14 março, 2007

A nossa escala

'Nortada' do Miguel Sousa Tavares...

Ainda com as imagens do Barcelona-Real Madrid bem presentes, sentei-me no domingo para ver o Marítimo-FC Porto, e tive de fazer todos os esforços para não adormecer.

1 - Foi uma semana eloquente, terrivelmente eloquente, para percebermos a diferença enorme que existe entre a escala do nosso futebol de equipas e a escala das grandes equipas europeias. Em Paris, face a uma equipa à beira da despromoção, totalmente descrente e desacreditada, o Benfica não conseguiu evitar uma derrota incompreensível e sem justificação alguma. Em Braga, e jogando bem melhor do que o Benfica, o Sp. Braga também não conseguiu evitar uma derrota frente a um Tottenham vindo de fantástica vitória em Liverpool por 4-3 e que imprimiu ao jogo uma velocidade estonteante, ao ritmo desse fabuloso Aaron Lennon. Aturdido, o Braga não conseguiu melhor que empatar a zero, três dias depois, em casa, e frente ao Beira-Mar, enquanto o Tottenham foi a Stamford Bridge empatar a 3-3 com o Chelsea, depois de ter estado a vencer 3-1. Nenhuma equipa portuguesa aguentaria a sequência infernal desta semana do Tottenham — e estamos a falar apenas de um clube do meio da tabela inglesa. Aliás, desconfio que nenhum dos nossos grandes teria feito melhor do que o Braga, contra os ingleses.

Toda a semana ouvi portistas e não portistas lamentarem o frango do Helton em Stamford Bridge: «Ah, se não fosse aquele frango…!» Não estou de acordo: é claro que foi frango e que veio na pior altura do jogo; é verdade que o Chelsea, tal como já sucedera no Porto e tal como Jesualdo disse acertadamente, não mostrava quaisquer indícios de ser melhor, futebolisticamente falando, do que o FC Porto. Mas, com o sem frango, e como também disse Mourinho, estou em crer que o Chelsea chegaria à vitória. E porquê? Porque, tal como se viu com o Tottenham em Braga e nos dois jogos do Porto contra o Chelsea, as equipas inglesas (e as espanholas, as italianas, as alemães…) estão muito melhor preparadas fisicamente do que as nossas. O que é incrível, se pensarmos que eles, não só disputam o dobro dos jogos das nossas equipas, como disputam jogos de um grau de exigência incomparavelmente superior. Os estádios estão sempre cheios em Inglaterra, os grandes jogadores ganham fortunas, mas, em contrapartida, têm de dar espectáculo e deixar a alma em campo. Jogos com perdas de tempo, autocarros em frente da baliza, futebol a passo, remates displicentes e lesões simuladas, isso não é com eles. Ali, o público paga, o público tem.

Em ambos os jogos contra o Chelsea, o FC Porto nunca mostrou ser inferior tecnicamente, enquanto equipa — o que é notável, sem dúvida, atendendo aos orçamentos de ambos os clubes. Mas, em contrapartida, em ambos os jogos também, os portistas estoiraram a meia hora do fim — o que é igualmente notável, no mau sentido, sabendo-se que a preparação física não tem que ver com a qualidade dos jogadores nem com o orçamento dos clubes, mas apenas com a qualidade e quantidade de trabalho feito.

Depois, houve outro factor concorrente para a eliminação, mais do que natural e previsível dos portistas. Se, enquanto equipa, não se notaram as diferenças, já tecnicamente a nível individual, elas foram decisivas: nenhum ponta-de-lança do FC Porto tem a capacidade de marcar o golo que Schevchenko marcou no Dragão; e Petr Cech jamais sofreria um golo como o que Helton sofreu nem faria as saídas suicidárias a bolas altas que ele fez — e que repetiu no Funchal, como já no jogo anterior havia feito contra o Braga. Em Dezembro, escrevi aqui que o Helton não é o grande guarda-redes que se diz: é um bom guarda-redes, com potencial para crescer muito, se for bem treinado e ensinado, em especial no jogo aéreo, onde as suas limitações são evidentes e incompreensíveis. Mas tal, infelizmente, não parece estar a suceder: a olho nu, a mim parece-me que o Helton é hoje pior guarda-redes do que era quando veio do Leiria para o FC Porto.

2 - O grande futebol não pára para descansar. As equipas saem de um jogo europeu decisivo e logo têm um jogo interno igualmente decisivo. Aqui, basta um jogo europeu ou um jogo para a Taça a meio da semana, e logo servem de desculpa para o «cansaço» ou a «gestão de esforço». Saídos de duas eliminações corrosivas na Liga dos Campeões a meio da semana, o Barcelona e o Real Madrid ofereceram-nos, setenta e duas horas depois, um festival de futebol de primeiríssima qualidade, jogado a um ritmo infernal, com golos em série, oportunidades, jogadas de génio, vontade intensa de vencer. Antes do Mundial da Alemanha, eu tinha apostado em Messi como aquele que despontaria como a grande figura do Mundial. Mas não fui capaz de imaginar que o seleccionador argentino, Pakermann, deixasse Messi de fora, apostando antes numa Selecção de contenção e medo, que saiu do Mundial prematuramente, sem honra nem memória. Sábado, em Camp Nou, Messi cometeu a proeza de marcar três golos ao Real e explicar porque é que alguns apostavam tanto nele antes do Mundial. Pakermann deve ter tido vergonha ao ver o jogo.

