22 maio, 2008

A festa da Taça

O dia prometia emoções fortes. A ansiedade, misturada com aquele entusiasmo febril, típico dos momentos que antecedem os grandes jogos, eram uma mistura explosiva. O pequeno-almoço foi deglutido num ápice, com o relógio sempre a ser mirado, de esguelha, não fosse o ponteiro dos minutos avançar mais rapidamente do que o devido…

A convocatória, sem a pompa ou o mediatismo das escolhas do “mui nobre” seleccionador nacional, já tinha sido efectuada, atempadamente. Eles estavam convocados. Não para o Clube Portugal. Mas como parte integrante de um exército gigantesco que, nesse Domingo, marcharia para Sul, cantando alto e bom som o seu amor incondicional pela flâmula do Dragão…

Estilhaço. Lucho. Blue Boy. Makinho. Bicho. Eu mesmo, orgulhosamente trajando a camisola nova, ofertada por almas caridosas, com a inscrição sonante nas costas: “El Comandante”…

A marcha inexorável do tempo tinha começado. A contagem decrescente também. Rumo ao Jamor, numa auto-estrada colorida de azul e branca, pintalgada com um entusiasmo juvenil, difícil de conter…

A cada paragem retemperadora, o mesmo genuíno espanto. Milhares de portistas, imbuídos na mesma fé, crentes como sempre na vitória do Dragão, sempre fiéis, dizendo presente a cada momento, numa prova inequívoca do crescimento desmesurado do clube…

A final da Taça é isto. Convenciou-se dizer que este jogo, epílogo de uma longa época, é a festa. Será. Mereceria melhor palco, com condições mais dignas de acolhimento. Não aquele mausoléu de betão, decrépito e obsoleto. Mas a festa popular não precisa de grandes mordomias para acontecer. Basta um mísero local para pousar a toalha e acondicionar os acepipes, e as conversas fluem, livremente. O cheiro da carne grelhada, misturado com o doce torpor do vinho, os tremoços salgados unidos à imperial gelada, com a música pimba estridente nos altifalantes dos carros, transformando o verde da mata num ponto de troca de experiências, convívio sadio e exacerbação dos valores clubistas…

Cada final é uma experiência única, vivida de forma própria. Eu gosto particularmente de registar visualmente o que me rodeia, tentando reter aqueles momentos para mais tarde recordar, quase como se o meu cérebro funcionasse como uma máquina fotográfica. Sorrisos nervosos, bravatas cantadas, fanfarronices gritadas aos sete ventos, rostos fechados, sorumbáticos, faces pintadas, numa alegoria carnavalesca, numa miscelânea de emoções difícil de descrever em palavras.

Foi uma final com pouco Porto. Ou antes, com um Porto acomodado, para utilizar um eufemismo. Uma equipa lenta de processos, descoordenada nas transições, incapaz de romper os espartilhos colocados por um adversário mais motivado e com a lição bem estudada. Residiu aí, em primeiro lugar, a diferença qualitativa entre as duas equipas. A questão colateral do caso Bosingwa, ainda por esclarecer, privou o onze azul e branco de um dos seus desequilibradores natos, fazendo a própria equipa técnica titubear na solução para a sua ausência. Num momento comparável ao hara-kiri dos pilotos japoneses, na II Grande Guerra, quando estes enviavam os próprios aviões contra os couraçados inimigos, o Porto começou a final com claras tendências suicidas. A concessão da lateral esquerda ao pouco rotinado João Paulo, quando o bom senso aconselharia a sua inclusão no flanco oposto, fez da equipa que subiu ao relvado uma amálgama de talento confusa. Não foi, por isso, de estranhar a medíocre primeira parte, longe dos momentos exuberantes que nos deliciaram, ao longo da época.

O Porto sobreviveu como pode, sobretudo através das injecções de moral dadas por um herói improvável: Nuno, o eterno relegado para o banco, por sucessivas gerações de guarda-redes, mostrou a raça dos virtuosos, defendendo com abnegação e empenho a guarda da baliza azul. O espectáculo azul e branco resumia-se aos cânticos incessantes de incentivo, vindos do Topo Sul, onde os bravos adeptos, fustigados por um sol abrasador, um vento de arrepiar e uma chuva fina e gélida, não paravam de acreditar. “Nós somos a tua voz…”

Grande parte das possibilidades de erguer o troféu, na tribuna presidencial, foi cerceada pela intempestiva entrada de João Paulo, reduzindo a equipa a 10, obrigando-a a um esforço hercúleo.

