Apesar de alguns jogos exibicionalmente menos conseguidos nestas últimas semanas, é indiscutível que este foi o nosso melhor início de época desde há uns anos largos, enfatizado também pelo débil arranque dos nossos adversários directos. A momentos como este costumam corresponder enchentes consecutivas nos jogos em casa, mas desta vez as coisas não têm sido bem assim.
Aqui neste espaço é o Tripeiro quem vai fazendo o diário de bordo do 12º jogador, e quem costuma acompanhar as suas belas crónicas já deve ter reparado que o tema das assistências tem vindo a ser recorrente. No
último texto é o próprio Tripeiro quem reconhece:
“Não me vou massacrar mais sobre este assunto, apenas digo que me entristece.” Não massacras nada, Tripeiro. Este tema é de extrema importância e é fundamental que reflictamos sobre ele, porque o clube precisa de um estádio cheio. Mas um estádio cheio de adeptos a sério, de adeptos que carregam o clube às costas. É desses que precisamos.
Quando recentemente apresentámos na Assembleia-Geral do nosso clube um documento com sugestões para atrair mais adeptos ao Dragãozinho, mais de metade das nossas propostas tinham que ver com informação, visibilidade, publicidade para os jogos das modalidades. Esse requisito essencial está mais do que cumprido quando falamos de futebol. Definitivamente, aquela que parece ser a lacuna mais grave na atracção de adeptos para as modalidades não faz parte da explicação para a escassez de adeptos nas bancadas do Dragão. Ninguém deixa de ir ao estádio por não saber que há jogo, por não saber a hora certa ou por não ter acesso fácil a informação sobre a equipa e a competição, que o mantenha envolvido e interessado. Aliás, o futebol português vive uma situação verdadeiramente paradoxal, discutida por João Nuno Coelho e Nina Clara Tiesler num excelente artigo cuja leitura recomendo:
“A omnipresença do futebol e a ausência de espectadores dos estádios” (cliquem
aqui para aceder). É de facto um paradoxo que nos debatamos com a desertificação dos estádios num país onde o futebol goza de uma popularidade e de um peso social sem paralelo a nível europeu (nem mesmo em países famosos pelo seu futebol, como a Inglaterra, a Espanha ou a Itália, ou pelo fanatismo dos seus adeptos, como a Grécia ou os países balcânicos), sendo tema de discussão quotidiana para uma grande parte das pessoas, com três diários desportivos entre os jornais mais vendidos e notícias de futebol a abrir telejornais. Como dizem os autores, em Portugal dizer que não se gosta de futebol ou não se liga a futebol é normalmente
“uma expressão de rebeldia, uma fuga à norma”. E ainda assim os estádios estão vazios.
Como explicar que tão pouca gente vá ao estádio - e nomeadamente ao Dragão, que é o que aqui nos interessa (a escassez de adeptos em outros estádios, nomeadamente dos clubes ditos “pequenos”, também deve interessar-nos e preocupar-nos, mas isso são contas de outro rosário)? Todos já partilhámos a nossa visão a este respeito mais do que uma vez, quer na Internet quer na “vida real”, mas sugiro que pensemos novamente sobre o assunto. Vejamos os argumentos mais comuns, ponto por ponto.
Condições meteorológicasVolto a pedir emprestadas as sensatas palavras do Tripeiro (
deste post):
“Quando em Abril, numa tarde ou noite chuvosa e friorenta, jogarmos com o Liverpool no Dragão, uma semana antes aparece a tableta “Lotação esgotada” na bilheteira, temos uma casa com 50 mil espectadores, que tiram a tarde ou o dia todo de férias para não chegarem atrasados, aí já não tem importância nenhuma. Mas como era o Vitória FC, o Juventude de Évora e o CSKA Sófia, estava muito frio.”Ao frio e à chuva colocá-los-ei no saco das “desculpas”, e não dos “motivos”. Não apenas pelo que refere o Tripeiro (nos jogos grandes não há frio que impeça a lotação de esgotar), mas também por comparação com os outros países. Portugal é um dos países menos frios da Europa e é no mínimo absurdo considerar o frio como argumento para não se ir ao futebol. Até porque as fracas assistências não são apenas um fenómeno invernal.
MotivaçãoA ferida em que o Tripeiro coloca o dedo é outra: falta de motivação dos adeptos para os jogos “menos importantes”.
