23 maio, 2012

O “Estádio da Taça” no Jamor versus Estádio Olímpico de Berlim

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A construção e a inauguração

• O Estádio Nacional, no Jamor – Num projecto influenciado por obras como o Estádio Olímpico de Berlim, a edificação levou cinco anos a ser concluída. Inaugurado a 10 de Junho de 1944, o Estádio Nacional foi uma criação do Estado Novo, que procurava com este novo recinto não só a promoção da prática do desporto, mas também a criação de um espaço para manifestações públicas inspiradas nos princípios políticos vigentes. De referir que a construção se concretizou, em grande parte, graças à mão-de-obra gratuita das prisões nacionais.

• O Estádio Olímpico em Berlim – Construído entre 1934 e 1936 para os Jogos Olímpicos de Verão de 1936, era uma obra monumental com capacidade para 100.000 espectadores e foi cenário da propaganda do regime hitleriano, como nunca antes acontecera.


O que tiveram de comum os dois estádios
Hitler, Mussolini, Salazar (e o Regime do Estado Novo), assim como outros ditadores fascistas, transformaram o desporto e em particular o futebol num campo de batalha ideológico. De facto, o fascismo tornou-se a dada altura numa religião laica, onde o espectáculo desportivo se transformava num instrumento poderoso com fins políticos. Um acontecimento desportivo, basicamente um espectáculo ritualista, era glorificado e elevado a acontecimento histórico. Os ditadores europeus e sul-americanos exploraram o apelo popular do futebol em benefício dos seus regimes fascistas. Os estádios, construídos com imponência helénica, eram palcos privilegiados para a promoção e propagação da doutrina política.

As diferenças e a actualidade

• Estádio Nacional, no Jamor – Nos últimos anos sofreu várias intervenções algumas das quais inseridas no plano geral de melhoramentos do CDJ (Centro Desportivo do Jamor). Foram colocadas, em 1999, cadeiras plásticas brancas sobre as bancadas que, apesar de todos os cuidados para afectar minimamente a pedra, vieram desfigurar o Estádio. Também se procedeu à colocação de torniquetes nas entradas e realizou-se um melhoramento da iluminação. Contudo, nem de perto nem de longe se conseguiu dotar o Estádio de condições mínimas e comodidade exigidas para público e atletas. Balneários, sanitários, estruturas diversas de apoio, estão degradadas e ultrapassadas ou simplesmente não existem. As condições de segurança são precárias devido, sobretudo, à inoperacionalidade gritante do recinto.
Num sítio público, a Wikipédia, pode ler-se: “Este complexo serve de Estádio oficial para a Selecção Portuguesa de Futebol mas, devido à sua degradação, os jogos oficiais da equipa não são realizados nele.”…

• Estádio Olímpico de Berlim – Entre 1945 e 1954 serviu como quartel-general das forças armadas britânicas em solo alemão. Em 1963 passou a ser a “casa” do Hertha de Berlim. Várias intervenções foram realizadas de modo a adaptá-lo às condições exigidas a um recinto desportivo da actualidade. Mas a intervenção de fundo iniciou-se no ano 2000. Foi restaurado e munido de todas as comodidades de um estádio moderno tendo em vista o Campeonato do Mundo de Futebol de 2006. A renovação custou cerca de 240 milhões de euros! Em 2009 foi sede do Campeonato do Mundo de Atletismo. A capacidade actual é de 74.220 pessoas. Continua a ser o estádio do Hertha.


De Estádio Nacional a “estádio da Taça”
O estádio no Jamor é tão mau que só serve para… a final da Taça de Portugal. De Estádio Nacional de Oeiras, passou a “estádio da Taça”! Mas afinal que é que ele tem de bom? Nada, por isso é considerado… mau. Vejamos:

• Os acessos rodoviários estão ultrapassados, são impróprios, o que motiva enormes engarrafamentos;
• O perímetro do estádio é vasto e incontrolável pelas forças de segurança;
• Os "stewards" de serviço vão ao Jamor uma vez por ano…; não se identificam com o local e não há coordenação com as forças de segurança; a anarquia é quase completa;
• Controlo de segurança nas entradas deficiente, incapaz de evitar intrusão de objectos proibidos, coisa impensável em qualquer estádio moderno;
• A entrada e distribuição dos espectadores nem sempre obedece a colocação pré-definida; tem acontecido adeptos de um clube finalista irem parar a um sector onde estão adeptos do outro clube;
• Espaço reduzido entre filas de assentos; as escadarias de acesso são estreitíssimas;
• O estádio não é coberto, todos os lugares são a céu-aberto; com sol abrasador o espectador assa; com vento e chuva, gela;
• Não há bares nem casas de banho. Cada um que se desembarace sem líquidos ou… com líquido a mais;
• Uma única saída, muito estreita, não permitindo evacuação de emergência e permitindo conflitos entre adeptos;
• O estádio do Jamor foi o único palco desportivo em Portugal onde uma pessoa morreu, vítima da violência. Um adepto foi assassinado pela claque do clube contrário. Dir-se-á: o mesmo poderia ter acontecido noutro recinto! Mas não, não aconteceu! Com milhares e milhares de espectadores em centenas de outros estádios e pavilhões desportivos, nunca houve uma tragédia de tal dimensão.

Em resumo e evidente conclusão: “o Jamor tem as condições de organização, segurança e conforto de um estádio dos anos 50 do séc. XX”. Se não serve para a realização de outros jogos de âmbito nacional e internacional, POR QUE RAZÃO SERVE PARA O JOGO DA FINAL DA TAÇA DE PORTUGAL?


Os argumentos e a falácia

Na grande maioria dos países da Europa, a final da Taça é disputada, rotativamente, em vários estádios de diferentes localidades. A “festa” vai a todo o sítio; nesses países a celebração do futebol não é um privilégio “ad aeternum” de um estádio.
Os defensores da “taça no Jamor” evocam o simbolismo do local, a tradição, o “nacional” da coisa (estádio). “Sempre foi assim, tem de continuar a ser assim”, dizem eles. E acrescentam: “festa só no Jamor ou então não há festa”. São argumentos bacocos que nem vale a pena rebater. A parvoíce é tanto mais de destacar, quanto mais insistem à medida que as instalações se vão degradando. Eles caminham no sentido inverso ao da história… Se a tradição mandasse ainda andávamos a cavalo ou em carruagem puxada pelo animal. Se a tradição fosse estatuto, ainda existiam campos de futebol como o Campo da Rainha (Porto), o Lumiar e as Salésias (Lisboa).
Em 2011, o então Presidente da FPF, Gilberto Madaíl, admitiu que a final 2010-2011 entre FC Porto e V. Guimarães poderia ser a última disputada no Jamor. E disse que “os clubes têm toda a legitimidade para contestar o local, porque o estádio não tem condições de segurança”. Afinal, “eles” sabem a verdade; mas preferem a falácia. Sabem que é um crime organizar jogos de futebol naquele estádio; como criminosos, têm de ser responsabilizados.

A tirania tem de acabar. Há muitos estádios modernos por esse país fora, aptos para a realização de qualquer evento desportivo. Mas se Lisboa quer o exclusivo da Final, tudo bem ou menos-mal; os clubes da “província” venceram e vencem na “capital do império”… Mas arrumem, de vez, com o Jamor. Ou será necessário pôr em marcha outra coluna da liberdade saída de Santarém?!

[Fontes históricas: Wikipédia, “O Estádio Nacional e os novos paradigmas do culto” e outras; “Café das Antas” e outras]

22 Mai. 2012 – Fernando Moreira (Dragão Azul Forte)

8 comentários:

  1. Ja tive oportunidade d tar nos dois estadios nao se por comparar d agua pro vinho

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  2. Bom dia,

    Ontem no Trio de Ataque o Dr. Rui Oliveira e Costa, abordou e exemplificou a falta de segurança e de condições do Estádio do Jamor. Segundo Oliveira e Costa, adeptos tiveram de ser levados ao Hospital devido a má disposições provocadas pela asfixia na entrada.

    Pinto da Costa há anos a fio que o vem referindo. Espera-se que Fernando Gomes, novo presidente da Federação encontre uma solução.

    Abraço

    Paulo

    pronunciadodragao.blogspot.pt

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  3. Consequências de um Centralismo exacerbado que vai ainda castigando este pobre Portugal.

