum e continua tudo em Lisboa.
A questão é política e em política não gosto de me meter, mas se com o INFARMED não se conseguiu nem mover um só departamento, alguém crê que algum dia neste país se vai colocar o Ministério da Agricultura em Évora, o Ministério da Ciência em Braga ou o Ministério da Educação em Coimbra?
O problema do centralismo em Portugal, conforme defendo há muitos anos, só se resolveria com uma medida semelhante à brasileira: retirar o estatuto de capital a Lisboa e colocar esse epíteto noutra cidade qualquer. Tudo o resto serão apenas tentativas vãs e panfletárias de “descentralizar”. O centralismo indígena é endémico e não se resolve com meias medidas: ou vai à bruta ou não vai.

ACTO II - PGR
Os argumentos de ambos os lados são poderosos e, de um ponto de vista meramente formal, o meu entendimento é de que o mandato do PGR não deve ser renovável, sob pena de estar dependente de vontades políticas e de o mesmo se ver pressionado a agradar a uns e a outros com vista à renovação do seu mandato. No entanto, resulta claro que a lei não é taxativa e de facto, deixa ao PR e ao PM a decisão de renovar ou não o mandato. Marcelo e Costa teriam pois actuado dentro da lei se tivessem reconduzido Joana Marques Vidal.
Falei acima de um ponto de vista meramente formal. Ora, sucede que estas avaliações carecem sempre da necessária avaliação factual dos acontecimentos. E aqui discordo frontalmente de Pedro Bragança, conhecido portista da nossa praça que se manifestou a favor da substituição da Procuradora. É que essa avaliação prática é arrasadora no sentido de que foi um erro não reconduzir a ex-PGR Joana Marques Vidal no cargo. É óbvio que se os anteriores Procuradores Souto de Moura e Pinto Monteiro tivessem realizado trabalhos meritórios, esta questão não se colocava. Mas sabemos que o historial dos anteriores PGR’s envolve almoçaradas com ex Primeiros-Ministros alvos de investigações por parte do MP, assim como presenças em apresentações de livros desses mesmos ex-PM’s. O cadastro não é, assim sendo, recomendável.
Daí que entenda que o mandato de Joana Marques Vidal muda por completo o paradigma da justiça portuguesa e estabelece mesmo novos standards para os seguintes titulares do cargo. A ex-PGR aproximou os cidadãos da justiça e mostrou que os intocáveis passaram a ser finalmente alvo da actuação do Ministério Público. Muito mais poderia Joana Marques Vidal ter feito – e Tancos, mesmo no crepúsculo do seu mandato é prova disso mesmo – assim lhe tivessem dado mais tempo – leia-se outro mandato.
Como disse, por princípio, sou contra a renovação dos mandatos dos PGR’s. Mas o Direito ensina a tratar igual o que é igual e diferente o que é diferente. E Joana Marques Vidal rompeu com a anterior prática dos PGR’s, que era a de deixar os poderosos sossegados, fossem eles políticos, banqueiros, militares ou clubes de futebol.
Dizendo isto, a não prorrogação do mandato da anterior PGR é uma derrota para o FC Porto e para todos aqueles que acreditam na democracia em Portugal. É, outrossim, mais uma vitória do centralismo indígena, mestre na arte de bater, misturar e deixar tudo como está. E não deixa de ser curioso que PS e PSD, que normalmente não se entendem em nada, tenham desta vez estado de acordo (quanto mais não seja tácito) quanto à substituição da Procuradora. Quando se toca na oligarquia, os oligarcas unem-se a uma só voz, indepentemente das cores.

