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05 abril, 2017

ALIADIZEMOS!


[REWIND] 31 de MARÇO. Tenho andado oh tão feliz da vida. O meu Porto como que a renascer das cinzas de 4 anos de incêndios, secas, cheias, maremotos, furacões, queimadas e todo o género de inclemências e cenários apocalípticos… a ganhar pontos e a espalhar pétalas de rosas em horas mais leves, radiosas, inspiradas e diáfanas. Nem o afastamento nos quartos de final da Champions League às mãos da Super-Mighty Juventus me causou grande mossa. Era um desfecho esperado, vencedor anunciado numa jornada dupla e algo estranha. É verdade que esta porcaria já enoja e que em circunstâncias normais me mereceria muito barulho e much ado about all this european and giants shit, mas por ora – que os tempos são parcos e de míngua - os recursos terão de se circunscrever ao círculo e circo nacional, onde a querida UEFA não sabota os clubes pequenos e onde o bolo financeiro no futebol está ainda a anos-luz (porra, que até esta palavra conspurcaram!) de ser o mais importante no critério de favorecimento das equipas. Aqui ainda reina o mais puro dos amores, o proselitismo e a nacional-propaganda. Até nisto estamos atrasados.

Pelo que continuei de sorriso fácil, porque o objectivo de aliadizar* em Maio (por mim pode até ser em Abril, não me causa transtorno!) se começara a tornar mais palpável, bem menos impossível, molusco cefalópode de tentáculos e tudo. A mais bela das esperanças a instalar-se. Aquela que torna bonito o feio dia. Vá… confesso: o jogo da mala frente ao AJFC** (aka, Vitória de Setúbal) deixou-me arrasada. Tudo como dantes, mas esbanjamos uma golden oportunidade de recuperarmos o 1º lugar sem condições, o lugar que é nosso por natureza e do qual andamos arredados há tanto, tanto tempo, ainda as galinhas tinham penas e alguma vergonha no focinho. E as dúvidas dos efeitos psicológicos na tenrinha equipa assoberbaram-me. Aliado a isso, a semana de pousio para os jogos da Selecção, busto do CR7 incluído, apenas prolongou o estado de alma. Uma alma há muito inquieta e ansiosa pelo dia 1 de Abril no antro fétido e último reduto dos coisos.

Amanhã é o dia D deste campeonato, mas até que pode nem o ser, já que – ai, que custa tanto escrever isto! - ambas as equipas podem ganhar e depois perder estrondosamente pontos onde menos se espera. Amanhã é o dia em que se pode decidir o campeão nacional, aquele dia em que podemos subir e não mais descer nem que os porcos grunham e a vaca tussa, aquele dia em que queremos mostrar a raça, a mística, a fé, a glória, a classe, o orgulho e a fibra de que somos feitos, aquele dia em que queremos esfregar nas fuças dos trolls a nossa superioridade a todos os níveis, aquele dia em que queremos servir doce, fria e sumarenta a vingança das nossas almas, aquele dia em que queremos fazer ajoelhar os infiéis, calar aquelas matracas de fanfarrões… aquele dia em que queremos honrar o nome do clube que somos.

Mas hoje é ainda a véspera do Dia D que tão difícil e complicada é de viver e sentir e passar e ocupar. Um nervoso miudinho e miudão de querer que os ponteiros voem e depois receio e pavor porque estão a voar. Aquelas ambivalências dos adeptos de futebol. Porque queremos alegria e euforia e deleite de todos os sentidos e saber perfeitamente que podemos nem sequer os cheirar. Hoje é o dia em que se fervilha, o dia em que se imaginam cenários, o dia em que se procura o camarada Portista, em que se vêem vídeos e textos motivacionais, o dia da tempestade tropical de likes e adoros no Facebook, o dia em que se ouvem os cânticos mágicos, o dia em que se recorre a tudo o que mexe e não mexe para fortalecer a alma e se preparar a jornada. O dia dos embates entre o peso da nossa carcaça mortal e a leveza do nosso espírito, entre o racional e o religioso, o supersticioso e o sagrado. O fio de pensamento é só um. E o ponteiro que não se mexe.

Por me conhecer sobejamente e saber como vivo os clássicos no covil dos orcs (ao longo dos anos criança, adolescente, mulher, adepta à beira de um ataque de nervos -- e na iminência de colapso cardíaco) e dada a repugnância, a enorme revolta, a indignação, a raiva, a tristeza (vá... a fominha também) acumuladas durante as últimas 3 épocas e mais os longos meses da que ainda se joga decidi que, a bem da Humanidade, não tenciono, não posso ver o jogo. Primeiro, porque não pretendo morrerBARRAsuicidar-me e porque desejo que a minha filha tenha mãe ainda por uns bons aninhos e completamente sã de cabeça. O meu pobre coração (dilaceRado e fRagilizado que anda) não vai aguentar e o meu estômago sempre foi delicado. Se com Bragas e Setúbais foi o que sei, amanhã não posso arriscar. Entretanto, procurarei métodos e formas e programas de evasão. Estou num ponto em que pondero tudo: desde praias solitárias e longe de tudo e todos, acunpunctura, cinema de headphones nos ouvidos, sequestros cirúrgicos, arrumações de Primavera, calmantes cedidos por alguém, ginásios, pancadas na cabeça, grutas escuras e sem wi-fi… Por aí.

Que os jogadores saibam honrar a Camisola que têm a incrível sorte de vestir e usar junto ao peito enobrecido por ela, que dêem tudo pelo que Ela representa… se não tanto para si, para os seus adeptos. Que nada Lhe recusem. Lhes recusem. Que vistam a capa de heróis e que resistam a tudo o que for provocação australopiteca. Que dêem brilho aos nossos sonhos. Eles têm de pagar. É até ao osso, até à última gota de suor e adrenalina. Nada interessa a táctica. Queremos é sangue a correr quente nas veias, raiva, ganas y ilusión (sim, não o consigo esquecer, que querem?), a vontade de os reduzir às pilecas choronas, mimadas, reles e batoteiras que são.

Que os nossos adeptos, os nossos irredutíveis adeptos tenham a alegria que tanto merecem, que há tanto merecem. Os que ficam… a puxar cabelos, a roer unhas, a esfolar joelhos e a esfregarem as caras. Os que vão… quais guerreiros e guardiões do Templo, munidos de cachecóis, bandeiras, braços, mãos, pés, pernas, vozes mais ou menos afinadas e boletim de vacinas actualizado. Que vejam recompensada a coragem de entrarem na antecâmara pútrida de Hades.

[…] [FAST FORWARD de sofrimento intenso]
2 DE ABRIL. Ah, tremenda decepção. Falhei em alhear-me do jogo, falhou o pizzi na tentativa do quinto amarelo e falhamos novamente no assalto ao primeiro lugar. Falhamos também em meu entender na abordagem ao clássico: um empate, um mísero empate NUNCA é suficiente na casa do inimigo figadal e principalmente por estes dias de náusea PFEC, Processo Fascizóide em Curso.

Mas que penalty qual quê, porra? Aquilo na minha terra nunca é penalty (e acreditem, nós por cá sabemos bem, bem até demais o que não são penalties, pois raramente nos são concedidos!). O Jonas Pistolas – um nome à altura do intelecto de quem o inventou… loas pois para essa pessoa – é uma sereia nas águas cristalinas da sua piscina imaginária, um portento na arte do mergulho, natação e natação sincronizada. À beira dele, o Greg Louganis, a Esther Williams e o Michael Phelps não passam de meninos, meros aprendizes. Notas soltas: o San Iker voltou a ser assombroso, o Soares está como que a murchar, a gestão dos amarelos preocupa-me e de que maneira, achei lindo o supremo capricho do destino de ter sido o Victorio Maximiliano a marcar o golo que os matou (TWISTED, yeah!) e não gostei nada, mesmo nada que os nossos responsáveis não tivessem apontado o dedo a mais uma xistralhada e ao branqueamento OMOiano e neoblanquiano a que se assiste (curiosa, estrondosa, cómica e estupidamente foi o spordém a fazê-lo no nosso lugar!)


Os monstros são reais e parecem pessoas normais. Uma observação mais atenta e revelam-se benfiquistas. Uma maneira de ver e fazer e jogar e manobrar o futebol que é de revirar as entranhas ao mais insensível dos adeptos. IGNOMÍNIA TOTAL. Não entendo, não concebo como é que um clube que manda e controla e manipula quase a seu bel-prazer o raio dos meandros de todo o país e nas mais diversas esferas e instâncias, com a faca e o grande, bruto queijo na mão, se pode borrar/acaguinchar/piar/grunhir de pavor autêntico perante o intenso e óbvio crescer da onda azul e branca, à força pura e bruta dos seus adeptos. Foi eloquente a imagem do presidente da Escória aconchegadinho na tribuna entre o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças, em plenos dias de compras, dramas e resgates. O contribuinte aflige-se com o que já pagou e ainda vai ter de pagar e estes marmanjos parasitas (figuras de Estado!) ainda têm tempo e o desplante de ir ver o seu benficazeco, bebendo cocktail e tremoços, soltando risadinhas e batendo nas costas de um criminoso e traficante que é SÓ um dos maiores devedores à Banca!

Os Aliados continuam a ser, apesar de tudo, do esbanjamento e de algumas debilidades, o Objectivo Uno. Continuaremos a sonhar com eles e na sua doçura. Enquanto houver estrada, como diz o outro. Enquanto nos deixarem. Pensar que tudo é possível. Pensar que faremos a nossa parte e que venceremos todos os jogos até ao fim. Pensar que sim.

(THIS IS US). COMO NEGAR ESSE PRESENTE A ESTA MARAVILHOSA GENTE? COMO?


* neologismo da língua portuguesa, 31 de Março de 2017, DC.
** Anti-Jogo Futebol Clube.

14 fevereiro, 2017

LENDAS DE PAIXÃO, MITOS DE GLÓRIA (ou como nem lhes cabe um pinhão).


Acordam cedo, todos os dias, bem antes do galo… os campos ainda cobertos pelo orvalho fresco da manhã que cai só para eles e abençoando o seu ser glorificado. Faça chuva ou ameace raiar o sol, na eira ou no seu viçoso e fértil nabal. Trabalham árdua e devotadamente, nos relvados verdes do Seixal, onde fazem evoluir o seu futebol do mais fino recorte, da mais virtuosa técnica. Mais ainda, numa azáfama quase perturbadora, estonteante, mirabolante, em salas e portas -- a 18 é manifestamente e a título de curiosidade a que tem mais procura -- sitas nas instalações da Sede na Avenida do Apanteonado Eusébio da Silva Ferreira e no estádio ali implantado: autêntico monumento ao cesto do pão, acompanhado de azeitonas pretas e um belo de um chouriço assado.

São chamadas em catrefada, de dentro para fora e de fora para dentro no portentoso helpdesk existente, desfiles sem fim na passadeira encarnada de personagens mais ou menos conhecidas dos diferentes quadrantes da sociedade portuguesa, de paineleiros orquestrados que vêm às reuniões bissemanais de onde saem cantando em coro, de peões amestrados…

As filas são intermináveis nos balcões de levantamento de vouchers e brindes vários, desde posters e calendários de parede dos jogadores em poses sugestivas, penas da água vitória, altas e fofas almofadas estampadas com a cara de Rui Gomes da Silva, pacotes cheios de ar puro do Estádio da Luz, até aos mais vulgares porta-chaves sempre com imensa saída.

