11 outubro, 2006

Miguel Sousa Tavares - Nortada

Assim vai o FC Porto…

Aproveitando esta pausa no futebol nacional, procedo a um primeiro balanço deste início de época do FC Porto - no plano desportivo e não só - seguindo a par e comentando os temas abordados por Pinto da Costa, na longa entrevista ontem concedida ao jornal O Jogo e com a qual quebrou um silêncio de meses.

As duas derrotas seguidas, em Londres e em Braga, também foram vistas com preocupação pelo presidente portista. Em especial a segunda, em relação à qual ele até se permitiu uma rara critica à falta de atitude da equipa, afirmando estar confiante de que a mesma se não repetirá. De facto, houve uma falta de ambição e de atitude, mas que não foram os únicos factores das derrotas. Em ambos os jogos, particularmente contra o Arsenal, a equipa também mostrou que lhe faltam jogadores de qualidade em alguns lugares-chave e o próprio treinador cometeu erros de aprendizagem em ambos os casos: em Londres, mudando o esquema habitual para reforçar a capacidade defensiva, e em Braga, experimentando o Anderson como ala-direito - duas apostas falhadas.

A contratação de Jesualdo Ferreira por um só ano e depois de ter pago um milhão de euros de indemnização ao Boavista, não foi explicada por Pinto da Costa. Assim como não o foi o facto de ter sido preciso um empresário para negociar com o Boavista, em vez da negociação directa.

A surpresa do comportamento de Co Adriaanse, pode ter sido uma surpresa para todos, como diz Pinto da Costa, mas está dentro da lógica do seu comportamento habitual e que teve sempre muito pouco de lógico e bastante de intempestivo e desequilibrado. Coisa que só parece ter escapado ao presidente portista.

As dispensas dos jogadores, impostas por Co Adriaanse e aceites por Pinto da Costa, já se sabia que iam ser um erro quando foram feitas — particularmente as de McCarthy e Hugo Almeida, quando o clube andava à procura de um ponta-de-lança e não encontrou nenhum (já agora, é um mistério como é que o Hesselink custava 8 milhões de euros para o FC Porto e só custou 5 milhões para o Celtic).

As vendas de Anderson e dos outros em relação aos quais o clube recebeu propostas no defeso (Quaresma, Lucho e Helton — vejam lá como os interessados não são parvos e só querem os bons...), ficam suspensas para já, no dizer do presidente portista, que explica e bem que é um erro, para o clube e para os jogadores, vendê-los cedo de mais. Em relação jóia da coroa, o Anderson, Pinto da Costa desmente a informação que eu aqui havia veiculado de que constava que o FC Porto teria vendido recentemente 10 por cento do seu passe. Afinal, comprou mais 15 por cento, estando agora detentor de 85 por cento. Eis uma boa notícia para os portistas. Não que isso impeça a sua venda próxima ou inevitável num futuro breve, mas ao menos será melhor negócio.

Sobre compras de jogadores efectuadas esta época, Pinto da Costa não fala nesta entrevista. Mas o tema é interessante, porque se o grosso dos accionistas está disposto a encaixar mais um exercício com «elevado prejuízo», que em breve será revelado, e em troca de se manterem no clube os activos representados pelos seus principais jogadores com mercado, também é verdade que talvez não houvesse prejuízo com uma melhor gestão das compras. Volto a dizer que não entendo porquê que se compra uma série de jogadores numa época (Paulo Ribeiro, Ezequias, Diogo Valente, Fucile, João Paulo, Tarik) nenhum dos quais tem valor para se impor como efectivo na equipa. E não percebo como é que, com três defesas-esquerdos no plantel, se deixa ir embora o César Peixoto, com provas dadas como defesa e como extremo e depois de um ano a recuperá-lo clinicamente, e se deixa continuar emprestado no Brasil, com parte do ordenado a pagar pelo clube, outro jogador com provas dadas, como o Leandro. E, depois de abrir mão dos dois, se vai comprar... o Ezequias.

As dívidas do Dínamo de Moscovo que julgo ter sido a primeira vez que foram mencionadas por Pinto da Costa, é também um tema preocupante. O FC Porto vendeu ao Dínamo, a dois tempos, o Costinha, o Maniche, o Derlei e o Seitaridis. Pelos vistos, vendeu sem as devidas garantias de pagamento e voltou a vender mesmo depois de o Dínamo não estar a cumprir os primeiros pagamentos. Entretanto, o Dínamo já revendeu o Costinha e o Maniche para o Atlético de Madrid e ocorre perguntar se esses dois já estariam pagos ou se o Dínamo fez dinheiro com jogadores que não pagou e sem que o FC Porto tenha assegurado o seu direito de regresso em relação ao Atlético de Madrid. A queixa à FIFA, por si só, não assegura o pagamento e o fraco rendimento dos atletas portugueses ao serviço do Dínamo não deve motivar muito os russos a pagarem as suas dívidas.

