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06 junho, 2009

Mais 2 anos com Jesualdo

E no final do jogo do Jamor, o tabú foi finalmente desfeito: Jesualdo Ferreira, o 'Professor do Tetra', fica mais dois anos à frente dos destinos técnicos do FC Porto. Este é um tema recorrente e já todos conhecem a minha opinião acerca do nosso treinador e a minha posição sobre a sua continuidade no Dragão. A renovação do seu contrato era o único corolário lógico para os resultados que foram conseguidos nas últimas três temporadas.

Muito se discutiu sobre esta questão. Dúvidas persistiram, numa primeira fase sobre se Jesualdo iria ou não continuar, e numa fase posterior, percebendo-se que sim, acerca do 'timing' do anúncio público. O técnico portista declarou que o acordo pessoal com Pinto da Costa já existia desde o jogo em Manchester para a Champions. Disse também que num dos momentos mais difíceis da época, antes do desafio em Kiev, o líder portista lhe havia demonstrado toda a sua confiança e apoio, independentemente do resultado que se viesse a verificar. Esta é umas das grandes virtudes de Pinta da Costa: quando sabe que o treinador é competente e tem capacidade para fazer evoluir a equipa, não vacila no suporte que lhe dá, mesmo quando a maioria das vozes pedem a sua cabeça. Quando se diz que uma das fundamentais vantagens de Pinto da Costa relativamente a outros de idêntico cargo é perceber de futebol, é mesmo verdade, sendo este um sinal disto mesmo. Percebeu que a equipa estava em reconstrução, era muito jovem a ainda estava em fase de consolidação após perder elementos cruciais do seu colectivo. Entendeu que era impossível pedir bom futebol e resultados 100% positivos no imediato. E então fez o que lhe competia, dando a mão ao treinador em vez de o deixar sozinho, assumindo, ao mesmo tempo, as suas responsabilidades de líder máximo do clube e responsável pela escolha do treinador.

Jesualdo Ferreira disse ainda que o 'timing' da comunicação pública foi apenas o final da época, pois ainda havia objectivos para conquistar antes e a equipa tinha de ser preservada. Quer-me parecer que este é um daqueles lugares-comuns tão característicos do futebol. Não vejo o que é que o facto de se saber antes que Jesualdo iria continuar pudesse prejudicar a tranquilidade do grupo de trabalho. Acho até que a figura do técnico sairia reforçada e que isso até era benéfico para a estabilidade do plantel, mas enfim, o mais importante é que a melhor decisão foi tomada. Esta equipa ainda embrionária vai poder crescer e desenvolver-se sob a orientação do seu criador, isso é o mais importante.

Após a festa da Taça, perguntámos: 'Jesualdo Ferreira renovou contrato com o FC Porto por mais 2 anos. Concordas?'. Lembro que numa das recentes sondagens aqui do burgo, ainda havia uma significativa percentagem (25%) de portistas que fazia depender a sua opinião favorável à renovação da conquista da Taça de Portugal. Pois bem, conquistado esse troféu, eis que a votação diz, de forma demolidora, que a renovação de 2 anos é justificada. Quando todos - eu incluído - aguardavam que o novo contrato fosse de somente um ano, é anunciado um vínculo de 2 anos. Pela minha parte, concordo plenamente, não só com a continuidade, como também com a duração de 2 anos. Registaram-se 61 votos e os resultados são os seguintes: 58 (78%) disseram 'Sim, é justo e merecido', 12 (16%) afirmaram 'Em parte, 1 ano sim, 2 não' e apenas 4 (5%) declararam 'Não, nem 1, quanto mais 2'. Esclarecedor!

29 maio, 2009

Em Busca da 'Dobradinha'

Domingo, o FC Porto jogará mais uma cartada decisiva na presente temporada, com a disputa da final da Taça de Portugal, no Jamor. O Paços de Ferreira, orientado pelo jovem Paulo Sérgio e que alcançou a meritória 10ª posição na Liga Sagres, é o adversário. A confiança reina entre os adeptos portistas, como é disso demonstrativa a mais recente sondagem aqui realizada. 122 pessoas responderam à pergunta 'O FC Porto conseguirá vencer a final da Taça de Portugal e consequente dobradinha, no dia 31 de Maio?' e os resultados são, como era esperado, avassaladoramente favoráveis aos 'dragões'. 117 (96%) portistas pensam que 'Sim', 5 (4%) infiltrados acham que 'Não'.

Estou obviamente muito confiante numa boa vitória e em mais uma festa de arromba, na sequência das comemorações inolvidáveis do Tetra. O FC Porto é muito mais forte, possui argumentos individuais e colectivos mais que suficientes para derrotar os pacences. No entanto, as surpresas são frequentes no futebol, muito mais numa competição como a Taça de Portugal, onde elas acontecem ainda mais vezes. A turma de Jesualdo Ferreira terá de se apresentar com a máxima concentração e sem, em nenhum momento do jogo, menosprezar o seu oponente. Esperemos que o fervor das festividades vividas tenham, pelo menos, acalmado, uma vez que a repetição da atitude displicente da última partida do campeonato, frente ao Braga, não é aconselhável.

Este tipo de provas (Taças e Supertaças) têm sido o principal calcanhar de Aquiles da equipa no reinado de Jesualdo Ferreira. Derrotas diante de equipas menores como o Atlético e o Fátima e várias frente ao Sporting ainda estão atravessadas na garganta de alguns adeptos. Jesualdo nunca conquistou a Taça de Portugal e tem agora a oportunidade de o fazer, alcançando também a sua primeira 'dobradinha' no FC Porto. O último a conseguí-lo foi Co Adriaanse em 2005-06. Na época passada, como certamente estarão recordados, dois golos de Rodrigo Tiuí tiraram-nos essa possibilidade. Desta vez, estou seguro de que não vamos vacilar.

Ao que tudo indica, a utilização de Lucho González está bastante complicada, o que constituirá uma baixa de vulto na manobra colectiva azul e branca. Mesmo assim, a equipa tem respondido bem a essa ausência e isso nunca poderá servir de desculpa para um eventual desempenho menos positivo. Se tal se vier a confirmar, julgo que a melhor opção seria incorporar Mariano González no trio intermédio, junto de Fernando e Raúl Meireles, ficando a frente de ataque entregue a Hulk, Lisandro e Cristian Rodríguez. Espero ainda que Nuno seja o dono da baliza, na sequência do que sucedeu ao longo da época nesta competição. Se jogou os jogos da Taça até agora, também merece jogar a final. Na defesa, a única dúvida será entre Fucile e Sapunaru na lateral direita. Se o uruguaio estiver na sua plenitude física, seria a minha aposta.

O Paços, sendo uma equipa modesta e com um orçamento reduzido, comportou-se de forma magnífica nesta prova. Nas meias-finais, eliminou o Nacional, 4º classificado da Liga Sagres, de forma tão surpreendente quanto merecida. Há bons jogadores na Capital do Móvel e, em termos colectivos, Paulo Sérgio conseguiu incutir uma organização bastante interessante. No processo defensivo, após enormes lacunas iniciais, houve uma evolução notória com o decorrer da temporada, embora me pareça que os 'castores' revelam ainda algumas dificuldades. Um FC Porto ao melhor nível marcará certamente ao guarda-redes Cássio. Mas é necessário ter em conta que, ofensivamente, este Paços de Ferreira é uma equipa bem armada, capaz de criar muitas contrariedades ao último reduto portista. Na Liga Sagres, por exemplo, apenas facturaram menos que os 5 primeiros da tabela, ficando mesmo com somente menos um golo marcado que o Braga. Mostraram um poder de concretização superior a equipas como o Leixões, Académica, Guimarães e Marítimo, tidas, à partida, como superiores. Todos os cuidados serão poucos. Jogadores como Rui Miguel, Cristiano, Pedrinha ou William deverão ser vigiados a preceito.

Um outro aspecto acerca desta final, que tem sido discutido ultimamente, é a realização das finais da Taça no velhinho Estádio do Jamor. Estou algo dividido, confesso. Por um lado, considero que, havendo um Estádio Nacional, as finais desta prova devem ser aí disputadas. Em Inglaterra, a final da Taça também é sempre em Wembley e, em França, é sempre no Stade de France. O problema é que o Jamor não apresenta condições mínimas para receber um jogo desta importância e acho que se ele acontecesse em estádios como Braga, Guimarães, Aveiro, Coimbra, Leiria ou Algarve, por exemplo, seria vantajoso para todos, inclusivamente para os adeptos. Uma situação a ser estudada com seriedade no futuro.

Não havendo muito mais a acrescentar, resta-me dizer: vamos a Oeiras para trazer a Taça! Entre o FC Porto no relvado com a atitude correcta e não tenho dúvida que vamos conseguir. Força FC Porto!

22 maio, 2009

Raúl Meireles garantiu o equilíbrio

A sondagem que levámos a cabo esta semana, teve a ver com a forma como a equipa foi capaz de ultrapassar as ausências, por lesão, de dois jogadores fundamentais na manobra colectiva da equipa. Fizémos a pergunta: 'Com as ausências de Lucho e Hulk, qual foi o jogador-chave na manutenção do equilíbrio na equipa?', à qual responderam 139 visitantes. O médio Raúl Meireles foi, sem surpresa, o jogador que maior consenso gerou em redor da questão, com um total de 79 votos (57%). Seguiram-se Mariano González - quem diria! - com 42 votos (30%), Fernando com 12 (9%) e Tomás Costa com apenas 6 (4%). Pertenço à maioria que votou no admirador de tatuagens por excelência da nossa equipa.

O percurso do FC Porto nesta temporada 2008-09 foi claramente em crescendo, melhorias substanciais no seu desempenho se foram verificando à medida que o tempo ía avançando, com repercussões positivas ao nível dos resultados. Depois de um início tremido, com alguns picos de quase calamidade, Jesualdo Ferreira começou a juntar as peças e a colocá-las no sítio mais correcto. Com cada vez mais treinos, com o conhecimento entre o treinador e, sobretudo, os novos jogadores a aumentar e a consequente consolidação dos processos pretendidos pelo Professor, a equipa foi evoluindo e conseguiu dar a volta aos momentos menos bons. Numa primeira fase, manteve-se sempre ali na luta pelo primeiro lugar, para, numa fase posterior e até hoje, disparar com vitórias sucessivas e exibições a condizer, deixando a concorrência directa definitivamente para trás. Inclusivamente, na Trofa, a equipa foi capaz de igualar o record de vitórias consecutivas fora de casa, qualquer coisa como onze triunfos.

De facto, a ponta final desta equipa na Liga Sagres foi demolidora. Quando Lucho e depois Hulk se lesionaram, os anti-portistas devem ter esfregado as mãos de contentamento. Seria aquela uma excelente janela de oportunidade para que nos pudessem alcançar no topo da classificação? Benéfico para a nossa equipa não foi certamente, mas ela não tremeu. Manteve a rotação e continuou com a dinâmica de 3 pontos por jogo em andamento. Na minha opinião, um colectivo que funcione bem distingue-se dos outros pela capacidade que demonstra em manter o mesmo nível, independentemente das individualidades que estão em campo. Distingue-se pela forma como consegue suprir ausências, como é capaz de substituir um jogador por outro, sem que isso se note na sua performance. Esse trabalho cabe ao treinador e Jesualdo mostrou, mais uma vez, a sua competência na formação de equipas inteligentes.