Ainda que o impessoal sistema de atendimento por ticket tenha vindo criar alguma confusão e estranheza inicial -- pela saudade da habitual recepção na pessoa do próprio Presidente onde eram distribuídos sorrisos, cocktails, pacotinhos e palmadinhas nas costas -- a simpatia, o brio, a eficiência e a eficácia mantêm-se as palavras de ordem.


Assistem-se a métodos implementados a pulso, com sangue, suor e lágrimas nas-ao-longo-dos- -anos-dilatadas-tolas do pessoal afecto e contratado, motivados por décadas de seca grave e generalizada e da Grande Fome. Foram centenas de meses e meses e meses passados em esforços de Investigação & Desenvolvimento que geraram case-studies estado-da-arte da autoria de alguns dos mais conceituados investigadores portugueses da área. Deles saíram princípios norteadores (ah, o raio do adjectivo!) de acção e fundamentados em 4 grandes eixos: A) Santas Alianças e Ententes, B) na suprema importância das relações públicas especializadas em determinadas profissões de arbítrio e ajuizamento, C) na prospecção e formação de talentos homemade e D) na criação de postos de trabalho.

Pelo meio e aliado a isso um treinador de serviços mínimos com capacidade de se armar em carapau de corrida e um balneário recheado de um punhado de jogadores razoáveis e jovens promessas e mais o Luisão, todos eles com contratos de trabalho onde se os declara candidatos fortíssimos a loas, à sempre almejada endeusificação e beatificação no espaço de poucos meses e/ou semanas (quais Barça ou Real Madrid!) e mais o Luisão. Todos eles potencialmente merecedores de pacotes turísticos a destinos tão paradisíacos como os Emirados Árabes Unidos, o Mónaco, a distante Valência, a pitoresca Assunção e os recantos da Floresta Amazónica. Todos eles e mais o Luisão, celebrados mártires, deuses dos relvados e mestres de domínio da bola, que infelizmente deixou de ser de trapos e penas como nos bons velhos tempos em que tudo ganhavam, tudo varriam, tudo rapavam tipo o saudoso Salazar de cozinha. Gorada a possibilidade (não por falta de tentativas e démarches, entenda-se!) de regresso a esses tempos do futebol e preto e branco e da falta de transmissão televisiva, período de habituação superado, começam agora a interiorizar a coisa e a criarem vínculos com a nova gorduchinha que é remédio e ainda redonda. Lançou-se também um refulgente e modelar canal próprio de televisão que até transmite a cores e tudo. Nos relvados portugueses e até do Norte a coisa até que tem ido, com glória, alegria, estádios cheios, bandas de música, bombos, pompa e circunstância. Apenas nos internacionais (será da relva?) o insucesso permanece, num mistério que se adensa e difícil de explicar, pese embora as horas extra feitas pelo cada vez maior e mais apetrechado departamento de I&D que até chega ao cúmulo do requinte de falar inglês.

O maravilhoso coração, maravilhoso das gentes benfiquistas merece todos os sacrifícios, todas as pestanas queimadas, todas as horas de dedicação, todos os ensaios laboratoriais, todas as cobaias, todas as cabeças que entretanto rolaram. É plenamente recompensador testemunhar a alegria das ordeiras e genuínas gentes encarnadas nos últimos anos, período em que desencornaram, partiram coisas, desabrocharam, partiram coisas e agora vicejam, prosperam, coisas partem e se ostentam, ufanas… famílias pelas mãos, cabecinhas menos inchadas, sendo o desiderato supremo chegar no mínimo ao – como se diz mesmo quando se ganham 6 campeonatos seguidos? Ah, sim. – hexacampeonato, para assim calar de vez os provincianos corruptos que moram a Norte, sempre com a ladainha do tetra e do penta e do diabo que os carregue (e já faltou mais…).

Depois de um início de época de puro deleite visual e dos sentidos, em que tudo fluía num ir e devir prodigioso e glorioso e tudo o que acabava em .oso, outros ventos se levantaram, novamente vindos do raio do ponto cardeal que remete lá para cima e que deveria ser banido do mapa português. O agora é preocupante. Assiste-se à desSUPERização de uma equipa fabulosa mais o Luisão, o glorioso fosso foi vencido, gloriosas tácticas quase neutralizadas e sente-se a pressão de lançar novos estudos científicos, de alargar o espaço no dito cujo apara alojar novas leguminosas e/ou sementes em caso de real necessidade, de subsidiar novas investigações que funcionem como contra-ofensivas e recorrer a todo o armamento pesado, capelas com e sem ogivas, paixões, motas, talhantes, colos, alcofas, avionetas, Boeings, padiolas, bombistas, macas, guindastes, gruas e tudo. Sempre pela Causa-Maior. Pelo Grande Desiderato Nacional.

A azáfama recrudesce. Está ao rubro e ao encarnado-papoilinha. A chama imensa tremelica.
A Escala de Richter começa a acusar vibrações inusitadas.
T(r)eme-se o pior. T(r)eme-se que se apague.

As humildes gentes benfiquistas mobilizam-se (isto se nos entretantos não houver um resultado menos positivo, em que se assiste a uma espécie de recolher obrigatório durante horas e que pode ir até dias). Cada jogo até ao fim do campeonato – falta apenas um tiquinho assim -- será uma batalha mais. Em cada jogo um combate desigual, com os árbitros achincalhados nas suas preferências, já amedrontados, já violentados nos seus ideais, subitamente parciais, amedrontados, acossados à saída do seu local de honrado trabalho por dois ou três ogres enormes de quase dois metros e vinte e com cachecóis azuis e brancos ao pescoço, psicologicamente manobrados para fazer soçobrar e prejudicar o Glorioso Tricampeão no seu objectivo uno.

Desengane-se quem pensar que vão conseguir: os valorosos e intrépidos jogadores do ÉSSEÉLEBÊ continuarão a progredir com brio, denodo e pundonor nos relvados, lamaçais e campos hostis desse Portugal, preenchendo (ou morrer a tentar preencher) páginas míticas e históricas em caminhadas épicas rumo ao glorioso Treta. Das adversidades far-se-ão bandeiras, hinos e paixões, rezar-se-á em igrejas, capelas e capelinhas… por cada papoila derrubada, uma outra se levantará, orvalhinho e tudo.

Por cada penalty não assinalado, pelo não reconhecimento de um mergulho de elevada nota técnica e artística na área adversária, por cada minuto sonegado, surripiado nos descontos, por cada castigo ao treinador profeta da verdade, por cada fora-de-jogo assinalado contra, por cada expulsão de um santo jogador após lance leal meramente viril-que-futebol-não-é-para-margaridas, por cada bola rechaçada, por cada bola ao poste, por cada golo gloriosamente consentido… um BRUÁ de enorme e avassaladora revolta se fará ouvir de lés-a-lés na imensa, nobre e orgulhosa nação benfiquista. Irão até ao fim qualquer que seja o custo (que estão como sempre dispostos a pagar, até quando não sabem…). A resposta aos inimigos da Verdade Desportiva, aos violadores impunes dos direitos legitimamente adquiridos e trabalhados, será dada em campo, nos túneis, por telefonema e através do sistema de dispensar senhas que entretanto, meio-dia ainda, esgotou já os rolos de manhãzinha repostos para mais um dia de labuta de combate aos…

E rima e tudo.

10 janeiro, 2017

CRÓNICA VELHA DE ANO NOVO...


...POLVO À LA CARTE, LUTAS DE ALMOFADAS, A CANONIZAÇÃO DE INOCÊNCIO CALABOTE... E STEVIE WONDERS

Para quê, e por amor de quem continuamos a gastar o nosso precioso Latim? Alguém me diz? Tantos textos e palavras e caracteres e gritos e ideias a cair no imenso vazio do ciberespaço, num eco sem fim. A serem desperdiçados. Todos desesperamos e nos irritamos. Frágeis e desiludidos, traumatizados e tão amargos que estamos. Mas continuamos a fazê-lo. A debitar faladura, seja oralmente – com o amigo que apanhamos desprevenido, a vizinha do 5.o andar, o gato, o canário amarelinho, a prima, o carteiro ou o homem do talho enquanto pedimos bifes de peru para panados – ou assim por escrito. E PORQUÊ?

PORQUE a alternativa seria calar ou enterrar a cabeça na areia à espera que a pocilga e os porcos e vassalos que nela coabitam passassem e caíssem na próxima ravina de 2557 metros de altitude mais coisa menos coisa, sabendo de antemão que seria um desfile de proporções épicas e feito ao ritmo de samba e funaná e que talvez não chegasse o tempo desta vida, quando sentimos que temos ainda tantos troféus para levar para o nosso Museu e honrar a História de nós.

PORQUE, também, a alternativa nos pareceria pura cobardia e seria deixar o clube que amamos entregue à bicharada e a quem já não o defende ou tem interesse em o defender. Seria deixar que nos sujem e manchem a Bandeira. Deixar que nos continuem a matar aos poucos. Deixar o nosso Porto desprotegido, vulnerável e ainda mais achincalhado. Assim como assim, como que O protegemos. O pomos sob a nossa asa, ao mesmo tempo que damos o corpo às balas e ao manifesto. E nos sentimos quais Mártires da Liberdade, um dia com estátuas e ruas em nossa homenagem (a mim já me bastaria um larguinho com um ou outro banco de jardim e muitas árvores frondosas, intersectadas por altos ciprestes – sempre foram os meus favoritos).

PORQUE a mouraria neandertal está a galopar impante para territórios nunca antes desbravados e mares nunca antes navegados e planetas ainda inexplorados. Deixando atrás de si ecos de forró, confettis encarnados, restos de vouchers, cinza, pó – muito, muito pó e branco! -- resultados subvertidos e vandalizados, instâncias e órgãos desportivos prostituídos, os idolátras dos mass media empanturraditos no festim diário da sua cegueira e parcialidade. Perderam a infíma noçãozita de realidade que ainda lhes restava, toda a vergonha, e praticam os vis e asquerosos actos de pilhagem, do saque, da manipulação e da mentira em plena luz do dia, em casa seja de quem for e a que horas for e à frente de bebés, crianças e velhinhos (alguns, desfasados da realidade, até riem na bancada). Clonam árbitros, que saem apafianos e já internacionalizados, lobotomizados no ideal dos 3 F’s de Fado, Fátima e benfica*, enxutinhos, trigueiros, ladinos, menos de 36 anos e a saber falar inglês e a partilhar fotinhas do seu glori(g)ozo na redes sociais. Enquanto isso, os Portistas pedem já a santificação de Inocêncio João Teixeira Calabote.

“Se o Stevie Wonder, que é cego,
não tivesse o azar de ter mais de 36 anos,
era árbitro internacional em Portugal.”
– Francisco Marques, ao Porto Canal
E PORQUE tempos desesperados exigem medidas ainda mais desesperadas, tenho para mim que nestas encaixaria uma eventual aliança**, um possível pacto com os pseudo-viscondes ainda que liderados por um boçal e ajavalizado presidente, um pândego e estapafúrdio treinador e um director de futebol (se é isso que o gajo é…) do mais palermóide que há. Nem que o fizéssemos sob o efeito de uma mega-overdose de Xanax ou algo que nos entorpecesse os sentidos. Sozinhos, orgulhosamente sozinhos, como gostamos e sempre defendemos, está à vista que não vamos lá e – convenhamos – a única voz de reacção eficaz e ruidosa tem sido a deles, que estão com a pica toda e o pêlo todo na benta ainda devido aos efeitos da baita da boa da Supertaçazita ganha há – quê? – dois/três anos. Uma ternurinha.