Sobre o «Apito Dourado», Pinto da Costa refere que, das onze certidões extraídas para eventual procedimento disciplinar contra ele, nove foram já arquivadas sem que ele tenha sequer sido ouvido, o que significa que os magistrados do Ministério Público entenderam não haver matéria para a instauração de processo. Restam, portanto, duas. E resta conhecer toda a documentação sobre o Apito Dourado, a transcrição de todas as conversas escutadas a toda a gente e ouvir todas as defesas, para se perceber se há matéria criminal ou simplesmente disciplinar, se houve corrupção ou apenas tráfico de influências, se tudo era uma batota organizada e quase generalizada ou apenas a habitual bandalheira tão portuguesa das cunhas e empenhos, centradas na figura tutelar do major Valentim Loureiro.

Sobre a defunta Direcção da Liga de Clubes, Pinto da Costa é certeiro e incisivo. Foi obra congeminada a duas mãos entre Valentim Loureiro e Luís Filipe Vieira — que depois disse «querer regenerar a Liga que ele próprio havia feito». E, porque nesta direcção perdeu o poder que detinha na anterior, passou logo a inimigo declarado desta, antes mesmo que ela tivesse mexido uma palha.

Eis o universo portista na actualidade, passado em revista pelo seu presidente e acrescentado dos meus comentários. Percebe-se que os tempos dourados de Mourinho, no futebol, não voltarão tão depressa. Percebe-se, e percebe-se mal, que a situação financeira é má e que não se aproveitaram os lucros excepcionais conquistados nos anos de ouro de 2003 e 2004. Os tempos são de transição, tentando consolidar a supremacia interna, sem grandes veleidades europeias. Quando, com apenas dois jogos disputados na Liga dos Campeões, o próprio Pinto da Costa vem dizer que o objectivo mínimo é o apuramento para a Taça UEFA, os sonhos não podem ser o que já foram até há ainda bem pouco tempo.

# in Jornal “A BOLA”, 2006.10.10

8 comentários:

  1. meirelesportuense11 outubro, 2006

    Meu Caro "MST" pedir não custa absolutamente nada o que verdadeiramente custa é desembolsar os valores necessários e pedidos e saber se se podem realmente desembolsar esses valores...Sem o querer ofender isto parece mesmo conversa de "menino rico e mimado" por muito respeito que Va. Sa. me possa merecer...Eu também queria possuir um "Porsche 911 Carrera" mas infelizmente olhando bem no fundo da minha carteira, só lá vejo dinheiro suficiente para poder comprar um "Smart" e dos mais pequenitos que houver no mercado e em 72 ou 84 prestações suaves...Gostava muito de poder realizar "Safaris" todos os anos, pelos desertos africanos, como quem vai de visita anual ao santuário de Fátima cumprir as promessas devidas pelas graças recebidas mas, infelizmente, sou de famílias modestas e quando muito contento-me em passar uns dias a apanhar sol sobre as rochas, ali bem perto da Casa Branca ao Cabedelo...O António Nicolau de Almeida era um aristocrata, que em 1893 já viajava constantemente do Porto para Inglaterra e vice versa e de lá trouxe uma série de bolas de couro, pensando que ùnicamente com isso podia organizar um Clube de Foot Ball como realmente aconteceu, mas o certo é que, na sua primeira deslocação ao País vizinho - bem acompanhado por uma alegre e elegante "corte" de senhoras e cavalheiros - entrou pela "madeira dentro" sem dó nem piedade, como bem se diz aqui no Norte...Ora os tempos são bem diferentes aos de então e não basta, ter um par de "chuteiras" e uma bola de futebol, para se poder ganhar uma Taça dos Campeões ou uma Taça UEFA...É preciso dinheiro e muito dinheiro e isso é coisa que o FCP não tem concerteza, pois é um clube constituido na sua maior parte, por gente simples e pobre, que paga as suas cotas com imensas dificuldades e com mais dificuldade ainda para obter o bilhete suplementar exigido para ver os jogos em directo no Dragão...Não somos o clube dos "Viscondes" alentejanos ou dos Ventoínhas ribatejanos que sacam moedas no Zardim Zoológico aos elefantes distraídos com a conversa da treta...Aqui temos um mini Zoo e na Maia, em que os elefantes se existem, são umas cópias reduzidas dos "reais" elefantes de África...Aqui há mais lacraus que serpentes e até "aqueles" estão em fase avançada de extinção...Temos uma ponte com 500 metros de extensão e eles têm outra com 20 000 metros a ligar as duas margens e na sua inauguração, encheram a ponte com bolinhos de bacalhau e vinho maduro para enganar o Zé do Boné...Têm quase todos os comentadores desportivos do seu lado, até aqueles que compôem os quadros do jornal "O Jogo" que exibe uma 1ª página no Porto, diferente daquela que mostra em Lisboa e vale do Tejo...Têm 1os Ministros,Presidentes da República, PGRs,a maioria dos Deputados e dos Partidos Políticos, das meninas e dos meninos de Portugal a apoiá-los, até tem - veja lá- do seu lado o Partido Comunista e o Jerónimo de Sousa...Que vida bela é a deles é só repastos, tapetes e empurrões...Terrenos dali, dinheiro d'acolá, cunha d'aqui e é um mar de rosas emsombrado "apenas" por uma dívida medonha, mas bem sustentada em acções sem qualquer valor e aceites como penhor de dívidas, por uma senhora Ministra ligada sentimentalmente ao FCP...Há gente que nasceu mesmo com o c... virado para a Lua...Se acha que é melhor e mais eficiente que Pinto da Costa na gestão do FCP só tem que fazer uma coisa: candidatar-se á Presidência do Clube nas próximas eleições e mostrar aí as suas aptidões e qualidades...Bem haja...E boa sorte.