Já o disse e repito que este FC Porto mostrou que não é excessivamente dependente de nenhum jogador em particular. O modelo está de tal forma consistente e percebido por todos os jogadores, que a falta de um ou outro não prejudica por aí além. Lucho e Hulk são grandes executantes, é certo. A qualidade de ambos provoca sempre alguma dependência, até porque, 'El Comandante' é o cérebro, a unidade que melhor pensa o futebol ofensivo portista; e Hulk, no modelo de ataques rápidos, assume um papel preponderante. Mas isso é o mesmo que dizer que o Manchester United sem Ronaldo e Rooney, o Barcelona sem Messi e Iniesta ou o Inter sem Ibrahimovic e Cambiasso não poderiam ser as mesmas equipas. É inevitável que os melhores jogadores se assumam como referências naturais, mas apenas isso. Não pode é um colectivo estar refém da utilização deste ou daquele elemento. E isso o FC Porto provou que felizmente não está.

Além do modelo estar já bem interiorizado por todos, a existência de outros jogadores categorizados é evidente que também ajudou, pois sem grandes jogadores para interpretarem um conceito de jogo, não há grandes equipas. Raúl Meireles pegou na batuta de Lucho, quando este esteve indisponível, daí a razão para ter sido considerado pela maioria dos portistas como o jogador-chave para que a equipa não saísse prejudicada pelas perdas. Aliás, penso até que, na globalidade, Meireles rendeu bastante mais que Lucho ao longo de toda a temporada. É, actualmente, um centrocampista de craveira internacional, tendo evoluído muitíssimo desde que chegou ao Dragão. Passes verticais a rasgar as defesas adversárias é com ele. Técnica individual, leitura de jogo e maturidade táctica são outros atributos que tem para oferecer.

Mariano González, até há bem pouco tempo, o eterno mal-amado das bancadas, que recebia assobios, muitas vezes injustificados, por tudo e por nada, também foi muito importante na manutenção da qualidade da equipa. Tendo já assumido um papel bastante activo desde cedo nesta época, entrou no onze titular, ora na posição 8, ora na ala direita ofensiva. Beneficiando da confiança e da aposta sistemática de Jesualdo, mandou às malvas o seu problema existencial de stress excessivo e mostrou variados predicados: inteligência, visão de jogo, sentido colectivo, disponibilidade, capacidade de assistir os colegas, participação correcta nos processos ofensivo e defensivo, etc. Sem ele, certamente que a baixa de Hulk teria sido uma dor de cabeça muito maior para o corpo técnico.

Fernando e Tomás Costa garantiram igualmente o equilíbrio da equipa, embora numa proporção menor em comparação com Meireles e Mariano. Fernando porque manteve-se exactamente com as mesmas funções que tinha. Não cambiou rigorosamente nada, nem na sua posição, nem naquilo que tinha de fazer em campo. Continuou a ser o pêndulo que já era antes das lesões de Lucho e Hulk. Tomás Costa porque, tendo tido mais oportunidades de ser titular (no lugar de Meireles, que fazia de Lucho) do que o que era suposto, foi sempre algo discreto e não foi das peças mais fundamentais. Mesmo denotando algumas limitações, é certinho, não falha muito e o seu espírito humilde agrada-me.

Para a final da Taça de Portugal com o Paços de Ferreira, Hulk já estará operacional e espera-se que Lucho também. No entanto, a forma como a equipa foi competente o suficiente para responder às suas ausências durante esta recta final do campeonato, foi uma das bases do sucesso.

15 maio, 2009

Jesualdo: obviamente para continuar!

O FC Porto é Tetracampeão Nacional! Ao ganhar à excelente turma do Nacional, numa festa maravilhosa e com o Dragão em ebulição, a equipa portista confirmou o 4º título português consecutivo, o 3º com o Professor Jesualdo Ferreira aos comandos. O treinador transmontano passa então a ser, juntamente com Artur Jorge, o único que logrou alcançar três campeonatos para o nosso clube, sendo que no seu caso eles aconteceram de forma consecutiva. Conquistou, portanto, por mérito próprio, um lugar destacado na história secular azul e branca, conseguindo um feito único, com mestria e capacidade para resistir às imensas adversidades.

Ao fim de três temporadas, em que os resultados falaram quase sempre por ele, sente-se agora, finalmente, algum reconhecimento por parte dos portistas e da generalidade da crítica. Até meados da presente época, muito mais eram os seus detractores que os seus admiradores. Dois campeonatos e duas carreiras europeias meritórias não foram suficientes para que a sua qualidade fosse unanimemente reconhecida. As Taças e Supertaças perdidas e uma suposta falta de mentalidade vencedora eram utilizadas como armas de arremesso, sempre que algum resultado negativo surgia. Nunca tive dúvidas da sua competência enquanto treinador de futebol. Está na elite dos treinadores portugueses e não recebe lições de muita gente por essa Europa fora. Mais do que o Tetra, a forma como foi capaz de pegar num conjunto de novos jogadores, alguns deles de qualidade que suscitou muitas dúvidas inicialmente, transformando-o numa verdadeira equipa de campeões, é que parece ter dissipado todas as perplexidades nos mais pessimistas.

Não é segredo para ninguém que Jesualdo Ferreira nunca foi consensual no seio dos portistas. A sua prestação nos dois primeiros títulos sempre foi desvalorizada pela maioria. Ou porque estava num clube onde qualquer um era campeão, ou porque herdou a equipa já concebida por Co Adriaanse, ou porque detinha o melhor plantel relativamente aos concorrentes directos, tudo servia para que não fosse devidamente premiado. O trabalho realizado em 2008-09 pelo Professor foi, porém, demasiado evidente. Todos nos lembrámos do início penoso de temporada e do que se foi dizendo por aí. O cepticismo acerca do valor do plantel crescia a olhos vistos à medida que os desaires iam acontecendo. As críticas à qualidade de muitos jogadores contratados subiam de tom. O clube havia perdido jogadores nucleares do seu colectivo e diversos outros tiveram de ser integrados, alguns deles muito jovens, completamente desconhecidos para o público português e sem experiência num clube de topo.

O mérito de Jesualdo Ferreira nesta temporada é incomensurável. No início da temporada, se fôssemos ver a qualidade isolada jogador a jogador, considerava o plantel do Benfica, por exemplo, mais forte que o nosso. Hoje é mais fácil destacar algumas unidades portistas, mas para isso acontecer foi preciso que o seu crescimento e amadurecimento tivesse sido atingido de forma muito rápida e com pouca margem de erro. Se observarmos o nosso onze-base, constatamos que dele fizeram parte, nada mais nada menos que seis jogadores chegados ao FC Porto nesta temporada. Sapunaru não passava de um jogador medíocre, fartava-se de errar e não dava nenhuma profundidade ofensiva pelo flanco direito. Cissokho surpreendeu toda a gente e até já é falado para a selecção francesa, mas quando foi contratado no mercado de Inverno, evidenciava claras lacunas no aspecto defensivo e muitos foram os que duvidaram do seu valor. Rolando e Fernando não passavam de promessas à espera de uma oportunidade. Rodríguez demorava a confirmar a razão por que foi contratado ao Benfica e elevado a homem mais bem pago da equipa. Hulk era um individualista, sem ter nenhuma noção do que era jogar futebol colectivamente.

Se hoje são vistos de forma diferente, mais favorável, isso deve-se ao facto de a equipa ter crescido sob todos os pontos de vista, de o modelo de jogo ter sido paulatinamente consolidado, de a forma de jogar se ter aprimorado com o passar do tempo. E sabe-se que, numa equipa que funcione, as qualidades individuais são potenciadas. De repente, ficar sem jogadores da estirpe de Quaresma, Bosingwa e Paulo Assunção e ser obrigado a formar uma equipa para ontem, com vários novatos, no meio de uma pressão ganhadora asfixiante, seria sempre uma tarefa extremamente complicada. Jesualdo Ferreira conseguiu-o. Conquistou o Tetra, está na final da Taça de Portugal, obteve uma carreira europeia excelente, empatando de forma brilhante na casa do campeão europeu e apenas caindo graças a um momento de inspiração do melhor jogador do mundo. Tudo isto, com um plantel que apresentava várias limitações, quer de quantidade, quer de qualidade em alguns elementos, a que acresce uma certa baixa de rendimento da dupla Lucho-Lisandro (no caso de 'Licha', falo essencialmente no reduzido número de golos, em comparação com a época passada, já que a nível de atitude e inteligência colectiva, manteve-se igual a si próprio). Pelo meio, logrou o já referido crescimento em vários jogadores. Sapunaru é hoje visto como um lateral muito mais fiável. Cissokho é uma pérola a segurar a todo o custo e quando (e se) tiver de sair, que seja por muito dinheiro e após ter dado muito mais ao clube dentro do campo. Rolando é titular indiscutível e já é um central de selecção. Fernando conseguiu transformar-se no pêndulo da equipa, na unidade que garante os seus equilíbrios. 'Cebola' Rodríguez, após algumas dificuldades iniciais, pôs os benfiquistas a chorar de raiva e foi um dos mais destacados durante a época. Hulk cotou-se como a grande sensação do futebol português, exibindo potencialidades raríssimas e encaixando na perfeição no estilo de transições rápidas preconizado por Jesualdo. Mariano conseguiu resolver o seu problema existencial, controlando a ansiedade e aparecendo em grande quando a equipa necessitou dele. Raúl Meireles converteu-se num médio de categoria internacional. Farías marcou um número de golos muito interessante para o escasso tempo jogado e ainda fez várias assistências. Tomás Costa é algo limitado, mas foi útil em algumas ocasiões. E por aí adiante. E se isto aconteceu, o mérito é, em grande parte, de um homem: Jesualdo Ferreira.

A sua continuidade no Dragão para 2009-10 tem sido um dos temas mais falados neste final de estação. É compreensível. A SAD optou por fazer tabú dessa questão, dando azo às mais diversas especulações, algo que, em minha opinião, era completamente escusado. Quisémos saber o sentido das opiniões dos que nos visitam. Esteve aqui disponível, nas duas últimas semanas, uma sondagem com a pergunta imperiosa: 'Jesualdo Ferreira afirmou recentemente querer continuar no FC Porto. Concordas?' Das 369 pessoas que votaram, 240 (65%), onde me incluo, responderam taxativamente 'Sim'; 91 (25%) disseram 'Sim, desde que conquiste troféus esta época'; e 38 (10%) afirmaram 'Não'.

Perante estes resultados, conclui-se o que anteriormente afirmei: a maioria dos portistas já está, ao fim de três campeonatos ganhos, convencida da competência de Jesualdo Ferreira e é agora favorável à sua continuidade, facto impensável há uns meses atrás. A minha opinião é clara: é evidente que o nosso treinador deve continuar no FC Porto na próxima temporada e isso era algo que nem devia ser posto em causa. A SAD poderia já ter dado um sinal nesse sentido, se já lhe tivesse renovado o contrato, evitando o falatório a que se vai assistindo na comunicação social. Este tabú só faria sentido se a saída de Jesualdo estivesse decidida, numa medida que visava não desestabilizar o grupo de trabalho. A verdade é que, segundo as últimas notícias, ele vai mesmo continuar. Neste contexto, esta demora em tornar pública a decisão era evitável e julgo que Jesualdo não merecia estar sujeito a esta indefinição. E não me venham dizer que ele já tem conhecimento do seu futuro há muito, porque diversas declarações suas indiciaram o contrário. Se a SAD já decidiu há bastante tempo, não lho terá transmitido. Se decidiu apenas recentemente, esteve à espera do final da época para fazer o balanço dos títulos ganhos? Eu, pessoalmente, não precisava dos títulos (a final da Taça também é para ganhar...) para aferir da capacidade do 'Mister' e do seu merecimento em prosseguir no Dragão. No entanto, reconheço que se o título nacional não fosse alcançado, o panorama ficava bem mais complicado.

