18 outubro, 2016

O ESTRANHO CASO DO TEXTO QUE NÃO DEVERIA TER SIDO.


Esta crónica não deveria existir. Não deveria ter de existir.
Só existe porque:

I) Estou pr’aqui a debitar caracteres à bruta tracção dos dedos e o espaço que branco era se vai preenchendo;
II) Era triste e lamentavelmente a minha vez de escrever, segundo o calendário bibóportiano;
III) O dono do blogue me obrigou e chamou nomes de jogadores argelinos aparentemente redundantes que evoluem no plantel portista e eu tenho – se não medo – no mínimo imenso respeito por ele (ainda que não saiba bem porquê).
Cria-me desespero ter de escrever, cria-me revolta ter de escrever, cria-me náusea ter de novamente abordar um assunto que me choca, me fere e revolve as entranhas. Que tira o meu mundo dos eixos em que evolve. Que me tira – pasmem! – brilho e qualidade de vida e muita da vontade de enfrentar os novos dias que Alguém diariamente me traz numa bandeja. O meu Clube, um dos meus Amores Maiores, está doente, ferido de morte, arrastando-se em agonia demasiado lenta enquanto atravessa as mais longas e infindáveis ruas (avenidas, vias de cintura interna!) da Amargura, do Horror e do Grande Ocaso do(s) Deus(es).

Não quero escrever, não quero ter de escrever, quando o que eu só quero mesmo é enterrar a cabeça na areia, a metros e quilómetros de profundidade. A atitude zen e construtiva que eu afirmava AQUI ir adoptar em legítima auto-defesa e auto-preservação, é para mim impraticável. Tento, juro que tento, mas zen e FC Porto para mim não são compatíveis, não agora, não neste momento, não assim. É demasiada paixão, demasiado feeling, loucura, omnipresença, o amar desalmadamente um emblema que simboliza a nossa religião e política e cor e credo e que em nada apela ao racional.
  • Não quero escrever para não ter de reconhecer que as coisas continuam a não estar bem, nada bem, mesmo, mesmo nada bem no seio do nosso clube depois daquela que foi a maior das pré-épocas do mundo e com direito a figurar destacada no Guinness Book of World Records;

  • Não quero escrever sobre a frustração que isso acarreta: esperar que os responsáveis (depois de épocas deploráveis e com resultados ZERO) estivessem a trabalhar com zelo, método e dedicação, preparando com rigor, ao pormenor e com toda a calma uma temporada e uma equipa capaz de voltar a dar alegrias aos adeptos e deparar com… isto, este vazio, esta miséria, estas lacunas, estas sucessivas mentiras e tiros de bazuca no pé;

  • Não quero escrever sobre o que está à vista depois de afastadas para o lado as doces e diáfanas cortininhas de seda e renda que adornavam até há pouco tempo as nossas janelas e disfarçavam o depauperado interior da delapidada casa;

  • Não quero escrever sobre o autêntico colapso dos nossos mais altos valores assentes na Fé, na Mística, no Portismo, no Orgulho, na Garra, na Raça, na Bandeira e das nossas mais do que comprovadas filosofias de vida e de acção;

  • Não quero escrever que dentro, lá em cima, nas mais altas instâncias, tudo parece dar a entender que o pessoal anda aparentemente satisfeito e na mais perfeita e sacrossanta paz em relação ao amorfismo e a abulia generalizados que já vão a caminho dos 4 intermináveis anos. Reacções, Portismo, murros na mesa, real, abalizado reforço do plantel e defesa genuína e pura dos interesses do Clube vão no Batalha. Como que brincam com o fogo. Que arde. E que se vê.

