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03 setembro, 2015

"MAY YOU STAY FOREVER YOUNG" [THROWBACK].

http://bibo-porto-carago.blogspot.pt/


Entendam: é um texto “aquecido”, mas não quero com isso ofender-vos. Já o escrevi em vésperas de despedida do Estádio das Antas, ou seja em finais de 2003, ainda as galinhas tinham dentes. Hoje bateu forte a saudade. Fui revisitá-lo e achei que faria sentido publicar. Talvez porque os adeptos que o enchiam fossem diferentes dos actuais, talvez porque gostasse que tudo voltasse à segurança e certezas desses tempos, talvez porque…

Aqui vai: em homenagem ao mais belo, mítico e esplendoroso estádio que alguma vez existiu. Por muito que gostemos e amemos o Dragão, as Antas serão sempre as Antas e o vazio permanecerá. Mesmo que não confessemos.

“MAY YOU STAY FOREVER YOUNG”

Ansiedade misto de agonia. Simplesmente impossível de encaixar, de aceitar que um dos principais palcos da minha infância e adolescência, onde me senti a miúda mais feliz de todo o wide universe, ia abaixo. Sabia que as horas que passavam nos relógios da minha vida tornavam a despedida ameaçadoramente perto mas sempre pedi que amanhã não fosse a véspera do malfadado momento. Não houve como contornar ou adiar. Dia 16 passado foi essa véspera. A 17 de Dezembro de 2003 iria cumprir-se a despedida oficial, naquela que seria a altura para todos os adeus. Desse por onde desse, rain or shine, iria estar presente e dar o corpinho ao manifesto.

Aproveitei para me mentalizar e disse a mim mesma que não haveria lágrimas. "Ouviste?" Apenas emoção e alegria por tudo aquilo que vi e vivi ali dentro. Apenas satisfação por saber que iríamos mudar para melhor. Que tudo é uma questão de etapas e que as que tivemos nas Antas acabavam ali e naquele instante. Que nada acabava, apenas continuava. OK. Iria comportar-me e dar parte de forte. Como dizem quando um jogador nos deixa: "Os estádios passam, o Clube fica". Mas levei um pack de Kleenex de folha dupla no bolso. Just in case.

Iria ao meu Estádio e dizer-lhe em sussurro no doce tu-cá-tu-lá que mantivemos anos a fio, que estava lá para ele e que nunca o esqueceria. Que era o meu primeiro estádio e que seria sempre. O meu daddy, meu companheiro de todas as horas, não quis ir. Já fez as suas despedidas. Rodeei-me das pessoas mais especiais e que nunca dizem que não e lá me fiz ao caminho.

Noite fria, gélida e vento a soprar forte. Doeu-me que o chamamento para este último jogo não fosse feito da melhor maneira pelos responsáveis do Clube e, consequência disso, o egoísmo dos Homens sobrepôs-se à importância e significado do desafio que opôs o Glorioso FC Porto ao modesto Maia, em confronto para a Taça de Portugal. Pouca gente nas bancadas. Menos de quinze mil almas. Muito poucas, muito poucas. As mais sentimentalonas, estou certa. Antes do jogo olhei em volta e recordei o primeiro contacto, os jogadores que aprendi a adorar, as jogadas empolgantes, os cantinhos todos e mais algum que compuseram o Estádio da minha Vida.

"É a última vez que aqui estou, é a última vez que aqui entro, é a última vez que subo estas bancadas, é a última vez que te vejo inteiro por dentro, é a última vez que limpo uma cadeira suja de pó acumulado." Semicerrando os olhos e os ouvidos, sensação de casa a envolver-me, consegui transportar-me para outros jogos e outros embates noutras horas de outros dias. Noites de competições europeias.

