14 junho, 2006

Vitor Baia no Expresso ... Uma fantástica entrevista

Carreira e Palmares:
Nome: Vítor Manuel Martins Baía
Idade: 36 anos. Nasceu em São Pedro da Afurada (Vila Nova de Gaia) a 15/10/69
Família: Divorciado. Tem dois filhos, Diogo de 13 anos, e Beatriz de 9 anos
Habilitações académicas: Frequência do 11º ano
Clubes: Académica de Leça (até 1983); FC Porto (1983-1996; 1999 até ao momento); FC Barcelona (1996-1999)
Primeiros títulos: 1 Campeonato Distrital Iniciados; 2 Taças Nacionais Juvenis; 1 Campeonato Nacional Juniores
Títulos seniores: 9 Campeonatos de Portugal; 5 Taças de Portugal; 7 Supertaças de Portugal; 1 Campeonato de Espanha; 2 Taças do Rei; 1 Supertaça de Espanha; 1 Taça das Taças; 1 Taça UEFA; 1 Liga dos Campeões; 1 Taça Intercontinental
Internacionalizações: Selecção A: 76; Sub-21: 8; Juniores: 4; Juvenis: 11
É presidente do Conselho Fiscal do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol
É autor da autobiografia "Vítor Baía 99" e co-autor do livro infantil "Contos Redondos"
A sua fundação - Vítor Baía 99 - foi criada há dois anos para apoiar crianças e adolescentes desprotegidos

"Quero voltar ser o número 1"

O guarda-redes do FC Porto fala da Selecção, de Scolari, do seu clube e do mundo do futebol. Confissões do jogador com o maior palmares do mundo, que começou benfiquista e deve a carreira à irmã.

O Mundial de Futebol abriu ontem as portas e Portugal tem amanhã o seu pontapé de saída frente a Angola. Tal como aconteceu no Euro-2004, o Vítor Baía volta a ser o grande ausente da Selecção Nacional. Qual a razão por que o seleccionador nacional, Luiz Felipe Scolari, não gosta de si?
Isso eu também gostava de saber. Esta situação vai perpetuar-se: daqui a 10, 20, 30 ou 40 anos toda a gente se vai lembrar do caso. E um enigma. É uma situação para a qual ninguém consegue encontrar explicação. Só há uma pessoa que tem a explicação para isso e essa pessoa nunca teve a coragem de admitir ou de falar publicamente o porquê. Enquanto assim for, isto vai ser falado como uma das maiores injustiças do futebol nacional.

Numa entrevista televisiva, na SIC Notícias, Scolari já disse que não o considerava o melhor guarda-redes português.
Ele é evasivo. Disse que considerava que convocava os melhores mas nunca disse que eu não era o melhor. Escondeu-se sempre na capa de seleccionador. Ou seja: "Só falo dos que cá estão". Vamos ver se quando ele sair, quando já não tiver a capa de seleccionador, se diz quais são os verdadeiros motivos. Porque, como ele não assume, aparecem nos meios de comunicação social boatos, não se sabe de onde, para branquear. Mas nunca é nada da boca do seleccionador. Já surgiram tantas coisas - algumas delas nada simpáticas para comigo, nomeadamente que eu não seria convocado por questões disciplinares, de comportamento e eu nunca tive um único problema disciplinar na minha vida de jogador de Selecção. Nunca!

Na sua carreira teve um único grande problema disciplinar.
Tive um, com o José Mourinho, mais isso é outra questão. Nunca tive qualquer problema com nenhuma pessoa relacionada com a Selecção - nem presidentes, nem directores... Absolutamente nada! O comportamento com os meus colegas foi sempre impecável. Portanto, é uma questão do próprio seleccionador. Tenho de respeitar mas não posso aceitar. Tenho esse direito de não aceitar. Aliás, estive com o seleccionador uma vez e gostei de ter conversado com ele. Pareceu-me uma pessoa de bem, por isso é que estranho tudo isto.

Esse único contacto que teve com Scolari foi em 2003 durante uma viagem à Suíça, por ocasião de um jogo promovido pela ONU. Por que não lhe perguntou a razão de não o convocar?
Achei que não o devia fazer.