  • Não quero de novo escrever sobre a estranheza e a repugnância que sinto por assistirmos à consolidação de um patético (porque inocente, porque ineficiente, porque insuficiente!) FCPdRS.* **

  • Não quero escrever que o estado de extrema Graça de que beneficiava o nosso NES já acabou e com todo o estrondo na semana negra que foi a dos jogos frente ao Intratável Copenhaga e ao Mighty Tondela, confirmada depois no bacocozinho jogo com o Leicester;

  • Não quero escrever -- porque não tenho coragem e porque ainda subsiste uma ínfima réstiazinha de esperança -- que duvido seriamente que seja este ano que voltaremos a usar as quinas de campeões na Mágica Camisola, por muito que a procissão ainda vá no adro;

  • Não quero escrever sobre a apreensão que me assiste por ver que a equipa que actualmente temos e somos e formamos possa ser sobejamente incapaz, frágil e pequenina para ambicionar a todas as provas em disputa por muito talento que nela pulule;

  • Não quero escrever sobre o facto de estarmos a assistir à reposição de um filme de terror de nós bem conhecido (eu já me limito a fechar, a fechar muito os olhos, à espera do cravar da faca);

  • Não quero escrever sobre a perspectiva do medo bem plausível e presente de mais uma travessia do deserto para as nossas cores;

  • Não quero de todo escrever sobre o enjoo, o nervosismo, receio e preocupação que sinto quando vejo os nossos arqui-rivais alfacinhas a escalar: em títulos, em resultados, em manobras, em truques, em manha, em domínio, em imitação, em influência… no regresso do seu centralismo tão querido e entretanto perdido;

  • Não quero escrever sobre a sensação que fica quando vemos e sentimos que somos gozados e ridicularizados à força toda e em todos os campos pelos mais diversos agentes e todo o género de coincidências;

  • Não quero escrever sobre o ridículo e a vergonha que cobrem os discursos de épocas zero, e -1, e -2 e -3 e o raio que os parta e épocas de transição, numa autêntica tentativa de atroz desresponsabilização e simultaneamente de fazer de todos os adeptos azuis e brancos verdadeiros asnos e asininos;

  • Não quero escrever sobre o tapete vermelho que se está a começar a estender e a cama fofa a fazer ao nosso treinador;

  • Não quero escrever ou tecer comentários relativamente ao Presidente e à tristeza, desencanto, desilusão e total nostalgia que me invadem a alma quando o vejo pontualmente -- e misteriosamente apenas nas horas um pouco mais alegres da vida -- cada vez mais pequenino, ele que TÃO GRANDE E IMENSO E ORGULHOSO era e estava.
Não quero escrever e pronto!
Mas, já que estou a escrever, ao menos que diga algo, que deixe testemunho, que registe linhas, que lavre mensagem:

Nunca nos rendemos.
Não nos rendemos.
Não nos renderemos, venha o que vier ao nosso encontro. Da adversidade, preconceito e desigualdade viemos e prosperamos. Não serão pois os dirigentes, os rores de empre$ário$, os carneiros, os boys, os treinadores, nem tão pouco os jogadores, a nossa garantia de progresso, de futuro, de crescimento e eternização do sentimento. São os nossos sócios, os nossos adeptos, as nossas gentes. Os que usam o emblema junto ao peito porque gravado na própria pele, os que riem e choram, os que se mantêm e manterão through thick and thin enquanto o clube se renova, se reinventa, se cicatriza, se cauteriza. Se regenera. Os que estiverem e souberem passar o testemunho, passar a chama (labareda!) do Ideal Azul e Branco, honrar o passado e preparar o futuro de nós.

Este é só mais um túnel e eu vou ter novamente vontade de escrever.
Um dia.

* Era eu mais jovem e inocente.
** FCPdRS – Futebol Clube do Porto das Redes Sociais.

NOTA: Escrevi sem vontade e sob protesto este texto na semana a seguir ao jogo com o Leicester, essa equipa campeã inglesa, com excelso bom gosto a vestir e o orgulho de uma cidade que nos soube receber como ninguém.
Segue-se o Brugges.
Mas não quero escrever sobre isso.

11 comentários:

  1. Essa nostalgia, essa frustração, essa passividade, essa falta de garra, essa imensa paixão, essa vontade...
    Infelizmente assolou a nação azul e branca!!!

    Culpa de quem??? De uma direção paga de forma principesca. (à qual 99% de nós nem sonha almejar a tais valores!!!)
    Mas todos nós na nossa vida com muito menos temos de dar muito mais!