Um jogo contra o Dínamo de Zagreb, decisivo, o Bota de Ouro a falhar um penalty que nos daria a passagem, o estádio em peso a chamá-lo nessa hora e ele a chorar como um menino. E o golo da vitória marcado bem nos últimos minutinhos e ele a desmaiar em plena pista, rodeado dos colegas. A despedida do Zé Beto no primeiro jogo após a sua morte. A sua foto desenhada a laranja nos marcadores electrónicos do topo e um estádio em peso em silêncio, num silêncio assombroso. A magia e os raides infindáveis do meu Paulinho Futre, ali, bem ali, naquela ala. O Dínamo de Kiev, a melhor equipa do mundo batida sem apelo nem agravo. A dor de perder o Rui Filipe. A Taça dos Campeões Europeus pós-Viena mostrada a um estádio cheio como um grande, imenso ovo de Páscoa. Campeonatos magníficos, sucessivas festas de arrepiar em que nos sentíamos no topo do mundo. Um campeonato perdido para o rival numa tarde em que o César Brito despedaçou todos os sonhos e eu com um primo mais novo a chorarmos agarrados um ao outro, sentados na bancada molhada.

A festa do tri, o êxtase do penta... a noite de Sevilha. Eu estive aqui, eu vivi, eu pertenci. "Então, Júlia?" Voltei à realidade, a piscar os olhos. Lá em baixo, no melhor relvado do país, desfilavam as velhas glórias. Os homens que inauguraram este mesmo estádio. Os homens que engrandeceram este clube décadas fora. Imensa ternura me invadiu e imaginei o que lhes ia na alma. Simples, mas bonito. O jogo foi o que menos me importou. Houve faltas, e houve vermelhos, e houve golos e mau futebol e bom futebol e bolas à trave, e azar e sorte. "É a última vez que canto para ti, é a última vez que festejo um golo..."

Um árbitro sem estória acabou o jogo, com o Alenitchev a entrar na história das Antas como o autor do último golo* marcado. Ganhámos e seguimos em frente na prova. Fixe. Valeu. Pronto. Lá teria de ser. Vamos então a isto. Fogo de artifício, para trás, fogo de artifício para a frente, tudo muito bonitinho e limpinho. O animador de serviço: "Vemo-nos no Estádio do Dragão!". Vivas ao Clube, vivas às Antas, Tocou-se o hino do clube, sacaram-se dos cachecóis e... o silêncio. Chegara o momento de sair. Adeptos houve que saíram apressados ainda estava o jogo a acabar. Adeptos houve que saíram a passo lento, olhando em volta e outros sem olhar. Adeptos houve que ficaram. E olharam. E tornaram a olhar. E tiraram fotografias e filmaram para a posteridade das suas vidas. Adeptos houve que sorriram. Outros que calaram. Alguém me disse: "Então... vamos embora?" Adepta houve que chorou. "Porra, tu prometeste..."

Não deu para aguentar a nostalgia. Acariciei aquilo tudo com um adeus e virei costas, bancadas abaixo. "É a última vez que salto nestes degraus, é a última vez que olho para trás e te vejo. Assim: belo, azul e verde e cheio de luz, é a última vez que saio. É a última vez. So long." Vi um chavalo com uma cadeira azul debaixo do braço. Chovia. Ouvi alguém a dizer: "É Deus a chorar". Seria.

* não chegou a ser o último porque o Estádio das Antas permaneceria intacto até à inauguração oficial do Dragão e mesmo depois, por problemas com o novo relvado.

fotos: “FILHOS DO DRAGÃO”

01 fevereiro, 2014

Dia de Antas

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Aos meus Avós,
por ocasião dos 10 anos volvidos sobre o último jogo disputado no Estádio das Antas:


Eram os finais de 80, inícios dos 90. A ida às Antas era um ritual, que se planeava com tempo e entusiasmo. O chamado dia em cheio, de encher as medidas e ser impossível pedir mais. Os jogos às quatro da tarde obrigavam a alguma ginástica. Ir ter a casa dos Avós antes do meio-dia, ver o Avô retirar, paciente e demoradamente, o seu R19 da garagem, azul bem à Porto, porque no dia em que o comprou, numa daquelas coincidências da vida, o stand só tinha o modelo nessa cor. A Avó a ajudar na manobra. Depois o Avô envergava as luvas de camurça ou de couro para proteger as mãos do volante que aquecia e, finalmente, fazia-se à estrada. E assim íamos os três para as Antas, o maior privilégio de se ser o neto mais velho e varão.