Por outro lado, falou-se muito da possibilidade de Jorge Jesus poder ser contratado. Assistimos, mormente nestas duas épocas mais recentes, à confirmação do actual timoneiro bracarense como um grande treinador de futebol, um dos mais categorizados deste país, sem qualquer dúvida. Admito que a tentação de o agarrar pudesse ser grande, até porque, não vindo para o FC Porto, irá certamente parar a um rival directo. No entanto, temos de considerar que esta equipa campeã, tal como está agora, foi formada pela cabeça de Jesualdo Ferreira e só ele lhe poderá conferir a margem de progressão natural na próxima época. Mantendo a maioria da espinha dorsal, mesmo admitindo uma ou outra saída dos 'pesos-pesados', esta equipa poderá continuar a desenvolver-se e ser ainda melhor no futuro. Com um técnico novo, por mais qualificado que fosse, seria sempre voltar ao ponto zero na construção da equipa, na definição do modelo, na implementação do sistema de jogo, na consolidação de processos, além de hipotéticas novas ideias no que à constituição do plantel diz respeito. Não há razão para se correr esse risco, quando acabámos de ser campeões e possuímos uma equipa com inequívoca margem para ser melhor. Seria um passo atrás completamente descabido. É hora de aproveitar e capitalizar o trabalho já realizado e procurar render mais para o ano.

Não nego que aprecio muitíssimo as ideias de Jorge Jesus e o conhecimento que parece transmitir. Um dia gostaria de vê-lo no clube, se nada de anormal acontecer entretanto. Também não vivo agarrado à figura de Jesualdo Ferreira. Se, em algum momento, achar que a sua permanência é prejudicial ao clube, serei o primeiro a defender a sua saída, porque o FC Porto está acima de quaisquer preferências pessoais. Não sou hipócrita e não tenho problemas em admitir que, após a goleada em Londres, apesar de ter defendido a sua continuidade, mais dois ou três resultados negativos e o seu despedimento seria inevitável. No entanto, a realidade cambiou e perante os factos presentes, só há uma coisa a dizer: obviamente que Jesualdo é para continuar. É isso que espero e aguardo essa confirmação o quanto antes.

PS1: Do trio Bruno Alves-Lucho-Lisandro, se tiver que sair algum, prefiro que seja o central português, por me parecer de menos difícil colmatação. Espero que não saiam dois... De resto, Cissokho, Meireles, Rodríguez e Hulk são obviamente para manter, a hora de sair ainda não chegou. Já agora, o Fucile que tenha juízo e, antes de começar a dizer asneiras, que trate de se consolidar no clube e continue humilde como até aqui.

PS2: Em matéria de entradas, o que foi já noticiado como consumado agrada-me, pelo facto de se ter voltado a apostar no mercado nacional, em jogadores de qualidade e já identificados com o futebol português. Lanço aqui mais quatro nomes que me enchem as medidas: Rúben Micael e Nené (Nacional), Marcinho (Marítimo) e Paulo Regula (Setúbal). Não quer dizer que viessem todos ao mesmo tempo, mas gosto do seu futebol. Por outro lado, estou a ver o Hélder Barbosa de volta ao plantel, embora a sua afirmação comece a tardar.

01 maio, 2009

A História do FC Porto merece um Museu!

'Inaugurado o Dragão Caixa, Pinto da Costa cumpriu mais um sonho... e agora, o que desejarias?'. Foi esta a pergunta que esteve disponível cá no burgo, a pedir a apreciação de quem o quisesse fazer. Não é segredo para ninguém que o reinado do melhor dirigente desportivo português e um dos melhores mundiais de sempre à frente do FC Porto tem sido de brilhantes e talvez impensáveis conquistas dentro do campo, mas também de importantes realizações em prol do enriquecimento do património do clube. A grandiosidade da obra é conhecida e é escusado estar, neste momento, a enumerar todos os triunfos e feitos alcançados.

O último sonho tornado realidade foi a inauguração do magnífico pavilhão Dragão Caixa - já descrito anteriormente cá no blog -, que acolherá as modalidades ditas amadoras do FC Porto: andebol, basquetebol e hóquei em patins. Com a capacidade empreendedora de Pinto da Costa, é expectável que mais sonhos se sigam num futuro, todos o esperamos, não muito distante. 218 respostas foram registadas, no que respeita aos desejos para o realizar de mais um sonho. No FC Porto, só há saudades do futuro, por isso, os sonhos de hoje poderão perfeitamente tornar-se reais amanhã.

Uma ideia há muito falada entre os portistas é a construção de um 'Museu'. 117 (54%) votos nesta alternativa, como realização desejada após a inauguração do pavilhão. Devo dizer que fui um dos que escolheram esta hipótese. Não que não gostasse de ver as outras opções tornadas realidade, mas porque acho que seria, nesta fase, algo muito importante para o clube, quer a nível de prestígio, quer no que concerne a questões financeiras. Um museu moderno, onde estivessem devidamente expostos todos os troféus conquistados ao longo da suprema história do FC Porto, bem como outras relíquias ligadas ao passado do clube, seria um espaço ímpar que nos orgulharia a todos e certamente alvo de imensas visitas diárias. Além de enriquecer culturalmente o clube, aportaria com toda a certeza importantes receitas financeiras. Julgo que seria a meta perfeita a atingir nos próximos tempos.

Em segundo lugar nas preferências dos portistas aparece a abertura da secção de 'Futsal', com 39 (18%) votos. Não é de estranhar. O futsal é uma modalidade extremamente popular, em Portugal e em diversos países do globo, e que continua em franco desenvolvimento. Proporciona grandes espectáculos, é uma variante do futebol que muitos de nós até praticam semanalmente com os amigos e seria um enorme prazer que o FC Porto aderisse a esta modalidade. Alguns rumores até já surgiram por aí quanto a essa possibilidade. Sporting e Benfica têm dominado o futsal português, seria uma honra retirar-lhes essa hegemonia! Eu apoiaria.

Em seguida, aparece a edificação de uma 'Piscina', com 37 (17%) votos favoráveis. Pela minha parte, completamente de acordo. O FC Porto é um clube com largas tradições ao nível da natação, com títulos atrás de títulos nos mais diversos escalões e merecia ter uma infra-estrutura, para os seus nadadores treinarem e competirem, à altura dos pergaminhos na sua natação. Poderia igualmente fomentar nos jovens da região a prática de um desporto completo e saudável. Julgo que seria uma realização praticamente consensual.

15 (7%) visitantes revelaram a sua predilecção pela adesão do FC Porto ao 'Ciclismo', modalidade com uma tradição e implantação popular incomensuráveis em Portugal. Gosto muito de ciclismo - embora já o tenha acompanhado com maior interesse -, mas pessoalmente não é algo que me provoque grande entusiasmo, não sei bem porquê. No entanto, se o clube porventura optasse por essa via, não me iria opôr e seguiria os ciclistas portistas com a mesma paixão de sempre, torcendo pelas suas vitórias, se possível na Volta a Portugal.

Por fim, aparece o 'Voleibol', com apenas 10 (5%) opiniões a favor. Devo dizer que gosto muito desta modalidade e seria com gosto que veria a abertura de uma secção no clube, para poder ombrear com clubes como Sporting de Espinho, Guimarães, Benfica ou Castêlo da Maia. Apesar de, ao que parece, não gerar grande entusiasmo no seio dos adeptos, seria algo que veria com muito bons olhos.

Convém dizer que todas estas linhas reflectem apenas desejos que gostaríamos de ver materializados, mas que não passam disso mesmo, de demonstrações de vontade. Obviamente que, eu ao dizer que apoiaria a construção de um museu e uma piscina e a adesão a futsal, voleibol e ciclismo, tenho a perfeita consciência que jamais poderia ser alcançado tudo de uma vez. Mesmo uma dessas possibilidades isoladas, apenas deve avançar se houver total sustentabilidade financeira para tal e não acarretar qualquer prejuízo para o clube. O mesmo é dizer que, no caso das infra-estruturas referidas, elas só devem ser pensadas a sério se for um investimento com retorno futuro; no que respeita às modalidades, apenas se conseguirem ser financeiramente auto-suficientes.

Mas, para já, o que eu e a maioria dos portistas queriam era mesmo um Museu Azul e Branco, onde pudéssemos contemplar e relembrar T'Antas Glórias e Labaredas de Dragão. Pense nisso, Senhor Presidente.

25 abril, 2009

Hermínio, prepara aí mais um troféu!

Após a demora na resolução dos vergonhosos processos 'Apito Dourado' e 'Apito Final', que tiveram como único propósito perseguir, incriminar e abater pessoas bem definidas previamente, entre as quais o nosso presidente Pinto da Costa, a LPFF lá se decidiu a entregar ao FC Porto o troféu de campeão nacional da temporada 2007-08. A cerimónia decorreu antes da partida com o Estrela da Amadora, para a Liga Sagres, no Dragão, a 11 de Abril.

Quisemos saber a opinião dos nossos visitantes acerca deste assunto, através de mais uma sondagem que esteve visível durante alguns dias. Os resultados não foram surpreendentes. Num total de 150 votantes, 117 (78 %) consideraram o atraso da Liga presidida por Hermínio Loureiro na entrega do troféu 'Uma vergonha!', 15 (10%) assumiram uma atitude de desprezo com um lacónico 'Quero lá saber!', ao passo que os restantes 18 (12%) disseram 'Acho muito bem!'.

O desfecho desta votação era previsível, face às atitudes que os actuais órgãos da Liga assumiram perante o FC Porto e à repulsa que isso sempre causou nos adeptos portistas. Eu, porém, sempre tive muita dificuldade em falar das questiúnculas que se passam à margem do relvado, fora do terreno de jogo. Assuntos extra-futebol interessam-me muito pouco, nem sequer tenho competência para falar deles. Votei 'Quero lá saber!' porque estou literalmente a borrifar-me para as palhaçadas que se vão passando em Portugal nos bastidores do futebol. O que eu gosto é discutir o jogo jogado.

Outra das votações que levámos a cabo aqui no burgo, foi para o ar no seguimento da inglória eliminação da Liga dos Campeões, aos pés do Manchester United, num jogo que ficou igualmente manchado pela grave lesão de Lucho González. Foi, de facto, um momento muito triste e doloroso para todos nós, especialmente depois da grande exibição conseguida em Old Trafford uma semana antes. À pergunta 'Eliminação na Liga dos Campeões e perda de Lucho até final da Liga Sagres... que consequências para o FC Porto?' responderam 150 pessoas. 26 (17%) acham que as consequências não serão 'Nenhumas', 80 (53%), julgam que serão 'Pouco significativas', 39 (26%) pensam que serão 'Negativas', e apenas 7 (5%) consideram que as implicações poderão ser 'Péssimas' para a carreira da nossa equipa.

Resulta claro que, para os portistas, uma eliminação numa competição tão importante, sobretudo da forma cruel como ela aconteceu, bem como a perda de uma peça nuclear como Lucho na manobra colectiva da equipa - na altura ainda não se sabia da lesão de Hulk -, terão sempre algumas implicações nefastas. Outra coisa não seria de esperar e qualquer equipa do mundo acusaria o toque. Aquilo que parece estar também presente nas mentes dos seguidores azuis e brancos é a ideia de que estes contratempos jamais porão em causa os objectivos internos a que o FC Porto se propôs no começo da época, que passam pela conquista do Tetra e da Taça de Portugal.

Na minha opinião, as consequências desses acontecimentos negativos, mesmo somando já a recente lesão de Hulk, serão pouco significativas. A eliminação da Champions causou uma frustração enorme em todos nós e certamente que o sentimento no seio do plantel foi idêntico. No entanto, a vida de uma equipa de futebol é assim mesmo e outros objectivos há para alcançar brevemente. Com certeza não será isso que causará qualquer quebra anímica, como aliás se viu na vitória em Coimbra e apuramento para o Jamor. No que diz respeito à ausência do estratega do nosso meio-campo, é evidente que causa sempre alguns danos. Um jogador tão inteligente como o argentino faz falta a qualquer equipa da nossa dimensão e, tendo em conta a forma de jogar implementada por Jesualdo Ferreira, eu diria que um elemento de excelência a lançar ataques rápidos é fundamental. Todavia, já aqui expressei a convicção de que, com o crescimento táctico que a equipa tem patenteado nos últimos meses, ela se tornou menos dependente das individualidades, razão pela qual os objectivos a atingir não serão beliscados.