    Tenho pena do descrédito que nos tem sido dado e a resignação que reina dentro do dragão!
    Para vos falar verdade, estou farto desses senhores!!! Atingi o meu ponto de rutura com a atual direção.

    Bem sei que nada tenho a ver com assunto, mas estes dias temos assistido a mais uma lamentável cena do nosso presidente na sua vida pessoal! E todos nos recordamos que sempre que tal acontece o FCP vai abaixo.
    Volto ao início!!! Quem é pago de forma tão principesca não se pode dar a tais luxos!!!

    E podemos sempre estar aqui a falar que a culpa é das rotundas do Brahimi, ou dos golos que quase foram do Adrian Lopez ou daquela pontinha de falta de sorte naquele lance em que o André não marcou ou de um auto golo do Filipe!
    Podemos sempre achar que o 4x3x3 é mais rotinado ou que temos melhor plantel para um 4x4x2! Achar que o NES toma as melhores escolhas, que o treinador podia ser outro...
    Já percebi que isso não interessa nada ou é apenas acessório! Irrelevante quase!!!

    A mudança tem de vir de cima. Pergunto é se o grande presidente ainda tem capacidade para tal. Todos os portistas nutrem um especial carinho pelo presidente (e onde estou incluído, possa até nem parecer pelas minhas linhas anteriores). Mas isto não é a Coreia do Norte e não fazemos adoração ao "líder supremo".

    Queremos resultados, queremos vitórias, queremos (muito) ganhar, pois a isso estamos habituados!
    Que inicie hoje mais um ciclo de vitórias, pois somos grandes demais (para ser enxovalhados de novo) na Liga dos campeões!

    Um portista indignado, mas não resignado!!!
    Saudações azuis e brancas

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  2. Hoje mais uma vez vamos jogar de amarelo!!! Já vai em quantos jogos que não sabemos o que é jogar de azul e branco???

    Porra, que até nestas pequenas coisas me irrito!!!
    Desculpem o desabafo!!!

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  3. fantástico texto!

    beijinho

    Miguel | Tomo III

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  4. Dear Miss BlueBay, comparado com este texto, o Adagio do Albinoni parece-me uma música alegre e festiva, digna de aniversários.
    E mais me toca, porque sei que é verdade. Sei que esse é o sentimento. Até sei o nome de culpados sem serem (só) os jogadores argelinos.
    Mas nós somos da zona do Porto, Carago! Aquela cidade que passa quase todo o ano cheia de nuvens quando os outros portugueses gozam as esplanadas, as praias e o campo, em alegres dias solarengos.
    Nós estamos habituados às adversidades.
    Depois de um longo Verão de 3 décadas, parece que esta nuvenzinha - bem preta, com raios e trovões - pousou sobre as nossas cabeças.
    O presente não é para largas camisolas sobre o corpo, mas sim para apertados cachecóis junto à alma.
    Como todas as tempestades, também esta passará.
    Com a graça do Espírito Santo, pelo menos nos últimos tempos já deixou de chover.

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    1. :) :) :) :)
      Obrigada, Hugo, cheio de graça.

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  5. Se os textos chorassem...o meu computador avariava AGORA!
    Até me dói o peito de tanta empatia com o que diz a Miss BlueBay!
    Assinalável capacidade de escrita e transmissão de um estado de alma.
    Parabéns (pela coragem de escrever);-)

    Pedro Pinto

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    1. (Corada)
      Obrigada, muito obrigada. :)

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  6. Cara amiga
    ”Não queria escrever” mas escreveu! E que bem o fez. Apontou uma-a-uma as nossas fragilidades, descobriu as nossas carecas, atacou “os que mandam nisto”, enfim mais uma brilhante epístola na sua, ainda curta, carreira na bluegosfera.
    Sabe bem o quanto aprecio os seus artigos. Pode ter a certeza que este é um dos mais brilhantes.
    Bjinho de amizade e continue

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    1. Wow! Fiquei literalmente babada, José.
      Obrigada pelas suas palavras. Ainda bem que gostou do texto. Eu já detestei ter de o escrever.
      Beijinho.

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