27 setembro, 2007

Glórias do passado

Era uma vez…

É geralmente assim que começam as fábulas infantis, povoadas de fadas e princesas, mas também, para criar uma dicotomia entre o bem e o mal, de monstros, bruxas e demais espécies nefandas. Sendo os ditos contos metáforas do quotidiano, todos nós sabemos transportar essa realidade onírica para o dia-a-dia do futebol luso. Sem esforço, de forma pragmática, somos capazes de colocar nomes nas fadas e príncipes, mas também nos monstros e bruxas que fazem do futebol português um mundo mal frequentado…

Ora, sem mais preâmbulos, sempre me habituei a venerar os atletas azuis e brancos, esses guerreiros míticos e mágicos, que lutam, num mundo de trevas, contra as hordas maléficas, actualmente comandadas por uma bruxa com tiques leninistas, herança de uma educação comunista, e por um híbrido, metade homem, metade australopiteco, possuindo características físicas que o tornam numa versão moderna do Dumbo. Se, hoje em dia, sabemos de cor, nomes, idades, altura, peso e demais características que fazem a delícia do Gabriel Alves que existe em todos nós, resolvi vasculhar o passado…

Sim, porque bem lá para trás, recuando dentro da máquina do tempo, sempre existiram figuras ímpares, que usaram o manto sagrado do Dragão. Homens de talento invulgar, que contribuíram para a elevação do nome do nosso venerado clube. Nomes de sempre, gravados de forma indelével na história, que ganharam uma dimensão mítica. Apenas e só uma mágoa. Nunca os ter visto jogar…

Venham daí, estão convidados a virem comigo, nesta viagem ao mundo mágico do Dragão. Apertem os cintos e embarquem nesta nave, que nos fará recordar. Primeira paragem…

Artur de Sousa PINGA

Reza a história que faltavam dois dias para o Natal. Estávamos no ano de 1930. Acabado de chegar do Funchal, onde espalhara o perfume do seu futebol, Pinga não demoraria muito a revelar os seus atributos, no novo clube. Considerado um virtuoso do esférico, hábil em fintas e em ludibriar defesas com golpes malandros, era também um rematador portentoso. Auferindo a astronómica quantia, para a época, de 500 escudos mensais, Pinga rapidamente caiu no goto dos adeptos, tornando-se mesmo a estrela da companhia. Se a adaptação ao novo clube foi célere, na Selecção das quinas nem se fala. Estreando-se num particular frente à Espanha, foi elogiado por toda a crítica presente, coleccionando mais 20, depois dessa, chegando inclusive a capitanear, por duas vezes, a equipa portuguesa. No Porto, contribuiu de forma decisiva para os títulos nacionais de 1934/35, 1938/39 e 39/40, sagrando-se em 1935/36 no melhor marcador do campeonato, com 21 golos…em 14 jogos. Ficou conhecido como um dos “diabos do meio-dia”, apodo que lhe ficou do jogo em que o Porto, ao meio-dia, defrontou o First de Viena, considerada a equipa-maravilha da Europa, deslumbrando todos com uma exibição maravilhosa. Ficam as palavras da imprensa da época, no jogo da sua despedida:

“A 7 de Julho de 1946 realizou-se a festa de despedida de Pinga. Chorou-se de emoção quando ele, lágrimas nos olhos, verdadeiramente sucumbido em presença da manifestação que lhe fora prestada, abandonou o Estádio do Lima. Ninguém resistiu. Estrugiram as palmas. Pinga sem conseguir falar para agradecer, sem forças para se retirar do campo, e o público de pé, galvanizado, acenando-lhe com lenços, gritando o seu nome, embora muitas gargantas estivessem abafadas com soluços. Nunca o Porto vivera momentos assim…”

Pinga faleceu em 1963, vítima de cirrose. A bebida, se muitas vezes é o néctar dos deuses, também pode ser a perdição dos génios. Como Pinga.