Estacionávamos a muito custo nas imediações do Velasquez, porque o Avô António não tinha jeito para manobras e nenhum lugar lhe parecia suficientemente grande para a viatura que conduzia. Depois era seguir em passo acelerado para o restaurante, que já se fazia tarde. E, como era dia de festa, os Avós levavam-me a almoçar bem. Não ia ao Mcdonalds, nem à Pizza Hut. Nesses dias almoçava-se a sério. No restaurante Vitória, bem no coração da Avenida Fernão de Magalhães, lembro-me de enfrentar a comida portuense: tripas. A sobremesa não era um gelado nem uma mousse de chocolate. Laranja descascada ou salada de frutas. Sinais dos tempos...

Antes de começar a romaria para as Antas, havia a tradicional paragem no Velasquez, para o Avô tomar o cafézinho e apresentar-me a jogadores do FC Porto de épocas passadas, que ali se reuniam antes dos jogos. Ponto de paragem obrigatório da massa adepta, o Velasquez era o local de eleição para quem queria sentir a adrenalina dos grandes jogos e ouvir as últimas novidades e segredos mal guardados do plantel. Vamos para as Antas, que até os comemos! Ou, como dizia o Avô, de sorriso fácil e ar de quem me estava a introduzir no portismo: “até comemos a relva se preciso for, Rodrigo!”

A caminhada para as Antas, essa, fazia-se devagar, sem pressas, quase numa espécie de procissão ou ritual religioso. Este era o momento em que muitas mulheres se despediam dos maridos, indo para o carro ouvir o relato e fazer crochet. Mas não a minha Avó, que sempre nos acompanhou num meio que, naquela altura, era predominantemente masculino. E lá ia eu, de mão dada entre os Avós, encantado da vida, ora caminhando ora tentando voar levantando os pés e apoiando-me nas mãos protectoras que me seguravam.

Depois ficam aqueles cheiros, as barracas dos cachecóis, as bancas de comes e bebes, a Avenida um mar de gente em direcção ao Estádio, filas de vendedores, bandeiras desfraldadas ao vento, cornetas e buzinas, filas para as bilheteiras. Seguia-se a aventura de passar por entre as bombas de gasolina – uma gasolineira à entrada do estádio, quem pode hoje acreditar? – e dirigirmo-nos aos torniquetes de som metálico. E eu, pequenino, já nessa altura com lugar cativo, vaidoso, sem precisar que o Avô me pagasse ao colo como antes.

Até o interior do Estádio transpirava a mística. Granítico, escuro, sombrio, feio. Casas de banho mal cheirosas, onde se acumulavam filas faraónicas, que davam uma satisfação extra quando conseguíamos finalmente lugar para despejar a bexiga. O bar das Antas não tinha pipocas, nem fatias de pizza, nem hot dogs. Tinha lanches ressequidos, de ontem ou ante-ontem, meia dúzia de chocolates e, quando muito, umas coca-colas. Mas a fila, desordenada e gigante, tirava a vontade consumir fosse o que fosse. O caminho para os nossos lugares era demorado. O estádio não escoava como o Dragão, ia tudo a passo de caracol e as escadas, perigosas, foram não raras vezes fonte de perigosas quedas. Mas as pessoas iam mais cedo e, portanto, havia tempo. Os mais chiques ou vaidosos levavam capas de plástico para as cadeiras. Se chovesse as pessoas iam à bola na mesma, ficavam ensopadas, vestiam dois pares de meias, botas de Inverno e aquelas capas de plástico protectoras para a chuva que eram a moda de então! E lembro-me perfeitamente de ver muitos homens como o meu Avô, de rádio transístor amarelo em punho, para saber ali mesmo se tinha sido penalty ou fora-de-jogo.

Chegávamos aos lugares e todos se conheciam. Cumprimentar um e outro, perguntar pela família, dois dedos de conversa sobre a jornada passada e esperar pela equipa, que entrava religiosamente ao som do hino. O Porto a entrar em campo! O nervosismo a subir, fitas e confetis lançados para o relvado e a equipa lá surgia, a correr, em aquecimento rápido, o Domingos a dar uns sprints e o Aloísio a treinar as impulsões. Aplausos, cachecóis esticados, um barulho inimitável e a certeza de que, perante aquilo, sabemos que nunca mais vamos deixar de gostar de futebol e que o FC Porto se tornou numa paixão para a vida. E o treinador lá vinha em direcção à pala das Antas, já a agradecer os aplausos dos cativos, que variavam conforme a fase da época. Mas não me lembro de assobios, uma boca ou outra ao Sr. Engenheiro talvez, mas no geral um apoio forte, coerente, respeitador, sólido, justo.

