"Pai, contas-me uma história?"O dia já ia longo quando o pai do pequeno Afonso chegou a casa, cansado e estoirado da jornada de trabalho à qual sempre crescia uma penosa e longa hora de caminho com um trânsito intransitável.
"Está bem Afonso", assentiu o pai enquanto dava a mão ao rapazote e o encaminhava pelo corredor direito ao quarto.
"Fizeste os trabalhos da escola?"Afonso, aluno que se destacava entre os demais da turma, sabia que aquela era uma mera pergunta de circunstância, tal como o pai sabia que os trabalhos já estariam diligentemente feitos. Pelo que o rapaz, como resposta, rapidamente lhe devolvia uma preocupação que lhe atazanava as ideias:
"Olha lá pai, o que quer dizer corrupto?""Corrupto?", pergunta o pai espantando.
"Mas vocês na 1ª classe ainda não aprenderam assim tantas letras como isso. Agora deu-te para usares palavras caras?""Sabes o que foi?", continua o Afonso,
"o Luís, aquele meu colega de turma muito mais velho, filho do senhor do café, aquele repetente que já devia estar na 4ª classe, tás a ver? Diz que somos do clube dos corruptos, que é o que o pai dele está sempre a dizer, lá em casa. Eu respondi-lhe que não, que somos do clube que é tricampeão, que já foi pentacampeão, e que até é heptacampeão de hóquei. Mas ele nem queria ouvir, diz que o nosso clube ganha sempre porque somos uns corruptos, e desatou a correr pelo pátio do recreio com os dedos a tapar os ouvidos a borregar: co-rrup-tos, co-rrup-tos!", explicava o Afonso, enquanto corria pelo quarto exemplificando.

O pai ria-se com a encenação do Afonso, pegou no filho e sentou-o à cabeceira da cama. Enquanto lhe aconchegava os cobertores por cima das pernas, dizia-lhe:
"Olha Afonso, acho que hoje te vou contar outra vez a história dos três porquinhos.""Ó pai, hello! Eu já não tenho 4 anos, dah-ah!", retorquia o filho, enquanto deslizava a mão em frente a própria cara, para cima e para baixo.
"Eu sei que não, Afonso. Mas eu acho que nunca te contei tudo sobre a história dos três porquinhos.""O quê?!", os olhos do petiz Afonso agora estavam arregalados, em suspense, ansioso com algo de novo que o pai lhe reservará.
"Então era assim, há muito, muito tempo, havia numa floresta três porquinhos que já conheces. Mas o que não sabes é que cada um deles usava sempre uma cor habitual para vestir. Era o porquinho vermelho, o porquinho verde e o porquinho azul. O porquinho vermelho era aquele que já conheces, que fizera a casa de palha, e quando veio o lobo mau, bastou um sopro fraquinho e aquilo voou logo tudo pelos ares. Estás a ver qual era?""Sim.", Diz o pequeno Afonso.
"Aquele muito preguiçoso, que nunca lhe apetecia trabalhar.""Isso. Já o porquinho verde era o outro, aquele que fez a casa de madeira e a revestiu com folhas, convencido que ninguém lhe deitava a casa abaixo, pois era tão bonita tinha os paus tão bem entrelaçados, nunca se vira uma casa igual. Só que veio o lobo soprou com mais força do que era costume e a casa lá voou também.""Então o verde, esse era o porquinho da frente, o que tinha a mania que era esperto.", diz o Afonso sempre de rompo.
"Muito bem.", continuava o pai.
"Por fim havia o porquinho azul, que ao contrário dos irmãos, em vez de andar todo o dia na brincadeira, trabalhou de sol a sol, durante muitos dias, para construir uma casa de tijolos e cimento, depois veio o lobo e soprou, soprou e a casa nem se mexia. Mas o lobo era mesmo mau, e então lá se lembrou que podia entrar pela chaminé, e já sabes o que aconteceu, o porquinho azul que tinha sempre tudo pensado e muito bem organizado, tirou a tampa do panelão que estava no lume a ferver, e quando o lobo desceu pela chaminé abaixo, tchhhh! Escaldou-se todo, e fugiu logo dali a correr com o rabo entre as pernas.""Está bem, e qual é a novidade na história?", pergunta o miúdo que começava a ficar impaciente.
"Ora sucede" - prosseguiu o pai -
"que todos os anos havia uma prova, um jogo muito prestigiado na floresta, e o lobo mau conseguiu chegar a presidente do organismo que era responsável pela prova anual da floresta. O porquinho vermelho, que nunca lhe apetecia trabalhar, mas queria ser reconhecido na floresta pelo mesmo prestígio dos outros que davam ao litro e corriam o suficiente para entrar na prova, desatou a dizer a torto e a direito - quando viu que tinha ficado em último para o apuramento, e que não tinha como entrar na prova a luz dos regulamentos - desatou a dizer pela floresta que o porquinho azul, o melhor classificado de todos, só tinha conseguido estar apto porque tinha andado a dar umas bolotas deliciosas ao resto da bicharada toda da floresta e arredores. Ao lobo mau, que como sabes, nunca gostou do porquinho azul porque este sempre fora mais inteligente, organizado e capaz do que ele ao longo dos anos, agradou-lhe a conversa que o porco vermelho andava a fazer, e ainda tentou impedir que o porquinho azul participasse na prestigiada prova anual da floresta, só que mais uma vez o porquinho azul conseguiu defender-se desse tipo de bicharada ruim da floresta, e mostrar que os batoteiros e corruptos eram eles, o porquinho vermelho e o lobo mau que agora andavam amiguinhos e de mão dada. Resultado: o porquinho vermelho, mais uma vez ficou roído de inveja a ver os irmãos jogarem na prova e ele a assistir de fora, desdenhando do irmão mais velho que fez mais uma campanha gloriosa na prestigiada prova anual da floresta. Já o porquinho verde, que sempre fora muito vaidoso e tinha a mania que era esperto, até conseguiu justamente ser apurado para a prova mas, logo acabou por ser eliminado, por um cão «pastor alemão» que lhe deu 12 mordidelas no rabiosque. O porquinho azul, por muito que custasse ao lobo mau, pois que teve de engolir os sapos todos da floresta, lá foi avançando na prova e fez mais uma campanha de êxito e glória. Recompensa justa do seu empenho, rigor, e trabalho prestado."Por esta altura o Afonso sorria divertido.
"Pai! Deixa-te de tangas! Essa é a história da Champions League deste ano. Ok, já percebi onde é que o Luís e o pai dele queriam chegar..."O pequeno sossegou um pouco, reproduzia ainda as imagens da história no pensamento, ao mesmo tempo que começava a ser vencido pelo cansaço das tropelias de mais um dia intenso de rapazola de seis anos.
No entretanto, o pai apanhava a roupa do Afonso desarrumada pelo quarto. Alcança a camisola inseparável, do treino da tarde do miúdo, suada. Azul e branca listada. No peito, à esquerda, o emblema da equipa invicta sobressaltava.
O sorriso de pai babado é interrompido pela voz sonolenta do miúdo abafada pelos cobertores:
"Pai, ser portista é uma bênção..."O pai apaga a luz, o pequeno mergulhara. Afasta-se pelo corredor fora pensando:
"É, meu filho. Assim sejas em tudo mais abençoado."