Pensou que tudo acabava por se resolver?
Qualquer um acha que a melhor via para se ir à Selecção é o rendimento em campo. Sou campeão da Taça UEFA, da Liga dos Campeões, varias vezes campeão nacional, tenho várias Taças de Portugal, fui considerado o melhor guarda-redes da Europa pela UEFA em 2004. Isto não é o suficiente para se ir a uma selecção nacional? E suficiente para ir à melhor selecção do mundo! E nem convocado sou!

Não se importava de discutir a titularidade com o Ricardo?
Não tinha problema nenhum. Aí, o seleccionador decidiria. Tal como o António Oliveira decidiu quando me viu treinar e ao Ricardo antes do Campeonato do Mundo de 2002, na Coreia. Se o seleccionador sentisse que outro colega meu tinha mais garantias, para mini perfeito. No Porto aconteceu-me exactamente o mesmo e toda a gente dizia que a minha reacção seria negativa, que eu não tinha perfil para ser o número dois, que iria criar mau ambiente, que seria um mau profissional... A prova está em que eu deixei de jogar no meu clube e as pessoas só têm a falar bem de mim.

A convocatória para este Mundial também gerou polémica com a exclusão de Quaresma, seu colega no Porto.
O Quaresma é um talento e todos sabem que ele tinha valor para lá estar. Quando o melhor jogador de um campeonato nacional não cabe na Selecção...?! Pelos vistos, não são todos filhos do mesmo Deus.

Considera-se o Romano português?
São casos diferentes.

Diferentes porquê?
Não sei se um caso com um jogador mediático não poderá ser uma estratégia para motivar os restantes e a partir daí ter os jogadores todos do lado dele. Se contra tudo e contra todos, ele não convocou o Romário e conseguiu ter a selecção brasileira toda do lado dele...

Mas houve uma vaga de fundo no Brasil...
Sim, mas ele teve a equipa toda do lado dele e acabaram por ser campeões do mundo.

Parece-lhe que isto tem unido a equipa em torno do Scolari?
Não sei. Se calhar sim. Porque a Selecção é uma Selecção unida. Porque aquilo funciona como um clube. Isso é uma política acertada do ponto de vista da união do grupo mas não nas outras componentes.

Entendeu como uma "provocação" a convocatória de Bruno vale, à data guarda-redes da equipa B do Porto, para o Euro-2004.
Pensei: "Mas que mal fiz a este homem para ele me estar a fazer isto?" Certamente com um futuro brilhante à sua espera, ele não deixava de ser o terceiro guar-da-redes do FC do Porto e nem sequer tinha sido uma única vez chamado à selecção principal. De repente aparece assim... Nem foi só comigo, acho que foi uma surpresa para todos os guarda-redes da Primeira Divisão.

Scolari voltou a insistir nele (entretanto substituído pelo Paulo Santos devido a lesão), no Quim e no Ricardo. Eles são melhores guarda-redes do que o Vítor Baía? Quem é o melhor guarda-redes de Portugal?
O que posso dizer é que, por muito respeito que me mereçam todos os guarda-redes portugueses, o meu termo de comparação nunca esteve em Portugal.

Quem é o seu termo de comparação?
O meu termo de comparação é o querer estar ao nível dos melhores do mundo. Nunca me preocupei com A, B ou C...

Estamos a falar de quem? O Preud'Homme? o Schmeichel?
Todos. É conseguir estar entre os melhores do mundo. É chegar a ser o melhor guarda-redes da Europa. Ser o melhor! E isso já consegui. A questão nacional para mim era um tema menos importante.

Considera-se então o melhor guarda-redes português?
Não me está a ouvir dizer isso, pois não? Nem nunca me vai ouvir dizer isso.

Estou-lhe a perguntar.
Respondendo à questão como estou a responder, respondo a tudo. Desde que comecei a minha carreira como sénior aos 18 anos quis sempre estar entre os melhores do mundo e demonstrei-o, não de letra, mas em campo, conquistando títulos importantes e sendo considerado pelas maiores entidades ao nível da Europa como o melhor. Não vou dizer que sou o melhor guarda-redes português porque sou logo criticado: "É pá, parece mal estares a dizer que és o melhor". Tenho de dizê-lo por portas travessas. É o país que temos.

Continua a deter o recorde da invencibilidade, não é?
1192 minutos em 2004. É obra. E custou bastante.

