Uma vez ouvi alguém dizer, salvo erro durante uma viagem de autocarro: "Esta semana não há futebol, joga a selecção." De forma natural ou mesmo ingénua, essa pessoa definiu aquele que é o meu sentimento pela selecção de há uns bons anos para cá. Longe vai o tempo em que torcia pelos seus adversários, por ver na selecção a representação máxima do ódio ao FC Porto que vigora no futebol português, e mais longe ainda o tempo em que torcia realmente pela equipa das quinas. E mesmo nessa altura o meu interesse pela selecção nunca foi sequer comparável ao que tinha e tenho pelo nosso clube. E morreu lá para 2002, depois do Mundial da Coreia/Japão. Agora, posso dizer que sou quase indiferente à selecção. Encaro-a como a uma mera curiosidade. Ganhou? Que bom. Perdeu? Ok. E isso é só por ter lá jogadores do Porto.
Posso dizer que sou patriota, no sentido em que valorizo o meu país e a minha língua, mas as selecções como actualmente existem causam-me alguma confusão. Causa-me confusão sobretudo a forma como as instâncias superiores do futebol as protegem, em detrimento dos clubes. E não entendo por que razão, neste futebol moderno em que tudo vale dinheiro, os clubes continuam a ceder, ainda que de má vontade, os seus jogadores às selecções. Como se não fosse óbvio que, num braço-de-ferro entre os clubes e a UEFA/FIFA, seriam sem dúvida as confederações quem sairia a perder, até porque a maioria dos adeptos realmente interessados em futebol, ainda que acompanhem a selecção, colocam o seu clube num patamar bem acima. A própria FPF deixa isso claro ao apelidar a selecção nacional de "clube Portugal", na esperança de que os adeptos se unam em torno da selecção como se de um clube se tratasse.
Irrita-me profundamente que um jogador do Porto venha da selecção lesionado. Irrita-me que um jogador do Porto tenha que abandonar os trabalhos do clube e faltar a jogos para se juntar à sua selecção. Irrita-me que um jogador do Porto inicie a época atrasado porque passou o mês de Julho inteiro na selecção. E irritam-me estas paragens constantes do campeonato para joguinhos de qualificação. Se calhar quem gosta da selecção acha tudo isto maravilhoso. Mas eu gosto do meu clube e acho tudo isto um despropósito.
Nesta altura da conversa há sempre alguém que se lembra de desencantar o argumento de que "a selecção valoriza os jogadores". O que pode ser verdade para jogadores de clubes secundários sem grande projecção, mas nunca para o Porto, que passa a época a jogar na Liga dos Campeões. Haverá eventualmente algum lucro financeiro indirecto da utilização dos jogadores nas selecções, considerando que jogar na selecção possa ter um efeito positivo no prestígio do jogador que se reflicta, por exemplo, na venda de camisolas, mas duvido que tenha grande peso. De um ponto de vista estritamente financeiro, não tenho dúvidas de que os clubes ficam a perder com a ida dos jogadores às selecções.
A meu ver, a única real vantagem para um clube de ceder um jogador à sua equipa nacional diz respeito à disposição psicológica do próprio jogador, que naturalmente se sentirá mais confiante e motivado. Mas essa estrada tem dois sentidos. Também a selecção beneficia da motivação extra de um atleta que assina por um grande clube, que joga num campeonato competitivo ou que está a fazer uma boa época. Tudo o que a selecção pode dar a um clube, o clube devolve em dobro. E ainda paga por isso. Não é justo.
É por isso que me junto ao coro que defende o estabelecimento de uma compensação financeira das (con)federações a todos os clubes que cedam os seus jogadores para jogos das selecções, sejam em grandes competições internacionais, em jogos de qualificação ou em jogos amigáveis. Bem sei que já se assinou uma carta de intenções a esse respeito – uma estrondosa derrota da FIFA, que tentou disfarçar esse facto referindo-se a "
uma vitória do futebol como um todo" – mas esse acordo só cobre a utilização de jogadores em Europeus e Mundiais, o que é duplamente injusto, até por deixar de fora precisamente os clubes mais pequenos e de países mais pobres. E a ver vamos quando é que as coisas passam do papel à prática. Esta semana foi a Comissão de Educação e Cultura do Parlamento Europeu que sublinhou essa evidência, ao mencionar no
Projecto de Relatório sobre a Dimensão Europeia do Futebol que os clubes devem ceder os jogadores às selecções "mediante uma compensação justa e um seguro colectivo". Só não vê quem não quer.
Dir-me-ão que as selecções "desempenham um papel essencial" ao futebol, expressão que, de resto, também consta no referido projecto de relatório. Que são imensamente populares, mais populares do que os clubes, que os Europeus e Mundiais são as competições mais importantes e emocionantes do futebol. Se assim é, que transformem então toda essa popularidade em euros e comecem a passar aos clubes a fatia que lhes é mais que devida.
E nem tudo é dinheiro. Parem para pensar, organizem-se, questionem o modelo actual. A CAN em Janeiro é sustentável? A Copa América a impedir os jogadores que actuam na Europa de fazer pré-época, é sustentável? O sistema de qualificação que obriga a constantes paragens dos campeonatos na Europa, é sustentável? Faltará muito para que a maioria dos jogadores comece a colocar os seus próprios interesses desportivos acima do desejo de jogar pela selecção? Quantos não o fazem já?
Algo tem que mudar. E é uma pena que a FIFA e a UEFA só ajam por coacção, quando encostadas à parede por uma posição de força dos clubes. É uma pena que se assumam como defensoras intransigentes dos interesses das federações nacionais, ainda que isso prejudique os clubes, em vez de buscarem proactivamente soluções benéficas para todos, que constituam uma "vitória do futebol como um todo" - mas a sério, e não só da boca para fora. É mesmo uma pena. E enquanto assim for, estarei sempre ao lado dos clubes. Até porque a minha selecção chama-se Futebol Clube do Porto.
Entretanto, e a meio de mais uma dessas pausas despropositadas - mas que, tendo em conta o nosso momento de forma, até pode ser que dê jeito -, vamos lá ver se Portugal ultrapassa a poderosíssima Bósnia e se qualifica para o Europeu do próximo ano. Tendo em conta que a partida será num local de tão boa memória para nós, pode ser que o Rolando e o Moutinho estejam particularmente inspirados :)