17 abril, 2008

Ó da Guarda...!!!!!

Lisboa. Sexta-feira. 20.10

O trânsito na 2ª circular, compacto, vai-se escoando lentamente, ao som de buzinadelas e gritos de exasperação dos automobilistas. A noite começa a ganhar a batalha ao dia. O céu escurece lentamente, contrastando com as luzes dos candeeiros, brilhando de forma artificial.

Os últimos retardatários correm apressados, atravessando as faixas de rodagem, em direcção ao Estádio. É dia de jogo importante. Uma vitória dos da casa e o 2º lugar será mantido. Nervosos, alguns chupam sofregamente os cigarros, procurando acalmar o pânico.

Na entrada VIP um carro com a matrícula do estado estaciona junto ao portão de acesso. Diligente, o motorista apressa-se a abrir a porta de trás, curvando-se reverente à saída do passageiro. Este, algo enfadado, olha para o relógio. À sua espera, esfregando as mãos, ansioso, o presidente da Instituição. Bigode farfalhudo, aparado com aprumo, ao bom estilo ariano do autor do “Mein Kampf”, acena bajulador ao seu convidado de honra. Não é caso para menos. Numa das suas raras aparições mediáticas, o Ministro da Administração Interna acedeu ao convite para ver, in loco, o estranho caso dos resultados viciados…

Enquanto se dirigia, pelos corredores ventosos do Estádio, para o seu camarote, olhava receoso para as sombras dos gabinetes aparentemente vazios. Alerta, procurava com o seu olhar arguto provas palpáveis que correspondessem à teoria do seu anfitrião. Alguém andava a viciar os resultados da Instituição…

“Gente malévola”, murmurou, enquanto se acomodava no seu lugar. Olhou curioso para as despidas bancadas. “Tá pouca gente!”, proferiu entre dentes, mais para si próprio do que para ser escutado. O presidente da Instituição, no entanto, virou-se logo para ele, olhos inflamados, saliva escorrendo pelos cantos da boca. “É o que eles fazem ao futebol. As pessoas já não acreditam…”, comentou ele, abanando a cabeça. Aquilo dava-lhe um ar ridículo, pois os apêndices auditivos, demasiado generosos em tamanho, abanavam como se possuíssem vida própria.

O Ministro, hipnotizado pela visão das orelhas descomunais, forçou-se a focar a atenção no discurso do anfitrião. “Já não acreditam? Em quê? Na equipa?”, perguntou inocentemente, arrependendo-se de imediato da ligeireza das perguntas. Fuzilado pelo olhar acerado do outro, engoliu em seco.

“Não”, quase gritou o presidente da Instituição. “Não acreditam no próprio futebol”. E, baixando o tom de voz até um ponto em que o Ministro, para o ouvir, teve que se chegar para a frente, disparou em tom de conspiração. “Sabem que está tudo viciado. Ganham sempre os mesmos…”

O Ministro ía para responder, mas foi interrompido por uma tímida salva de palmas. Reparou que as equipas entravam em campo. À frente, destacando-se dos demais pela sua baixa estatura, um pequeno homenzinho de bigode marchava resoluto. “Vai haver algum número de circo?”, perguntou o Ministro, rindo-se da própria piada, enquanto apontava para o anão vestido de fato.

O ar atónito do Presidente fê-lo sentir-se inseguro. “Ó homem, aquele é o pequeno genial, o nosso treinador”, elucidou-o.

O Ministro resolveu adoptar uma postura mais consentânea com o seu cargo. Olhar introspectivo, fixo no jogo, procurando indícios de adulteração criminosa.

Bastaram 4 minutos. O golo dos forasteiros, precedido de um passe mal medido de um dos defesas da equipa da casa, cheirava a esturro. Sacou do telemóvel. Pelo canto do olho vislumbrou o bigode farfalhudo do presidente da Instituição a tremer. O ar impassível do rosto contrastava com o tique nervoso do pé, batendo ritmicamente no chão.

Ao fim de uns segundos, uma voz ensonada respondeu:
- “Tou?”.
- Tá lá. Daqui é o Ministro. É o ex-árbitro Coroado que fala?”, perguntou, abafando a voz para não ser ouvido pelos companheiros de bancada.
- “Sou sim. O que deseja?”. A voz grave era pouco convidativa a diálogos.
- “Tá a ver isto homem? O que acha? É um resultado viciado ou não?”, questionou o Ministro, sussurrando para o telemóvel.
- “Viciadas só se forem as chuteiras do Luisão, homem”, respondeu abespinhado o Coroado. “Atão foi ele que passou a bola ao adversário…”, argumentou.