Eram os tempos dos vendedores ambulantes do estádio, do “olhó chocolate”, do homem dos gelados, guloseimas sempre à disposição e patrocinadas pelos Avós. Havia também os homens que circulavam pelas bancadas para recolher assinaturas para o abaixo-assinado da recandidatura do Presidente Jorge Nuno Pinto da Costa, os distribuidores da Dragões, a corneta do Sr. Lourenço a entoar a marcha fúnebre quando algum adversário se prostrava no relvado, a arquibancada, magnífica, a levar com o sol de frente. Eram também os dias em que de repente todos se levantavam sem saber porquê, ninguém via nada, ninguém ouvia nada, mas todos tinham uma versão para o sucedido. A maior parte das vezes, claro, era uma rixa qualquer que havia rebentado sabe-se lá porquê. E os nómadas, que acompanhavam o ataque do FC Porto, mudando de lugar ao intervalo.

As histórias das Antas vêm-me em catadupa. Lembro-me de um desconhecido dar um encontrão à minha Avó, ali perto dos torniquetes durante a confusão que foi a obra da Torre das Antas. Lembro-me, como se fosse hoje, do comentário irónico da minha Avó: “este vai cheio de pressa”. Já dentro do estádio surge a terrível notícia: tinha desaparecido o porta-moedas da Avó. Os ralhetes do meu Avô, a maldizer a carteira sem fecho de correr e a minha Avó no estado normal de quem perde dinheiro e cartões, ludibriada de uma maneira tão básica. O porta-moedas, esse, apareceu mais tarde num quarto de banho de um café das Antas. O dinheiro, óbvio, desapareceu. Anos volvidos, já sem a aflição do momento, ficou uma história para contar.

Outro episódio que me vem à memória deu-se num jogo que já não consigo precisar, apesar de mais recente. Os anos que tinham passado pesavam, claro está, bem mais no meu Avô que em mim, que ainda era menino. Chovia torrencialmente e o Porto estava a jogar tremendamente mal. A dada altura, o meu Avô, que costumava saber o nome de todos os jogadores do plantel, pergunta-me se aquele que estava na baliza era o Vítor Baía. Respondi que não, Avô, que o Baía tinha ido para o Barcelona e que aquele era o Hilário, o novo guarda-redes.

Só anos mais tarde compreendi o erro que cometi. Olhar para o relvado e, no lugar do Hilário, ver o Baía... Suprema felicidade a do meu Avô! Como pude corrigi-lo?! Quem não queria olhar hoje para a relva do Dragão e, no lugar do Otamendi, ver o Jorge Costa? Ou no lugar do Danilo ver o João Pinto? Ou no lugar do Jackson ver o nosso Domingos?

De certa forma, tudo faz sentido e tudo tem o seu tempo. Como iria eu hoje explicar ao meu Avô que o Capitão do FC Porto é vendido a meio da época não para Barcelona, mas sim para o Qatar? As Antas foram em larga medida o símbolo de uma cultura, de uma mística, de um determinado tipo de jogador e de um modo de apoiar único e inimitável. O seu ambiente não pode ser reeditado nem o seu lugar pode ser ocupado porque essa cultura, essa mística, esse tipo de jogador e esse modo de apoiar não existem mais.

Rodrigo de Almada Martins

25 janeiro, 2014

Estádio das Antas

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O dia em que escrevo este texto, 24 de Janeiro, está profundamente ligado à história do Futebol Clube do Porto. Foi há 15 anos que Vítor Baía regressou a casa e se tornou no nº99 mais famoso do mundo, foi também, há 10 anos, que o Futebol Clube do Porto realizou o último jogo no Estádio das Antas. Lembro-me bem desse dia. Era a segunda despedida do estádio onde comecei a ver futebol, do estádio onde aprendi a amar o Porto, depois de uma despedida anterior “falhada”, uma vez que o relvado no Dragão nos pregou uma partida.