E desde 2004, quando conquistou o seu 27.° título, a Taça intercontinental - agora já tem 29 com o Campeonato e a Taça de Portugal deste ano -, tornou-se o futebolista com o maior número de títulos de sempre.
E ainda estou em actividade.

E, simultaneamente, passou a ser um dos oito jogadores do mundo que têm os três títulos europeus e a Taça intercontinental, e é o único português com as três taças europeias.
Da minha geração sou o único com esses quatro títulos. E há uma que ganhei mas não faço uso disso porque como estava lesionado nem sequer me sentei no banco; mas fomos todos convocados e se for ver os jogadores que ganharam a Supertaça da Europa pelo Barcelona, está lá o meu nome. Se a reivindicasse até era o único jogador no mundo com todas as taças.

O único título que lhe falta é com a camisola das Quinas. Para obter a titularidade no Porto teve de falhar o Mundial de Riade, invocando uma lesão.
O clube era obrigado a deixar-me ir a não ser que estivesse lesionado. E naquela altura não havia mais nenhum guarda-redes no FC Porto porque o Zé Beto estava castigado e o Mlynarczik lesionado.

Se o pudesse ter escolhido...
Escolhia o clube e depois o tempo veio a dar-me razão, porque tive uma oportunidade que podia ser única porque, na altura, apostar num guarda-redes com 18 anos era uma utopia. Só alguém com muita coragem e uma mentalidade completamente diferente do normal é que o faria. Artur Jorge foi essa pessoa.

Viu o jogo de Riade? Que sentiu?
Vi. Alegria. Vibrei com aquilo como se lá estivesse. Mas depois comecei a lembrar-me "Eh, eu podia estar ali também". Imagine a confusão que ia na minha cabeça.

Ficou dividido.
Fiquei, mas acabei por aceitar. Não tinha de lá estar.

Conquistar títulos é o que o faz correr?
Essa é a única forma de demonstrar o meu valor e de responder às pessoas que possam não ter uma opinião muito favorável - porque vivemos num país livre e eu não tenho de agradar a toda a gente. Não vou à procura de justificações para situações menos boas que me possam acontecer - a culpa é do vizinho, do sol, da água, da bola... nunca entro por aí - e tenho muito orgulho em ser assim, ou seja, assumo sempre as minhas responsabilida-des. É um erro tremendo irmos para a imprensa lutar contra tudo e contra todos, e falar mal de tudo e de todos. Só há um local onde podemos responder a tudo o que possa vir de menos bom: dentro do campo. E como? Ganhando títulos. Só assim conseguimos perpetuar um nome e uma carreira.

O que será uma boa classificação para Portugal neste Mundial?
Para uma Selecção o principal é a primeira fase, é uma barreira. Passada a primeira fase, qualquer equipa pode ser campeã do mundo. Depois é a eliminar e a partir daí tudo pode acontecer, porque há vários factores que pesam e nem sempre a que tem mais qualidade ganha. Desejo toda a sorte do mundo à Selecção e que cumpra os objectivos.

Vai ao Mundial a título pessoal ou como comentador de uma televisão, como aconteceu no Euro-2004?
Não. Vou estar o tempo todo de férias. Tive muitos convites para o fazer mas prefiro estar a descansar e tranquilo.

E se Portugal chegar à final vai assistir?
Não. A Alemanha não faz parte do meu itinerário de férias. Mas irei torcer por Portugal.

No Porto também tem estado no banco, sempre que Helton está operacional o treinador, Co Adriaanse, opta por ele.
Opções. Há que respeitar. É a mesma situação: respeito, mas posso não aceitar. No entanto, faço tudo para que o meu colega tenha todas as condições para poder jogar ao seu melhor nível. Não chego lá e crio mau ambiente, ou deixo de cumprimentar ou falar com o meu colega. Antes pelo contrário. As pessoas são diferentes. Eu sou assim. É a minha maneira de ser e orgulho-me disso. Ser diferente é algo que também me dá um prazer tremendo. As pessoas dizem: "Mas és diferente porque és mesmo ou é só aparência?" Sou diferente porque sou mesmo. As coisas saem-me com naturalidade. Não preciso de estar a fazer fretes, a fazer de conta que sou bom para, por trás, andar a minar tudo e todos e a fazer jogo sujo. Tem a ver com a minha educação, o meu crescimento e a minha maturidade. E o "mister" Adriaanse tem sido correcto. Tem as suas opiniões e demonstra-as duma forma frontal e educada. Respeito e posso aceitar ou não - mas isso já é um problema meu.