Avancemos um pouco no tempo. Para conhecer um dos "monstros" sagrados da baliza. Indefectível portista,

Frederico Barrigana

Possuía uma aura só comparável, nos dias de hoje, à veneração sentida por Vitor Baía. O "mãos de ferro", como ficou conhecido, nasceu em Alcochete, tendo iniciado a carreira profissional no Montijo e passado, depois, pelo Sporting. Foi no entanto no Porto que as suas qualidades foram depuradas. Contrastava na baliza, fazendo da irreverência um contraponto à sobriedade que então distinguia os demais guarda-redes da altura. Fazia questão de se engalanar, como se fosse para um baile, cabelo penteado de brilhantina, à...artista de Hollywood. Orgulhoso, proclamava que "elas dizem que pareço um manequim". O nosso "pinga-amor" jogou, de azul e branco vestido, doze épocas, nunca tendo conseguido, no entando, o título de campeão nacional. Apesar disso, as suas fantásticas exibições, onde aliava a espectacularidade a um estilo felino e elástico, valeram-lhe, para além de inúmeros elogios, a guarda das redes da Selecção das Quinas.Também aqui, apesar da qualidade demonstrada, o período que passou na Selecção de todos nós não foi particularmente feliz, a nível de resultados. Ironicamente, Barrigana sai do Porto, dispensado por Yustrich, precisamente na época em que se acabou um jejum de 16 anos, em 1956.

Dele se conta também que era homem de enorme coragem e sangue frio, capaz de enfrentar perigos com um sorriso no rosto. Num célebre jogo na Tapadinha, entre o Atlético e o Porto, que os Dragões venceram por 2-0, os ódios revoltearam à volta do recinto do jogo. Uma turba em fúria, espumando fel e lançando remoques, dificilmente sustida pela polícia, que limitava o perímetro, para os portistas chegarem em segurança ao autocarro. Temerosos, os jogadores do Porto não se atreviam a sair do estádio, temendo pela integridade física, com os apupos e insultos a avolumarem-se. Até que, como se passeasse em família, um vulto enorme cruzou os portões. Impávido, caminhando lentamente, de cigarro no canto da boca, um trejeito gozão a deformar-lhe os lábios, Barrigana deu o "peito às balas", mostrando a verdadeira raça de um portista. Todos chegaram incólumes, mas aquela atitude, de desafio, calou bem alto no coração de todos os que a presenciaram. Era assim Barrigana...

ps - espero que tenham gostado. A mim deu-me um gozo especial vasculhar memórias, consultar arquivos e pesquisar dezenas de livros para resgatar do limbo do esquecimento jogadores marcantes da história portista. Para já, estes dois, mas brevemente outros se seguirão, num merecido tributo a quem jogava, muitas vezes, por amor à camisola. Outros tempos...

6 comentários:

  1. Estes sim, grandes Senhores que jogavam por Amor. Pois, amor, coisa rara nos nossos jogadores de hoje em dia, muito rara mesmo.
    Amigo Paulo um grande abraço, nunca é tarde para recordar aqueles que tanto fizeram pelo nosso clube.
    Abraços

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  2. Obrigado Paulo por esta viagem maravilhosa. Que continues a trazer-nos mais capítulos. Escolheste logo 2 que encarnaram a mística azul e branca a 100%. Grandes Dragões ao contrário daqueles pobres de espírito q jogaram ontem, eles e o IRRESPONSável do Jesualdo.

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  3. Pois Lucho,
    Hoje é daqueles dias em que ando com um travo amargo na boca, uma frustrante sensação de raiva perante tamanha negligência, comodismo ou lá o k queiram chamar. Junte-se a nossa eliminação à palhaçada despudorada engendrada ao minuto 93, na Amadora, para eu parecer um vulcão prestes a explodir. O k mais raiva me dá é a conivência dos jornais hoje. A Bola fala em "milagre" na Amadora. Puta k os pariu. Erro grosseiro, propositado, premeditado, cirúrgico, isso sim, são formas de adjectivar um escandâlo daquele tamanho. Agora milagre???????

    Abraço,

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  4. Viva !

    Texto muito importante. É preciso saber guardar e dar a conhecer a memória, sobretudo, para os mais novos e para aqueles que querem conhecer.

    E Viva o Porto !|

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  5. Paulo Pereira, mas que enormissimo post... e como a 'nossa história' é riquissima!
    Faz bem ao ego ler estas memórias, porque nos ajuda a perceber de onde vimos e para onde nunca não nos devemos de esquecer para onde queremos ir!
    aKeLe aBrAçO,
    http://bibo-porto-carago.blogspot.com/

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