A nossa equipa já demonstrou que sabe jogar… mais ou menos, sort of. Por aí estamos mais ou menos tranquilos, sort of, nem tudo é e está tão mal como pintávamos e augurávamos, sort of. A César o que é de César e temos tido sinais algo moralizadores, bom… sort of. Mas quando parece que estamos a embalar, a embalar definitivamente para a última fase da época, a entrar em ciclos de vitórias, novo revés acontece… e quando menos, sort of, se espera, marcamos Paço(s). Culpa das más exibições, de primeiras partes ou segundas partes entregues aos bandidos, de gritantes faltas de imaginação e de poder de concretização, de adversários pequenos tornados ousados e maiores pelas medidas proteccionistas – do “laissez faire, laissez passer, laissez caceter” – aplicadas pelos briosos seres do apito na boca e lata de spray no bolso.

“Hoje conseguimos recuperar o que é nosso,
ou seja, tivemos uma boa coesão defensiva
e não permitimos ocasiões de golo ao Paços de Ferreira”.
[Celebremos!] – Nuno Espírito Santo, após empate com o Paços de Ferreira
Para nós que detestamos perder, assim é muito difícil ou impossível continuar a ganhar. A par da consciência das lacunas do nosso jogo e do próprio plantel, tem-se o desafio de manter a calma QUANDO se está a todo o momento à espera de surpresas, premeditações e más decisões vindas de quem tem a responsabilidade de zelar pelo bom e normal desenrolar do jogo e da verdade do espectáculo; QUANDO se sabe que somos alvos a abater em tudo quanto é campo e que existem claramente dois pesos e duas medidas; QUANDO uma equipa é ainda demasiado tenrinha e imatura para fazer disso as suas tripas e o seu coração; QUANDO nos falta um treinador enfático, coerente e com discursos ajustados às tristes realidades do jogo. QUANDO os nossos mumificados e alzheimerificados dirigentes insistem na política do silêncio comprometido, só pondo os jóqueres a falar onde e quando desejam (o que é sempre pouco e sempre insuficiente, por muito competentes que possam ser). Para eles, o trabalho sujo, de sapa, terá de ser feito pelos outros, pelos adeptos comuns, enquanto enchem os bolsos à custa do clube e ouvem a orquestra a tocar e o barco a afundar. Mas bufam corajosamente se alguém ousa sequer chegar perto e beliscar-lhes as mordomias já em risco de desaparecer sob as águas… As frias cinzentas águas, pejadas de grandes, anafados polvos.


Saberão eles quando decorrem as próximas eleições para a Liga e FPF? Saberão eles da existência e do poder da supermassive-shit-and-referee-making APAF? Saberão eles o que são jogadas de bastidores? Influências? Saberão eles ainda o que é viver em democracia e no princípio da justiça para todos? Estarão eles reunidos a esta hora a preparar a nossa defesa e a planear novas estratégias que reponham o normal movimento de translação da Terra à volta do Sol? Saberão eles que nada ganhámos há 4 anos? Saberão eles o que são 4 anos traduzidos em horas e pensamentos e dias e tangas? Terão ELES a cabeça enterrada na tal da areia? Saberão eles escolher um treinador e um jogador com base no seu valor e utilidade para o clube e não em padrinhos e percentagens? Terão eles juízo? Terão eles memória? Terão eles coluna vertebral? Terão eles vergonha? Orgulho? Terão eles amor e paixão pelo clube? Saberão eles o que é isso?

17 singelas perguntas. Acho que contei bem. E ainda mais duas, as últimas, as mais importantes, para terminar:
TERÃO ELES AMOR E PAIXÃO PELO CLUBE?
SABERÃO ELES O QUE É ISSO?

* A F word mais feia que conheço.
** É feio atirar tomates podres às pessoas, além de que as nódoas são muito complicadas de tirar.


05 dezembro, 2016

“CONFORTAVELMENTE ENTORPECIDO” *


“I turned to look but it was gone,
I cannot put my finger on it now,
The child is grown,
The dream is gone.
And I... have become
comfortably numb.”
Largos dias tem este livro. Largos dias tive para o ler, seguramente vários múltiplos de 100, mas apenas recentemente o fiz, até porque apenas há alguns meses cedi ao ímpeto de o comprar e em super-irrecusável promoção. Não deixa de ser a Mãe de todas as Ironias fazê-lo só agora, deixá-lo só para agora, lê-lo só agora. Agora que o clube por ele lenta e dedicada e incansavelmente erguido e afirmado definha, agora que a glória é apenas uma cada vez mais distante memória, agora que as lentes douradas com que víamos o mundo foram substituídas por umas bem mais pardacentas (tristes, tristes, desoladoras que são!), agora que o seu brilho e estatuto de lenda ou semi-lenda dão tristemente lugar à crítica, ao quase insulto, ao completo escárnio e à mais total descrença, num hino puro à monumental e fatídica injustiça dos Homens, incrível capricho dos deuses.

Com a promessa de terem sido escritas pelo punho único e sempre mordaz do nosso Presidente, as páginas autobiográficas deste livro bonitito, esteticamente apelativo, não reservariam surpresas até porque conhecidos eram os desfechos, as histórias, os factos, as pessoas, não acreditando pois -- quando embarquei na aventura -- em grandes, surpreendentes e sumarentas revelações. Mas viradas as 252 páginas que se lêem muito facilmente, paramos para pensar. Uns 37 segundos mais 14 nanossegundos de silêncio e... vemos já não somos a mesma pessoa. Eu, pelo menos, saí diferente da experiência. Mais pensativa. “Será ele, Jorge Nuno – hoje -- a mesma pessoa? A pessoa que entrou no clube em 1958? A pessoa que permanece no clube neste 2016?”


Até que ponto tudo o que ele escreve do fundo e confins da SUA memória, da sua verdade e frontalidade é efectivamente real? Até que ponto tudo em que acreditávamos como pedras basilares da nossa filosofia enquanto clube é autêntico e não retorcido, distorcido, embelezado? A dúvida instala-se e já faz sombra, mais ainda agora nos dias curtos deste quase Inverno. A desconfiança brotou e começa a infiltrar-se, de mansinho em mim. Terá sido este livro (aliado à presente e pornográfica realidade) a mola para desmistificar e desconstruir um Homem que sempre adorei e admirei e tive como referência máxima de bravura, revolta, rebelião, insurgência, idealismo e amor puro e desinteressado a uma causa que por mero acaso e feliz coincidência era a minha? Ah, o despeito, a mágoa… que tudo transformam e moldam! A perfídia. Entre outros factos “oferecidos” pelo cérebro vivo e vivaço do Presidente e bem patentes nas páginas lidas, retive dois que julgo moldam como nenhum outro a sua personalidade pública: 1. A total deferência, a graxa repetitiva e a vassalagem para com alguns “peões” importantinhos que o apoiaram a dado momento de dificuldade, algo que NUNCA esquece (v. acontecimentos desta semana). 2. As “mariquices” e as renitências e as reservas que sempre mostrou ter em aceitar os mais diferentes cargos e estatutos ao longo da sua carreira desportiva no nosso clube ou fora dele, desde os tempos de vogal, chefe de secção, a director do departamento de futebol até em 1982 se consumar no Presidente que todos conhecemos, de que todos nos orgulhamos.

Como se explica tanta relutância em entrar, em permanecer, quando praticamente todos queriam que entrasse e fosse ficando, e tanta obstinação hoje em sair, quando tantos pedem que renuncie? Como se explica o silêncio autista de hoje face ao discurso apaixonado, incómodo e inflamado de outrora? As contradições do livro em colisão com a realidade que hoje confrontamos chega a ser chocante.

“A nossa vida é tão curta, que não podemos dar-nos ao luxo de ser apenas espectadores passivos em relação aos factos, aos acontecimentos que nos emocionam. Há ocasiões únicas em que, ou somos determinados e tentamos dar o nosso contributo para a glória daquilo em que acreditamos, ou desistimos, e optamos por ser apenas mais um número anónimo [….]”.

“Aquela imagem do choro dos nossos emigrantes na Alemanha, tristes com a derrota de uma equipa portuguesa – no caso, o FC Porto – nunca mais me abandonou, até por perceber como na circunstância em que se encontram aqueles homens e mulheres, é para eles de uma importância inimaginável, no dia seguinte poderem olhar os outros de frente, orgulhosos pelo triunfo dos seus. Essa consciência obriga-me, sempre que nos deslocamos ao estrangeiro, a pedir a todos um empenho e um esforço suplementares… [….]”.

“(…) sou convidado a ir aos estúdios da RTP para responder às ameaças da Federação. Ali, em directo, exijo que não se metam connosco, pois no nosso emblema existe um Dragão, símbolo de uma cidade que estava adormecida, mas poderia a qualquer momento levantar-se em defesa do “seu” clube. Na reunião seguinte, é-me solicitado pelo Presidente que não fale mais no “Dragão”, porque poderia representar um espírito muito guerreiro [….]”.

“Habituados que estavam os nossos adeptos e associados às vitórias e a um tipo de atitude dos seus dirigentes que se traduzia num inconformismo e reacção ao centralismo que cada vez mais no futebol (como em tudo, em geral) acontecia no nosso país, vai crescendo um movimento de mudança, na esperança de alterar o rumo dos acontecimentos”.

“Estávamos eleitos. Uma nova era começava no FC Porto, mesmo se naquele dia, nenhum de nós, nem no mais estapafúrdio dos seus sonhos, alguma vez se atrevera a pensar que o clube que ali despontava, sendo o mesmo de sempre, seria diferente de tudo quanto até ali se conhecera”.

“Foram palavras que ainda hoje relembro, e de grande importância para a minha vontade de servir (…) Acrescentei que considerava estar o FC Porto numa corrida que teve início e não terá fim. Por isso, era uma honra para mim receber o testemunho das suas mãos, para o entregar daí a dois anos a quem quer que fosse”.

“Entendi, a minha Direcção entendeu, que aceitar esta situação era “aninhar” ao princípio de “Lisboa quer, pode e manda”. (…) mas sim um asssumir do carácter das gentes do Porto, o bater o pé ao modo como em Lisboa se olhava (e ainda se olha!) para o resto do País: mera paisagem(…)”.

“Passámos de clube simpático que muito raramente arranhava os poderes estabelecidos, para um clube de dimensão mundial”.

“Só que nós nunca ficaremos cansados de vencer”.

“Se o ambiente criado era para intimidar os nossos jogadores, o tiro saiu-lhes pela culatra como costuma dizer o nosso povo. Ainda não perceberam que, quanto maiores são as dificuldades, quanto mais aumentam as adversidades e quanto mais forte é a pressão, tanto mais a nossa equipa se agiganta e demonstra por que é que, ao longo destes anos, venceu tudo o que venceu”.
Mas onde está este Presidente? ONDE? Perdeu-se nas brumas do tempo, na espuma dos anos? Onde está este querer, esta vontade de servir, de ser útil, este sentimento, esta emoção, esta vontade de resposta, este espírito, todo este fogo? Onde está o sonho? O que mudou? Onde está este Presidente? Foi lobotomizado numa das operações a que foi infelizmente submetido? Quem o entorpeceu? Quem o adormeceu assim tão confortavelmente que até se nos parte o coração por o termos de acordar?