Mesmo com estes contratempos e mais alguns que entretanto possam surgir no caminho, vamos ser campeões e ganhar a Taça de Portugal, não tenho dúvida. É o vício de vencer entranhado no nosso sangue.

10 abril, 2009

Confiança Realista

Ainda que a hora seja de focar a concentração novamente na Liga Sagres e no importante jogo com o Estrela da Amadora que se avizinha, a grande noite do FC Porto em Old Trafford continua bem viva na nossa memória. O grande resultado obtido perante o campeão europeu e mundial em título, e sobretudo a exibição conseguida pelos nossos guerreiros, enchem-nos de orgulho e fazem-nos acreditar em glórias que há poucos meses julgávamos francamente improváveis.

Havia a plena consciência de que a tarefa que esperava os pupilos de Jesualdo Ferreira no 'Teatro dos Sonhos' era espinhosa, dado o poderio superior do adversário. Notava-se, todavia, uma confiança latente nos portistas, alicerçada no crescimento que a equipa tem exibido e nos desempenhos de classe que tem protagonizado de há uns meses a esta parte. À pergunta 'Confias num bom resultado do FC Porto em Manchester na próxima 3a feira?', que esteve à consideração de todos, nos dias anteriores ao jogo, responderam 177 visitantes do blog. 105 (59%) revelaram uma confiança inabalável, 61 (34%) acreditaram num empate e apenas 11 (6%) se mostraram pessimistas. Incluo-me nas 61 pessoas que, de certo modo, acertaram no resultado que veio a acontecer. Não que não acreditasse num triunfo. Simplesmente, mesmo sabendo do momento favorável que a equipa vem atravessando, tenho sempre bem presente a qualidade dos 'red devils'.

A verdade é que se tivesse havido justiça no marcador, eu não teria acertado no empate final. O FC Porto mereceu ganhar. Fez uma exibição memorável, com classe, personalidade e maturidade, não se deixando influenciar pelo ambiente infernal vindo das bancadas. Aliás, o ambiente é que se foi tornando mais silencioso à medida que os 'dragões' iam impondo a excelência do seu futebol. A primeira parte foi soberba, tal a superioridade evidenciada pelo FC Porto. Mais qualidade de jogo, mais objectividade, mais remates, mais cantos, mais ocasiões claras de golo; foram 45 minutos em que a Europa se terá espantado e finalmente reparado que no Dragão mora uma das equipas mais fortes e traquejadas do continente. Já na etapa complementar, o Manchester United deteve algum ascendente, natural diga-se, mas o FC Porto nunca se deixou encostar às cordas, continuando, por outro lado, a constituir uma ameaça para a insegura defesa inglesa.

Após a adrenalina de 90 minutos vividos intensamente, não pude deixar de sentir o mesmo que senti aquando da igualdade em Madrid: apesar da alegria por um desfecho muito positivo alcançado fora de portas, foi inevitável uma certa frustração pela oportunidade perdida de ganhar sem espinhas. Mais ainda, pela forma infeliz como oferecemos um dos golos ao opositor. Erros primários podem suceder a qualquer um, mas eles têm-nos perseguido na Liga dos Campeões, sempre em jogos decisivos e em alturas em que estamos em vantagem: Helton em Londres e em Madrid e agora Bruno Alves em Manchester. Dói sofrer golos assim. Quem sabe não teríamos afastado o Chelsea de José Mourinho há duas épocas? Quem sabe não teríamos alcançado um triunfo histórico em Old Trafford?

Mas a resposta da equipa a essa adversidade foi formidável. Deu gosto ver o desempenho de alguns jogadores e a excelência táctica da equipa. Hulk era o jogador mais temido pelos ingleses e a nossa maior esperança. O certo é que o 'Incrível' não esteve particularmente brilhante e não foi por isso que o todo não funcionou. Lucho, na minha opinião, também não esteve muito inspirado e não foi por isso que nos ressentimos. O FC Porto é hoje uma equipa na verdadeira acepção da palavra, não depende de individualidades específicas, mas da harmonização entre todas elas. De repente, jogadores que nos pareciam inicialmente medianos ou nem isso, começam a apresentar performances admiráveis. Isto é fruto da organização colectiva que foi implementada. Fernando esteve enorme no centro do terreno. Posicionalmente irrepreensível, jogando simples e sendo intenso na pressão ao adversário, perdi a conta aos cortes providenciais e recuperações de bola, algumas delas aos pés de Cristiano Ronaldo. Cissokho foi outro dos jovens que brilhou a grande altura. Sapunaru já não parece aquela unidade insegura do princípio da temporada. Rolando, Raúl Meireles, Lisandro ou Rodríguez apenas confirmaram os grandes jogadores que são. Helton não tremeu e conferiu segurança ao sector mais recuado, com algumas paradas meritórias. Até Mariano, tantas vezes causticado com críticas, entrou para resolver.

Sabendo a pouco, o empate é bom, sem dúvida. Mas o que mais me emocionou foi a exibição, o carácter, a ambição. Foi maravilhoso ver um onze com seis jogadores que chegaram ao FC Porto e se estrearam na Champions apenas nesta época, muitos deles autênticos miúdos, controlarem daquela maneira uma equipa tão poderosa e com tantas estrelas cintilantes. É reconfortante ver uma equipa a ser construída em tão curto espaço de tempo, enquanto noutras paragens se pede paciência para consolidação de projectos e se prometem novos ciclos todas as semanas. É ainda melhor, quando sabemos que o país inteiro, excepto os portistas, ansiava por uma derrota copiosa, como forma de descarregar as frustrações de tantos insucessos, dentro e fora do campo.

Agora, para a segunda mão, no Dragão, estamos em vantagem. No entanto, será um erro crasso pensarmos que já estamos apurados. Equipas como o Manchester United são capazes de ganhar em qualquer campo, contra qualquer adversário e em que circunstância for. Só actuando com a mesma postura da primeira mão poderemos ser felizes. Tenho para mim que o jogo no Porto será sempre extremamente traiçoeiro e mais complicado que o de terça-feira passada. A equipa deve apresentar-se mediante duas premissas fundamentais: confiança nas próprias capacidades e prudência com as capacidades contrárias. Não nos enganemos, a eliminatória continua em aberto.

Foi no sentido de conhecer a opinião de todos os leitores acerca das perspectivas para o segundo jogo, a realizar no próximo dia 15 de Abril, que o blog promoveu nova sondagem, logo após o embate de Manchester. Foram recebidos 166 votos. 42 pessoas (25%) responderam 'Cum carago, já passámos!', 117 (70 %), inclusivé eu, disseram 'Calma, bamos com calma!' e somente 7 (4%) afirmaram 'Não percebo tanta euforia!'. Esta distribuição dos resultados da votação é esclarecedora quanto ao sentimento dos portistas. Nada de optimsimos ou pessimismos exagerados. O melhor é adoptar uma postura realista, ter confiança na passagem às meias-finais, mas sempre com cautela e muito respeitinho pela turma de Alex Ferguson.

Aconteça o que acontecer, esta equipa criada por Jesualdo merece o nosso reconhecimento. Soube crescer, vê-se espírito colectivo, união do grupo, respeito pelo emblema que ostenta no peito. Ali há trabalho, há suor, há evolução, há qualidade. O FC Porto continua a ser o único clube português com dimensão internacional e reconhecido como tal. Olhando em redor, para tudo o que se vai passando e dizendo, é fácil concluir que o futebol português não merece ter um clube como o Futebol Clube do Porto. Somos bons demais para esta realidade medíocre.

PS: Porque adoro este jogo, é impossível ficar indiferente à grandiosidade do futebol do Barcelona... Só nós os vamos conseguir parar! :-)

03 abril, 2009

Falta de Público nos Estádios: Porquê?

Uma das componentes vitais para a existência do espectáculo-futebol e para a importância que ele adquiriu na sociedade mundial são os seus adeptos, as pessoas que vão ao estádio, que consomem o produto e alimentam aquilo que hoje já se pode chamar de indústria. Sem adeptos não há futebol! Foi nesse sentido que promovemos uma sondagem na semana que passou acerca desta temática incontornável. No passado dia 22 de Março, realizou-se a 1ª mão das meias-finais da Taça de Portugal, pelas 20h45, no Estádio do Dragão, entre FC Porto e E.Amadora. Assistiram ao vivo a esta partida apenas 19 108 espectadores. Quisemos saber, neste como noutros casos, que factores estão na base desta pouca afluência aos estádios portugueses e quem são os principais culpados. Responderam ao repto 156 visitantes e os resultados foram os seguintes: 45 pessoas (29%) disseram que a culpa é das TV's, pois são elas que têm o poder nas mãos; outras 45 (29%) são da opinião que a Liga de Clubes é o principal responsável, porque não reduz o preço dos bilhetes; 40 votantes (26%) acham que a maior responsabilidade pertence aos clubes, já que aceitam este estado de coisas e calam; 15 (10%) responderam que a culpa é dos adeptos, porque não fazem greve ao futebol como forma de protesto; e 11 (7%) afirmaram que é das arbitragens, pois são incompetentes.

Enquanto problemática estrutural de um desporto tão mediatizado e, simultaneamente, um negócio que movimenta milhões e milhões de euros, ela reveste-se de grande complexidade e explicá-la com absoluta certeza será sempre uma tarefa quase impossível. Há uma diversidade enorme de razões para que o número médio de espectadores no futebol português seja reduzido quando comparado com outros países. Nunca será consensual discutir porquê e seriam necessários estudos aprofundados, que englobassem várias vertentes, para que chegássemos a conclusões minimamente credíveis. No entanto, como se pode inferir da nossa votação, há factores que saltam imediatamente à vista.

Concentremo-nos, para já, no exemplo concreto escolhido pelo blog. À partida, um jogo importante como uma meia-final da Taça de Portugal, realizado na casa de um clube como o FC Porto, onde a média de espectadores é muito superior aos cerca de 19 000 que estiveram presentes, era susceptível de despertar bastante mais interesse que aquele que se verificou. Se atentarmos bem nas opções de voto, podemos dizer, sem grande margem de erro, que todas contribuem para que os adeptos fiquem em casa em vez de se deslocarem aos estádios. Mas neste caso concreto, aquilo que penso mais ter pesado na fraca assistência foi o horário do jogo, razão pela qual votei em "TV's, porque têm o poder nas mãos". Não tenhamos dúvidas: com um domingo totalmente livre, marcar o jogo para as 20h45, sabendo que segunda-feira é dia de trabalho, é reduzir a assistência para cerca de metade daquela que poderia acontecer. Mesmo com espectáculos de fraca qualidade, bilhetes caros para a carteira dos portugueses, arbitragens incompetentes ou as constantes trapalhadas que se multiplicam cá no burgo, é inegável que se o encontro se tivesse realizado às 16, 17 ou mesmo 18 horas, os adeptos teriam afluído ao Dragão em número significativamente superior. Quem resolveu agendar o jogo para aquela hora, está literalmente a borrifar-se para os adeptos e não se preocupa nem em vender o seu produto, nem sequer em promovê-lo devidamente; está antes refém do poder económico das televisões e sujeita-se às suas directrizes, em nome da receita televisiva. Como é que um portista de Aveiro ou Braga, por exemplo, vai ter vontade de se deslocar ao Porto, sabendo que chegará a casa por volta da meia-noite e que no dia a seguir terá de se levantar cedo para trabalhar? E se houver alguns que estejam dispostos ao sacrifício, conseguirá convencer a mulher, a namorada, o pai, a mãe, os tios, os amigos? Dos filhos já nem falo, pois ao intervalo já é hora de estar a dormir...

