19 outubro, 2018

O POKER DE ADRIÁN.


VILA REAL-FC PORTO, 0-6

Ao longo de sete anos como colaborador deste blogue, cinco como cronista, escrevi com estados de espírito muito diferentes sobre os jogos do FC Porto. Houve crónicas fáceis e difíceis que me despertaram múltiplas sensações. Umas crónicas foram divertidas, alegres, agradáveis e eufóricas. Outras, em menor número, foram enfadonhas, melancólicas e desagradáveis.

Como vilarealense, como sócio e adepto dos dois clubes e ainda como director do SC Vila Real, não sei descrever as sensações que tive durante o jogo. Foi o único jogo que vi na minha vida em que não vibrei durante o jogo e nem senti necessidade de o fazer. Estive no meu lugar a apreciar o grande ambiente à volta do Complexo, tanto fora como dentro, e concentrei-me, sobretudo, na festa que se foi fazendo pelas bancadas.


Valeu pela festa, valeu pelo ambiente, valeu pelo convívio e valeu, sobretudo, pelo registo de uma página nova e histórica na vida de um clube quase centenário. Senti um grande orgulho por este momento. Foi muito bonito ver o FC Porto a apadrinhar a estreia do SC Vila Real com o jogo televisionado para o País e além-fronteiras.

Há quase trinta anos, estive presente nos dois anteriores duelos entre as duas equipas, no mesmo estádio. Apesar de, nessa altura, ter estado mais gente, confesso que desta vez as sensações foram totalmente distintas. Na altura, com dezassete anos, olhávamos para os nossos grandes ídolos de então de uma forma espontânea. Com essa idade, não temos a capacidade de analisar tudo ou quase tudo o que nos rodeia. Nem de longe, nem de perto. A euforia de um jovem é de tal forma que lhe limita a capacidade de analisar as coisas tais como elas são. Foca-se apenas numa parte.


Desta vez, as sensações foram muito diferentes. Procurei viver o evento como se tratasse do evento do ano, aproveitei cada momento passado e de cada minuto, procurei extrair o melhor desses sessenta segundos. A cidade de Vila Real precisa destes momentos mais vezes e merece que o clube esteja numa posição mais confortável e vantajosa. Mas para isso, cidade e clube têm de se unir.

Quanto ao jogo, tal como já o disse, não o vi com aquela paixão com que vejo sempre os jogos do FC Porto, por norma. Pelos motivos óbvios. Enquanto cronista deste blogue e dos jogos do FC Porto, posso dizer que vi o SC Vila Real a fazer pela vida, a dignificar o emblema que enverga no peito e a deixar uma boa imagem dentro do relvado. E vi o FC Porto a aproveitar para dar minutos a jogadores que ainda não tinham cumprido qualquer minuto na presente época. Por outro lado, outros jogadores puderam aprimorar a forma para o terrível ciclo de seis jogos em 18 dias.

Um dos destaques vai, claramente, para Adrián López que, com um poker, decidiu, na sua quinta época ao serviço do clube, mostrar toda a inspiração que, até então, nunca se lhe tinha visto.


Da equipa habitual apenas os centrais Felipe e Militão, o médio Herrera, e o avançado Soares, se mantiveram no onze titular. E desses quatro, apenas três poderão subir ao relvado, na próxima Quarta-feira, em Moscovo.

O jogo teve sentido único. Os Dragões marcaram muito cedo e ampliaram a vantagem antes de fechado o primeiro quarto de hora, com dois golos de Adrián. A partir daí, o SC Vila Real que tinha dado um ar da sua graça, num pontapé de canto que Fabiano sacudiu com uma palmada, limitou-se a ver jogar e a tentar tapar os caminhos para a sua baliza. Os azuis-e-brancos faziam muita circulação de bola no meio-campo vilarealense, sempre com muitas movimentações. Neste capítulo, esteve em destaque Óliver Torres, para mim o melhor em campo. O jovem espanhol jogou, fez jogar, assistiu os seus companheiros e revelou-se importante no último passe.