Presidente, Meu Presidente, meu querido Presidente: não será já suficiente? Não basta de agonia? Para si, para nós? Quando – atrever-me-ia a dizer, mais de 80% dos associados e adeptos já lhe aponta o dedo e/ou pede a sua cabeça? Há algo que pessoa alguma pode contestar: você ama o clube tanto ou mais que ninguém. Pois se lhe deu Vida, pois se lhe deu a sua vida, se o mimou, se o curou e tratou e agigantou, dias e noites, tantos dias, tantas noites. Porquê agora pôr tudo isso a perder? Todos esses dias? Todas essas noites? Toda essa maravilhosa obra? Está na hora de passar o testemunho que recebeu naquele dia e àquela hora das mãos de Américo de Sá. De dar o lugar a quem sonhe, a quem a alma diga não a perseguições, maquinações, racismos e centralismos, a quem se exalte e se encha de labareda, e possa voltar a pôr o nosso Porto, seu e meu, na tal da corrida que um dia começou e que não terá fim.

Sabe aquela frase feita “Vencer é o que acontece quando te cansas de perder”? Consigo foram anos e anos a fio a vencer e, agora, como que se cansou de ganhar. As suas pernas estão gastas de tanto correr, se adiantar e driblar, o seu coração generoso e abnegado está exausto. A voz calou-se ou já ninguém o ouve. Já não há fome ou sede. O fogo extinguiu-se. O sonho morreu. Está na hora. Ouça-me, Presidente. Chegou o momento. É este. ELES planearam atirar-nos aos lobos e NÓS, pelo caminho, fomos ajudando quando os subestimámos, quando pensámos que o que tínhamos seria eterno e que podíamos viver dos juros. Precisamos de ressurgir com tudo, de voltar e a liderar o raio da matilha. Recuperar o que é nosso. Não desperdicemos nem mais um minuto, já que cada um deles dói e faz mossa. Está na hora. O clube precisa de si.

* O mesmo nome, na mesma semana, hmmmmmmm... no mínimo esquisito, Lápis Azul e Branco. Ainda que tenhas registado primeiro, juro, juro pelo campeonato desta época que a patente é minha e do Roger Waters, pelo que isso não se faz a ninguém, andar na mente dos outros a usurpar ideias pinkfloydianas para títulos de crónicas, ts, ts, ts! É caso para se dizer: “Great minds think alike, and fools seldom differ”. ;)

14 novembro, 2016

A DESFERNANDIZAÇÃO DE NÓS.


Sempre foi um homem arrebatado, apaixonado e de emoções e lágrimas e poesias à flor da pele. Desde logo, desde sempre, pelas causas, pelo seu clube e pela cidade onde um dia de Dezembro (ditoso que foi!) nasceu, com uma intensidade digna das mais incríveis lendas, fantasias e odisseias, com um fogo próprio das mais belas histórias de amor, chegando a empalidecer os mitos de Tristão e Isolda, Romeu e Julieta ou mesmo de Cristiano e Irina, num ardor e numa abundância e veemência tal que nos pôs -- contra a vontade e inveja de muitos -- em todos os mapas e planisférios do futebol, esse desporto que tão mal tratado e nojificado, acolinizado e voucherizado é neste país. Não espantaria pois que, a jusante, viesse também a arrastar, a arrastar forte e frequente e profusamente a sua imensa e azul asa de Dragão por muitas e seguramente maravilhosas e lendárias criaturas que foram surgindo no seu caminho de forma mais ou menos ortodoxa, mais ou menos… calorosa, de dia, de tarde ou de noite.

Elas foram as incógnitas, as disfarçadas, as platónicas, as assolapadas, as declaradas, as tórridas. E também as Manuelas, Filomenas, Marias, Carolinas, Lizas. Até que… a Fernanda. A Nandinha, como era carinhosa e desveladamente apodada pela Nação Portista. Apenas 48 anos mais jovem que o seu príncipe garboso, tive esperanças que com ela fosse a valer e para sempre. Que o amor puro e desinteressado e de mil suspiros vencesse. Mas não. Acabou o idílico romance que tantos fez sonhar e editar manchetes. Com isso, as soirées, as vernissages, os eventos vários, os fatos Chanel ou Valentino e as jóias de griffe. E a conta no Instagram! Quem vai agora defender o Presidente quando alguém e a sua namorada ousar pensar em beliscar o trono repimpado? Promover as pazes e as beijocas com o filho pária e desavindo sempre que este amua, parte coisas ou perde uma comissão? Uma perda irreparável. Uma terrível sensação de orfandade nos assola e trespassa durante três, quatro segundos quase inteiros.

Lamento pela Nandinha. Foi uma mulher sem sorte e quis dedicar-lhe este texto, numa iniciativa acho que única a nível mundial. Não sendo já suficiente a dor de ter sido trocada, foi trocada por uma mulher mais velha, o que passa a dor para níveis julgo que estratosféricos! Porta dos fundos aberta, sai sem honra e sem glória e com pouco ou nada ter angariado desde 2012, ano em que começa o seu casamento e termina o nosso reinado e estado de graça ou quase-de-graça. Frequentemente, vox populi, o seu nome é apontado como a razão da Maldição em que nos encontramos, a causa de todas as nossas maleitas e mal de todos os nossos pecados. Com ela ao lado do Presidente não tivemos os títulos e as honrarias a que estávamos habituados. Com ela acabaram-se os mimos todos. Todos.


Ao contrário da Reverendíssima Senhora Dona Carolina Salgado. Oh, essa sim! Recordámo-la invariavelmente com gratidão, olhos lacrimejantezinhos e plenos de nostalgia. Com ela como rainha-con(sorte) ganhámos tudo o que havia para ganhar. Uma sucessão de troféus aquém- e além-fronteiras. Sempre exibiu orgulho por essa façanha (isso nos intervalos dos livros, dos realities, das reuniões inúmeras que a dada altura pós-período áureo manteve com exemplares de gado bovino que lhe surgiam nas pastagens por si frequentadas). Foram anos dourados e ela era como que um talismã santificado que até ao Vaticano foi, levada para beijar o Papa. Em toda a sua imperial majestade.

Sim, eu sei que tudo são recordações e dá-me quase vontade de cantar, não fosse estar triste e apoquentada pela Nandinha que de olhos vermelhos e inchados agora sai à rua e apenas para passear o cão. Ruíram os seus sonhos praticamente todos e até os de amor. Mas não há como negar: a par da tristeza incontornável do processo de desfernandização que por estes dias vivemos, surge inesperado, levezinho, aconchegante, crepitante, um outro sentimento… a Esperança. A fé de fim de ciclo. O fim da Maldição. Do jejum prolongado. Ventos e brisas novas, renovações… o começar do zero. Uma nova paixão do Presidente é anunciada. A Primavera que vai estar no ar. Virão rosas na nossa direcção?

A modos que estamos todos expectantes. O frisson é indisfarçável. O que nos espera com a nossa nova rainha, a mulher que vai dormir e comer e dançar e passear e declamar poesia com o Presidente e, como tal, que tudo vai saber sobre ele e, cumulativamente, grande influência e importância terá para o seu bem-estar, qualidade de vida, paz de alma? Tudo isso se repercutirá e reflectirá no dia-a-dia do nosso clube e nas decisões que venham a ser tomadas. Disso não tenho a menor dúvida. Dela dependerão o nosso presente e o nosso futuro. Os jogadores, os treinadores, os directores de SAD, os escolhidos nas Galas dos Dragões de Ouro, os próprios aliados.

Pelo sim e pelo não, jogava pelo seguro e sugeria desde já que a levássemos ao Vaticano. Não para a ainda precoce beatificação, mas para receber a benção papal. Deus sabe como carentes e necessitados andamos de vitórias, pelo que toda a ajuda conta!

E por falar em ajudas… em dias recentes o Spor Lisbôa e Voucherzitos veio ao Dragão e, mesmo coadjuvado e amparadinho, voltou a desiludir. Por um lado quando empatou fortuitamente e por (h)erro nosso o jogo; por outro, por não ter mostrado aos adeptos azuis e brancos, todo o seu potentado, a máquina de jogar futebol que tem sido, em especial nos últimos três anos das nossas vidas, varrendo tudo e categoricamente a ponto de já grunhirem e clamarem pelo tretacampeonato em nome do seu santo apanteonado. Um estádio cheio para os receber saiu defraudado. Olhos murchos.

Cá em nossa casa, com o aprozacado treinador a facilitar nos empates, nas substituições e no discurso, continuamos a ser os bobos da corte e os bombos da festa, existindo e respirando apenas via heterónimo já gasto e recauchutado do “Dragões Diário”. Até quando a permissividade e passividade na nossa SAD envelhecida e exausta? Toda esta imbecilidade? Os adeptos não gostam. Não acham o mínimo de piadinha e, convenhamos, estão a ficar algo… importunaditos e enfadaditos. Just saying. Alguns mostram-no amuando e opinando e disparando em casa, nos cafés, festas, escritórios ou redes sociais. Muitos sofrem para dentro, suspirando e limpando as lágrimas que caem. Já outros assobiam e invectivam treinador e equipa no relvado, como um pai que sabe que faz mal mas que mesmo assim castiga o filho que ama acima de tudo.

18 outubro, 2016

O ESTRANHO CASO DO TEXTO QUE NÃO DEVERIA TER SIDO.


Esta crónica não deveria existir. Não deveria ter de existir.
Só existe porque:

I) Estou pr’aqui a debitar caracteres à bruta tracção dos dedos e o espaço que branco era se vai preenchendo;
II) Era triste e lamentavelmente a minha vez de escrever, segundo o calendário bibóportiano;
III) O dono do blogue me obrigou e chamou nomes de jogadores argelinos aparentemente redundantes que evoluem no plantel portista e eu tenho – se não medo – no mínimo imenso respeito por ele (ainda que não saiba bem porquê).
Cria-me desespero ter de escrever, cria-me revolta ter de escrever, cria-me náusea ter de novamente abordar um assunto que me choca, me fere e revolve as entranhas. Que tira o meu mundo dos eixos em que evolve. Que me tira – pasmem! – brilho e qualidade de vida e muita da vontade de enfrentar os novos dias que Alguém diariamente me traz numa bandeja. O meu Clube, um dos meus Amores Maiores, está doente, ferido de morte, arrastando-se em agonia demasiado lenta enquanto atravessa as mais longas e infindáveis ruas (avenidas, vias de cintura interna!) da Amargura, do Horror e do Grande Ocaso do(s) Deus(es).

Não quero escrever, não quero ter de escrever, quando o que eu só quero mesmo é enterrar a cabeça na areia, a metros e quilómetros de profundidade. A atitude zen e construtiva que eu afirmava AQUI ir adoptar em legítima auto-defesa e auto-preservação, é para mim impraticável. Tento, juro que tento, mas zen e FC Porto para mim não são compatíveis, não agora, não neste momento, não assim. É demasiada paixão, demasiado feeling, loucura, omnipresença, o amar desalmadamente um emblema que simboliza a nossa religião e política e cor e credo e que em nada apela ao racional.
  • Não quero escrever para não ter de reconhecer que as coisas continuam a não estar bem, nada bem, mesmo, mesmo nada bem no seio do nosso clube depois daquela que foi a maior das pré-épocas do mundo e com direito a figurar destacada no Guinness Book of World Records;

  • Não quero escrever sobre a frustração que isso acarreta: esperar que os responsáveis (depois de épocas deploráveis e com resultados ZERO) estivessem a trabalhar com zelo, método e dedicação, preparando com rigor, ao pormenor e com toda a calma uma temporada e uma equipa capaz de voltar a dar alegrias aos adeptos e deparar com… isto, este vazio, esta miséria, estas lacunas, estas sucessivas mentiras e tiros de bazuca no pé;

  • Não quero escrever sobre o que está à vista depois de afastadas para o lado as doces e diáfanas cortininhas de seda e renda que adornavam até há pouco tempo as nossas janelas e disfarçavam o depauperado interior da delapidada casa;

  • Não quero escrever sobre o autêntico colapso dos nossos mais altos valores assentes na Fé, na Mística, no Portismo, no Orgulho, na Garra, na Raça, na Bandeira e das nossas mais do que comprovadas filosofias de vida e de acção;

  • Não quero escrever que dentro, lá em cima, nas mais altas instâncias, tudo parece dar a entender que o pessoal anda aparentemente satisfeito e na mais perfeita e sacrossanta paz em relação ao amorfismo e a abulia generalizados que já vão a caminho dos 4 intermináveis anos. Reacções, Portismo, murros na mesa, real, abalizado reforço do plantel e defesa genuína e pura dos interesses do Clube vão no Batalha. Como que brincam com o fogo. Que arde. E que se vê.