    Portugal, como todos sabem, é um país macrocéfalo; existe Lisboa e o resto continua a ser paisagem.

    Tudo o que eles podem ainda controlar não largam mão.

    Este exemplo do Jamor é sintomático e claro. Só por "parolice" ou má fé se defende aquela pocilga.

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  4. Fernando, olha que se o Capitão Salgueiro Maia ainda se encontrasse entre nós era homem para pegar nos Unimogs e nas as Berliets e rumar a Sul sem parar em qualquer semáforo :-)

    Reza até a história que o comentou, numa parada militar qualquer, ao actual PR (na altura PM se ñ estou em erro).
    'Se for preciso nós vamos lá baixo outra vez.' - terá dito.
    E não é que esta é mesmo a nossa sina?

    O Jamor tem algo que, pessoalmente, me agrada.
    A mata, a camaradagem, o tinto (se não houver vai branco) do Bicho, as bifanas do Sr. Passos, a aletria da avó Lina, o arroz da Mafaldinha e uma famosa mesa bermelha.

    Quanto ao resto é mais do mesmo.
    A única solução é entrar cedo no campo.
    Caso contrário é um aperto do caraças nos torniquetes com a polícia a olhar para o lado, a mafiosice dos seguranças nas revistas e o lugar que vai no Batalha.
    Isto sem falar nas casas de banho.

    Compreendo que talvez não seja fácil arranjar alternativa e a falta e graveto não permite obras.
    Se não se fizeram quando o dito cujo abundava imagina agora.

    Mas com um pouco de boa vontade alida a alguma imaginação até não seria muito difícl arranjarem solução.

    No entretanto nós por cá seguiremos a velha máxima do falecido Capitão.
    'Se for preciso nós vamos lá baixo outra vez.'

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  5. Silva Pereira23 maio, 2012

    Bom dia,

    Eu também vi o o Dr. rui Oliveira e Costa a proferir as alegações das péssimas condções do estádio de Oeiras, mas não dei credibilidade nenhuma, foi um pouco estado da derrota dos Cali meros. Vejamos:
    Facto nº 1 - Toda a gente diz que não tem condições
    Facto Nº2 Só see realiza a final da taça
    Facto Nº3 - A maioria das finais envolvem pelo menos 1 clube do regime/capital
    Facto Nº4 - Só o FCP se manifesta contra
    Facto nº 5 - como a realização beneficia os clubes/adeptos do regime (jogam em casa) e prejudica o FCP nada se faz.
    Facto Nº6 - Perante as argumentações de todos mas perante o conttra do FCP os simpatizantes esquecem os factos objetivos e argumentam com subjetividade, tradição, também se faz a final da Inglaterra no estádio de wembley, etc,etc.

    Conclusão isto é como quando se discute a regionalização, os argumentos são válidos mas a situação mantém-se.

    Só quando se der uma tragédia com alguma dimenção isto mudará.

    Por último estar à espera que o Fernando Gomes altere é esperar que as galinhas têm dentes.
    Ainda não repararam que FG se rodeou dos mamas de (simpatizantes dos clubes da capital), olhem para o estágio da seleção e reparem que aparece na fotografia. Porque será que JN Pinto da Costa não apoiou Fernando Gomes?
    Isto é mais uma situação de enqunto beneficiar os clubes do regime não mudará a não ser que com a situação de penuria do Estado apareça alguém em comprar aquilo, e aí sim os argumentos invocados pelo FCP vão ser utilizados.
    Nota: o lucho diz ...por parolice... está completamente errado é por interesse.

    sudações

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  6. « só quando se der uma tragédia com alguma dimensão isto mudará »

    em 1996, num clássico onde nós não estivemos, faleceu um adepto, vítima do lançamento de um very-light.
    se este episódio não é uma tragédia, então já não sei o que será...

    somos Porto!, car@go!
    «este é o nosso destino»: «a vencer desde 1893»!

    saudações desportivas mas sempre pentacampeãs a todas(os) vós! ;)
    Miguel | Tomo II

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  7. Completamente de acordo com o post... epá e o Jamor é bonito sim mas... não há mesmo condições...

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  8. Não sei se será relevante a questão mas,se não existe dinheiro não seria melhor aproveitar um destes estádios: faro,leiria ou mesmo o Bessa?

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