Uns segundos de silêncio marcaram a conversa. Ouvia-se a respiração ruidosa do Ministro. Ainda tentou, mais uma vez:
- “Não estava fora de jogo?”, aventou a hipótese.
Uma série de imprecações pontuaram a resposta. Fingindo não ter percebido, o Ministro procurou escapar daquele diálogo incólume.
- “Pronto homem, não vale a pena enervar-se. Não é caso então para chamar a PJ?”
Ouviu-se uma gargalhada que escorria de ironia, do outro lado do fio.
- “Senhor Ministro, a PJ já está no futebol...”
- "Ai já?”, surpreendeu-se o Ministro. “Não fazia ideia nenhuma…”
- “Já”, respondeu rispidamente o Coroado. “No campeonato do Inatel…”, e desligou a chamada.

O Ministro pouco tempo teve para se recompor. No relvado, os homens vestidos de negro acabavam de marcar o segundo. À sua beira, num estado de prostração, o presidente da Instituição abanava a cabeça, incrédulo.

Balbuciava coisas sem nexo, gesticulando em todas as direcções. O Ministro tentou apaziguá-lo. Colocou-lhe uma mão no ombro e, confidente, disse-lhe:
- “O Coroado diz que até agora não existe nada de anormal…”.
O presidente da Instituição reagiu intempestivamente. Deu um salto, de olhos esbugalhados, quase cuspindo as palavras:
- “Esse gajo!!!!Esse gajo!!! Esse gajo não percebe nada de futebol. O João…o João pode ser…mas esse gajo…”.

Conseguindo acalmá-lo a custo, o Ministro procurou colocar água na fervura.
“Pronto, pronto…eu vou ligar a outra pessoa…”
Perante o olhar de interrogação do presidente, limitou-se a dizer:
- “A ELA!”

A conversa foi curta. O Ministro guardou o telemóvel, refastelou-se na cadeira e sorriu, satisfeito. Deste é que era. Os casos de resultados viciados no futebol português seriam desvendados. Os seus culpados punidos. Severamente. Imaginou-se a receber os elogios do primeiro-ministro. Até do Presidente da República. Numa cerimónia pública. Transmitida pelo novo canal da Instituição. Despertou dos seus devaneios com os apupos do público presente. Lá em baixo, os homens vestidos de negro comemoravam exuberantemente.

Pálido, o presidente da Instituição choramingava.
“Tá a ver, senhor Ministro. Não nos deixam ganhar…”, queixou-se. "Aquele tipo que marcou o 3º golo é do Porto...", acusou, com a voz a soluçar pateticamente. "Este é o melhor Benfica dos últimos 10 anos...por isso é que nos perseguem..."

O apito final do árbitro colocou um ponto final no suplício. Cabisbaixos, os atletas da casa saíam do campo, com o semblante carregado. Os forasteiros rejubilavam com o triunfo. Ninguém reparou numa figura sinistra, junto ao acesso para os balneários. Pequena, os olhos demasiado pintados com o eye-liner azul, comandava um pequeno grupo de homens, rostos patibulares. Apontou para alguns alvos. Domingos Paciência, Luis Aguiar e mais alguns foram arrebanhados, de entre a pequena e efusiva multidão academista, e levados apressadamente para um carro celular. O barulho estridente de pneus a chiar indiciava a pressa da Polícia, em resolver aquele que já era conhecido como "o estranho caso dos resultados viciados..."

*****

Estamos na final da Taça de Portugal. De forma esperada, mas nem por isso aguardada com menos euforia. Dominador, o Dragão passou pela terra banhada pelo Sado para carimbar mais um feito. Sabia-se, de antemão, que o jogo não seria fácil. A qualidade do adversário obrigava a algumas cautelas. Previamente, e de forma cirúrgica, o ambiente tinha sido preparado com esmero. Críticas veladas, cobardes, à arbitragem, numa tentativa vã de condicionamento, por parte de Carvalhal. Um público hostil, avesso a cores vitoriosas, apupando e insultando, numa triste mostra do ódio que corrói as entranhas a uma sociedade mesquinha. A receita finaliza-se com o de sempre: uns rancorosos comentadores televisivos, impróprios para consumo num País normal, mas que encontram neste território devassado pela intriga terreno fértil para cultivarem críticas azedas e venenosas. Por isso, para todos esses que se revêem no fundamentalismo anti-FCP, esta ida à final é para vocês. Os que não conseguem conviver com as nossas vitórias. CONTINUAREMOS A VENCER, POR MUITO QUE VOS CUSTE!