Detentor de lugar anual na Superior Sul, confesso que não faço ideia onde se situava a minha cadeira. O meu lugar era sempre o mesmo, o muro da Porta 10. No final desse jogo com o Estrela da Amadora, percorri o caminho habitual. Se a entrada era feita, invariavelmente, pela Porta 10, a porta que utilizava para sair era a 4. Percorria aquele corredor central da bancada, e, chegado à habitual fila nas escadas, ganhava terreno pelo meio das cadeiras. Tal como havia feito umas semanas antes, no final do jogo da primeira despedida, olhei para trás, para aquele cenário que me viu crescer, com uma sensação estranha que era a de saber que nunca mais ia ter aquela visão.

O resto da época 2003/2004 foi disputado no Estádio do Dragão. Ainda sem centro comercial ali ao lado, ainda sem os prédios da Alameda, ainda sem Dragão Caixa mas... ainda com o Estádio das Antas ali a espreitar, como se estivesse a querer dizer que estava pronto para mais alguma emergência, caso o relvado do Dragão resolvesse pregar outra partida. Aqueles momentos em que se passava na VCI e se olhava para a Arquibancada para se tentar perceber se o Estádio ia ter muita gente nunca mais se iam repetir.

Os primeiros meses de Estádio do Dragão trouxeram uma média de espectadores nunca antes vista nos jogos do clube. Com casas acima dos 40.000 adeptos, registaram-se algumas assistências épicas, como em jogos com o Manchester United ou com o Deportivo (que ainda hoje se mantém como o jogo com maior assistência no Dragão). Com poucos meses de vida, o Estádio do Dragão era a casa do CAMPEÃO EUROPEU!

Se a nível de beleza ou de conforto é difícil apontar alguma coisa ao Dragão, a verdade é que há cada vez mais sócios que falam do ambiente do Estádio das Antas com especial saudade e com um orgulho enorme. Mas porquê?

- O ambiente do Estádio das Antas, longe de ter casa cheia na grande maioria dos jogos, era um ambiente mais espontâneo, com as Superiores Norte e Sul a terem um peso gigantesco no número de espectadores em cada jogo lá disputado.

- Será que o maior conforto se traduz numa menor disponibilidade para apoiar a equipa? Será que este conforto se traduz num maior número de famílias a assistir aos jogos? Custa-me responder afirmativamente à primeira questão e, quanto à segunda, também não tenho dados que me possam afirmar de forma peremptória que há mais famílias no Dragão. Apesar do menor conforto, o Estádio das Antas permitia uma maior mobilidade. Quantas pessoas viam o jogo no famoso Tribunal, caminhando durante os jogos e nunca tendo um sítio fixo? É possível fazer isso no Dragão? Não! Permitir uma maior mobilidade entre sectores, entre bancadas, possibilitando que as pessoas pudessem levar um amigo e ver o jogo com elas, permitindo que alguém de outra bancada se juntasse a elas, criando assim pequenos grupos, era uma mais-valia para o estádio. Porque não tentar?

- Será uma questão cultural? Parece-me claro que, o adepto típico do Porto dos dias de hoje, é um adepto muito diferente do adepto típico dos tempos do Estádio das Antas. Porquê? É inegável que os bons resultados desportivos obtidos na última década levaram a um grande aumento de adeptos. A própria globalização que hoje vivemos, essencialmente com o fácil acesso à informação e à diferente forma de comunicar faz com que a mentalidade dos mais jovens seja diferente daquilo que era há uma década. Será isto negativo?

Contrariamente aquilo que possam pensar, acho que podemos (e devemos) usar isto para crescer no caminho certo. O nosso Porto sempre foi exigente... mas não ingrato. O nosso Porto não tem por base uma cultura de vitórias. A nossa base é o sentimento Tripeiro, algo difícil de explicar a quem não sente. Aquele sentimento de dar, realmente, TUDO POR TODOS! Com garra, com raça, fazendo das tripas coração e pondo os interesses do clube à frente de tudo! Não quero que as crianças sejam Portistas porque o Porto ganha mais, quero que sejam Portistas porque se identificam com os valores que sempre fizeram deste clube um clube diferente de todos os outros. Quero que se identifiquem com os valores encabeçados por José Maria Pedroto e por Jorge Nuno Pinto da Costa.

