29 dezembro, 2016

LUCHO GONZALEZ – A ENTREVISTA DE UM HOMEM ESPECIAL.


Foi provavelmente a entrevista mais emocionada e ao mesmo tempo mais lúcida e racional de um ex-jogador do FC Porto. Lucho Gonzalez transpira Mística e sabe-o. É possivelmente o estrangeiro, a par de Deco, que mais logrou perceber o que é representar o FC Porto.

O luso-brasileiro deu também recentemente uma entrevista de carreira no programa do Benja, embora em moldes mais tropicais (e por isso mesmo mais informais) e também denotou essa capacidade de conhecer o clube, de entender as suas raízes e crenças, tal qual como se tivesse nascido na cidade Invicta.

Lucho é claramente a figura maior do FC Porto pós-Gelsenkirschen. Mesmo sem ter ganho qualquer título internacional (como ele próprio referiu na entrevista, ficou esse amargo de boca ao ver desde Marselha o seu clube erguer a Liga Europa), a sua importância no clube é fulcral. Foi campeão nacional em todas as épocas que completou no clube e era o Capitão da última equipa campeã nacional do FC Porto. As coincidências, como se sabe, são apenas coincidências. Como também é coincidência o único título do Marselha em 26 anos ter como principal protagonista Lucho Gonzalez.

Durante a excelente entrevista conduzida por Rui Cerqueira (que só pecou mesmo pela curta dimensão e pelo facto de não ter sido possível descortinar as razões da segunda saída do clube), Lucho revelou um conhecimento profundo do clube. Não tratou apenas de aspectos lógicos e factuais, entrou também na dimensão metafísica e emocional da coisa, como no momento em que refere que o melhor estádio onde jogou foi o Dragão, sem deixar de piscar o olho ao Estádio das Antas, dizendo que gostaria de ter jogado lá. Além disso, depois, quase de lágrimas nos olhos, recordou as noites jogadas sob intensa chuva e a bola sempre a correr, a correr.

Qualquer pessoa mais atenta percebe que aquele era um homem prestes a rebentar em lágrimas. Referiu tudo o que o portista sente e conhece: a Mística, as Antas, o relvado, a Cidade. Porque Lucho não é apenas um jogador de futebol (Lucho aos 36 anos ainda insiste que se sente jogador de futebol), ele embrenhou-se na cidade, embrenhou-se na região, estabeleceu relação com os adeptos, com as pessoas, com as gentes, em suma, tornou-se tripeiro. Basta escutar a conversa que referiu com a menina do shopping para perceber que falamos de alguém especial.

O argentino recorda datas, falas, golos, jornadas, adversários, locais, estádios. Refere com a mesma facilidade o golo de pé esquerdo no seu regresso ao Dragão, como a reprimenda que levou de Nuno Espírito Santo por ter tirado a camisola no golo vitorioso de Kiev, dando uma machadada na série mais negra da era Jesualdo.

Lucho tem algo de diferente. Mesmo quando se percebe que a opinião não é positiva, encontra forma de contornar as questões e apresentá-las sob um ponto de vista favorável. Fez isso na referência a Paulo Assunção e ao modo como saiu do clube; fez isso quando comentou o período de Paulo Fonseca no clube, dizendo que foi benéfico para ele sentir o que é treinar um clube desta dimensão. Sem meias-palavras, sem subterfúgios, com elevação e educação.

Nota-se que Lucho é um homem bem resolvido. Não jogou em Espanha, o seu sonho, mas isso não o entristece. Não venceu nenhum título internacional com o FC Porto, mas nota-se que isso não é um amargo de boca. Mesmo quando refere os golos de Robben e Ballack ou a eliminatória frente ao Schalke 04. O FC Porto foi o seu momento alto como jogador e ter envergado aquela camisola tantos anos basta-lhe para que a carreira tenha valido a pena.

No seu discurso estão sempre presentes as palavras Título, Vitória, Vencer, Ganhar. Refere mesmo que um jogador só entra na história quando vence títulos. Isto é o ADN do FC Porto e só se estranha que Lucho tenha nascido no Rio de la Plata e não nas margens do Rio Douro.

Lucho respeita o clube e não tenta sobrepor-se a ninguém. Falou nas grandes referências do clube, em Baía, Jorge Costa, Pedro Emanuel, Bruno Alves, Helton, Meireles. Referiu que eram esses ensinamentos, transmitidos de geração em geração, que faziam a tal Mística. Podíamos ser nós a dizê-lo, mas não, é Lucho Gonzalez quem o diz.

No final, a cereja no topo do bolo. Fala da circunstância do clube não ser da capital, de ter que lutar mais que os outros, de ser constantemente prejudicado por manobras de bastidores e refere que, jogando no FC Porto, seja em que relvado for, por vezes não se pode ganhar com qualidade e com bom futebol, que tem que se ganhar na raça. E que essas vitórias é que dão mais gosto, como a mais recente frente ao Chaves. Tudo isto são palavras suas, não nossas.

Vemos um carácter de um jogador não pelo que faz com a bola, mas pelo brilho dos seus olhos. Como quando, no final da entrevista, com os olhos a brilhar, Lucho refere que vai falar com o Presidente para vir 2 meses para o FC Porto, sem receber, antes de acabar a carreira.

No fim da entrevista sobre a pergunta: como foi possível deixar que este homem fosse para as Arábias e não acabasse a carreira no seu clube, o FC Porto?

Rodrigo de Almada Martins

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