  • Não quero de novo escrever sobre a estranheza e a repugnância que sinto por assistirmos à consolidação de um patético (porque inocente, porque ineficiente, porque insuficiente!) FCPdRS.* **

  • Não quero escrever que o estado de extrema Graça de que beneficiava o nosso NES já acabou e com todo o estrondo na semana negra que foi a dos jogos frente ao Intratável Copenhaga e ao Mighty Tondela, confirmada depois no bacocozinho jogo com o Leicester;

  • Não quero escrever -- porque não tenho coragem e porque ainda subsiste uma ínfima réstiazinha de esperança -- que duvido seriamente que seja este ano que voltaremos a usar as quinas de campeões na Mágica Camisola, por muito que a procissão ainda vá no adro;

  • Não quero escrever sobre a apreensão que me assiste por ver que a equipa que actualmente temos e somos e formamos possa ser sobejamente incapaz, frágil e pequenina para ambicionar a todas as provas em disputa por muito talento que nela pulule;

  • Não quero escrever sobre o facto de estarmos a assistir à reposição de um filme de terror de nós bem conhecido (eu já me limito a fechar, a fechar muito os olhos, à espera do cravar da faca);

  • Não quero escrever sobre a perspectiva do medo bem plausível e presente de mais uma travessia do deserto para as nossas cores;

  • Não quero de todo escrever sobre o enjoo, o nervosismo, receio e preocupação que sinto quando vejo os nossos arqui-rivais alfacinhas a escalar: em títulos, em resultados, em manobras, em truques, em manha, em domínio, em imitação, em influência… no regresso do seu centralismo tão querido e entretanto perdido;

  • Não quero escrever sobre a sensação que fica quando vemos e sentimos que somos gozados e ridicularizados à força toda e em todos os campos pelos mais diversos agentes e todo o género de coincidências;

  • Não quero escrever sobre o ridículo e a vergonha que cobrem os discursos de épocas zero, e -1, e -2 e -3 e o raio que os parta e épocas de transição, numa autêntica tentativa de atroz desresponsabilização e simultaneamente de fazer de todos os adeptos azuis e brancos verdadeiros asnos e asininos;

  • Não quero escrever sobre o tapete vermelho que se está a começar a estender e a cama fofa a fazer ao nosso treinador;

  • Não quero escrever ou tecer comentários relativamente ao Presidente e à tristeza, desencanto, desilusão e total nostalgia que me invadem a alma quando o vejo pontualmente -- e misteriosamente apenas nas horas um pouco mais alegres da vida -- cada vez mais pequenino, ele que TÃO GRANDE E IMENSO E ORGULHOSO era e estava.
Não quero escrever e pronto!
Mas, já que estou a escrever, ao menos que diga algo, que deixe testemunho, que registe linhas, que lavre mensagem:

Nunca nos rendemos.
Não nos rendemos.
Não nos renderemos, venha o que vier ao nosso encontro. Da adversidade, preconceito e desigualdade viemos e prosperamos. Não serão pois os dirigentes, os rores de empre$ário$, os carneiros, os boys, os treinadores, nem tão pouco os jogadores, a nossa garantia de progresso, de futuro, de crescimento e eternização do sentimento. São os nossos sócios, os nossos adeptos, as nossas gentes. Os que usam o emblema junto ao peito porque gravado na própria pele, os que riem e choram, os que se mantêm e manterão through thick and thin enquanto o clube se renova, se reinventa, se cicatriza, se cauteriza. Se regenera. Os que estiverem e souberem passar o testemunho, passar a chama (labareda!) do Ideal Azul e Branco, honrar o passado e preparar o futuro de nós.

Este é só mais um túnel e eu vou ter novamente vontade de escrever.
Um dia.

* Era eu mais jovem e inocente.
** FCPdRS – Futebol Clube do Porto das Redes Sociais.

NOTA: Escrevi sem vontade e sob protesto este texto na semana a seguir ao jogo com o Leicester, essa equipa campeã inglesa, com excelso bom gosto a vestir e o orgulho de uma cidade que nos soube receber como ninguém.
Segue-se o Brugges.
Mas não quero escrever sobre isso.

26 agosto, 2016

A TAL DA OMELETE.



A fome – conhecida como a sensação fisiológica pela qual o nosso corpo sente que necessita de alimento para manter as actividades inerentes à vida – assiste-nos, impele-nos… Pelo simples motivo de não comermos suficiente e decentemente há mais de 3 anos, todos esses milhares de dias e incontáveis horas em subnutrição, em miséria completa, suprema agonia.
O estômago está colado às costas e já não ronca, nem horas dá. Dói.

Presentemente, o único e ardente desejo, a avidez, consiste em satisfazer esse enorme buraco negro dentro da imensa galáxia de nós e a sofreguidão faz-nos inclinar a abocanhar desvairadamente tudo o que nos aparece pela frente, sem olharmos a meios e a necessidades específicas, quando tudo o que queremos e precisamos é mesmo de sustento, chichinha, nourishment.

Mas queremos também e a todo o custo evitar velhos erros de palmatória, de ingestão, de casting; consensualmente, desde que o nosso sofisticado e concorrido restaurante de várias estrelas Michelin deu mostras de poder fechar a qualquer momento por falta de resultados, de boa gestão, competente gerência e de um razoável, enquadrado, actualizado chef. Paramos, pois, para pensar.

Conhecendo a actual conjuntura da casa, aconselhados pelos contabilistas a respeitar religiosamente o estafermo do fair-play financeiro, há que aquilatar a dimensão da fome, avaliar o que temos no frigorífico. Na despensa depauperada. Ver se os produtos existentes ainda estão dentro do prazo de validade, ir buscar outros antes prescindíveis à prateleira e contar os tostões todos – sim, porque o gordinho do porquinho-mealheiro passou à história! – para sabermos se podemos ir ao supermercado comprar o que nos faz falta. Isso se ainda estiver aberto**. Só depois poderemos comer, matar a nossa fome, descolar e reconfortar o estômago e, pelo caminho, cimentar uma boa equipa, consolidar o novo e promissor chef, elaborar deliciosos pratos, melhorar os índices de gestão, atrair clientela e começar a facturar.

Optamos realisticamente por fazer uma simples omelete, que o orçamento não estica para algo mais gourmet ou apelativo aos sentidos. Temos em casa a mãe de todas as pimentas, a mais fina flor de sal, salsinha fresca e viçosa, o melhor peru… e vamos juntando tudo na taça, já a salivar, antecipando a alegria sensorial que nos espera.

Vamos ao frigorífico e… só temos um ovo. Bonitinho, redondinho, amarelinho, nutritivo, mas… um só. Pequenino. Ai, e a vontade de chorar. Espernear já em birra e impotência no chão. Vencida a desolação, o pessimismo quanto ao êxito do prato que temos em mente, banho de realidade tomado, há que arregaçar as mangas, avançar, fazer-nos ao caminho e usar os ingredientes que temos e podemos usar. Nem que inventemos, nem que inovemos, nem que se criem novas tendências, ou se enverede por outro caminho. Mais puro, mais vegan.

Misturar tudo na taça, com desvelo. Minuciosamente, laboriosa, dedicada e exaustivamente. Bater tudo até que os braços nos doam. Envolver. Pôr ao lume. Baixá-lo. Alteá-lo. Dobrar cuidadosamente. Aliando a fome com a vontade de comer, a fé enorme e a alma imensa, sabendo que a nossa será a mais apetitosa das omeletes.

NOTA: A omelete estava a ser preparada antes do jogo no Estádio Olímpico de Roma, frente ao adversário que conhecemos. Batêmo-la durante 90 e imensos minutos e, mesmo que sem ovos, ficou no ponto, com um maravilhoso cheirinho que nos fez salivar, inebriar, ao mesmo tempo que nos trouxe lágrimas de alegria e nostalgia aos olhos, pela saudade toda que tínhamos acumulada. Hoje, horas decorridas, temos já dinheiro para mais alguns ovos, caseiros e tudo e, se quisermos mesmo caprichar, para uma mão-cheia de cogumelos e um ou outro camarão. Parabéns ao Chef.


Monumento, estátua já a Szymon Marciniak, esse árbitro corajoso, comovente em toda a sua isenção, totalmente nos antípodas daquilo que é ser árbitro profissional ou meramente biscateiro neste país de brandos e centralizados costumes.


** As lojas de conveniência – que as há! -- são demasiado caras para a nossa bolsa.

Ingredientes para uma omelete deliciosa

· 4 ovos (pois…)
· 2 fatias de fiambre de peru
· 4 fatias de queijo flamengo
· sal e pimenta preta q.b.
· salsa fresca q.b.
· 1 fio de óleo

1. Bata os ovos e tempere-os de sal, pimenta e salsa finamente picada.
2. Aqueça óleo numa frigideira anti-aderente e, quando estiver quente, deite os ovos batidos. Baixe o lume e deixe cozinhar lentamente até a parte de cima da omelete se apresentar quase"cozida". Junte o queijo e depois o fiambre. Dobre a omelete cuidadosamente e deixe cozinhar mais uns minutos em lume muito brando, até o queijo derreter.

3. Retire a omelete da frigideira e sirva de imediato.

14 abril, 2016

“PARTING IS SUCH SWEET SORROW…”

http://bibo-porto-carago.blogspot.pt/

Tantas ondas do mar revolto. Horrores de escarcéu. O alarido todo, a tamanha histeria. Tanta mensagem a cair no telemóvel no fim de cada jogo e notícias de jornal, telejornal e revista. Tantos directos, tanta capa, tanto especial e tempos de satélites assinados aos pinchinhos e palminhas pelos jornalistazóides deste país oh tão inclinado. Como que de uma autêntica novela mexicana ou argentina -- não sei verdadeiramente quais as melhores – se tratasse, repleta de salero ou daqueles big dramalhões de cortar os pulsos, com órfãos, floristas e hordas de desafortunados. E é vê-los, nas laterais, de bandeirinha na mão e fanfarra a tocar, a celebrar e a apontar o dedo a uma desculpa de equipa, física e psicologicamente de rastos, representante máxima de um clube sitiado, amorfo e quase (só quase, não se iludam…) destruído. Um regabofe. Um fartote de folias e foliões.