A terminar a primeira parte, o jogo perdeu o interesse. Bazoer escapava-se isolado para a grande área e Raúl Babo travou o médio portista à margem das leis. Expulsão do jogador vilarealense e respectivo livre frontal cobrado superiormente por Adrián Lopez ditaram o 0-3 ao intervalo.


Murta, o Guarda-redes veterano do SC Vila Real, esteve particularmente inspirado. Susteve algumas investidas portistas e salvou o golo por três vezes, evitando um resultado mais volumoso ao fim de 45 minutos.

Na etapa complementar, os Dragões cavaram ainda mais a diferença. Óliver isolou Soares e o avançado brasileiro bateu Murta com um pequeno desvio para as redes. O SC Vila Real sabia que não era possível fazer melhor e com dez jogadores a tarefa tornou-se ainda mais complicada. Rui Sampaio ainda tentou a sorte com um remate de fora da área, mas Fabiano limitou-se a seguir a bola com os olhos.

O FC Porto continuou a gerir e a ensaiar ataques à baliza vilarealense, mas a velocidade do jogo baixou moderadamente. Não havia necessidade de correr riscos de possíveis lesões. André Pereira e, novamente Adrián, fecharam o resultado em 0-6, a 25 minutos do final. Pelo meio, Murta brilhava com um punhado de defesas que faziam as bancadas vibrar intensamente.


Tanto Patrick como Sérgio Conceição operaram mudanças nas suas equipas, com vista aos próximos jogos. Até ao fim, destaque ainda para uma bola no poste de Murta, após cabeceamento de Soares.

Terminado o jogo, referência para a grande moldura humana que se sentiu no Complexo Desportivo do Monte da Forca. Quase ninguém arredou pé das bancadas até o árbitro da partida soprar para o último apito. O agradecimento das equipas aos seus apaniguados e os fortes aplausos das bancadas ficam registados na minha memória.

O FC Porto prepara desde já a deslocação a Moscovo, onde na próxima Quarta-feira joga, frente ao Lokomotiv, uma importante cartada na fase de grupos da Champions League, com vista ao apuramento para os oitavos de final da prova. O SC Vila Real desloca-se a Fontelas, no próximo fim-de-semana, para cumprir mais uma jornada do Campeonato Distrital da AFVR.




DECLARAÇÕES

Sérgio Conceição ficou satisfeito com a resposta dos jogadores em Vila Real

Respeito pelos adeptos, o jogo e a Taça
"No futebol e na vida há duas palavras essenciais: humildade e respeito. Tivemos humildade e respeito pela gente que veio ver o jogo, pelo próprio jogo e pela competição. Estou contente por isso, com mais ou menos golo, que não era importante. Importante era também a exibição dos jogadores, alguns que não têm jogado tanto, mostrando que podemos contar com eles."

Aposta em jogadores que ficaram no Olival
“Tinha de apresentar uma equipa com que eu tivesse trabalhado. A equipa que jogou passou estas duas semanas comigo, exceto o Éder Militão. Tive jogadores que chegaram em cima da hora do treino, era impossível utilizá-los hoje. Mas montei a equipa com essa noção de respeito, porque no futebol, hoje em dia, trabalha-se bem em todo o lado, as equipas técnicas são cada vez mais competentes, as coisas evoluíram e ainda bem que é assim.”

Sobre os quatro golos de Adrián López
“Não é o jogo que dita que os jogadores tenham mais oportunidades. São os treinos. Aquilo que o Adrián fez hoje é o que normalmente faz nos treinos. Por exemplo, eu tinha dito que o primeiro livre à entrada da área, seria ele que o batia, porque sei o que ele faz nos treinos.”

Sentimento igual em Vila Real ou em Moscovo
“Este ambiente é uma maravilha. Posso confidenciar que eu assisto ao vivo a mais jogos do Campeonato do Portugal e dos distritais do que propriamente da Liga. Gosto muito de ir a esses jogos, porque aprendemos muito. Jogando aqui ou jogando na quarta-feira na Rússia para a Liga dos Campeões, o sentimento tem de ser exatamente igual, só assim é que se consegue chegar a um patamar elevado e só assim é que se consegue ficar nesse patamar.”



RESUMO DO JOGO

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