É uma espécie de regra um guarda-redes jogar na Liga e o outro na Taça...
Não é uma regra obrigatória, depende do treinador. Tinha a esperança de que poderia jogar a final da Taça de Portugal.

Ele disse-lhe a razão de não jogar a final da Taça?
O que o treinador fez, duas vezes, foi agradecer-me a minha postura, a minha ajuda, tudo o que tenho feito por ele, pelo clube e pelos meus colegas. Disse-me isto depois do jogo com o Penafiel, no qual nos sagrámos campeões, e depois da final da Taça de Portugal.

Tem contrato com o Porto por mais uma época. Se continuar no banco, admite seguir as pisadas do seu amigo Jorge Costa e ir para o estrangeiro?
Neste momento, o meu principal objectivo é cumprir o meu contrato. O meu pensamento não é de um jogador acomodado, longe disso, nem nunca poderá ser. Não está predefinido na minha mente que não vou jogar,mas sim que vou jogar quando regressar ao trabalho a 10 de Julho. Tenho a humildade de assumir e saber que sou o número dois. Mas na minha mente só há uma ideia: ser o número um e voltar a jogar. Ou seja, vou trabalhar e lutar para ser o número um, como se estivesse agora a começar a minha carreira. As pessoas pensam: "Mas este gajo é maluco. Então já ganhou tanto, já não precisa disto para nada e pensa como se ainda fosse um miúdo?" Mas esta é a minha forma de estar no futebol e na vida. Não estou acomodado a 29 títulos.

Deixar o Porto não é uma porta fechada...
Exactamente. Não vou estar a dizer que nunca irá acontecer isso porque não sei. Se tiver de seguir a minha vida, seguirei sem qualquer problema.

Da última vez que Pinto da Costa renovou o seu contrato e o do Jorge costa, ele disse que gostaria de continuar a contar convosco "na casa", mas provavelmente já não como jogadores.
Há sempre lugar no clube para jogadores que marcaram e fizeram tudo pelo clube.

Na equipa técnica?
Isso é uma suposição. Sentimos que as pessoas nos têm no coração porque é uma vida dedicada a uma causa, porque o FC Porto acaba por ser uma causa à qual nós só não damos aquilo que não podemos dar. Ficamos sempre completamente sugados de cada vez que temos de lutar por este clube.

Uma coisa é certa: tem azar com os treinadores holandeses porque no Barcelona teve graves problemas com Van Gaal.
Sim, mas penso que é coincidência, porque Co Adriaanse não tem nada a ver com o de Barcelona - esse faltou-me ao respeito. Aquilo foi assim: "Não gosto de ti porque não gosto de ti." E assim não havia nada a fazer. Porque ele dizia aos amigos que eu era o melhor guarda-redes que ele tinha. É maldade.

Mas tiveram alguma discussão?
Só tive uma discussão com ele - e grave - quando vi que não estava a ter uma oportunidade apesar das coisas não estarem a correr bem para o meu colega. Fui confrontá-lo com o que ele me tinha dito: que eu iria lutar de igual para igual. E ele diz-me: "O outro tem de estar muito, muito mal para tu jogares". Isto é brincar comigo, isto é maldade! Perguntei-lhe: "Você quer mesmo que eu me vá embora, não é?" Ele ficou a olhar para mim e não respondeu. Disse-lhe: "Olhe, o seu silêncio..."

Apesar de ter terminado mal a sua passagem por Barcelona começou da melhor maneira: em 1996, os seis milhões de euros da sua transferência tornaram-na na mais cara de um guarda-redes. E foi recebido apoteoticamente, até encheu a casa de electrodomésticos a troco de autógrafos.
Foi a primeira e última vez, porque aquilo foi de loucos. Tiveram de chamar a polícia e interromper o trânsito numa avenida enorme. Baixei a cabeça, meti-me no meio das pessoas e comecei a correr para a loja. Quando repararam que era eu, desataram a correr atrás de mim, mas consegui entrar na loja e salvar-me. Estive das sete da tarde à meia-noite a dar autógrafos.