Ironia das ironias: temos finalmente a atenção que não raras vezes exigimos mas num momento em que a dispensávamos por completo. Aproveitam a nossa hora mais negra. Ávidos de pregar os derradeiros pregos na cruz Daquele que foi o homem mais odiado, perseguido e beliscado do país nas últimas três décadas, porque também o mais Invejado, Temido e Bem-Sucedido, Messias da sua tacanhez e real pequenez de espírito. O mesmo que encheu de frustração e de pesadelo os sonhos dos clubes sulistas-elitistas, lhes provocou unhas roídas, frio nas entranhas, medos nocturnos e sumarentos melões hiper-mega-gigantescos que iam lindamente com finas fatias de presunto. Pelo que agora é apenas normal ouvirmos à nossa passagem e em direcção ao calvário coros afinados de oincs!, roncos e zurros, os guinchos da classe dos primatas. Faz lembrar aquela música… “Parecem bandos de abutres à solta, os pulhas, os pulhas…”

Sempre temi estes tempos. Os da Guerra da Sucessão. Os do Grande Mas-Eles-Não-Sabem-Apenas-Transitório Ocaso da nossa Alma. Os do Fim dos Anos De Ouro. Os da Retirada do nosso Mais Que Tudo ou o Crepúsculo do nosso Deus. Os seus últimos suspiros à frente do Clube que tornou Imenso. Eu sabia que iriam ser assim: terríficos, dolorosos, angustiantes. Trágicos. Que são. Que estão a ser.

Let’s face it. Algum dia teria de ser. Mas não queríamos que acontecessem desta forma, tão dura, tão ingrata, inglória e… algo desumana. Certo. Certíssimo. Assim, pronto… sejamos pragmáticos: já está. Estando já a arcar com o horror todo, a tragédia toda, o imenso vazio e a terrível raiva regada a impotência, pelo meio e no processo adquirimos a tão desejada e necessária couraça de resistência, sobre a qual desabam e resvalam os céus todos. Ganhamos anticorpos. É uma teoria que insiste -- a magana -- em não me sair da cabeça: até na saída (demore 4 ou até menos anos…) o nosso Presidente soube fazer as coisas da melhor maneira para todos encararem com maior alívio e desprendimento o dia em que se retirar das luzes da ribalta, limpando e higienizando a sua SAD, arrancando pelo caminho e pela raiz os cancros, papoilas e quejandos que por lá brotam, verdadeiro hino à natureza. Deixando terreno fértil e viçoso para semear. Ver florir.

O FC Porto deu-me tudo ao longo destes anos: uma infância e adolescência mágicas, repletas da rutilante luz dourada da glória e das maravilhosas recordações tornadas ainda melhores e maiores por olhos ainda inocentes. Um mundo privilegiado de sonhos, heróis bonitos e de pernas à mostra, que tornavam lindos dias feios, que tinham a força e a generosidade da transcendência. E a transcender-se continuaram, tornando nossa a Europa e depois, como se não chegasse, o mundo.

Os heróis acabaram. Os deuses morreram. Já ninguém se transcende. Não sabemos se por incapacidade ou falta de vontade. O sentimento, esse, vai-se dispersando, perdendo, aparecendo apenas a fogachos. Num e noutro. Aqui e ali. E assomam as lágrimas gordas aos olhos já não tão inocentes. Este futebol não é para sentimentalões, nele não há lugar para românticos. O realismo e espírito prático assumiram as honras da casa e varreram tudo: trabalho é trabalho, conhaque é conhaque. Parece que é crime, pecado ou parvalheira jogar pelo amor à Camisola. Pelo mero e simples gostinho, apego. Simpatia, vá…

Já não sou criança, mas as minhas memórias de um clube e jogadores perfeitos continuam teimosamente mágicas e inalteradas. Ao menos isso. Prendo-me a elas, qual bóia de salvação e são elas, doces elas, que me mantêm à superfície neste pântano criado por tanta água que entretanto se foi metendo. Como eu, tantos, agarrados de olhar triste e desesperado aos destroços que por nós vão passando. Com eles construiremos um barco e depois uma nau. Das Camisolas que todos vestimos surgirá uma vela. Com o amor que teimamos em ter e em mostrar, que nada nem ninguém conseguirá emudecer ou calar ou tornar clandestino, a insuflaremos. Rumo a novos mundos. E conquistas. E futuros. A História não termina aqui e assim. O nosso Livro dos Dias terá novas páginas.

Voltaremos. Mais fortes. Românticos. Com heróis. Possivelmente novos deuses.
Escrevam isso.

Até lá, sem despedidas. Será apenas um interlúdio, um momento – breve -- para lambermos as feridas.
E armar a Vela.

P.S. Para ti, R.

--» O MEU ARQUIVO: todos os meus textos AQUI.

31 março, 2016

OS DIAS DO FIM DO MUNDO.

http://bibo-porto-carago.blogspot.pt/

Que são. Estes.
Aqueles que vimos vivendo nos últimos três anos, equivalentes a mais de mil dias de horror, apocalipse, trevas e decadência moral (que a física ainda não se materializou… ainda não). Os dias do fim do nosso mundo. O mundo, nosso habitat natural, como nós o conhecíamos. Bonito que ele era. Perfeito, tão redondinho, azulinho.

Algum dia teria de ser, todos o sabíamos. Apenas esperávamos que o amanhã não fosse a véspera dele. Chutávamos a bola para a frente e esperávamos que isso fosse adiando a coisa, prolongando os minutos de jogo. Que a bola entrasse por algum golpe de sorte ou tiro certeiro de um qualquer jogador de empresário certo e nacionalidade incerta. E assim íamos indo.

Afinal o fim auto se anunciou e proclamou. Confortavelmente, instalou-se bem mais rápido do que o previsto. E, pelo volume da bagagem visível a olho nu e do tamanho do balde de pipocas, veio para ficar durante uns tempos. Largos. Botem largos nisso.

Serão meteoritos. Bué deles. Napalm. O cheiro primeiro, a recordação dele depois... Será chuva pardacenta, morrinhenta, alternando com dias armados em parvos de grandes e gordas nuvens cinzentas e outros de pura tempestade e inclemência. Será sol impiedoso e tórrido num deserto a atravessar, sem água, sinal de verde ou sombra de oásis fortuito. Será a ausência de luz, em mais um túnel escuro e sinuoso que teremos de ser capazes de atravessar e calcorrear até ao fim, indiferentes ou resistentes a tropeções sucessivos e às pancadas com a cabeça. Serão vales profundos e montanhas altas, quase sem oxigénio. Tudo subitamente inóspito. Já não redondinho. Com as cores de outros. Como é aquela frase que agora o universo SDiano apregoa como se não houvesse amanhã? Ah, sim. “Só os mais fortes sobrevivem. Nós seremos eternos”.

Pois é… o Amanhã não está garantido, gente. Teremos de lutar, combater por ele. Tentar que chegue rápido e que nos seja simpático. Até lá, será como disse. Agonia, muita. Dor atroz. Fenómenos climáticos extremos e extremados. Provações e privações. Provocações. Limpezas. Purgas. Sedimentações. Eliminações cirúrgicas. Formatações. Perseguições. Caças às bruxas. Injustiças. Exterminações. Perdas. Erradicação de toda a espécie de regimes e esquemas, estatutos de deuses e semideuses. Fontes de rendimentos e luxos e vício$ já secas. Galinhas com ovos normais, já não de ouro. A decadência finalmente física.

Sobreviveremos. E um Clube como o nosso saberá ser Eterno. É Eterno.
Isso sei. Recomeçaremos do quase zero, seguiremos e revisitaremos exemplos de sucesso felizmente ainda bem enraizados dentro de nós, reconstruiremos o que foi demolido intramuros. Voltaremos a erguer a Alma Azul e Branca. O Imenso Orgulho Tripeiro. O Famoso e Lendário Espírito, a Mítica Raça de Dragão. Com o mesmo ou outro Líder. No fundo, não interessa o nome: Fernando, André, Paulo, Pedro, Nuno, Ruka, Eduardo, Joaquim, Vasquinho, Rui, Vítor, Manelinho, Jorge ou José, o objectivo comum que todos partilhamos e partilharemos é o bem do clube que veneramos e amamos acima de tudo. O Mágico Emblema e a Mágica Camisola. Só isso perdura, acima de qualquer obra, gratidão, homem ou nome…

Quanto a mim, já tenho o meu plano de acção devidamente delineado, o meu kit de sobrevivência analisado e repensado para os tempos madrastos deste estúpido Armagedão, o nosso Apocalipse Now. Vou ficar mais zen, praticar a meditação, procurar implementar e interiorizar a calma e a total aceitação dos elementos que se nos atravessem à frente. Mantas fofinhas, guarda-chuvas, impermeáveis, tendas. Livros. Revistas. Contentores de kleenex. Lanternas recarregáveis, capacete com luz incorporada para a noite do longo túnel, óculos de sol, tank tops, um espelho, protector solar e GPS para a travessia das areias do deserto… coisas assim. Oxigénio, água, latas de atum. Baralhos de cartas não, que não gosto.

Vou continuar a ver jogos, a ouvir relatos, a torcer e a sofrer, a puxar cabelos, a atirar-me para o sofá, a dar saltos e pinotes, a criticar este ou aquele, mesmo o pateta do treinador, mas sempre com uma atitude profundamente holística, construtiva, serena e muito, fantasticamente, desesperadamente zen. Imbuída do motivacional espírito do “perder e ganhar tudo é desporto”, “não interessa ganhar, importa é participar”, “os campeões crescem nas derrotas”, “ri melhor quem ri por último”, “grão a grão, enche a galinha o papo”, whatever!, serei uma adepta fiel, apaixonada, equilibrada, pura e simplesmente desinteressada. Ou seja, alguém que não quer ficar no clube e com o clube porque ele ganha, mas ficar nele e com ele mesmo quando perde… fundamentalmente quando perde. Dar sem pedir nada em troca. Sem nada exigir. Um Portismo, um orgulho sempre maior.

Na saúde e na doença, Porto.
São estes os votos que hoje te faço, neste horrível texto que nunca quis escrever.
Demore um, quatro ou até mais anos. Décadas.
Bastará o teu emblema, vê-lo, adorá-lo, dar-lhe um mimo ou um beijo e tudo ficará bem.
Outros mundos virão.

Bonitos, redondinhos. Azulinhos.

17 março, 2016

WELCOME TO THE MACHINE.

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    "Welcome my son, welcome to the machine. What did you dream?
    It’s alright, we told you what to dream”.
#$@%*#@%$!*%! para isto. Tudo isto. Como que me rasgam as entranhas e o mais fundo de mim.
O tempo apazigua, o tempo refresca, o tempo arrefece, o tempo cura. É o curas, não cura nada!
São apenas palavras ocas e caducas de um iluminado qualquer que um miserável dia, à falta de algo mais catita para fazer, resolveu escrevinhar e passar aos amigos deprimidos. A terceira catastrófica época arrasta-se já para o fim, a tragédia em 34 actos prolonga-se e a minha dor é cada vez mais intolerável, caminhando descalça numa rua íngreme de pedrinhas soltas e de um só sentido ao som do Adágio for Strings do Samuel Barber. Não posso mais com isto. Eh, pá! Acabem já com o filme, matem o mau da fita, condenem os culpados, casem e amantizem os bonzinhos, acabando com eles num estádio cheio, decorado a arco-íris, fadas, unicórnios e papoilas. Não posso mais com isto. Um suplício como não há memória.