Mais: fazer um sacrifício grande para quê? Para chegar ao estádio e ver um espectáculo, na sua grande maioria, de fraca qualidade, pago, muitas vezes, a preços exorbitantes, pouco condizentes com o nível de vida existente em Portugal? Pagar um balúrdio para sair do estádio defraudado com o que foi oferecido, alimentando um negócio cada vez menos credível, onde as arbitragens falseiam frequentemente os desfechos dos jogos? Onde as palhaçadas de bastidores acontecem todas as semanas? Onde se discute tudo e mais alguma coisa durante dias e dias, menos o futebol jogado pelos artistas? Onde a imprensa não desempenha o seu papel com isenção, fazendo as suas análises consoante as cores das camisolas e o desejo irresistível de vender a qualquer custo?

Olhemos para este nosso mundo da blogosfera, algo em que todos nós temos responsabilidade e capacidade para mudar e evoluir. São escritos mais posts sobre o CD da Liga ou sobre o Lisandro? São gastas mais linhas a falar do CA da Liga ou do Hulk? Pronuncia-se mais vezes o nome do Lucílio Baptista ou do Lucho González? Dá-se mais importância a um golo marcado com a mão ou a um marcado de pontapé de bicicleta? Discute-se mais tempo um erro de arbitragem ou um lance de génio? Isto vai desembarcar noutro problema estrutural do nosso futebol que, parecendo que não, afasta muito público dos recintos: há falta de cultura desportiva em Portugal! Aqui, gosta-se muito mais dos clubes do que de futebol. Não quer dizer que não devemos ser fiéis seguidores do nosso clube do coração. Devemos! E defendê-lo com unhas e dentes! No entanto, gostar mais de futebol faria bem a muitos adeptos. E entendê-lo melhor também.

O facto de se gostar mais dos clubes que de futebol é um problema cultural que explica muita da ausência de público nos estádios. Só se vai ver o nosso clube quando ele está na mó de cima e a obter bons resultados, caso contrário, não interessa. Ir ver futebol pelo simples facto de se gostar do jogo, é mentira (claro que se os espectáculos fossem de melhor qualidade, também ajudava...)! Em Espanha, o Real Madrid, o Barcelona ou o Atlético Madrid, mesmo quando estão longe do primeiro lugar, continuam com lotações esgotadas. Aqui, isso não acontece. Se FC Porto, Benfica ou Sporting estão mal, nota-se um decréscimo de público nos respectivos jogos. Em Inglaterra ou na Alemanha, equipas que estão para descer continuam a ter o estádio repleto. Aqui, nem vale a pena lembrar as assistências de clubes como o Belenenses ou o Paços de Ferreira. Não deixa de ser injusto comparar realidades tão díspares, países muito diferentes economicamente e com uma população completamente distinta. No entanto, estas diferenças não podem explicar tudo. Portugal sempre foi um país atrasado relativamente às potências europeias e há 20 anos atrás, os estádios nacionais estavam invariavelmente a rebentar. É urgente reflectir porque é que isso actualmente está muito longe de acontecer. Falta cultura desportiva, mas também qualidade no futebol praticado, credibilidade, profissionalismo a todos os níveis.

Acredito que a concentração exagerada de adeptos nos três grandes é outro dos factores que mais contribui para que o nosso campeonato seja, no seu todo, desinteressante e haja um afastamento cada vez maior do público. Clubes com uma massa adepta assinalável e que gostam apenas do seu clube, como o Guimarães ou o Leixões, são raros no nosso país. Emblemas da estirpe, por exemplo, do Rio Ave, da Naval ou do Trofense, têm pouquíssima implantação popular. E mesmo os adeptos desses clubes, normalmente também torcem por um dos grandes. Isto retira força à generalidade dos clubes, fazendo com que as suas possibilidades de crescimento e afirmação esteja muito limitada. Que receitas é que um clube pequeno destes pode gerar nestas condições? Não admira, portanto, que haja clubes com vários meses de ordenados em atraso, como o E.Amadora (a própósito, os estrelistas já não recebem há vários meses, mas só agora, antes do jogo com o Benfica, decidiram fazer greve aos treinos, é curioso!) ou o Setúbal. Vivem muito tempo acima das próprias possibilidades, algum dia o balão tem de rebentar. E o problema é que, sem ajudas exteriores, não parece ser possível muitos destes clubes sobreviverem. Esta imagem de amadorismo e dificuldades financeiras na maioria dos clubes também empobrece e muito o futebol português. Descredibiliza. Faz perder adeptos, pessoas com vontade de seguir o fenómeno. Totalmente compreensível.

Resumindo: muito se pode fazer para que o futebol se torne mais apelativo e tenhamos mais público nas bancadas. Desde horários mais condizentes, preços mais acessíveis, marketing mais positivo, virado para o futebol jogado, menos confusões de bastidores, mais credibilidade, etc, etc, etc. No entanto, há condições estruturais de natureza económica, social e cultural que dificilmente se conseguirão mudar, tenderão até a agravar-se. Podemos fazer a nossa parte aqui na blogosfera, tentando discutir o futebol pelo lado positivo. De resto, quem tem o poder de mudar alguma coisa, que o faça.

27 março, 2009

Vamos acreditar...

Ainda que antes haja um importantíssimo desafio em Guimarães para ganhar, aproxima-se a passos largos um dos momentos mais relevantes desta época para o FC Porto. A eliminatória com o Manchester United, em que discutiremos a passagem às meias-finais da Liga dos Campeões, será um verdadeiro teste de fogo às capacidades da equipa. O destino colocou-nos no caminho nada mais, nada menos, que o campeão europeu em título. Na última semana, o Bibó Porto quis saber a opinião dos nossos visitantes acerca do sorteio de Nyon. Votaram 331 pessoas, em que 159 (48%) responderam "Bom, bamos passar!", 128 (39%) disseram "Nem sei, tá tudo em aberto!" e 44 (13%) consideraram o sorteio " Mau, para não dizer péssimo!".

Por aqui se vê que a confiança reina entre os adeptos portistas. Eu considero que está tudo em aberto e mantenho-me na expectativa. Teoricamente o sorteio foi mau, pois havia adversários à partida menos poderosos. No entanto, enquanto portista e conhecedor da evolução que a equipa tem vindo a patentear, acho que há algumas hipóteses de podermos discutir a eliminatória. A mentalidade do clube é ganhadora e não faria sentido estarmos com um espírito derrotista. Por outro lado, convém ter bem presente a força dos 'red devils', razão pela qual não esteja com um optimismo exagerado. Fui um dos que clicou em "Nem sei, tá tudo em aberto!". Aquilo que eu mais anseio é que a postura da equipa seja a mais adequada. Temos pouco a perder e tudo a ganhar. Em boa verdade, racionalmente não podemos exigir a passagem às meias-finais. Agora que se lute por isso, podemos e devemos. Se cairmos, que seja de pé e de cabeça bem levantada, nunca numa posição receosa ou submissa, incompatível com a nossa cultura e valores.

Depois de ontem o nosso ilustre Paulo Pereira ter evocado o momento mágico de há 5 anos atrás, em pleno Old Trafford, irei hoje fazer algumas considerações sobre a equipa que esperamos derrubar. O facto de ser o grande dominador do futebol inglês nas duas últimas décadas, bem como o actual detentor da Champions, dispensaria quaisquer comentários adicionais respeitantes ao seu poderio e qualidade futebolística. O seu orçamento é algo verdadeiramente gigantesco e o plantel está inundado de 'top stars' do futebol mundial, a começar pelo FIFA World Player 2008, Cristiano Ronaldo.

Van der Sar é o guardião das redes vermelhas. Quase quarentão e com um currículo invejável atrás de si, faz da experiência e sobriedade mais-valias muito importantes para a tranquilidade defensiva do colectivo. Basta lembrar a quantidade inacreditável de minutos que esteve sem sofrer golos na Premier League. Kuszczak e Foster são as alternativas para a baliza, mas se nada de anormal acontecer, será o gigante holandês que Lisandro, Hulk ou Lucho terão de desfeitear. Deseja-se uma eficácia completamente diferente da que se viu, por exemplo, em Madrid, é lógico.

A tal longa imbatibilidade das redes do Manchester United que se verificou nunca seria possível sem uma boa organização defensiva. Por isso, não espanta os nomes sonantes dos elementos que compõem o sector mais recuado. A dupla de centrais é só uma das melhores do planeta: Rio Ferdinand e Vidic. Além da dificuldade que será superá-los lá atrás, muito cuidado quando subirem à área de Helton nas bolas paradas. Wes Brown e sobretudo o jovem promissor Evans estarão sempre a postos para qualquer necessidade de substituição dos dois titulares indiscutíveis. O francês Evra, na esquerda, garante muita profundidade ofensiva, embora descure um pouco o aspecto defensivo. Na faixa contrária, face aos problemas físicos que têm apoquentado Gary Neville e Rafael da Silva, o escolhido tem sido o irlandês O'Shea, um jogador muito competitivo, mas com um défice enorme de qualidade técnica e velocidade. Escusado será dizer que a propensão atacante de Evra e a fraca qualidade de O'Shea serão dos principais pontos a explorar pela rapidez dos nossos extremos.

O sector do meio-campo é um dos principais pontos fortes do United, senão o principal. O duo central Carrick-Scholes executa com absoluta mestria a dupla tarefa defesa-ataque. O veterano Scholes joga um pouco mais adiantado, distribuindo jogo na perfeição e chegando bastas vezes às imediações da área contrária, onde poderá ensaiar o seu potente pontapé de meia distância. É um dos mais fantásticos médios dos últimos anos. Já Carrick é um pivot-defensivo de eleição, com um sentido posicional irrepreensível, excelente capacidade de pressão ao portador da bola e muito critério na hora de sair com a bola jogável. Detém também um forte remate. Pouco espaço concedido na cabeça da nossa área será, sem dúvida, uma boa ideia para Fernando, Meireles e Lucho colocarem em prática. Anderson, Fletcher e Gibson estarão decerto no banco britânico, a postos para saltarem para o jogo.

Nas faixas, dois portentos, mentalizados para fazerem a cabeça em água aos nossos laterais. Na direita, por princípio, Cristiano Ronaldo, melhor jogador do mundo em 2008. O nível exibido nesta temporada não tem sido tão espectacular como na passada, mas as qualidades estratosféricas do '7' português estão lá todas: técnica, habilidade, velocidade, intensidade, potência, remate, jogo de cabeça, drible, capacidade finalizadora, enfim, um infindável manancial de faculdades futebolísticas, capazes de arrasar qualquer opositor que lhe apareça pela frente. Abre os olhos Cissokho (sim, espero que Jesualdo Ferreira não invente uma solução de recurso)! Na esquerda, o 'velhinho' mas sempre genial Giggs, sem a velocidade de outros tempos, mas com um pé esquerdo e uma inteligência susceptíveis de infernizar a vida a qualquer marcador directo (Fucile, espero). Principais opções: o português Nani e o sul-coreano Park.

Na frente, uma dupla mortífera, composta por jogadores completamente diferentes, mas que se complementam na perfeição. Rooney, mais veloz e explosivo, é um finalizador por excelência e possui uma força física que impressiona. Berbatov, mais técnico e requintado, também finaliza bem, mas uma das suas mais-valias fundamentais reside na forma como é capaz de assistir os companheiros. O poder de fogo desta dupla não deixa margem para dúvidas. Só com Bruno Alves, Rolando e até Fernando no máximo da concentração é que ela poderá ser neutralizada. Tévez é um avançado que teria lugar na maioria das equipas do mundo, mas não no Manchester United! O jovem das escolas do clube Welbeck é a quarta opção para o ataque.