Está visto que não vamos ter sempre casa cheia nos jogos do Futebol Clube do Porto, ainda que os bilhetes sejam a dois ou três euros. Como tal, é imperativo criar condições para que os que lá estão APOIEM o clube do primeiro ao último segundo. É imperativo levar todas as pessoas que vão ao estádio a perceber que o clube não tem obrigação de ser campeão para lhes dar alegrias. NÓS é que temos obrigação de criar condições para que o Porto possa ser campeão! Sempre unidos, contra tudo e contra todos… dando TUDO POR TODOS! Tudo isto é uma questão cultural e nós, adeptos e responsáveis do clube, temos o dever de não deixar morrer os valores que fizeram do Futebol Clube do Porto o clube que é hoje. Por mim, começamos já no próximo jogo.

Querem uma pequena ideia para o final do jogo? Comunhão total entre jogadores e adeptos, sem ver jogadores a fazer sprints para o balneário. Agradecer aos adeptos de forma sincera e sem imposições, porque percebem que estamos lá para os apoiar, gastando o que temos e o que não temos num período em que a região Norte e o país atravessam uma das maiores crises da sua história. Quanto a nós, agradecer aos jogadores por terem dado tudo por nós, seja qual for o resultado final. Importante é que, e pegando nas palavras do Presidente, nunca se atire a toalha ao chão. Importante é, uma vez mais, dar TUDO POR TODOS, TUDO PELO PORTO!

Um abraço TRIPEIRO

P.S. – Como nota final, não posso terminar o texto sem deixar uma palavra aos Super Dragões e ao Colectivo pelos fantásticos momentos proporcionados pela forma como foi entoado um dos cânticos no último jogo.

02 junho, 2010

Tribunal das Antas

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Como primeiro post, faço habitual gesto dos jogadores entrar com o pé direito e vou começar por agradecer a oportunidade e o convite que me deram para poder contribuir para um grande blog como o BiBó PoRtO, carago!!, mas acima de tudo, poder estar entre aqueles que considero como uma segunda família.

Agora passo a uma apresentação e começo logo a dizer que nasci em 1980, mal eu sabia que era a partir daqui que íamos mudar o rumo da História do nosso clube, sou natural de Espinho (terra de grandes Dragões e do meu ídolo de sempre Vitor Hugo), muitos me conhecem não pelo nick Antas, mas pelo nome Frederico, nasci num ambiente totalmente Portista (exceptuando um Tio que quase de certeza que foi adoptado pelo meu avô) por isso ser ou não ser Portista não se colocava, ali era uma questão de legado e de paixão, fui habituado desde pequeno ao culto de ir às Antas ver jogos e ao Américo de Sá acompanhar as modalidades e se possível dar uma olhadela pelos campos número 1 e 2 para ver como estavam a correr os jogos dos miúdos.

Acordei para o futebol, quando vejo o meu Pai de lágrimas nos olhos a chegar a casa depois de ter estado na Suíça a ver uma final do FC Porto, já com 3 ou 4 anos não conseguia compreender o que levava o meu Pai a chorar por causa do nosso clube e só anos mais tarde percebi o porquê desta Paixão, a cada jogo que via do nosso FC Porto, aquela loucura aumentava, mas faltava aquele jogo, aquela chama que só em 1987 é que experimentei e nunca mais larguei.

Entrei pela primeira vez no mítico estádio das Antas em 1987 pela mão do meu pai no jogo em que defrontamos o Ajax na segunda mão da supertaça Europeia, até esta data chorava como um desalmado para o meu Pai me levar ao Futebol mas lá em casa havia um regra de “maioridade” para se ir ao Futebol, mas neste dia ao conquistarmos este Troféu e ver tudo aos saltos num ambiente indescritível senti que a partir desta altura algo tinha mudado na forma de eu ser Portista, verdade seja dita nunca mais fiquei em casa e tenho recordações que vou levar para sempre que só o FC Porto me conseguiu proporcionar.

Resumindo e porque já começa a ser chato, sou um jovem normal que dedica 100% do seu tempo livre ao FC Porto e só não faz mais porque a vida Profissional/Económica não permite, sou um apaixonado pelo Hóquei Patins, mesmo assim continuo a marcar presença assídua no Futebol, Basquetebol e Andebol, confesso que não sou lá grande amante da Formação, embora haja sempre curiosidade de saber como se estão a portar.

Quanto à parte mais importante do post “Tribunal das Antas”, podem esperar uma defesa Inextremis ao nosso clube, e como a melhor defesa é o ataque, podem esperar que não darei descanso a todos aqueles que nos querem mal.