Neste post o Antas aponta esse mesmo problema, ao referir-se aos poucos adeptos no FCP x Setúbal, acrescentando o seguinte:
“No entanto, para darem 400 euros por um bilhete, faltar 2 dias ao trabalho, gastar mais uns quantos euros em comes e bebes para ir ver uma final, já se vai ao fim do mundo e fazem-se todos os sacrifícios do mundo.”Que os jogos mais importantes têm mais gente nas bancadas, é um facto. Mas onde está toda essa gente nos jogos mais pequenos? O que os leva a ficar em casa? É por o jogo ser menos emocionante? Por a qualidade do futebol jogado ser previsivelmente inferior? Por se tratar de um jogo “banal”, por oposição a “grandes jogos” em que o adepto se orgulha, anos mais tarde, de dizer “eu estive lá”? Quanto às duas primeiras hipóteses falarei mais abaixo. Já neste último caso, estamos a falar de um tipo de adepto “por estatuto”, que gosta de exibir os seus “feitos” enquanto adepto mas desaparece na maioria dos outros jogos, nos altos e baixos que estão por trás das vitórias a que depois se orgulha de assistir. Um tipo de adepto que não faz falta, portanto.
DinheiroNa resposta ao post do Tripeiro, um leitor cujo nickname é Goleador chama a atenção para o argumento económico, abordado também por João Nuno Coelho e Nina Clara Tiesler no seu artigo. Os autores estabelecem uma comparação com aquilo a que chamam os “bons velhos tempos” dos estádios portugueses, os anos 70 e 80, concluindo que o preço médio dos bilhetes aumentou cerca de 1600% entre 1984 e 2006. Não é brincadeira.
Faço no entanto uma ressalva: não acho o futebol caro quando comparado com outras formas de entretenimento, como cinema (que é mais barato, mas a meu ver “oferece” menos), teatro, concertos – sobretudo estes últimos, que hoje em dia custam os olhos da cara. Mas quando considerado em termos absolutos, ir ao futebol não é barato. Até mesmo o lugar anual, que até tem um preço acessível, implica pagar cotas e tem a desvantagem de obrigar a dispor do valor total no início da época. E se é verdade que, para muita gente, é uma questão de prioridades (eu, para conseguir ir ao Dragão e ao Dragãozinho, se calhar vou menos vezes ao cinema ou a concertos ou faço férias mais baratas, etc., e tenho a certeza que muitos dos nossos leitores fazem sacrifícios semelhantes), não é menos verdade que há pessoas para quem o preço do bilhete faz muita diferença. O pai e a mãe irem ao futebol por 8 euros cada e as crianças entrarem gratuitamente é muito diferente de terem os quatro que pagar 15 euros cada um. E há gente que nem sequer se pode dar ao luxo de cortar cinemas, concertos ou férias da lista de despesas, porque já não constam.
Eu própria manifestei a minha opinião neste sentido nos comentários ao referido post do Antas, onde escrevi o seguinte:
“Muita gente feita da massa que sustenta o clube fica do lado de fora do estádio e só faz a festa depois nos Aliados, por falta de possibilidades financeiras. Entendo que o clube tenha a necessidade de se orientar para um público-alvo com capacidade para comprar lugares anuais nas bancadas centrais que depois não usam, camisolas principais e alternativas todas as épocas e tudo o mais, mas isso tem efeitos a longo prazo que têm que ser considerados.”E está à vista de todos que tem também efeitos imediatos, com uma equipa que tem feito uma época brilhante a jogar perante um estádio semi-vazio.
Poder-se-á argumentar que, se fosse esse o problema, a resposta das pessoas seria inequívoca em jogos com bilhetes a preços muito convidativos, e de facto não tem sido. Se contra o Limianos foi uma festa, com mais de 40.000 nas bancadas, contra o Juventude de Évora a história foi outra e contra o Pinhalnovense ainda pior. Porém, não considero que se possa olhar para as coisas assim. A única maneira de testar uma política de preços mais acessíveis seria fazê-lo de forma continuada, em jogos do campeonato, despertando o interesse das pessoas para uma frequência mais assídua do estádio – envolvendo-as e cativando-as. “Chamar” as pessoas para jogos sem importância com bilhetes a 1 ou 2 euros e depois voltar a fechar-lhes as portas nos jogos que interessam está muito longe de ser uma estratégia coerente para atrair adeptos ao estádio a longo prazo.
Televisão“É inegável que a grande quebra no número de espectadores dos jogos ao vivo no início/meados dos anos 1990 coincidiu com a generalização das transmissões televisivas dos jogos da 1ª Divisão”, dizem os autores do artigo a que venho fazendo referência. Efectivamente, é inegável. Citam inclusivamente um adepto do Porto que quando vai ao estádio sente falta das repetições, dos close-ups e tal. E, diz ele, ficando em casa ainda evita ouvir palavrões, abdica de fumar passivamente e foge aos famigerados frio e chuva.