No seu habitual 4-4-2 clássico, Alex Ferguson construiu uma autêntica máquina de futebol ofensivo, com processos não muito elaborados, mas com um ritmo e uma intensidade tais que torna-se muito difícil de contrariar. Fundamentalmente no 'Teatro dos Sonhos' é de esperar que o FC Porto passe um mau bocado e enfrente uma pressão atacante intensa e contínua. O facto de o modelo de Jesualdo Ferreira não contemplar um futebol baseado na obcessão pela posse de bola, só potenciará essa situação. Apenas com as nossas habituais transições atacantes rápidas, lançadas por Lucho e Meireles, e com o nosso tridente da frente a dar-lhes o devido seguimento, poderemos sacudir a pressão que nos espera e colocar em sentido também os ingleses.

Consultando sítios e blogues afectos ao United, é notório da parte dos adeptos britânicos um imenso desprezo pela qualidade da nossa equipa. Para eles é um dado adquirido a sua passagem automática às meias-finais. Já há 5 anos foi assim e a coisa parece que não correu lá muito bem. Este menosprezo inglês, talvez por desconhecimento ou por pura burrice - aprender com os erros devia ser algo natural -, só tem de nos transmitir uma motivação extra. É preciso acreditar. O sonho tem de continuar.

20 março, 2009

Villarreal: o adversário preferido

Realiza-se hoje, pelas 11 horas, em Nyon (Suíça), o sorteio dos quartos-de-final e das meias-finais da Liga dos Campeões 2008-09. Será um momento a seguir com enorme expectativa por todos os portistas, em que ficaremos a conhecer quem teremos de defrontar no caminho para Roma, a bela cidade que acolherá a grande final da competição. Ficarão estipulados não apenas os jogos dos 'quartos', como também os das 'meias', consoante as equipas que conseguirem seguir em frente. Como os possíveis adversários são, inevitavelmente, de peso, é tempo de nos concentrarmos, para já, nos quartos-de-final, tendo consciência que somos o único clube não pertencente aos principais colossos do Velho Continente, mas honrando sempre a nossa história, feita de capacidade de sonhar, empreender e realizar.

Manchester United, Liverpool, Chelsea, Arsenal, Barcelona, Villarreal ou Bayern Munique, é com um destes que mediremos forças, em dois jogos que se esperam empolgantes, a 7 ou 8 de Abril e 14 ou 15 do mesmo mês. Na última semana, esteve aqui no blog, à consideração dos nossos leitores, uma votação em que era escolhido o adversário preferido para nos calhar em sorte nos quartos-de-final. Foram registados ao todo 418 votos, cuja distribuição pelas sete alternativas foi a seguinte: 196 votos para o Villarreal (47%), 108 para o Bayern Munique (26%), 43 para o Arsenal (10%), 31 para o Manchester United (7%), 17 para o Barcelona (4%), 15 para o Chelsea (4%) e, por último, 8 para o Liverpool (2%). Tais resultados induzem uma preferência da generalidade dos portistas mediante o grau de dificuldade esperado que cada equipa acarretará, pelo menos no plano teórico; os oponentes são tanto mais desejados quanto menor parece ser a dificuldade teórica de os eliminar. Faz sentido.

Eu, pessoalmente, votei no Bayern Munique, que vem de inflingir ao Sporting a maior humilhação europeia da sua história. Olhando para os possíveis opositores, penso que Manchester United, Barcelona e Liverpool seriam os piores possíveis e Villarreal, Bayern Munique e Arsenal os que, porventura, nos permitiriam sonhar com mais altos voos, surgindo o Chelsea numa posição intermédia. Com a excepção do Chelsea, que aparece no lugar de segundo menos desejado, os restantes resultados da votação vão de encontro ao que é a minha ideia acerca dos obstáculos que cada equipa nos poderá colocar.

O Liverpool parece ser o adversário menos desejado e recolheu apenas 8 votos. A isto não será alheia a recente demonstração de poder dada pelos comandados de Rafael Benítez, nomeadamente os 5 golos sem resposta com que despachou o Real Madrid da Champions, e a goleada por 4-1 em Old Trafford para a Premier League. Os 'reds', não obstante demonstrarem ao longo dos anos, muitas dificuldades a nível interno, são uma equipa fortíssima em competições europeias, fazendo valer o seu modelo baseado na enorme capacidade defensiva, nas transições atacantes rápidas e no aproveitamento letal dos erros contrários. À imensa qualidade do treinador, acrescem jogadores da estirpe de Torres, Gerrard, Xabi Alonso ou Mascherano. Individualmente, não são a equipa mais forte, mas em termos colectivos mostram-se insuperáveis. Claramente a evitar, não só porque raramente nos damos bem com o futebol inglês, mas também porque a última experiência em Anfield Road foi muito negativa.

O Chelsea, com 15 votos, aparece logo a seguir nas equipas mais indesejadas, surpreendentemente à frente de United e Barça. Enquanto foi orientada por Luíz Felipe Scolari, a turma londrina nunca se encontrou, nem produziu o futebol que a qualidade do plantel exigiria. No entanto, desde a chegada de Guus Hiddink para o comando técnico, a nova equipa de Quaresma desatou a coleccionar triunfos, tendo inclusivé afastado a Juventus da Champions. A meu ver, não será dos adversários piores e sempre constituiria uma oportunidade de nos desforrarmos da eliminação de há duas temporadas. Mas quando estamos a falar de intérpretes da craveira de Lampard, Deco, Drogba, Terry, Ricardo Carvalho ou Essien, só um FC Porto ao melhor nível poderia fazer uma gracinha.

17 pessoas votaram no Barcelona. Na minha opinião, os catalães são os que nos deixam menos hipóteses para sonhar. A equipa de Guardiola é a que melhor futebol pratica na Europa. Inigualável na circulação de bola, sufoca o adversário com o seu característico futebol apoiado, jamais abdica de tentar marcar golos e joga a um ritmo altíssimo. Aviou o Lyon, uma equipa do nosso nível, por 5-2 na Cidade Condal. Conta nas suas fileiras, entre outros, com Daniel Alves, Yayá Touré, Xavi, Iniesta e o melhor tridente atacante do mundo, composto por Henry, Messi e Eto'o. Sejamos realistas, com o Barcelona teremos muito poucas hipóteses, por isso, espero que não nos toque a nós.

O Manchester United aparece logo a seguir, com 31 votos. O que disse para o Barcelona, também assenta bem aos 'red devils'. Campeão europeu em título e dominador incontestado do futebol inglês, é uma verdadeira máquina de futebol ofensivo, bastante superior à equipa que eliminámos em 2004 no nosso trajecto glorioso rumo a Gelsenkirchen. Já aqui disse que o FC Porto não costuma dar-se bem com ingleses e com a intensidade avassaladora do futebol britânico, mormente quando joga fora de portas. Obviamente que defrontar o seu melhor representante não é uma boa ideia. Com jogadores como Cristiano Ronaldo, Rooney, Berbatov, Giggs, Scholes, Carrick ou Ferdinand ao melhor nível, as probabilidades de sucesso seriam diminutas.

Daqui em diante, surgem as três equipas com as quais, penso, teríamos mais hipóteses de discutir a eliminatória olhos nos olhos. No Arsenal votaram 43 visitantes do blog. São uma equipa muito forte, mas em comparação com as que já anteriormente abordei, perdem em qualidade. Possuem individualidades acima de qualquer suspeita, casos de Fabregas, Adebayor, Van Persie, Gallas ou Nasri, além de um treinador extremamente competente, Arsène Wenger. Todavia, e apesar do futebol bonito que praticam e do ritmo elevado que impõe às partidas, talvez tivéssemos boas hipóteses de passagem às meias-finais. O 4-0 humilhante com que nos derrotaram na fase de grupos só teria de funcionar como um estímulo extra e não como um 'handicap', até porque os vencedores do grupo fomos nós, não eles.

O Bayern Munique é o segundo na lista de preferências dos adeptos azuis e brancos, tendo somado 108 votos, um dos quais o meu. Sei que o Villarreal é teoricamente - e reforço o teoricamente, pois a prática, por vezes, é bem diferente - o mais acessível e talvez o único com o qual era possível repartir as probalidades de passagem ao meio ou até assumir algum favoritismo. Desejo, porém, os bávaros, por três razões: primeiro, porque temos umas contas a ajustar desde 2000 quando nos eliminaram da Champions de forma injusta e com o dedo arbitral de Hugh Dallas; segundo, porque, por uma questão de nacionalidade, talvez nos comparassem ao Sporting e esse monosprezo era capaz de funcionar a nosso favor; por fim, creio que, em termos meramente futebolísticos, nos poderíamos bater de igual para igual e sem receio de sermos felizes. Ribéry, Luca Toni, Schweinsteiger, Lahm ou Lúcio são grandes jogadores, mas nós também temos as nossas armas. Historicamente, quase sempre nos demos bem com germânicos...

Sem surpresa, os espanhóis do Villarreal receberam a maioria dos cliques nesta sondagem, um total de 186. Apesar de serem uma equipa forte, de seguirem no 4ª lugar da liga espanhola e terem afastado o Panathinaikos na ronda anterior, são, inequivocamente, a formação menos forte do lote das oito. Jogadores como Marcos Senna, Rossi, Cazorla, Ibagaza, Nihat, Robert Pires ou Matias Fernandéz são uma ameaça para qualquer equipa, mas em comparação com os nossos heróis ficam a perder. Mas isto de desejar o adversário teoricamente mais acessível é sempre perigoso, como se viu na temporada passada em relação ao Schalke 04, sendo esta mais uma razão para o meu preferido ser o carrasco leonino.

Resumindo e por ordem, os meus adversários preferidos para nos batermos pelas meias-finais da liga milionária são: Bayern, Villarreal, Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester e Barcelona. De qualquer forma, convém ter sempre presente que a prática nem sempre confirma a teoria. Caso nos saia o Villarreal, não quer dizer que sejam favas contadas, do mesmo modo que se nos calhar o Barcelona, não ficaremos derrotados à partida. Os 180 ou mais minutos de futebol jogado, com toda a Europa como testemunha, é que ditarão as quatro melhores equipas desta época. E se nos exibirmos ao nosso melhor nível, com o colectivo a carburar na plenitude, as individualidades inspiradas e os adeptos a tornarem o Dragão num autêntico inferno, como sucedeu defronte do Atlético Madrid, temos equipa para nos batermos com qualquer opositor e tudo pode acontecer. Há que ter, é evidente, consciência das diferenças existentes entre a realidade portuguesa e a inglesa, a espanhola ou a alemã, mas que se saiba, sonhar ainda não paga imposto.

13 março, 2009

O Fogo do Dragão

Quarta-feira, o Estádio do Dragão engalanou-se para assistir a mais uma grande noite europeia do FC Porto. O empate não traduziu a superioridade portista sobre o Atlético Madrid, tal como já acontecera na capital espanhola, mas foi o bastante para se alcançar a qualificação para os quartos-de-final da Liga dos Campeões, cinco temporadas depois da última vez. O FC Porto volta a estar entre as oito equipas mais poderosas da Europa, demonstrando ser um clube de elite e afirmando-se cada vez mais como o único clube português capaz de competir com as principais potências internacionais. Basta ver que é a única equipa presente que não pertence aos quatro principais campeonatos europeus. Nem a França lá conseguiu colocar uma equipa. Nem sequer a Itália!

Enquanto este país de gente mesquinha, invejosa e acéfala tenta denegrir a imagem e o bom nome do Futebol Clube do Porto, com jogadas baixas de bastidores de uma falta de carácter absolutamente imunda, a resposta é dada, como quase sempre, dentro do campo, com qualidade futebolística e resultados que não mentem. Será que esta gentalha não deixa de ser burra e não percebe que quanto mais nos tentarem derrubar, mais força nos estarão a transmitir? Quanto mais tentarem sujar a nossa grandiosa história, mais nós uniremos esforços na busca de triunfos? Quanto mais campanhas orquestrarem contra nós, mais vontade teremos de vencer e vencer e vencer?