Nem o Vítor tinha noção da sua popularidade...
Não. Pensava que era apenas uma figura nacional e, afinal, naquela altura já era uma figura internacional. Tinha muito a ver com o facto de já ter feito muitos jogos da Liga dos Campeões. E, a certa altura, os "media" espa-nhóis, nomeadamente os cata-lães, não sei como nem porquê, fizeram de mim um "sex symbol". Isto teve um impacto tremendo na comunidade feminina, e primeiro que eu conseguisse passar a mensagem de que era um homem casado e tranquilo... Aquilo era incrível: ia na rua e as miúdas começavam aos gritos e a chorar, atrás de mim... Pensava: "Isto não me está a acontecer". Via-me aflito para fazer as coisas que um cidadão normal faz, como ir ao cinema. Aqui em Portugal toda a gente sabia que eu era um homem de família...

Sim, mas em Portugal também é considerado o primeiro "sex symbol" do futebol nacional, o nosso Beckham...
Sim, mas lá teve uma repercussão tremenda.

Aqui não o abordam?
Abordam-me, dou autógrafos, mas é por simpatia...

Mas tem uma legião feminina de fãs.
Não sei, ouvi dizer que sim (estou a brincar). Cá não têm aquele tipo de manifestação.

São mais comedidas?
Controlam-se mais. Em Barcelona chegávamos ao aeroporto e era um caos, a polícia tinha de fazer cordões humanos até ao autocarro... Não era só comigo, era com todos os jogadores, púnhamos a cabeça de fora e as miúdas começavam a chorar e aos gritos... Era tipo uma "boys band" ou até os Beatles. Agora acontece o mesmo, se perguntar ao Deco como é quando vai a sítios públicos ele diz-lhe que é igual.

Depois do desaire de Barcelona regressa ao Porto e renasce para o futebol com José Mourinho. Considera-o o melhor treinador que teve, mas também foi com ele que viveu o seu único grave problema disciplinar. Não gostou que ele questionasse uma lesão sua, ele acusou-o de dar uma entrevista sem autorização do clube. Estas regras fazem parte dos vossos contratos?
No início de cada época é-nos entregue uma norma interna onde vêm as nossas próprias regras.

É nessa norma que aparecem as regras de relacionamento com a imprensa, um tema tão sensível no futebol?
Aparece tudo: as saídas nocturnas, a que horas temos de estar em casa... Por isso é que não se vê muitos jogadores do FC Porto, durante a época, na noite, e os que saem têm o castigo imposto pelo clube. Tem a ver com uma organização, com uma forma de viver do clube, se calhar, diferente de todos os outros.

Não lhe parece que os clubes fazem da comunicação social um bode expiatório dos problemas? São a única entidade colectiva a fazer "black-outs", a cortar relações com jornais... Nos "black-outs" o Porto é campeão.
Só temos pena dos "black-outs" pelos nossos adeptos, porque gostariam de estar mais informados e de ouvir os seus ídolos falar. De resto, não nos arrependemos porque têm a ver com as injustiças de que somos alvo.

E os "black-outs" resolvem esse tipo de problemas?
A nós tem-nos resolvido. Porque andamos tranquilos. Deitamos tudo lá para dentro, e as pessoas pensam que ficámos afectados com as críticas e a pressão negativa que exercem sobre nós, e é precisamente ao contrário.

Nunca se sentiu cortado na sua liberdade como cidadão?
Não, porque faz parte da nossa cultura e não somos obrigados a nada. Não estamos num tempo de ditadura. Os "black-outs" são propostos quer pela direcção, quer pela equipa técnica, quer pelos jogadores. Depois tanto pode ser aceite como não. E só se faz quando há unanimidade, porque se houver alguém que seja contra, já não fazemos. Vivemos em democracia.

Se assim é qual a razão por que há jogadores que furam os "black-outs"?
Ninguém fura os "black-outs" no FC Porto.