21 comentários:

  1. Tá bem aplicado este post,mas na 2a
    circular já houve outro funeral e foi de galinhas chocas ,e roubou qq coisita de actualidade. Mas tá boa,tá bem metida,deixa-a estar!
    Ó pitarada,depenada,quereis aqui um Sevenupzinho? Vinde cá!Pegai lá!

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  2. Este artigo está lindo!
    E imagino que tenha sido feito antes do jogo de ontem, em que a "instituição" levou 5!

    Parabéns.

    José Correia
    reflexaoportista.blogspot.com

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  3. Paulo, tiro-te o chapéu.
    'Ele, o Presidente - A saga continua'

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  4. Paulo, como diz o Estilhaço, tiro-te o chapéu.

    Uma fantástica história policial. Só faltou o pó branco:)

    Li e voltei a ler. Está no ponto.

    Gostei q tivesses dedicado esta nossa vitória aos invejosos.

    Parabéns.

    E levaram 5 ontem depois de já estarem a dar olés na 1ª parte. Que mais lhes vai acontecer.

    Mais um resultado viciado.

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  5. Este é um homem do Norte...e Portista!
    Está genial!
    Parabéns Paulo

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  6. Devido a ontem é chamar de novo a polícia ...
    Mas, estranho, nem pia...
    Muito bom post.

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  7. Desvendado mais um caso no nosso futebol...
    Paulo Bento deu no intervalo um " Porto " aos jogadores do sportem e conseguiu um brilhante resultado.
    Orelhas não se conforma e chama a ... polícia...

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  8. Paulo, tens obrigatóriamente de escrever um livro com direito a sessão de autografos em pleno Estádio do Dragão :D
    Está 5 estrelas :)

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  9. Amigo Paulo, já não há muitas mais palavras para descrever os teus «escritos»... apenas agradecer em nome de todos nós, o privilégio que é podermos todas as santas semanas, ler as tuas «narrativas» virtuais... d'um mundo real, bem real!!

    Aqui, qualquer coincidência com a realidade... não é mais que a «pura verdade».

    Resta-me dizer que "Paulo, o meu especial obrigado por seres um dos nossos... e o Dragon Soul, desde o 1º minuto, é que tinha toda a razão"... foste uma contratação e pêras... e nem por 40 milhões, os «tubarões» te levam daqui ;)

    ps - não tarda nada, mas não tarda mesmo, a Leonor «cara de cadáver» Pinhão, vem aqui propor-te uma parceria literária :D :D :D

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  10. GENIAL! E não és pequeno genial, ÉS GENIAL MESMO!:)

    Pah, ontem foi mais um viciado, entao onde ja se viu eles a darem olés à equipa na 1 parte e depois levarem 5 de rajada em meia hora??? É mesmo ma vontade dos gatinhos, nao têm compaixão por ninguém...

    Golaço de Vuk e golo do Ninja (nosso ninja, não é deles) fomos nos que lhe metemos a alcunha. So estes dois golos valeram para ver a cara dos benfas...
    Tenho a dizer que 8 golos numa meia final da taça entre duas equipa de extrema qualidade (ironia ironia) é uma desgraça. Ou o ataque é muito bom, o que eu duvido, ou a defesa é mesmo uma merda. LICHA DOMINGO JA SABES, TENS CAMINHO ABERTO!!!!!

    Beijinhos azuis e brancos da Ta_8

    Novo post, passem lá! http://www.bullet-blue-sky.blogspot.com

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  11. Estranhamente, ou talvez não, dei por mim no sofá, ontem à noite, contorcendo-me de ansiedade, esperançado numa reviravolta leonina...

    Rejubilei e assumo-o publicamente. Não se trata de nenhum recalcamente, nem de uma costela escondida sportinguista. Apenas e só da mais elementar justiça. Quem semeia ventos, colhe tempestades...

    E depois da frase profética, no inicio do ano, do "Benfica tem o melhor plantel dos últimos 10 anos", a escalada de incontinência verbal nuna mais parou, numa fuga para a frente de resultados felizmente desastrosos...

