“Quem treina o FC Porto, arrisca-se a ser campeão”. A máxima, conhecida e adulterada com o tempo, não é novidade para ninguém. Usada amiúde nas décadas de 50 e 60, visava proclamar os encarnados como um clube cronicamente campeão, onde o mais difícil seria o técnico responsável pela equipa não se sagrar vencedor da competição maior do futebol indígena. No entanto, os jogos espúrios, as jogadas de bastidores e a forma pouco clara como esse domínio era mantido sofreram a necessária evolução histórica.
Hoje, com a hegemonia brutal imposta pelos azuis e brancos, criou-se a ideia de que ser treinador dos Dragões corresponde a um trabalho facilitado, sem grandes obstáculos. A realidade, no entanto, é desmentida anualmente. As vendas do clube, mesmo que cingidas ao estritamente necessário, delapidam o plantel de material humano extremamente precioso. E assim, ano após ano, o trabalho de um treinador naquela casa passa por uma reconstrução cuidada, procurando manter o nível competitivo elevado.

O que vale este Porto, versão 2009/10, ano que se pretende de ataque ao Penta? Pergunta directa, sem preâmbulos, que povoará a mente de muitos dos aficionados do clube do Dragão, nesta fase da temporada. Valerá mais do que o plantel que, brilhantemente, conquistou a dobradinha? Ou a sangria cirúrgica aplicada ao plantel, quase obrigatória e regular nos defesos, como medida profiláctica para encerrar balanços da SAD com as contas equilibradas, poderá pesar nessa equação onde a competitividade é a palavra-chave?
Ressalvando que esta primeira análise carece, obviamente, de elementos factuais, com a precocidade da época a não permitir, ainda, aferir com clarividência o poderio do plantel azul e branco, eis um rudimentar esboço do grupo que terá como objectivo primordial a manutenção do ceptro de campeão.
Baliza: A novidade maior, não medida em centímetros, é a entrada de Beto, ex-guardião leixonense, internacional luso e possuidor de imensas qualidades, capaz de poder discutir a titularidade com o dono e senhor das redes do FC Porto, nas últimas temporadas. Helton terá, para além de Nuno, que lidar com a ambição natural do novel membro da equipa. O brasileiro, de pedra e cal, para já, na preferência de Jesualdo, sabe que não poderá claudicar nos momentos cruciais, sob pena de despromoção ao banco, lugar algo lúgubre para quem habitualmente sente as emoções palpáveis de um encontro dentro das quatro linhas. A entrada do ex-leixonense levou à saída, natural, de Ventura, rumando a paragens sulistas, para o tirocínio que se deseja breve. O jovem portista, no Olhanense e sob o olhar atento e experiente de Jorge Costa, encontrará forma de potenciar as suas características que, estou certo, o levarão num futuro não muito longínquo a ser o digno herdeiro de Vitor Baía, de Dragão ao peito.
Defesa: Depois de, em anos anteriores, o clube ter sentido enormes dificuldades nas laterais, este parece ser o ano da abundância, tantas são as soluções ao dispor de Jesualdo. Há manutenção de Sapunaru, Fucile e, para já, de Benitez, juntaram-se as entradas de Miguel Lopes e o internacional uruguaio Álvaro Pereira. A entrada deste último implicou a saída de uma das pedras cruciais na conquista do Tetra, Cissokho. A sua venda constitui, provavelmente, um novo recorde na valorização de um jogador. Adquirido a preços módicos – uns míseros 300 mil euros - e despachado por notáveis e obscenos 15 milhões, a que acresce a percentagem numa futura venda. Qualitativamente, e com a bela exibição de Álvaro Pereira frente ao Mónaco, o Porto parece continuar a beneficiar de um atleta experiente, capaz de aportar o sentido ofensivo necessário a uma equipa que luta sempre pela vitória. O sentido posicional do novo reforço, ainda não solidificado por inteiro, dada a falta de entrosamento com os colegas de sector, constitui uma mais-valia, evitando sobressaltos defensivos.

No centro do sector, com a cada vez mais provável permanência de Bruno Alves, os azuis e brancos aumentaram o lote de opções, com as entradas de Nuno André Coelho e Maicon, dispostos a importunarem a solidez da dupla de sucesso do ano transacto. Até ver, o jogador português, emprestado na época anterior ao Amadora, tem mostrado alguns predicados, sendo penalizado apenas na incerteza do passe, factor a rever com carácter de urgência. O brasileiro, ex-Nacional, apresenta um poderio aéreo que poderá ser de crucial importância, aliado a uma frieza que precisará de ser testada, em jogos de maior grau de dificuldade.
Sobra Stepanov, aparentemente acessório e dispensável, com um reduzido número de possibilidades de jogar. O sérvio terá, provavelmente, mais ensejos de acertar na combinação certa do Euromilhões do que em ser titular nesta equipa.
Meio-campo: Indissociável qualquer análise à versão 2009/10 sem se referir o nome, saudoso, de Lucho Gonzalez. O argentino, tentado por uma oferta milionária, foi sempre um pêndulo, um estratega, o pensador de todo o carrossel ofensivo portista, nas temporadas transactas. Procurando evitar uma orfandade perigosa, chegam ao Dragão dois compatriotas de El Comandante.
Belluschi, namoro antigo portista, médio direito de características vincadamente ofensivas, tem sido um dos destaques da pré-temporada. Extremamente activo e enérgico, aparece amiúde na zona de finalização, o que poderá, futuramente, provocar alguma descompensação na zona nevrálgica do meio-campo. Vértice do destino de muitos passes, aproveita qualquer nesga de terreno para rematar perigosamente à baliza adversária. Não sendo, pelas características enumeradas, o sucessor directo de Lucho, Belluschi possui no entanto qualidades que lhe permitem, desde logo, sonhar com a titularidade.
Valeri aterra na Invicta como um total desconhecido, proveniente do modesto Lanús das pampas. Louvado pelos escribas alvi-celestes como detentor de um futuro promissor, aparece no Dragão saído de uma temporada incipiente, minado por sucessivas lesões. Uma verdadeira incógnita.