Um dos principais factores de pressão no futebol são as claques dos clubes. No Porto tem havido alguns casos complicados nos últimos tempos: as ameaças de morte a Mourinho, uma emboscada ao carro do actual treinador, jogadores que sentiram necessidade de contratar segurança privada, etc. Comportamentos violentos que são tranquilamente assumidos pelos líderes das claques, inclusive em declarações à comunicação social.
É o lado negativo, o lado que não queremos e contra o qual lutaremos, por parte de claques.As claques também têm um lado positivo: a forma como nos apoiam, indo connosco para todo o lado, e é isso que queremos delas. Depois há um outro lado que me custa explicar, porque não estou no meio deles, e que tem a ver com cada um: com o seu ideal, com aquilo que cada um quer da sua vida.

Há uma certa tolerância dos clubes para com esses aspectos negativos.
As claques já fazem parte duma indústria, são rendibilizadas, têm rendimentos e já são geridas como empresas. Ou seja: já não é propriamente o amadorismo ou o correr por gosto, também têm as suas compensações, e por isso o tema é complexo, porque há ligações clube-claque, há coisas que escapam a toda a gente e que, no fim, se torna difícil de explicar.

Já foi alvo de alguma situação?
Não. Se calhar outros colegas meus não o podem dizer, mas eu, pessoalmente, não posso falar mal de ninguém: não posso falar mal da claque, não posso falar mal dos seus líderes, não posso falar mal dos adeptos do FC Porto, antes pelo contrário, porque para comigo têm sido extraordinários.

O futebol é fértil no campo das ligações perigosas, o que espera do processo "Apito Dourado"?
O que esperam todos: que a montanha não vá parir um rato. Muita gente já foi julgada na praça pública e, pelo que me é dado a entender, algumas delas, nomeadamente o meu presidente, sem ter sido provado. Isto é algo inaceitável: a condenação pública antes da saída da sentença final. E no futebol há um aproveitamento mediático muito grande disso como forma de atingir pessoas. Até ao momento, as pessoas foram todas ilibadas porque as suspeitas eram infundadas.

Porque o futebol é a única modalidade a estar permanentemente sob suspeita?
Porque é uma estratégia dos clubes para encobrirem o insucesso das suas equipas, as más contratações, maus treinadores...

Estratégia como?
Porque assim desviam as atenções. Se falamos da arbitragem, não vamos falar que os jogadores foram mal escolhidos ou a época mal planificada. E o Zé Povinho só se agarra a isto. O dirigente que queira desviar as atenções da má política do seu clube fala dos árbitros.

É uma estratégia na qual inclui oseu clube e o seu presidente?
É uma estratégia que está enraizada na cultura do dirigismo português, em todos os clubes de "top". E depois isso é alimentado pela imprensa. É uma cultura do país.

E qual a razão de ninguém chamar os bois pelos nomes e todos falarem do sistema...
Porque não há provas.

O que é "o sistema"?
"O sistema" é imaginário para justificar...

Octávio - o técnico que popularizou "o sistema" - passa a vida a ameaçar "é hoje que digo..."
Mas ninguém diz nada porque ninguém tem nada para dizer. E ninguém tem nada para dizerporque ninguém tem provas de nada. A única situação em que disseram que tinham provas ainda não conseguiram provar nada: a do "Apito Dourado".

Não há fumo sem fogo...
Não concordo. Basta-me já ter sido alvo de boatos e invenções para não poder concordar com essa teoria.

Ainda a pressão: o que tanto gritam os guarda-redes na baliza?
As pessoas têm uma opinião favorável a meu respeito, dizem "este menino é uma pessoa bem educada" e se eu fosse a contar...

Mas na televisão dá para uma ter uma ideia...
Ê assim: a minha vida fora do futebol não tem nada a ver com aquilo que sou ali dentro em termos de linguagem e de postura. Porque em campo acabamos por
ter leis diferentes, aquilo torna-se uma arena onde ganha o melhor e o mais forte. E eu quero ser o mais forte e vencer.

Portanto, transforma-se quando entra em campo...
Transformo-me porque quero ganhar. Mas não a todo o custo. Fazer batota e ser trapaceiro não tem nada a ver comigo. É duma forma agressiva? Sim, na maneira como comando a minha equipa.

O que leva para o campo?
Nada. Só o meu equipamento.

Tem algumas superstições?
Não. Tenho a minha fé, mas não tenho ritual.