Sentiu-se o fogo do Dragão a queimar durante aquele jogo. Sentiu-se uma fúria de vencer inesgotável, uma união à volta da equipa que nem sempre existe. Os portistas perceberam que aquele desafio era muito, muito importante. Não significava apenas a luta pela passagem aos 'quartos' da Champions, frente a uma formação de espanhóis arrogantes e com a mania da superioridade. Vivemos tempos muito difíceis. Os ataques surgem de todos os quadrantes, desde a imprensa centralista, algo que vem sendo habitual ao longo destes anos, ao Presidente da UEFA, homem que devia revelar mais responsabilidade e pensar duas vezes antes de proferir imbecilidades. Atingir uma performance tão meritória na Champions é uma grande bofetada de luva branca em todos os que tentam arrastar o nome do FC Porto pela lama.

Quando o jogo terminou senti uma felicidade que não trocava por nada. E exteriorizei-a! São estes resultados europeus que dão estatuto e prestígio a um clube. Nada se compara aos êxitos que se conseguem numa competição com este envolvimento e com esta exposição mediática. Depois de termos estado tão perto nas duas edições anteriores, desta vez conseguimos ultrapassar mesmo a barreira dos oitavos-de-final. Foi feita justiça, ela que, por vezes, pode tardar mas não falha.

Convém que não nos esqueçamos do significado que tem estar entre os oito melhores do Velho Continente. Bem sei que nós somos dos adeptos mais exigentes do mundo, mas tenho bem presente as diferenças que há, a todos os níveis, entre as grandes ligas e a nossa. Não há nenhum clube que não pertença às grandes potências que tenha um desempenho tão constante como o FC Porto. Isto deve querer dizer alguma coisa. Atendendo à realidade portuguesa, muito tem feito o FC Porto pelo futebol nacional. Portugal acaba de cair para um preocupante décimo lugar no ranking da UEFA, atrás de países como a Rússia, a Holanda, a Roménia e a Ucrânia. A culpa não é decerto do FC Porto. Enquanto outros clubes envergonham o futebol tuga além-fronteiras, o FC Porto é dos únicos que tentam lavar a face e repôr alguma honra. Mesmo assim, há palhaços que, em vez de nos agradecerem por ainda terem vagas nas provas europeias - especialmente na Liga dos Campeões -, entretêm-se a menosprezar aquilo que vamos alcançando.

A maturidade dos jogadores azuis e brancos durante os 180 minutos de confronto com o Atlético foi fantástica. Muita classe, muita frieza, muito controlo emocional denotou esta equipa. Aqui, é impossível não falar de Jesualdo Ferreira como o grande obreiro deste comportamento colectivo. O técnico portista, tantas vezes subestimado nas suas enormíssimas competências, conhece como ninguém as potencialidades da equipa que concebeu e a forma como as pode maximizar em cada momento. Por outro lado, notou-se que estudou a equipa 'colchonera' ao pormenor. Em Madrid, deu ordem para atacar e procurar ganhar e, dadas as inúmeras ocasiões de golo desperdiçadas, só por milagre se verificou uma igualdade. Na quarta-feira, foi mais calculista, mais matreiro, aquela atitude que muitos teimam em apelidar de medo, falta de ambição e cobardia. Percebeu claramente que o ataque era o ponto mais forte do adversário e que, em virtude do 'score' favorável, não era inteligente balancear-se em demasia no ataque. Havia que especular, chamar o adversário, convidá-lo a subir no terreno e a abrir brechas nas suas costas. Mas Abel Resino veio com medo das transições atacantes rápidas dos portistas e especulou também, ao contrário do que havia dito antes do jogo. Resolveu povoar mais o sector intermediário, deixando Forlán no banco e apresentando-se em 4-2-3-1. Jesualdo terá pensado: "O tempo não corre a nosso favor? Então eles que façam alguma coisa". Foi assim durante toda a primeira parte. E a verdade é que quando Resino viu o tempo a começar a esgotar-se e decidiu arriscar mais, o FC Porto acedeu ao convite e tornou-se progressivamente mais ameaçador, controlando o jogo mais longe da área de Helton e não chegando à vantagem por culpa do azar e de Léo Franco. Quando o Atlético deixou de especular e jogou tudo, o FC Porto jogou ainda mais e mostrou que é mais forte, não tendo chegado à vitória por mero acaso.

A isto chama-se maturidade competitiva. Saber o que se está a fazer no relvado, o que se pretende atingir e o meio para lá chegar. Conhecer-se a si próprio e ao adversário e adoptar comportamentos adequados que possibilitem superiorizar-se. Jesualdo Ferreira pode ter defeitos, como todos os treinadores, mas no plano estratégico e táctico não recebe lições de muita gente. Não percebo como se chegou a falar por aí em Paulo Bento para seu substituto na próxima época, um treinador que sofre 12-1 do Bayern Munique, que entra para a Champions a fazer gestão de plantel e revela uma incapacidade gritante ao nível psicológico dos seus pupilos. Enfim, como é uma ideia patética, também não deve ser para eu perceber...

A partir daqui tudo é possível. Sabendo que há equipas mais fortes que outras, qualquer uma pode ganhar, ir à final, chegar às meias-finais ou ficar pelo caminho. E talvez ninguém prevesse que pudéssemos estar nesta situação, numa temporada em que o plantel sofreu uma remodelação significativa e em que atravessámos momentos de extrema adversidade. Lançando já um breve olhar sobre o sorteio a realizar de hoje a oito dias, posso dizer que gostava que nos calhasse o Bayern Munique. Por duas razões: primeiro, porque temos umas contas a ajustar desde aquela eliminação inglória com o dedo do árbitro Hugh Dallas (nunca me esquecerei deste miserável a arranjar uma falta perto da nossa área e a tentar apressar a sua marcação antes que o tempo se esgotasse) em 1999-2000; segundo, dado que certamente os bávaros pensariam em facilidades por o FC Porto ser do mesmo país do Sporting e talvez pudessem ter um dissabor dos grandes. Dos outros possíveis adversários, gostava de evitar Manchester United, Barcelona e Liverpool.

Saia quem sair, não há dúvida que podemos perder com qualquer deles, mas estou igualmente convicto que somos equipa para ombrear com qualquer um. Assim esta equipa chegue a essa altura na plenitude das suas faculdades e a sorte esteja do seu lado. Por agora, há que nos congratularmos pela temporada que o FC Porto vem realizando e continuar a apoiar como fizémos na quarta-feira. Importantes batalhas se aproximam e ainda temos muitos sapos vivos para administrar nos idiotas da praxe.

27 fevereiro, 2009

Dimensão Europeia

Se dúvidas houvesse em relação à capacidade deste FC Porto versão 2008-09, elas ter-se-ão dissipado terça-feira, em Madrid, em pleno Estádio Vicente Calderón. Não obstante todas as vicissitudes e adversidades ocorridas ao longo da temporada, que não importa estar agora a enumerar, o FC Porto vai na frente da Liga Sagres, está nas meias-finais da Taça de Portugal, apenas foi eliminado da Taça da Liga a pedido e, melhor que tudo isso, está a um pequeno passo dos quartos-de-final da Liga dos Campeões. Por muito respeito que as provas nacionais nos mereçam - e devem ser todas para ganhar, até para calar as vozes dos habituais invejosos e difamadores -, o verdadeiro desafio deste clube prende-se, há já vários anos, com a conquista de bons resultados internacionais e consequente crescimento cada vez mais sustentado do seu prestígio além-fronteiras.

É por isso que o jogo de Madrid constituiu, na minha opinião, o momento mais marcante da temporada até ao momento. O resultado foi curto e injusto para tanto caudal ofensivo, oportunidades de golo desperdiçadas e contrariedades surgidas. Mas o que há a reter da partida é a forma personalizada e ambiciosa como o FC Porto se exibiu na casa de uma das mais representativas equipas espanholas, que não está a passar por um bom momento, mas cuja qualidade do plantel está acima de qualquer suspeita. Com aquela atitude e categoria, podemos estar confiantes no futuro e convictos de que o trabalho que está a ser feito é competente e vai no bom caminho. Fiquei feliz por perceber que esta equipa continua com a dimensão europeia que conquistou ao longo das últimas décadas, algo que me parece vital preservar. E convém lembrar que o técnico madrileno Abel Resino errou, não sei se por desconhecimento ou para desculpabilizar o resultado negativo, ao dizer que os jogadores portistas já jogam juntos há muito tempo. Do onze inicial azul e branco que defrontou o Atlético, seis elementos chegaram esta época ao clube.

Campeonato e Taça já não chegam. Só nos devemos contentar se abraçarmos também carreiras europeias à altura da nossa grandeza actual, que faça jus ao nosso estatuto de clube português mais reconhecido e respeitado internacionalmente. Por perceber que estes jogos são os mais significativos, a adrenalina esteve sempre no máximo durante aqueles intensos 90 minutos e chegou a ser angustiante ver o FC Porto a dominar e a não conseguir marcar.

Já muito de discutiu acerca do modelo preconizado para esta temporada pelo técnico Jesualdo Ferreira, de descurar a posse de bola e o domínio constante do jogo, para apostar na objectividade das transições ofensivas rápidas. De certa forma, pode dizer-se que este é um modelo de equipa pequena adaptado às exigências de uma equipa grande. A opção de Jesualdo é discutível e, quiçá, até contra-natura. Uma equipa como o FC Porto deve sempre assumir o jogo, dominar o adversário, apostar no ataque continuado, ter jogadores capazes de efectuar posse de bola constante, possuir engenho para abrir defesas porfiadas, dirão alguns. Assim ao estilo do FC Porto de Mourinho, de tão boa memória, ou do actual Barcelona de Guardiola, ressalvando as devidas proporções. É uma ideia que faz sentido. Mas se o nosso desafio maior é o europeu e se na Europa não funcionámos como colosso mas como 'outsider', talvez o rumo tomado também seja defensável com argumentos sólidos. É verdade que esta nova mentalidade da equipa, mais explosiva e menos paciente, mais letal e menos talentosa, já nos causou alguns dissabores, no Dragão, diante de adversários menores, que chegam e estacionam o 'autocarro'. No entanto, também é um facto que fora de casa temos sido intratáveis, inclusivamente na Liga dos Campeões (exceptuando o desastre de Londres), algo que antes era mais difícil acontecer.

Jesualdo Ferreira definiu uma estratégia e assumiu o risco. Com dois campeonatos no bolso e sabendo que na Champions fomos eliminados duas vezes consecutivas nos oitavos-de-final, importava tentar detectar as razões do insucesso externo. Se pensarmos no modo como saímos da máxima competição de clubes, adoptando um modelo de equipa grande, talvez cheguemos a algumas respostas. Em 2006-07, o Chelsea era melhor que nós, tinha jogadores com mais qualidade. Ora, não conseguindo assumir o jogo como queria e era da sua natureza, dada a maior valia do opositor, especialmente em Londres, a nossa equipa não se sentiu cómoda, foi obrigada a actuar contra os seus princípios de jogo. Se estivesse configurada tal como está actualmente, talvez José Mourinho tivesse caído aos nossos pés. Quem sabe? Em 2007-08, vergamos perante um inferior Schalke 04, porque, primeiro, em Gelsenkirchen, nunca nos encontramos diante da pressão ofensiva dos alemães e nunca conseguimos responder em contra-ataque e, segundo, no Dragão, fomos competentes em ataque contínuo mas tivemos pela frente um guarda-redes que realizou a exibição da vida. Imaginemos este FC Porto de raides supersónicos contra aquele Schalke. Ninguém sabe, mas talvez a desilusão não tivesse acontecido.