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  2. Disseste tudo Meireles. Há que falar do que está mal, mas o MST mais parece um lampião disfarçado. Para ele nada está bem, a perpectiva optimista dele não está nunca virada para o clube de coração. Uma coisa somos nós a criticar, que falamos e tentamos discutir entre nós. Outra coisa é o MST dar constantemente trunfos aos adversários.

    È muito simples, como diz o caro Meireles, ele que se candidate e tente fazer melhor.

    Um abraço.
    http://portistasdebancada.blogspot.com/

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  3. Caros Amigos Meireles e Zirtaev... como vcs bem sabem, eu sou um bocado suspeito para falar do Grande MST... mesmo que me custe muitas vezes ler o que ele escreve, porque uma coisa é o que ele sente enquanto Portista (e nós todos sabemos bem que ele até tem razão no que escreve)... outra coisa bem diferente é ele passar ao papel aquilo que pensa, o que na verdade, é «dar trunfos ao inimigo»... mas pronto... são maneiras de estar na vida... para o bem e para o mal.
    Admiro bastante as suas opiniões e escritos desde que me conheço... e o conheci pelas folhas de jornal ou pela imagem da TV... mesmo não se gostando por vezes do estilo, é directo, frontal e não manda recados por ninguém.
    Como disse... são maneiras de estar... e cada qual as analisa à luz da sua personalidade.
    Eu próprio, muitas vezes em privado entre nós Portistas, critico muita coisa, reclamo de muita coisa... e do qual, todos ou a grande maioria concorda... mas quando em público, tento sempre defender a «alma do convento», mesmo que os argumentos possam ser curtos... mas é a minha obrigação de Portista.
    Não critico o MST na sua opinião que é mto válida e correcta... apenas questiono o «colocar no papel» e para o «público» algumas situações que podiam ser evitadas discutir na praça pública.
    COmo eu já disse... entre nós, irritemo-nos à vontade... em público, defendamos a nossa honra e o bom nome do clube que amamos!
    aKeLe aBrAçO
    http://bibo-porto-carago.blogspot.com/

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  4. O Miguel Sousa Tavares pensa e escreve o que pensa .
    O Miguel Sousa Tavares não deixa de ser um portista apaixonado mesmo quando pensa e escreve o que outros não gostariam de ler.

    O nosso PORTO deixou há muito de representar uma região e um país. Hoje é um CLUBE ao nível dos melhores clubes do planeta TERRA. É o CLUBE de muita gente espalhada pelo mundo (que nem fala português , não sabe onde fica Portugal ) mas, é do PORTO .

    Por isso, porque estamos abertos ao mundo, os temas que dizem respeito ao FCPORTO devem ser discutidos serena e abertamente,
    sem quaisquer receios.

    O BALNEÁRIO é outra coisa.
    No resto venha a tranparência .

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  5. onde se lê...tranparência
    deve ler-se...transparência


    Desculpem

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  6. Lampião disfarçado??? Por colocar os dedos nas feridas e criticar um Homem que apesar de ter feito o Porto o que é hoje, apesar de todos os Portistas terem (termos) que lhe estar eternamente agradecidos, ultimamente anda a tratar da sua reforma e a perder a sanidade mental??

    Haja saúde... e pelo amor de deus, ABRAM OS OLHOS!

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  7. meirelesportuense o seu comentario está de facto mt intressante e concordo com mt do que diz, de facto o MST é daquele tipo de pessoas q para alem de achar q tem o dom da razão, seja qual for o assunto, gosta tb de dizer mal e ñ apresentar soluçoes, ou qd apresentar mts das vezes são utopias e ñ realistas..

    m concordo plenamente com o q diz o blue boy, mts vezes tb é mal interpretado e temos de louvar a sua coragem em apontar o dedo ao q todos vemos e sabemos q está mal, e ñ podemos tb aceitar tudo aquilo q a direcção "nos dá pra comer"...

    há coisas q estão mal e q ñ podemos continuar a pactuar com elas..

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  8. A todos nós,cada um à sua maneira, assiste-nos alguma razão.
    A outra parte da razão estará, porventura, com o MST.
    Concordando com muito do que tem aqui sido dito e reafirmo que o MST não deixa de ser um portista apaixonado (por ser,muitas vezes, um crítico frontal).

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