Este não é um problema exclusivo do futebol. Em muitos domínios da sociedade as pessoas têm vindo a trocar o real pelo virtual – até para socialização. Lembro-me de um slogan muito bem pensado do Teatro Nacional D. Maria II quando começou a febre do 3D, provavelmente na altura do Avatar:
“Quer ver a 3D? Venha ao teatro.” Dá vontade de dizer o mesmo sobre o futebol.
HoráriosO outro problema da televisão é que o peso que atingiu no orçamento dos clubes conferiu-lhe um estatuto tal que a escolha dos horários dos jogos passou a ser quase da sua exclusiva responsabilidade. Acabaram os jogos à tarde, de que todos falamos com saudade, começaram os jogos às 21h30 de Segunda-feira, como se no dia seguinte não tivéssemos que ir trabalhar ou estudar.
Nas últimas épocas os jogos até têm tido lugar em horários aceitáveis – entre as 19h30 e as 21h, aos fins-de-semana –, mas podia ser melhor. Nunca devíamos jogar depois das 20h30, e voltar a jogar à tarde tornaria as partidas muito mais convidativas para pessoas que moram mais longe e para famílias com crianças. Este pode ser um ponto a trabalhar, se viermos a conseguir alguma independência em relação às televisões (quem sabe, transmitindo os jogos num canal próprio ;)).
Qualidade do jogoOutra possibilidade aventada por JNC e NCT é a falta de emotividade e de qualidade do futebol praticado, que poderia justificar a maior afluência dos adeptos aos jogos mais importantes. Esta é uma questão bastante complexa, uma vez que, como os próprios referem, não é fácil definir “um bom espectáculo de futebol: será um 'jogo bonito' em termos estéticos? Um encontro emotivo? Uma profusão de golos? Uma 'batalha táctica' apreciável? Ou, pura e simplesmente, a nossa equipa ganhar?”
A conclusão dos autores, com a qual concordo, é que, regra geral, o comum adepto quer, acima de tudo, ver a sua equipa ganhar. Se jogar bonito, melhor, mas o importante é ganhar. É certo que, quando o clube está em maré de vitórias, tende a ter mais adeptos no estádio, mas estamos precisamente perante a situação oposta, com os adeptos a não corresponderem a um grande início de época da nossa equipa. Na minha opinião, contudo, não vale a pena sequer reflectir sobre isto. Mais uma vez estamos a falar de um tipo de adepto que desaparece do mapa quando a equipa mais precisa dele, ou seja, um tipo de adepto que não interessa a clube nenhum.
Já o adepto que vai ao estádio quando a equipa está a jogar “bonito” e fica em casa quando não está, é adepto de futebol antes de ser adepto do Porto. Não tenho qualquer problema com a sua existência, mas não são eles os tijolos que constroem um grande clube, nem a sua presença nas bancadas que faz a diferença.
Má gestãoSegundo JNC e NCT,
“as estruturas e os agentes responsáveis pela organização do futebol em Portugal — incluindo os clubes — são vistos pela generalidade dos adeptos e especialistas como grandes culpados pela situação de despovoamento generalizado dos estádios”. Dizem que estes são acusados de não valorizarem devidamente os adeptos leais, de não os terem em conta.
No Porto isso também acontece. Quem não se revolta ao ver boa parte dos bilhetes das finais a voar para os “parceiros”, enquanto nós, os indefectíveis, temos que passar noites na fila por um papelinho mágico? Quem não se indigna ao ver os preços absurdos das camisolas e demais merchandising do FCP, praticamente inacessíveis ao comum adepto, que já canaliza tanto dinheiro para cotas e bilhetes? Que isso tenha afastado alguns adeptos do estádio, admito. E adeptos válidos, verdadeiros, que eu respeito. Mas respeito mais quem insiste em ficar apesar disso. Quem coloca o clube acima das pessoas e dos seus actos. E no Porto, com um Presidente que é um dos nossos, até nem temos grande razão de queixa. Tendo em conta que no estrangeiro vemos clubes comprados e vendidos como quilos de batatas ao sabor de caprichos de milionários exóticos, e que mesmo isso não lhes esvazia os estádios, não creio que estejamos perante um factor estatisticamente significativo das fracas assistências no Dragão.
Cada adepto lá saberá as razões que o levam a optar pelo sofá em detrimento da bancada. As questões aqui analisadas terão o seu peso, bem como as mais diversas combinações entre todos estes factores. Mas uma coisa é certa. A meu ver, adepto que se deixe intimidar pelo frio ou pela chuva, que só apareça nos jogos grandes para depois exibir as fotos no Facebook, que prive a equipa do seu apoio quando esta mais precisa ou que se abstenha de apoiar para ficar a ver repetições e close-ups, não faz cá falta nenhuma.
Este post é o meu modesto contributo para uma reflexão séria e profunda, acima de tudo por parte do clube, para trazer de volta os outros. Os que valem a pena.