Entreguem-lhes já as faixas no próximo jogo e enfiem-lhes a taça inerente à coisa pelas altíssimas e sereníssimas tolas. Aliás, deviam ter feito isso há muito tempo. Se a história está já escrita, o Marquês reservado, se tudo está já determinado e só alguns é que ainda não sabem, se tudo está já manipulado, acertado, telecomandado, por que não acelerar o processo e acabar definitivamente com o sonho dos infelizes ansiosos e o silêncio forçado dos inocentes, enquanto não se acumulam mais rocambolescos episódios, vãs esperanças e se traçam cenários matemáticos do arco-da-velha? Para quê mais jogos transformados em finais desesperadas quando já se sabe o desfecho e o estúpido do feio do emblema dos vencedores, os Senhores Campeões Nacionais Donos Desta M***a Toda? Para quê mais actos completamente desnecessários para o argumento na autêntica farsa encenada? Que mais de x -- nem me interessa! -- pontos em disputa, que quê?! Mas quem é que querem enganar?

Estou farta de ver o meu clube servir de marioneta, fantoche ou mero palhaço triste e pobre no circo dos outros, estou farta de aturar parvos que subitamente num Verão passado adquiriram repentes desvelados de paixão clubística, farta de ter quase-ataques de miocárdio no início, meio, final de cada jogo, farta de sofrer ondas (maremotos!) de completo mau feitio provocadas por péssimos resultados e resultados feitos junto de pessoas que nada fizeram para os merecer e que olham para mim quase incrédulas pelo meu descontrolo, farta de pornochanchadas... Estou. Farta de me sentir besta acossada sem escapatória possível e onde todos me julgam pela cor da camisola que uso junto (bem junto) ao peito. Farta de ser apontada e classificada de corrompida, de ser má até aos ossos, de comer e ter de calar porque ninguém ouve os meus gritos. E ainda da vergonha por vender a alma ao diabo. Vendi-a.

Vivo hoje na sombra de outros, torço por eles por representarem ainda uma ténue réstiazinha de esperança no derradeiro combate desigual contra a Grande Máquina, uma espécie de mal, nojo menor. Chego a ouvir relatos com nomes que não são os meus e ensandeço ao ponto de berrar por eles só às 6.as, sábados, domingos e 2.as feiras. Às 3.as descanso e às 5.as feiras europeias, se estivessem ainda em prova, desejaria que eles perdessem. Vergonha por ser assim, por estar assim, ter chegado a este ponto sem retorno. O desespero total, ts, ts, ts. Consola-me apenas o facto de não poder descer mais baixo. Asco deste País/Máquina trituradora onde se põem paixões e santos e capelas a apitar jogos, onde se coroam tolos, onde porcos são presidentes, onde gado bovino escreve e lê textos e onde se indultam e protegem os monstros. Onde vale tudo e de nada vale alguma coisa. Onde há tudo e onde nada há.

Não há justiça. Não há liberdade de expressão. Há manipulação de imagens e de opiniões. A cada vez mais sofisticada Propaganda. Há perseguições e racismos. Ostras e ostracismos. E lixa-se o mexilhão. Lutas desiguais. Julgamentos sumários para as pessoas que não partilham da ideologia da Grande, Imensa, Impoluta e Imparável Máquina. Queria eu ser justiceira e voar território fora com a minha capa azul de musselina a ondular na brisa fresca da manhã. Castigar. Fazer corar. Deter. Humilhar. Provar. Desmascarar. Puxar orelhas. Visitar as épocas do Natal Passado e as do Natal Futuro. Queria ser invisível. Partir tudo. Queria rasurar. Esquecer coisas tristes. Esquecer caras. Descobrir carecas e rabos de palha. Cozinhar o Polvo e fazê-lo acompanhar de molho verde. Perdoar a quem não consigo. Queria ora fazer recuar ou avançar os ponteiros do relógio, queria ainda ter direito de sonhar, de ter fé.

No meio de tanta coisa má que, com a Graça do Senhor, temos, vemos, recebemos e vivemos... o que é o futebol? “Em que é que ele tanto contribui para a tua felicidade?”
F., não te vou responder. Mas dói-me reconhecer que tens razão.
Deixa. Nunca poderás compreender.
Não sabes o que é ser Portista.

Sentir, amar assim.

04 março, 2016

ADEUS, ATÉ AO NOSSO REGRESSO.

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Não tenho nem dormido, com o stress de empacotar tudo bem embaladinho e meter-me no avião mais próximo rumo ao paraíso de uma Liga de Futebol normalzinha, não conspurcada e desparasitada. Que existe porque livre de benfiquistas e seus agentes e bitches. Eu e o bom do Peseiro temo-nos desdobrado para que não falhe nada. Mais eu do que ele, o que não espanta porque ele é homem -- apenas capaz de realizar uma tarefa de cada vez-- e porque está em óbvia poupança de esforços (já para não falar de jogadores) talvez já a pensar na final do Jamor já daqui a pouquíssimas semanas. Os adeptos e sócios estão devidamente etiquetados e prontos a seguir viagem. Todos eles: novos e velhos, senhores e senhoras, meninos e meninas, a novel classe dos pipoqueiros, os Velhos do Restelo, os assobiadores-mor, os seguidistas, os carneiristas, os carreiristas, os bonitos e os feios e os bons e os maus. Todos eles. Portistas.

Não me esqueci do passado glorioso, da incerteza do presente e das poucas garantias do futuro que seguem em caixas de cartão, envoltas em papel de celofane azul imperial e rodeadas de pétalas de flores do campo com cheiro a Primavera e daquelas coisinhas fofas e redondas das quais não sei sequer o nome. O plantel está todo alinhado e aprumado nos seus melhores fatos de costureiro, óculos de sol de griffe nas ilustres cabeças, smartphones nas mãos e headphones nos ouvidinhos. Não tendo de se preocupar com nada. E nada mesmo. O Estádio do Dragão está a ser acomodado num bruto de um TIR suficientemente espaçoso que o transporte sem preciso ser desmantelar uma única peça, uma única cadeira. Os serviços do pessoal que por ele zela e que dele o faz o mais lindo do amplo universo foram desde já assegurados.

As Antas, a Constituição e o Campo da Rainha seguem na bagagem de cada um em milhares de frasquinhos de perfume e nos baús dos nossos sótãos de memórias. Sem cheiro a naftalina. Os passaportes e as burocracias estão perto de estarem concluídos e já se vão acumulando no móvel da entrada, bem ao lado do telemóvel que não pára de tocar com inscrições de última hora. Uma coisa é certa: só pode ir quem é dos nossos. Depois das mais persistentes reticências, “que tinha saudades da sua SAD, que tinha saudades da sua SAD!!”, o Presidente mostra finalmente alguma vontade de ir, mesmo que obviamente nostálgico nas saudades das velhas guerras de cinismo e hipocrisia, de alecrim e manjerona, através das quais se tornou o homem que foi e que talvez ainda hoje seja. Compreendemos o seu sentimento, mas moralizámo-lo dizendo-lhe que pode sempre regressar para passar umas férias. Complicado está a ser convencer a autarquia a deixar-nos levar o Dragão Caixa, a Rua dos Campeões Europeus, a Via Futebol Clube do Porto e todos os acessos e infra-estruturas que já compõem a nossa casa. A cidade do Porto também vai. No nosso coração. A transbordar. Para já, terá de ser suficiente.

Um lufa-lufa… deixar a SAD embaladinha, apetrechadinha e prontinha a ser usada pelo seu próximo clube. A dificuldade maior não residiu em formatar-lhes os cérebros em termos de afecto e de sentimentos para com o clube que agora parte, mas mais pelo tentar-lhes explicar que a pândega e as comissões actualmente existentes iriam continuar. Um dia, nesse dia. Dei-lhes todas as garantias de que iriam voltar breve, breve ao seu habitual modus vivendi, mas mesmo assim exigiram-me comissões por elas.

Pelo que estou exausta, sim. Mas aproveito ainda as últimas horas nesta choça bafienta para sentir revolta, tristeza, fúria avassaladora e vergonha deste paíszeco que me nacionalizou e que foi o berço do clube que amo desde sempre. Um clube que nunca teve direito a uma canção de embalar sem que a tivesse de mendigar, a um colo ou a uma simples mão que o embalasse em todos aqueles momentos. Um país onde se sentisse filho e não o enteado enfezado com crises existenciais e dores de crescimento.

Ainda me restam forças e ânimo para, com a ajuda de pinças alongadas, mola no nariz, máscara na cara, mexer cirurgicamente no meio de todo o estrume e retirar algumas das pérolas que nos acompanharão na abalada. Tarefa difícil e ingrata. Muito – demasiado! -- selectiva. Poucos, quase nenhuns se salvam. O esterco pestilento e viscoso acomodou-se em todo o território nacional. De lés-a-lés. A grande família dos asnos, burros e jericos, jumentos e afins, tentam contorná-lo, ir por outro caminho, mas acabam por se atolar, rindo tipo parvinhos. Atolados estão já os porcos, cor-de-rosa sujo, e deliciados nas suas pocilgazinhas privadas para as quais apenas convidam os amigos. As moscas sobrevoam, ZZZzumbindo.

Mais acima, ainda mais acima, mesmo acima dos castelos de altas torres e de janelas de luz vermelha onde habitam os cavaleiros do fair Play, os paladinos da verdade desportiva e os descendentes dos viscondes (mais ao lado), pairam corvos e os abutres, ávidos de novidades, sequiosos de todos e quaisquer restos, que, ao mesmo tempo que batem as asas, vão bombardeando as cabeças dos mais incautos.

É verdade. É oficial. Vamos embora. Não nos merecem. Ou talvez nós não vos mereçamos. Batam em latas, rompam aos saltos e aos pinotes, façam estalar no ar chicotes, chamem os camaradas palhaços e acrobatas que estão bem ali, o'... em concentração tipo Fairy Ultra nos lados da Segunda Circular, e nos seus múltiplos covis. Vamos, então, embora. O ar vai ficar mais desanuviado, tenho a certeza. Com a nossa partida, terminará tudo o que é mau e pernicioso no desporto nacional. Digam pois adeus aos corruptos, aos egos empolados, aos maus perdedores, aos vendidos, aos falsos e imorais, aos mafiosos desbocados, produtores de fruta variada, caterers de café com leite. É a última vez que nos vêem. Vade retro mentalidade provinciana, hooliganismo e novos vândalos. Destruam as armas de destruição maciça. As ogivas nucleares. A teia centralista. Os árbitros telecomandados. Já não precisarão deles. Haverá mais espaço para todos. Mais títulos também. Amem-se. Procriem-se. Matem-se uns aos outros na Santa paz do Senhor. Já estaremos longe e, se Deus quiser, com um treinador competente, um plantel equilibrado e um Presidente a ajudar, usufruiremos do dom e supremo luxo de ser-nos permitido discutir títulos e troféus com a mesma verdade, liberdade e armas que os outros.

One last thing. O Sistema, apesar de nosso velho conhecido e aparentemente íntimo, não cabe na nossa mala. Vão ter de ficar com ele. Tratem-no com o respeito e o desvelo que ele vos merece. Adeus, arrivederci, farewell, so long, hasta. Depois mandamos um postal.

P.S. Deixamos-vos, em jeito de despedida, uma bola de futebol, essa coisa redonda, normalmente em couro sintético e fabricada internacionalmente sem tendências ou ímanes centralistas. Aprendam a usá-la. Ah, sim, outra coisa: ganhem finais. Foram feitas para isso.

18 fevereiro, 2016

JUNTOS!!

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Agora que já passaram as emoções fortes de sexta-feira, estou finalmente em condições de palrar um pouco sobre o jogo que decorreu no aconchego do nosso salão do qual tão boas e gratas recordações temos. Mais uma vez, fomos imensamente bem recebidos por um estádio quase cheio (a presença do Pedro Guerra para isso muito contribuiu…) e o entusiasmo pela nossa presença foi bem evidente em todos os rostos, enfraquecendo apenas – natural e gradualmente – ao longo dos 45 minutos finais da partida. Chovia. E era muito. O cansaço por tanta festa e algazarra sentiu-se. Serão apenas humanos.