Ainda com as imagens do Barça-Real bem presentes, sentei-me no domingo em frente à televisão para ver o Marítimo-FC Porto, e tive de fazer todos os esforços para não adormecer, após um daqueles jogos em que, se houvesse vergonha, os clubes teriam devolvido o dinheiro aos espectadores no final. A culpa principal, à partida, é do FC Porto, que tem melhores jogadores e maiores responsabilidades. Mas, também, chega do fado do coitadinho. O Marítimo não jogou contra o Chelsea a meio da semana, não perdeu dois jogadores por lesão nos primeiros vinte minutos e não se apanhou a ganhar 2-0 antes da meia hora. Além disso, jogava aqui as suas aspirações a um lugar europeu e Ulisses Morais resolveu jogá-las sem ponta-de-lança, deixando no banco os dois melhores marcadores da equipa. Teve o que merecia e é, em grande parte, por causa desta falta de ambição que o nosso futebol de equipas tem tão reduzida dimensão europeia, para além de episódicos desempenhos do FC Porto ou do Benfica.

# in Jornal “A BOLA”, 2007.03.06

7 comentários:

  1. MST foi um pouco injusto para com Helton...EStou com saudades do futebol mágico do puto AndersoN. Já treina com bola. Fiz post sobre ele no meu blog.

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  2. Ara!
    O miguelito foi um pco mauzinho nao? li o texto e fiquei com a impressao que seria um dia mau para ele "quase que adormeci" ao ver o jogo :S e outros mais exemplos que "expremo" dali ..:S e concordo com o lucho, foi injusto com o Helton a meu ver :S

    kisu*

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  3. Gosto de ler MST...
    beijinhos e eu porto-me mal lol;)

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  4. dragão azul14 março, 2007

    Estou de acordo com MST menos claro esta ao comentario a Helton, mas pronto é a opiniáo dele....
    Finalmente que encontro alguem com a mesma opinião que a minha em relação ao cançasso dos jogadores que jogam em Portugal, continuem a fazer deles coitados, a bater-lhes nas costas e a justificar os maus momentos deles com o cançasso e ja agora podem continuar a fazer o mesmo a alguns treinadores que preparam as suas equipas pura e simplesmente para não sofrer golos, depois de o jogo acabar atiram-se aos arbitros por perderem se é isto que querem do futebol português por mim tudo bem desde que o F. C. P. continue a ganhar... em relação ao maritimo - F. C. P esta tudo dito só falta mesmo devolverem o dinheiro dos bilhetes aos adeptos.
    Ja agora vou contar uma historia que desserto ja ouviram falar, a alguns anos atras quando clube da minha terra estava na 1ª divisão num certo jogo Tirsense - Benfica o treinador do Tirsense na palestra antes do jogo disse aos jogadores para esquecerem a baliza do benfica e que se preocupassem unica e exclusivamente em defender para não sofrer golos, por outras palavras estecionar 3 autocarros em frente a balisa, esta é a mentalidade de um treinador que pelo incrivel que pareça treina um clube da 1ª liga, mas claro esta o culpado não é do treinador, não é do clube que o contratou, nem dos jogadores, sera do F. C. P e do Pinto da Costa? Esta é a opinião dos invejosos que passam os dias a atacar o nosso clube e a culpar-nos de todos os males do futebol português...


    Saudações AZUIS

    DRAGÃO AZUL
    dragao.azull@sapo.pt


    P.S.- Esse treinador pelo que me dizem confirmou esta historia como verdadeira.

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  5. O MST disse aí algumas verdades com o seu estilo cortante, mas lá anda ele a auto-elogiar-se por causa de ter dito que o Helton saia mal dos postes... enfim... não se bata mais no ceguinho que ele qualquer dia diz-nos xau xau e para arranjar outro vai ser os Diabos... ainda me lembro de Rui Correias, Hilários, Kralis, e afins. Quanto ao resto da crónica estou de acordo, excepto num outro ponto, por alminha de quem é que o Chelsea dá bons espectáculos, não devemos andar a ver os mesmos jogos, fisicamente nota-se muitas diferenças, mas eu também vejo muitos jogos da liga inglesa (que é a que mais gosto) e dou por mim muitas vezes a bocejar.

    Saudações a todos Blues

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  6. Realmente em termos físicos o nosso futebol está a anos luz dos outros campeonatos ... e com mais paragens ( se calhar também por isso ).
    è um aspecto a rever com urgência pelos nossos metodólogos de treino.
    Quanto ao Helton, não tem estado bem mas não há razão para tanto barulho. Tem é de se concentrar e não protestar mais.

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  7. Ora bem então... por onde é que lhe vou pegar hoje ;-P

    1) não é preciso ser-se nenhum expert que lá fora, Inglaterra e Espanha, principalmente, os jogos de futebol são jogados num outro ritmo... uma verdade de 'la palisse'!

    2) o Chelsea isto, aquilo e tal? deve estar a falar d'um outro jogo (aqui no Dragão, principalmente!) ou d'outros jogos, claramente. Adiante.

    3) comungo desde há muito que efectivamente, Hélton 'no ar', perde claramente para Vitor Baia, este sim, um mestre a dominar a sua área de jurisdição, isto, quando jogava... hoje, não tanto ou muito pouco. Dentro dos postes, reconheço-lhe há muito, grande qualidade. Um facto actual indesmentivel: está fragilizado por Londres, claramente. Continuo a acreditar que é apenas uma fase passageira (esperemos bem, porque os próximos 2 jogos, são FULCRAIS!).

    4)já o tinha admitido... entre os 45 e os 85 minutos do Caldeirão, quase adormecia... e parece que não fui o único.

    aKeLe aBrAÇO
    http://bibo-porto-carago.blogspot.com/

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