Tribunal das Antas

Como na passada Quinta-Feira, os nossos Guerreiros do Hóquei em Patins fizeram história conseguindo bater o pé ao Gigante Barcelona, ainda me conseguiram levar às lágrimas, vocês nem imaginam a quantidade de vezes que vi o FC Porto perder contra o Barcelona, decidi nesse dia que fosse qual fosse o resultado, eu estaria presente no Aeroporto para os receber.

Gostava como é claro de os receber só na Segunda-Feira, mas por motivos de força maior (sim porque o FC Porto foi eliminado de uma prova sem ter perdido qualquer jogo), o grande atacante do Barça, o Rêgo Lamela, fez 11 golos e quando assim é, torna-se difícil o FC Porto ganhar.

Passando à frente, saímos tristes, porque cheguei a pensar que ia ser mesmo este ano, lá procurei saber a que horas chegavam os nossos Guerreiros e lá fomos para o Aeroporto, alguns Tripeiros que foram comigo pareciam que não tinham ido à cama (mas aí perdoa-se, porque no dia anterior tinha sido dia de Festa).

Eis então que chegam os nossos Guerreiros ao som do Cântico “Campeões alleezz, Campeões alleezz...”, senti que tínhamos dado algum alento a uma comitiva que vinha revoltada e muito triste pelo que se tinha passado em Itália, depois de falarmos com cada um deles e das palavras de apoio, ficou a promessa de para o ano que vem, se vai tentar outra vez com muito esforço, trabalho e dedicação conquistar um troféu que nos foge há muitos anos.

Bom, e com o tema do hóquei despeço-me, mandando um grande abraço a todos os Portistas e espero que tenham gostado do meu primeiro post.

Deixo só mais uma prenda a todos... um pequeno (GRANDE) vídeo.

17 outubro, 2009

Sweet memories…

Duas semanas após ter completado um ano de idade, e já pelo meu pé, de mão dada aos meus Pais, subi a nave da Igreja das Antas a fim de ser baptizada.
Inexplicavelmente, nunca lá mais voltei... parece-me que está na hora de corrigir esta falha.

Dois anos passados, e do outro lado da Fernão de Magalhães, a camioneta do Colégio Nossa Senhora da Paz, conduzida pelo Sr. Pinto, contornava o encantador Estádio das Antas e descia até às piscinas.

Eu, mais uns tantos lá íamos devidamente sentados (ou não, que naquela altura não havia cá tanta meticulosidade com seguranças e afins), atenção que não é uma crítica, as minhas filhas não vão em passeios do colégio sem que as Irmãs me garantam (e quando digo garantam, é autorizar-me a entrar na mesma) de que há cintos de segurança.

Aproximava-se o meu segundo baptismo... supostamente, não seria ?

Lembro-me bem dos balneários, dois – um para os meninos, outro para as meninas - em tons de tijolo, bancos corridos em ambas as divisões e ganchos de bengaleiros para a roupa.
À saída do mesmo, havia um pequeno quadrado de água que chegava apenas para molhar os pés.
Pois, dos pés, não passou...

No fim da aula, a minha Mãe foi-me buscar e o professor - João Mota - muito pacientemente lhe explicou que aqui, a futura adepta do FC Porto, se recusou determinantemente a por os pés na água.
Ou porque era fria, ou porque tinha muita gente ou porque simplesmente a Mãe não estava lá (conhecendo-me como me conheço, acho que foi mesmo esta), tendo em conta que já aos 3 meses andava na natação do CRB, mais conhecido por Foco.

Mãe que se preze, lá arranja maneira de trocar os turnos no Hospital de modo a conseguir pelo menos nas primeiras vezes assistir às aulas de natação.
Remédio santo, atenta ao professor, mas sempre fitada na Mãe, aqui esta que vos escreve lá atina com a natação e só pára aos 16, com uns anos pelo meio parados e depois retomados com uma “cunha” (shiuuuu, não era para contar) do Dr. Domingos Gomes.