ACTO III – IPDJ
Lê-se e não se acredita. O processo explica-se em poucas linhas e de forma resumida: Augusto Baganha era o Presidente do IPDJ e tanto se cansou de esperar que o seu Vice-Presidente Vítor Pataco finalmente se resolvesse a aplicar a necessária sanção ao SLB pelo apoio às suas claques ilegais, que decidiu avocar o processo e avançar ele mesmo com os trâmites processuais necessários e conducentes à aplicação da coima de um jogo à porta fechada ao clube lisboeta. Vai daí, o Presidente do IPDJ é demitido pelo Governo, nomeadamente pelo Secretário de Estado da Juventude e Desporto João Paulo Rebelo e, no seu lugar, por despacho, é nomeado o Vice-Presidente, tal Pataco.
Augusto Baganha explicou isto timtim por timtim, alto e bom som, para quem quis ouvir. A comunicação social escreveu pouco sobre o caso, a oposição não ligou e o circo que é o IPDJ continua a ter os seus palhaços e os seus cães amestrados.
Esta é mais uma demonstração do centralismo no seu melhor. O inédito neste caso a existência de um titular de um órgão público demitido por, imaginem só, ter aplicado a Lei. Deixo aqui, ipsis verbis, as palavras de Augusto Baganha. Para bom entendedor…

"Quando se dá a interdição do campo, eu tive de avocar o processo. Tive necessidade disso. É algo que está na competência do meu ex-colega que agora vai ser presidente, mas fui eu que tive de avocar. Ele estava retido incompreensivelmente. Havia algo a ver com o cumprimento da lei. É que não pode haver aqui entidades beneficiadas... O que é facto é que eu tive de o fazer, tive de avocar o processo, pois a lei não estava a ser aplicada"
ACTO IV – STJ
Ricardo Costa, jurista que foi Presidente da Comissão Disciplinar da Liga de Clubes durante a altura do Apito Dourado, somou asneiras atrás de asneiras no direito desportivo, do qual devia ser um dos maiores entendidos.
Não precisamos aqui de referir em que é que estes processos desportivos resultaram, primeiro na jurisdição da FPF e depois nos tribunais civis, nomeadamante o Caso do Túnel (Hulk e Sapunaru), o Apito Final, o Túnel do Sporting de Braga (Vandinho e Mossoró) e o Caso do Boavista.
Saber que este jurista é cogitado para o mais importante Tribunal em solo nacional arrepia qualquer um. Saber que este jurista pode vir a ter um voto no STJ relativo a matérias que possam envolver a Benfica SAD, é de levantar os cabelos a qualquer um. Mais uma vez, a oligarquia mexe-se e, desta vez, sem qualquer vergonha.

Rodrigo de Almada Martins

30 agosto, 2018

OS 5 PROBLEMAS QUE ESTÃO A AFECTAR O ARRANQUE DO FC PORTO.


1. Ausência de Marcano
Uns apontam as falhas de Maxi, outros lembram a displicência de Telles. Para mim, nem uma coisa nem outra. Maxi começou a época, aliás, a todo o gás, enquanto que Telles é somente um lateral de calibre selecção brasileira. O maior problema tem dois nomes: Ivan Marcano. Todos os grandes centrais do FC Porto – e eles foram ENORMES – afirmaram-se já depois dos 24 anos.
Estava nas Antas quando vi a estreia desastrosa de Ricardo Carvalho, com as nossas cores, oferencendo um golo de bandeja a um avançado adversário. Viria a ser o melhor defesa do mundo (o melhor de sempre na Premier League), mas naquele dia ainda não estava preparado. Jorge Costa andou por vários empréstimos antes de chegar ao FC Porto e, mesmo quando teve lugar no plantel, suportou ser uma segunda escolha, atrás de Aloísio, Couto e José Carlos. Pepe era fortemente assobiado nos inícios de Dragão e Bruno Alves, também ele, demorou bastante a afirmar-se de azul-e-branco. Dizendo isto, Diogo Leite tem todas as qualidades para ser um central à Porto, mas ainda tem que amadurecer.
Felipe é um grande central, mas vemos hoje que o líder da defesa era claramente Marcano, central rodado, experiente e que, sem necessitar de chamar a atenção, limpava a área com categoria e eficácia.