Então, por que não correr riscos internamente para lutar por um ideal maior? Por que não atacar a Velha Europa com um modelo de 'sniper'? Por aquilo que vimos em Madrid, em Kiev, em Istambul (e até em Alvalade, na Luz e em Braga), até que pode ter a sua lógica. Defendendo bem e com a transição ofensiva rápida como arma letal, fica a sensação que poderemos surpreender qualquer rival, mesmo mais poderoso, sensação essa que não existia nas duas temporadas anteriores. Não há verdades absolutas. Confesso que, por vezes, gostava de ver este FC Porto a ter maior capacidade de posse de bola, a mostrar mais talento para ultrapassar defesas cerradas, a denotar maior propensão para pressionar o portador da bola mais longe da sua baliza, enfim, a comportar-se como grande equipa que é. Mas ninguém contesta que é um autêntico regalo ver a forma devastadora como o FC Porto contra-ataca, contando para isso com o quarteto ofensivo ideal para traduzir essa forma de jogar em golos. Lucho é o cérebro, o lançador dos ataques. Hulk e Rodríguez são as balas apontadas à cabeça do adversário. Lisandro é o 'serial-killer', leia-se melhor marcador da Champions League.

Estas exibições como a que realizámos na capital da prepotente Espanha revestem-se de um valor incalculável. Quem está acostumado a ler o que se escreve no país vizinho acerca do futebol luso, sabe perfeitamente que Portugal continua a ser uma espécie de província castelhana e que estamos para eles, como a Grécia ou a Turquia, por exemplo, estão para nós. Não nos dão muita expressão. É norma evidenciarem um sentimento de superioridade e arrogância relativamente aos portugueses. Vê-los dizer que o Atlético Madrid só não foi goleado por milagre, vê-los admitir que o FC Porto foi muito superior, vê-los tecer rasgados elogios a jogadores como Hulk e Lisandro, é sintomático. É assim que se cresce, se granjeia respeito, se adquire fama e se ridicularizam vozes que dão conta do maior reconhecimento internacional do clube dos 6 (ou serão apenas 2,2??) milhões. Mais reconhecido só se for a tentar entrar na enorme Champions League pelo outro lado, porque fazê-lo a jogar futebol, estamos conversados...

Talvez seja um sonho impossível a breve prazo, talvez seja pensar demasiado grande, mas eu quero ver o FC Porto campeão europeu pela terceira vez. E esta equipa, a jogar desta forma 'assassina', faz-me acreditar que é possível. Um sonho muito difícil, mas possível. E a nossa vida compõe-se de sonhos!

06 fevereiro, 2009

Balanço

Contava fazer um balanço do campeonato exactamente no final da primeira volta, mas a época de exames, a que se junta o horário normal de trabalho, têm-me retirado o pouco tempo livre que me resta, pelo que na semana passada não tive oportunidade de fazer o meu habitual post de sexta-feira. Assim, a análise ao trajecto do FC Porto na Liga Sagres 2008-09 chega agora, com uma jornada de atraso. Nunca é tarde quando o objectivo é debater e discutir o nosso clube. Escrevo ainda antes do Sporting-FC Porto para a Taça da Liga, até porque o meu propósito é resumir-me à carreira portista apenas na primeira liga.

Com 16 jornadas já realizadas, o FC Porto segue líder isolado da competição, com 34 pontos, mais 1 que o Benfica e mais 3 que o Sporting. Sem surpresa, dirão alguns, ou talvez não, a verdade é que o FC Porto, apesar de todas as dificuldades que tem encontrado ao longo da temporada, conseguiu chegar ao lugar que tem sido seu desde há largos anos. Por mais que a exigência dos adeptos azuis e brancos esteja sempre no máximo, para mim este é um feito de grande importância, que merece ser realçado e valorizado na correcta medida. Quem não se lembra das críticas ferozes ao treinador Jesualdo Ferreira, à SAD e à qualidade do plantel e dos cenários de catástrofe que foram traçados?

O FC Porto tem esta capacidade de se regenerar rapidamente. Após perder vários jogadores nucleares da sua estrutura, trilhou um caminho de desembaraçada reconstrução, incluindo vários novos recrutas e recolocando a 'máquina' a funcionar tão depressa quanto possível. Aqui, não há a possibilidade de se pedir um tempo sem resultados, pelo facto de se estar a formar uma equipa nova e a implementar novas ideias, novos processos, novos métodos. Enquanto que noutras paragens se começam novos ciclos todos os anos, com promessas de glórias longínquas e infinitas conquistas, aqui o ciclo é sempre o mesmo: VENCER!

Jesualdo Ferreira não é um treinador que gere consensos. Mais serão os portistas que o não apreciam que os que lhe reconhecem qualidade mais que suficiente para o comando técnico do FC Porto. Mas ninguém lhe pode retirar o mérito do trabalho competente que vem realizando. No começo da época, a realidade esteve bastante cinzenta para as nossas cores. A equipa perdera peças importantíssimas, os reforços mais relevantes tardaram em mostrar a razão de terem sido contratados, a mecânica colectiva não funcionava, as exibições deixavam muito a desejar e os resultados não eram de acordo com as pretensões do universo portista. Jesualdo manteve-se imune às vozes desagradadas e manteve-se fiel às suas convicções. O adepto comum apenas quer vitórias. Está-se borrifando para a dificuldade que é formar uma equipa nova, colocá-la a jogar futebol e obter resultados para ontem, no meio de uma pressão asfixiante e cultura de vitória constante.

O certo é que o FC Porto é hoje uma equipa que apresenta uma notória evolução em relação ao passado recente, já se nota mecanização e automatismo, princípios de jogo claramente definidos, uma ideia comum para a qual todos os jogadores contribuem e sabem o que devem fazer para que isso aconteça. Alguns pontos fracos (dificuldade em conseguir um jogo de posse de bola condizente com o estatuto do FC Porto, ineficácia na pressão ao portador da bola em várias alturas) continuam visíveis, mas os pontos fortes (boa organização defensiva, transições ofensivas supersónicas, maturidade competitiva), colocaram-nos na liderança da liga, que poderá sair reforçada no domingo, diante do Benfica. Os portistas devem sentir-se orgulhosos desta equipa. Mesmo numa temporada claramente de transição, consegue chegar à metade do campeonato em primeiro lugar, com um plantel mais fraco, a meu ver, que o da temporada transacta. Se é verdade que o onze dos 'dragões' é bastante forte - algo de que só agora se tem a certeza, pois no início as dúvidas eram muitas e vários jogadores foram postos em causa -, também não deixa de ser um facto indesmentível que as alternativas são escassas em quantidade e relativamente baixas em qualidade. Basta ver que os elementos do banco a que Jesualdo mais vezes recorreu foram Guarín e Mariano González.

Não obstante a liderança actual, o percurso foi árduo e acidentado. Em 16 jogos, alcançámos 10 vitórias - Belenenses (2-0, casa; 3-1, fora), P.Ferreira (2-0, casa), Sporting (2-1, fora), Guimarães (2-0, casa), E.Amadora (4-2, fora), Académica (2-1, casa), Setúbal (3-0, fora), Nacional (4-2, fora) e Braga (2-0, fora) -, mas também desperdiçámos a considerável marca de 14 pontos em 48 possíveis, resultantes de 2 derrotas - Leixões (2-3, casa) e Naval (0-1, fora) - e 4 empates - Benfica (1-1, fora), Rio Ave (0-0, fora), Marítimo (0-0, casa) e Trofense (0-0, casa). Por aqui se conclui facilmente que o calcanhar de Aquiles esteve nos jogos no Dragão, onde as equipas aparecem muito fechadas, não favorecendo o modelo de rápidas transições preconizado pelo Professor. A pressão de jogar perante uma massa adepta exigente, e descontente em vários momentos, também pode ter pesado no insuficiente rendimento caseiro da equipa.

Foram utilizados 23 jogadores, cujos minutos jogados por cada um revelam, de forma objectiva, o sentido das opções técnicas tomadas. Assim, Bruno Alves foi o único totalista, contabilizando um total de 1440 minutos (considerando apenas 90 minutos por partida). Seguem-se Rolando (1350), Lucho (1343), Lisandro (1336), Rodríguez (1292), Raúl Meireles (1265), Fernando (1210), Helton (1170), Fucile (1059), Hulk (951), Sapunaru (696), Tomás Costa (576), Mariano González (378), Pedro Emanuel (292), Nuno (270), Lino (266), Guarín (204), Benítez (197), Cissokho (180), Farías (160), Candeias (114), Tarik (84) e Pelé (20). Ventura, Stepanov, Bolatti, Rabiola e Diogo Viana não somaram qualquer minuto nesta Liga Sagres. Recorde-se que Lino, Pelé, Candeias e Bolatti já não estão no plantel, sendo que Andrés Madrid é o mais recente reforço, não tendo tido ainda tempo para se estrear na principal competição nacional, como é lógico. Estes dados remetem para os melhores jogadores e para o onze mais forte portista, mas não é possível, de todo, considerar que o plantel é vasto, equilibrado e homogéneo. Jesualdo não é grande adepto da rotatividade deliberada, mas deve dizer-se que este plantel também não permite uma situação desse tipo. O que houve foi, após um normal período de estudo dos recursos disponíveis e do teste de algumas escolhas, uma adaptação lesta às novas condições e um reajustamento de alguns princípios colectivos às características individuais. Por isso, a equipa apresenta melhorias bastante significativas.

No respeitante aos golos, a produção portista foi pobre, com 29 golos marcados, à média de 1,8 por jogo, mas mesmo assim chegou para ser o ataque mais concretizador de uma prova com um assinalável défice de golos. Neste particular, Rodríguez e Hulk foram os mais profícuos, com 6 tentos apontados, seguidos de Lisandro e Lucho com 5, Raúl Meireles e Bruno Alves com 2 e Mariano González, Guarín e Farías com 1. Apesar do número modesto de vezes que o FC Porto fez balançar as redes contrárias, importa destacar a qualidade excepcional de algumas das finalizações. Aliás, na bolsa dos melhores 5 golos do campeonato, escolhida pela Sporttv, convém lembrar que 3 deles são portistas: dois de Hulk (portentosos remates de fora da área contra Belenenses e E.Amadora) e um, o melhor golo da época, de Rodríguez (bicicleta estupenda defronte do Nacional). Em termos defensivos, o rendimento é aceitável: terceira melhor defesa, a par de Leixões e Benfica e atrás de Braga e Sporting, com 12 golos sofridos, à média de 0,75 por jogo.

Por fim, deixo aqui também uma achega relativamente ao número de espectadores, algo que deve estar presente nas preocupações de todos os que gostam deste espectáculo chamado futebol. O FC Porto registou nos seus jogos caseiros um total de 243 172 espectadores, o que significa uma média de 34 739 por cada um dos sete jogos disputados no Estádio do Dragão. É um número interessante, com tendência para subir na segunda volta, visto que receberemos, entre outros, Benfica, Sporting e Braga.

A Liga Sagres tem sido de fraca qualidade, será pacífico afirmá-lo, mas a competitividade está aí e promete continuar até ao final da temporada. Os grandes perdem cada vez mais pontos com os pequenos e há equipas a quererem fazer-se maiores. É positivo para o futebol nacional que tal suceda e o FC Porto deve responder a essa nova ordem com a competência e seriedade habituais. Nesta altura, a evolução que a equipa tem patenteado faz-me ter confiança no futuro e acreditar que o Tetra será uma realidade lá mais para a frente. Analisando com atenção o calendário portista e comparando-o com o dos nossos rivais directos, esse sentimento sai reforçado. Por todos os ataques que sofreu, sofre e continuará a sofrer por parte da invejosa concorrência, seria um título tão merecido quanto saboroso. Mas não se pode baixar a guarda, a luta vai continuar bem acesa. E domingo, é dia de batalha principal.