I. Gostava em primeiro lugar de agradecer ao Julen Lopetegui e de o incluir no baúzinho das recordações douradas da noite. Ele concedeu-me o dom de ser paciente e proporcionou-me uma resiliência quase de ferro para aguentar sucessivos resultados negativos sem ter vontade de me atirar para o chão. Para quase parar de tentar arrancar os cabelos com as mãos. Com ele, aprendi a desdramatizar. A relativizar (sob o risco de a esta hora ainda estar a recuperar, totalmente careca, de múltiplas fracturas expostas). Na sexta, os mouros marcaram e eu mantive a calma, serena calma, falharam outros golos e não arranquei cabelos. Nem um. Sinto-me mais madura a ver futebol. Obrigada, pois, Julen. Estás cá dentro.

II. Depois e fundamentalmente, encantou-me a raça mostrada e todo o espírito de sacrifício mostrado pela equipa nomeadamente na fantástica segunda parte. Uma equipa que, jogo a jogo, tem vindo a crescer (mesmo com o Arouca, com toda a negatividade, apesar da enorme e dolorosa hecatombe, nem tudo foi tão mau como em jogos já vistos desta época e bastava não termos sido assaltados para ficarmos com os três pontos ou um, vá…) e que nos revela mais vontade de tudo e até de ser feliz.

III. Não cessa de me surpreender a arrogância besta e a parvalheira aparolada daquela gente. A forma como se expõem a tanto ridículo e como se colocam tão a jeito. Um bem-haja. Assim, dá sempre mais gosto. Sem eles, não tinha sido a mesma coisa.

IV. Maxi. Oh, Maxi. Where have you been all my life? Nem expulso foi, nem amarelo levou, tanta provocação sofreu! Que guerreiro! Literalmente em vénias.

V. IKER! IKER! IKER! Beijava-te as luvas, se pudesse. Que se calem para sempre os que tanto te criticam (incluindo o meu pai, que diz que és anão para guarda-redes do Porto, ao que eu lhe respondo que um jogador de basquetebol ou um Fabiano é que eram bons).

VI. Danilo, Danilo… mas que jogador, que Imenso Dragão nele habita, além de ser ainda giro como tudo. Absolutamente rendida. Que fique durante muito tempo. Se for – que irá! – que vá por muito dinheiro.*

VII. Peseiro, “Melhor Treinador do Mundo Inteiro!!!!!!!”, como diz a outra. Perfeito, frente aos lamps. Foi graças a ele que vivemos esta tão procurada e merecida alegria. Tipo um oásis de verde no nosso deserto. Incrível trabalho, imenso dedo. Tremenda paciência. E apenas com tendência para melhorar. Em todos se vê essa promessa, mas no Brahimi a diferença é eloquente. Maciça! (Até o fato parece vestir melhor. Se não, atentem…)

VIII. Indi, mas que raio foi aquilo?!? Ias-me dando uma síncope e com ela não chegaria a conhecer os meus netos. Não sei se alguma vez o meu coração voltará a caber no peito e a bater no ritmo certo…

IX. Dizia eu à força toda e para quem me quisesse ouvir, à laia de já encontrar bodes expiatórios para um mais do que eventual resultado negativo, que íamos jogar sem centrais. Não podia estar mais enganada… ganhámos foi um. De 19 anos apenas. Tipo maravilha.

X. E, parecendo que não, em pantufinhas de lã, os Aliados voltaram a estar no nosso horizonte. Haja é tininho. Muito.

* Que não seja desbaratado em comissões para filhos, enteados, tios e afilhados. E ainda para sobrinhos e primos. Ou empresários. Ou empresários de empresários. Ou tudo o que mexa. E o que não mexa.

04 fevereiro, 2016

“FREEEEEEDOMMMM!!!!!!!”

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    Muda-se o ser, muda-se a confiança:
    Todo o mundo é composto de mudança,
    Tomando sempre novas qualidades.

    Continuamente vemos novidades,
    Diferentes em tudo da esperança:
    Do mal ficam as mágoas na lembrança,
    E do bem (se algum houve) as saudades.

    O tempo cobre o chão de verde manto,
    Que já coberto foi de neve fria,
    E em mim converte em choro o doce canto.

    E afora este mudar-se cada dia,
    Outra mudança faz de mor espanto,
    Que não se muda já como soía.


    Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
E foi-se o meu Lope e veio o Peseiro e a sua lufada de ar fresco. E chegaram reforços mas não os que nós queríamos e houve entretanto entrevista do Presidente no Porto Canal. Sei que passaram já muitos dias, muita água correu debaixo de todas as pontes e mais alguma, mas é sobre ela que quero hoje palrar… perdoem-me se vos maço. Mantive-me calada durante dias e dias. Pode ter sido um período de interiorização do sumo que se conseguiu espremer dessa conversa ou simples, palerma letargia. Também posso tê-lo feito por respeito ou algo semelhante a tabu, aquela sensação de interdição social ou cultural implícita no abordar de determinado assunto, apenas normal quando o tema é o nosso Jorge Nuno Pinto da Costa, esse ser sagrado e impoluto que nos preside e de quem tínhamos tantas saudades. Ele. A nossa Lenda Viva. A Personificação do Porto. Do que é Ser Porto.

A Nação Portista como que estacou. Rufaram os tambores e soaram os trompetes. O Grande, Querido e Almighty Líder ia falar às hostes orfãs e carentes, que dele precisam como as flores sequiosas da água e o pão quentinho da manteiga. Trepidação inegável no ar. Nuns e noutros, mesmo nos mais ferozes críticos internos, mesmo naqueles que pedem a sua saída e exigem a sua cabeça, mesmo nos que duvidam da sua sanidade física e mental… todos sem excepção o queriam ver, ler, sentir… mesmo que dissessem que não, mesmo que mostrassem desinteresse pela – segundo eles – certeza da entrevista fácil e pelas perguntas pouco incómodas e encomendadas pelo jornalista seu assalariado. Descendo no mapa, por detrás do recente tom jocoso assumido, do tsunami de escarninho e do céu em que deram por si a viver, nos reinos de Sodoma e Gomorra também se sentiu um burburinho e foi notória a frisson. Sabemos que acordam e se deitam a pensar nEle e que ficam suspensos nas suas palavras. Mesmo que não confessem, sentem receio do que ele possa fazer, dizer, empreender… atribuem-lhe também eles faculdades especiais. Melhor que estivesse calado, melhor que não tivesse despedido o treinador que tantas alegrias lhes foi proporcionando. Mudar para quê? Se o país tão feliz anda?

A entrevista em si foi catita. Supimpolas. O Júlio Magalhães fez perguntas interessantes, às quais PdC foi respondendo com bonomia, total disponibilidade. Foi prazenteira, bem-disposta, descontraída. Fiquei felicíssima com o bom aspecto do nosso Presidente, com as garantias da sua perfeita condição. Achei-o melhor, o que me anima (há cerca de um ano vi-o frente a frente e achei-o muito, mas muito frágil). Pelo meio, tivemos um vislumbre do outro lado da lua. O obscuro e muito, muito negro. O que ninguém vê, cá de baixo. Ou o que eles querem que não se veja. Respondeu em muitos dos casos com o que nós queríamos e tínhamos necessidade de ouvir, seguramente não com a verdade. Foi tudo demasiado cirúrgico, muito sintetizado, uma entrevista agendada para naquele dia e àquela hora sossegar a Nação a viver dias de pré-motim, da revolução que se anuncia. E teve esse efeito. Que teve. Em grande parte dos adeptos, pelo menos. Quanto a mim, leiga confessa que sou, o Jorge Nuno ficou muito mal na história dos empresários, na versão rebuscada que contou relativamente à sua cria e que não convenceu ninguém, na questão da competência técnica do Julen Lopetegui, da qual quis lavar rápida e quase levianamente as mãos, qual Pôncio Pilatos. Certo. Pois. Não gostava do estilo de jogo mas teimou e insistiu – FORAM 77 JOGOS, metade dos quais dignos de um filme de terror!!! -- ignorou a cara feia do seu staff imediato, os traumas visíveis do plantel, praticamente troçou do desespero dos adeptos e com isso equacionou seriamente as hipóteses de virmos a ter Aliados em Maio. Porquê? Por ainda acreditar no trabalho do espanhol, para não contrariar o filhotezinho – pária durante tanto tempo, tanto, tanto mesmo que de aborrecimento e total boa fé até aproveitou para se aproximar do arqui-rival do pai, José Veiga, curiosamente hoje detido --, para não admitir os crassos erros seus, ou para evitar a questão da choruda indemnização? Era giro saber.

Mas em meu entender a GIGANTESCA lacuna do seu discurso foi a ausência de crítica pura e dura e que se exigia à Máquina e Ordem Suprema que reina na estrutura do futebol neste país de mafiosos acéfalos centralistas e que tanto odeia e prejudica gravosa e talvez letalmente o nosso clube. Uma passividade que magoa e choca, um silêncio ensurdecedor e que me esclareceu cabalmente. Não quer ou não pode falar, por um motivo certamente enorme que desconhecemos. Um mistério tenebroso. Inquietante. Que não compreendemos. Que não aceitamos. Que se adensa. Porque os bandidos saqueiam e andam a monte e fazem coisas de bradar aos céus, sem que ninguém brade do alto do nosso castelo. Predomina na SAD a patética filosofia do “comer e calar”. E só neste “pequeno” pormenor se vê que tudo mudou, que ELE mudou e que dificilmente ou nunca voltará a ser o nosso William Wallace dos tempos modernos, aquele que em vez de kilt, usou calças e, no lugar da espada, exibiu a bandeira azul e branca para derrubar inimigos e reconquistar a liberdade. E isso é, para mim, inaceitável. Neste país de reles, só um Guerreiro, um Insubmisso, um Insurgente nos conseguirá levar novamente a bom Porto.

Havendo aspectos extremamente positivos da gestão e trabalho diário desta SAD que me enchem de felicidade, como que tudo se torna pardacento à luz fria dos factos da realidade do futebol. Um clube como o nosso vive de vitórias, títulos, orgulho e glória, não de lucro$, empresário$, contentores de jogadore$ dos quais temos já dificuldade em decorar os nomes. Que eu saiba, o C no emblema é de Clube, não de Comissõe$. Que se lixem as comissõe$, pois, e todos aqueles que se curvam perante o seu altar.

A intenção de recandidatura deixa-me, digamos, no mínimo desconfortável. É que o que não está bem muda-se. Diz a vox populi. A mesma que, a páginas tantas, também refere que a paciência é a mãe de todas as virtudes. Que é. Mas até esta tem limites. Até uma mãe tem limites. Quando se esgota, das duas uma: ou há palmadas bem dadas ou um castigo.

Da entrevista ressalvo também algo que misteriosa e incrivelmente não mudou: continuo a adorar feroz e desalmadamente o homem. E talvez precisamente por esse motivo, tudo isto me mate. Ser ou não ser? Manter… ou mudar? Progredir ou estagnar?

Porque se mudaram os tempos, sim, mas não, e NUNCA, se mudarão as vontades. E nós? Nós nascemos para vencer.

P.S. Alguém por caridade e que esteja a ler este texto que ajuste o tamanho das mangas do novo treinador ao seu braço. Obrigada. Tal como está, parece que herdou o fato do primo mais velho, or something…