Dos melhores momentos, recordo o aquecimento feito cá fora, em passe de corrida em volta do Estádio, aproveitando sempre para nos sentarmos nas bancadas de pedra que havia viradas para o campo de treinos.
Mas sempre alertas, não fosse caso o treinador – o famoso Belga – vir cá fora.
Procurei por todo o lado, um papel pequenino onde tinha uma dedicatória do José Mota, o meu ultimo treinador enquanto atleta do FC Porto, não o encontrei, mas as palavras nunca as esquecerei:
“A Heliantia a sorrir, tem um brilho no olhar,
Mas está sempre a mandar vir na hora de nadar!”
… algures por 1985…

Quando o “meu” Estádio foi demolido, a sensação de vazio, de impotência foi enorme. Retiram-nos algo nosso, sem consentimento. Ainda hoje, magoa passar pelos espaços antes ocupados por lugares que fizeram parte da minha infância...

Tendo estado no FC Porto muitos mais anos na parte dos “grandes”, é a imagem das paredes em tons de tijolo que sinto falta e ao mesmo tempo que recordo com carinho tão grande.
Faz-me sorrir, constatar que o Futebol Clube do Porto fez parte da minha infância.

Bem... melhor trocar de assunto, venha de lá o futebol no Dragão, já hoje, com clara intuição para um expressivo resultado,
Heliantia.

16 outubro, 2009

Parabéns, Dragão66!



São os votos da Heliantia, Pedro Porto, Paulo Pereira, PortoMaravilha, Tripeiro, Sevilha03, Sodani, MrCosmos, Dragão Soul, Fokinha, Blue Boy, Lucho, Estilhaço, João Rocha, Bruno Rocha, RCBC, Bluelife, Teixeira e o Zinho.

E porque recordar é viver, é o que te pedimos que continues a fazer. Parabéns companheiro!

13 fevereiro, 2009

Volta Futebol! Estás perdoado.

Arbitragens… Comentadores… Comunicação Social…
A impressão que tenho é que estes três ocuparam o lugar daquilo que à partida deveria ser o principal.
Deixou-se de comentar o jogo em si, as boas ou menos boas exibições, a emoção de fazer parte de um espectáculo, a alegria de ir ao Estádio, para os assuntos de debates serem outros que deveriam passar despercebidos.
O Porto jogou bem? Mas o que interessa isso?
Vamos lá ver se o árbitro nos prejudicou, se nos beneficiou, se tinha mais ou menos gel…
(este jogo entristeceu-me não pelo resultado mas sim pela importância dada a uma decisão de um árbitro).
A comunicação social fala do jogo, ou fala do árbitro? Fala deste ou daquele jogador que se destacou ou das bocas dos dirigentes desportivos ?
E os comentadores afectos aos três grandes? De que falam eles? Deixa cá ver… Pois…

O meu Estádio das Antas. Aquele onde os adeptos sem cadeiras marcadas tinham de se sentar ombro a ombro tal era a enchente de gente que fazia parte daquele palco. Esse sim, um palco de sonhos, onde antes de sermos SAD, éramos um Clube.
Onde os jogos eram salvo os europeus a horas decentes. Onde os adeptos (aqueles mais antigos) deixavam as respectivas esposas a tricotar no carro enquanto iam ao futebol. Onde antes do mesmo se reuniam no Café Velasques e falavam de futebol! De futebol!
Lembro-me de acompanhar o meu Pai e o assunto era o futebol. Não era se o árbitro era de Lisboa ou do Porto. Não era sobre o que o comentador x ou y tinham falado na televisão. É certo que na altura pouco ligava, mas ele falava dos jogadores.
Foi esse espírito de futebol que me fez Portista. O orgulho que transmitiu a mim e ao meu irmão em ser-se Portista. Muito sinceramente se fosse criança hoje, o mesmo não teria despertado em mim tanto afecto.

Hoje temos um estádio belíssimo; o Estádio do Dragão. Com todo o conforto e digno de orgulho para os adeptos Portistas.
Mas o futebol deixou de ser uma emoção inata.
Festejamos vitórias e lamentamos derrotas mas com outro sabor.
Ganhamos para sermos melhores que os restantes, Não pela genuína felicidade de se ganhar.
Há que devolver esse espírito ao futebol. Abdicar provavelmente das receitas das transmissões pagas a peso de ouro mas que por vias das mesmas obrigam os jogos a ser a horas tardias.
O futebol é bonito ao vivo, a emoção de um estádio cheio não se paga em euros.

Sinto falta do futebol do Estádio das Antas, do “meu” Estádio…

Heliantia