2. Falta Músculo a meio-campo
O Porto de Conceição é capaz de passar 80% dos jogos a atacar e a carregar nos adversários. No entanto, nenhuma equipa no mundo pode dispensar um verdadeiro carregador de piano. Isso ficou bastante claro desde aquela mítica saída de Makelelé do Real Madrid. O clube madrileno aprendeu isso e hoje em dia não dispensa Casemiro à frente da defesa. O Barcelona não admite vender Busquets. O City de Guardiola utiliza Fernandinho, o Bayern joga com Javi Martínez. O FC Porto, fruto da difícil lesão de Danilo, joga com dois médios box-to-box, mas que não apresentam, nenhum deles, as normais características de um trinco.
Mesmo a nível de cultura FC Porto, o chamado trinco que protege a zona defronte dos centrais assume já uma importância histórica. Vários nomes de eleição fizeram essa posição: Paulinho, Paredes, Costinha, Assunção, Fernando e agora Danilo.
Herrera e Sérgio Oliveira vinham dando conta do recado, mas, para um campeonato inteiro, a falta de um trinco na verdadeira acepção da palavra é dramática para qualquer equipa. A ausência do português tem até uma dupla consequência: além de não termos ninguém fadado para proteger a zona 6, temos Herrera mais preocupado em defender e incapaz de pressionar mais à frente. Assim, o regresso de Danilo poderá soltar Herrera para funções mais adiantadas, dando-lhe liberdade de pressionar e de iniciar a construção em terrenos mais próximos da baliza.

3. O Fantasma chamado Abou
No ano passado, Abou e Soares apareceram como a dupla de eleição do ataque de pré-época do FC Porto. Notava-se no camaronês uma enorme alegria em campo. Entretanto, Soares lesionou-se (tal como agora…) e Marega saltou para o 11. Nesse arranque demolidor, Abou fez quease a totalidade dos 30 tentos com que viria a acabar a época. Este Aboubakar é um jogador totalmente diferente: triste, acabrunhado, lento, de ombros caídos, sem chama, incapaz de surgir desmarcado para armar o remate. Nenhuma equipa grande resiste à ausência de um grande avançado.

4. As Lesões e a Menor Concorrência
Começar uma época sem Danilo não é fácil; ver um reforço como Mbemba chegar e lesionar-se no 1º treino muito menos; depois foi a vez de Soares, num filme já com demasiadas repetições; agora são as queixas musculares de Brahimi e Corona. Ou os jogadores estão a trabalhar pouco ou estão a trabalhar com cargas demasiado pesadas. A rever com atenção.
No ano passado, Iker teve em José Sá uma sombra. Ricardo Pereira nunca pôde descansar, pois Maxi é um profissional de corpo inteiro. Alex Telles tinha em Dalot uma alternativa mais do que viável. Felipe, Marcano e Reyes tinham todos estatuto de titulares. Danilo tinha Sérgio Oliveira a morder-lhe os calcanhares. Abou, Soares e Marega degladiavam-se por um lugar no 11. Hoje em dia, fruto de saídas importantes e de lesões, há jogadores em claro sub-rendimento e de alguma forma acomodados. Esperemos que João Pedro, Mbemba e Militão sejam opções credíveis e comecem a lutar por um lugar no 11, tal como Oliver já agora.

5. Incapacidade de controlar o jogo
Há uma diferença entre dominar um jogo e controlá-lo. Sérgio Conceição é especialista na primeira arte, mas ainda é um treinador tenro na segunda. Sou um dos maiores apreciadores do estilo de Conceição, pois veio trazer ao FC Porto aquilo que lhe faltava nos últimos 4 anos: capacidade de rasgar e dinamitar os autocarros adversários, fruto de uma maior capacidade de explosão no último terço do terreno, aliando a isso uma alma e um carácter à Porto.
Se no capítulo ofensivo, Sérgio Conceição só poderá ser comparado a Bobby Robson e a André Villas-Boas, tal é a velocidade e dinamismo que imprime no último terço do terreno, no capítulo de controlo do jogo já desde o ano passado que se notam lacunas evidentes. Este Porto só vê baliza e parece só saber divertir-se quando a ordem é atacar. Ora, uma das maiores qualidades da equipa de José Mourinho era essa mesma: ser mestre em baixar o ritmo, arrefecer os ânimos e dar o domínio do jogo ao adversário, mantendo ainda assim o controlo do mesmo. Com Mourinho a ganhar 2x0, os jogos entravam naquela toada morna, de faltas e faltinhas a meio-campo, com jogadores no chão a simular lesões, trocas de bola entre os centrais e o guarda-redes, e, de tanto sono que dava, os 90 minutos surgiam como um alívio para todos. Não era tão bonito como agora, mas era mais eficaz.

Rodrigo de Almada Martins