Parecendo, desde já, que o plantel se encontra fechado a novas entradas, não deixava de me causar alguma estranheza a ausência de competição para uma posição capital. O lugar de trinco, brilhantemente desempenhado por Fernando, ao longo de um ano em que aliou a aprendizagem a uma maturidade invulgar, para alguém tão jovem, carece de luta, de competição, da necessária e imperiosa disputa pela titularidade, evitando acomodações desaconselháveis. Em caso de imperiosa necessidade, sabe-se que Meireles poderá efectuar, sem grandes transtornos, uma posição que conhece sobejamente desde os tempos do Boavista. Mas não seria de todo aconselhável a contratação de um 6, puro e duro, obrigando o jovem brasileiro a um trabalho aturado como forma de garantir a titularidade, questionava eu os meus botões? A resposta, aparentemente, surgirá durante a presente semana, com o ventilado nome de Prediger
[mais um argentino] a ser, à partida, a opção mais viável para colmatar a referida lacuna. Trinco novo, de enorme combatividade, é já internacional pela Selecção principal argentina, elogiado por Maradona.
Ataque: Poderá aplicar-se ao ataque quase o mesmo que foi dito em relação ao meio-campo. Textualmente. Se num desses sectores a equipa se viu órfã do seu comandante supremo, o ataque assiste à partida de um jogador de características quase únicas. Predador insaciável na arte de rematar às redes contrárias, Lisandro marcou indelevelmente uma época, nos azuis e brancos. Letal e cirúrgico, foi uma espécie de ninja dos tempos modernos, relembrando Derlei, pela entrega, capacidade de luta e espírito corporativo que demonstrava, em cada lance.
Mantendo o compatriota Farías, contando ainda com o colosso Hulk, a frente de ataque é o rosto da inflexão da SAD portista no mercado de transferências, com os nomes e rostos a serem facilmente reconhecidos como portugueses de gema. Orlando Sá, jovem e a recuperar de uma grave lesão, estará para já fora da equação, quanto ao real substituto de Licha. Varela, jogador mediano mas com características que podem ser facilmente potenciadas no esquema táctico de Jesualdo, beneficia de uma polivalência que lhe permite jogar em qualquer posição, na frente de ataque.
Falcao, colombiano endeusado por terras de Evita Perón, a quem os escribas conhecedores reconhecem uma enorme facilidade concretizadora, será o mais sério candidato a substituto de Lisandro. Para já, nas experiencias levadas a cabo, Hulk tem surgido como o aríete central, com os extremos entregues a Mariano
[em bela forma] e Varela. Confesso não gostar particularmente de ver o

brasileiro com alcunha de super herói enclausurado na frente de ataque. O seu futebol explosivo, feito de arrancadas imparáveis, sobrevive melhor com espaço amplo ao seu redor, descaído para uma das alas, onde a capacidade técnica aliada à força prodigiosa o levam a criar inúmeras ocasiões de golo. Provavelmente, a chegada do colombiano ajudará à manutenção do esquema táctico utilizado regularmente no ano transacto. E aí, com o lado esquerdo do ataque a ter dono, depois da recuperação física de Rodriguez, será Mariano o provável sacrificado, permitindo que Hulk se instale no lado direito, personalizando-o à sua maneira.
Um ponto importa esclarecer. Depois de mais um defeso com a fasquia das vendas acima dos 60 milhões, despachando alguns dos excedentes [Vieirinha e Paulo Machado], o Porto aparentemente apresentará aquilo a que habituou os seus adeptos: uma equipa sólida, competitiva e capaz de lutar por todos os objectivos internos.
A aventura europeia será, por isso, apenas a única dúvida residual na temporada que se avizinha. Este Porto, que lutou e provou, na edição finda da Liga dos Campeões, que pode sonhar e almejar em erguer novamente o troféu, terá o necessário para atingir a fase decisiva da prova? Sim. Não tenho qualquer dúvida que, com maior ou menor grau de dificuldade, a fase de grupos será ultrapassada com sucesso, rumo aos oitavos-de-final. No entanto, com os galácticos planteis que apanhará como potenciais adversários, pergunto-me se não seria aconselhável, em termos meramente desportivos [colocando a questão financeira num plano secundário], apostar numa participação na nova Liga Europa, onde o triunfo final parece uma possibilidade mais palpável e menos utópica do que na competição maior do futebol europeu.
Aguardemos para ver o que o destino nos reserva. A bola, oficialmente, está aí, quase a rolar. Para mais uma temporada de sonhos…
§ mais logo, cá na "tasca", transmissão em directo de mais um jogo de preparação... FC Porto vs D. Bucareste (21h15).