    É possivelmente a esta Justiça Divina que Pinto da Costa tinha apelado. Quem nos deseja mal, quem nos odeia, quem nos tenta destruir, está a ter o que merece. E era bom que este discurso fosse adoptado no balneário, antes do confronto de Domingo...

    Ao contrário do que se pensa, está muito em jogo. Nem que seja a humilhação de um clube que, findo as décadas douradas, em que eram levados ao colo, começa a sentir na pele a mudança dos tempos. Ninguém os respeita. Ninguém os teme. E um correctivo azul e branco, bem aplicado, constituiria a cereja no topo do bolo...

    Aí sim, o campeonato terminaria em beleza...

    Segundo consta, o Orelhas tem tal confiança na equipa que, após sofrer o 1-2, se pisgou para o balneários...

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  12. PP, que mais se pode dizer?! Apenas e só que está 6 estrelas este teu post. Parabéns!! O MST que se cuide :D

    Blue, é como o algodão: não engana :D

    Saudações

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  13. O teu post tem 7 estrelas!!! Parabéns!!!

    Cumprimentos

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  14. Aqui está , oportuno ,
    o verdadeiro trama futebolístico da actualidade .

    E o Paulo , em grande forma !

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  15. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  16. Com esta veia não duvido que um livro sobre o LFV, escrito por ti, sem necessidade de alterações da Leonor Pinhão, poriam MJM na rota do apito encarnado. Com uma vantagem: Não precisas de «alternar».

    Pelos teus textos está a arriscar um Dragão de Ouro!

    Cumprimentos

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  17. Paulo, concordo com a Heliantia, pensa com carinho na ideia de escrever um livro, pk toda a nação portista e não só merecem se deliciar com as tuas escritas ... FORÇA !

    Dracaena ....

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  18. Viva !

    Paulo Pereira, Muitos Parabéns pelo teu texto ! Bravo !

    Desculpa só uma curiosidade minha : Porque nas montagens guardaste a imagem da garrafa cócó-cola ? Estava assim na imagem inicial a garrafa cócó-cola ?

    Paulo Pereira, não deixa de ser questionante : Eu estou muito mais ansioso quanto à final da taça que quanto ao jogo contra o Benfica. É um jogo a feijões ! O campeonato está ganho e o acesso à C1 garantido.

    Talvez por viver aqui. Não sei !

    Eu, no mundo em que vivo não ouço falar no Benfica.

    Do Porto sim !

    E Viva o Porto !

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  19. Engraçado estou com a sensação que so houve uma meia final da taça nesta ediçao 2007/2008. Visto que o tempo de antena para o Vitoria de Setubal-FcPorto foi tão reduzido e no Pontapé de saída da rto noticias nem vai ser mencionado, tudo leva a crer que fomos parar ao Jamor de paraquedas. RIDICULO.

    Por outro lado, descobri que na formação dos arbitros para o euro 2008, um dos exemplos de faltas a banir sabem qual foi qual foi?? Pois é, parece que a fruta distribuida por bynia na champions foi apontada como alvo a abater pelos arbitros do euro.
    Afinal nãp é o nosso Brunão o caceteiro.--'

    Beijinhos azuis e brancos da Ta_8

    http://www.bullet-blue-sky.blogspot.com

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  20. Ó Paulo, eu confessso que me cago a rir com estas tiradas.
    E o verdadeiro Glorigozo!
    Mas acho que estás a dar demasiado importância a quem não a merece, desculpa lá!

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  21. Brilhante texto de alguém que nos habitua semana após semana, ao melhor...

    Afinal parece que os reptos lançados para um livro são continuos...
    Arranja-se financiamento para isso!!! A escritora best-seller do mercado também tem...
    Aqui está uma bela história, que dá razão ao provérbio... «Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo»...

    Este homem é um triste... Apesar de controlar os meios de CS, já começa a ser dificil para ele passar as mensagens aos próprios adeptos que nao acreditam em nada... O que é uma pena enorme!!!! Deus lhe dê saude para ficar por lá muito tempo!!!

    Mas já chega de falar de Orelhas...

    Mais uma vez parabéns e continua...
    Para a semana outra tirada fantastica, mas aí concordo com o Zé Luis, sem ser sobre este triste que não merece tanto...

    Saudações azuis e brancas
    Carlos Pinto

    PS-Andei um pouco afastado, pois tive uma lesão dos diabos... Jogar à bola com polacos, dá direito a ficar sem joelho e então nem tive paciencia para escrever... Semana dificil suportada pelas alegrias do nosso Porto...

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