Usa um termo habitualmente conotado com a religiosidade para descrever o seu gosto pelo lugar de guarda-redes: "chamamento". Porquê?
Era um gosto anormal naquela altura, porque todos os miúdos fugiam da baliza. Todos queriam jogar à frente... Aliás, naquela altura punha-se na baliza quem tinha menos jeito para jogar à frente. Mas eu desde logo fixei-me naquele lugar e nem queria saber de jogar mais à frente. Depois de tantos anos, ao fazer uma retrospectiva sinto que nasci com um dom especial.

"Dom" foi a palavra que a sua irmã Lurdes usou para demover o seu pai quando ele reagiu mal ao seu abandono dos estudos, no 11° ano.
Não conseguia conciliar o futebol com os estudos. Foi complicadíssimo porque a reacção do meu pai foi bastante agressiva. Ao ponto de ele ter dito que fizesse as malas e saísse de casa. As mulheres da casa impuse-ram-se e disseram-lhe, primeiro a minha irmã e depois a minha mãe, que se eu saísse elas saíam comigo. Ele acalmou-se, reflectiu e agora o meu pai é o meu maior admirador.

E tornou-se num portista ferrenho, ficando para trás o amor ao Benfica, que, aliás, lhe havia transmitido. No seu caso, foi o seu primeiro treinador, ainda na Académica de Leça, Fernando Santos, que fez de si um "dragão". No gosto pelo clube mas não só... Ou poderia ser hoje economista como a sua irmã.
Um "olheiro" do Porto foi-me ver e ao Domingos, tínhamos uns 12 anos. O Domingos esteve bem e o guarda-redes da outra equipa brilhou, mas a mim quase não me viu defender. Ele disse ao Fernando Santos para levar o Domingos e o outro rapaz ao Porto, mas ele decidiu que ia eu, sem dizer nada a ninguém.

Mas quando passou de júnior para sénior, uma tromboflebite quase acabou com o seu sonho.
Foi na fase final do Campeonato de Juniores. Acordei com o braço direito pesado e adormecido. Era uma tromboflebite e ainda estive internado quase dois meses. Mas por causa disso não fui emprestado ao Famalicão e acabei por fazer a minha estreia na baliza do Porto, porque não havia mais ninguém disponível.

Como é que chegou de rapaz filho de um guarda-fiscal e de uma doméstica a dono de um carro milionário, o seu Mercedes McLaren?
Não falo desse tipo de questões, mas vou abrir uma excepção. Custa-me a compreender que jornais tenham feito primeiras páginas sobre isso, quando, se calhar, a nível nacional, os jogadores são das pessoas que mais solidariedade fazem. Tenho uma fundação que sobrevive maioritariamente com o meu dinheiro. E vêm-me agora falar de um carro e de luxos desnecessários?! Não posso, depois de tantos sacrifícios, cometer um excesso e comprar o carro dos meus sonhos?!

O que lhe falta fazer?
Tanta coisa! Por exemplo, dar seguimento a uma obra de que muito me orgulho, que é a Fundação Vítor Baía 99.

Quantas crianças já ajudou?
Muitas. Temos dois anos de existência, e é algo de que muito me orgulho. Outros projectos logo se verá...

Vê-se um dia sentado na cadeira da presidência do clube?
Oh, não...! Acredito que o presidente do FC Porto só sairá da presidência no dia em que deixar de existir, que eu espero que seja daqui a muitos anos. Por isso, enquanto o meu clube tiver um presidente como o que tem, isso nem me pela cabeça.

Pinto da Costa diz que o vê como um irmão mais novo, adoptivo. E o Vítor vê-o como um irmão mais velho ou como um pai?
Como um amigo. Mas não misturo as coisas. Ele é o meu presidente, o meu chefe e terá sempre o meu respeito, tal como ele vê em mim aquele jogador que só não dá o que não pode.
in "Revista Expresso", 2006.06.10

4 comentários:

  1. Palavras para Qué!È um verdadeiro SENHOR.

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  2. ALÉ BAIA ALÉ
    ALÉ BAIA ALÉ
    ALE BAIA ALÉ

    AQUELE ABRAÇO

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  3. melhor e com mais titulos que ele so um.............pintalhao



    scolari vai levar no cu
    madail vai chupar piças

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  4. Professora17 junho, 2006

    Isto é uma entrevista ou um testamento?

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