Mas, paradoxalmente, foi ali, naquele fatídico minuto 71, que ressuscitou o espírito indomável do campeão. Qual Fénix renascida das cinzas, a equipa mostrou os seus verdadeiros atributos. A raça do Dragão assomou ao relvado do Estádio Nacional, equilibrando a contenda, criando oportunidades, dando a ideia de que a vitória não era mera utopia. Só que a equipa de Jesualdo está preparada, apenas, para jogar contra 11 opositores. Mas havia mais um, sedento de protagonismo…

Causticado pela imprensa, vilipendiado pelo público, Olegário cumpriu no Jamor nova etapa de reabilitação moral. Marcado de forma férrea pelo pretenso erro de análise, que teve Baía como protagonista, o juiz leiriense nunca mais conseguiu fugir das malhas acintosas dos paladinos da escrita, autores de campanhas difamatórias que destroem reputações com enorme facilidade.

Depois de ter cumprido, sem grande parcimónia, a primeira etapa da sua via-sacra, ao validar um golo precedido de falta, na Supertaça entre Benfica e Setúbal, permitindo assim a conquista do troféu pelo clube encarnado, Olegário recebeu a nomeação para a final da Taça como nova e sublime oportunidade de resgatar a sua honra do opróbrio a que tinha sido votada.

A arbitragem do Jamor não foi mais do que o desnudar da realidade lusa, no que toca aos homens do apito. Dualidade de critérios disciplinares, incompetência notória no acompanhamento dos lances, análises deturpadas dos casos polémicos, numa confrangedora nulidade que, num qualquer País que se preze, só poderia redundar na abertura de um inquérito disciplinar. Com direito a reforma compulsiva. Mas isso seria num Mundo perfeito. Aqui, o Benquerença está finalmente reabilitado. O País já pode respirar de alívio....

ps - O artigo que acabei de escrever não tenta, nem poderia, encontrar bodes expiatórios, dentro do clube, para uma derrota dolorosa. Sempre achei que é nestes momentos, pós desaire, que se sente a alma de um clube. E, confesso, ouvindo os humilhantes “olés” da claque adversária, naquelas bancadas de cimento, com a cara fustigada pelas bátegas de água despejadas por um céu inclemente, senti-me orgulhoso. De ser PORTISTA. Do apoio incondicional dos milhares de adeptos. Da atitude demonstrada pela equipa, mesmo reduzida a 10 homens. Há momentos de descrença. Outros de euforia. No Domingo, apesar de tudo, saímos fortalecidos. E isso diz tudo em relação ao clube. O futuro é nosso. E é já a seguir!

10 comentários:

  1. Não tenho nada a acrescentar.
    Um abraço

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  2. E as novidades do mercado? ninguém fala? Tomás já assinou. Será que vamos trazer também o Grimi?

    E mais reforços?

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  3. Falando dos Benquerenças

    ... reabilitado não diria. Trazido ao redil, sim. Finalmente ele percebeu como pode ser considerado "competente". Daqui para o futuro, terá muitas mais arbitragens de conveniência. É só estarmos atentos...

    É assim este país. Preconceituoso, amoral, mesquinho, e nada sério.

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  4. Viva !

    Paulo Pereira ,nas imagens televisivas bem me pareceu que a dados momentos chovia.

    Na Biscaia, lá para San Sebastien, há um provérbio popular que diz que quando está sol e chuva ao mesmo tempo é porque "O diabo bate na mulher e casa a filha".

    Pensei na Biscaia porque existe ainda ,salvo erro, ou existia até há pouco, um clube que jogava só com jogadores Bascos.

    E termino a minha associação de ideias . O diário "Le Monde" apresenta hoje uma entrevista importante com Blatter. Em substância este vai pedir, com a ajuda de Platini, a aplicação da regra do 6 + 5 , junto de Sarkozy. A França tem a presidência da UE a partir de Julho. Ou seja, a existência, tal como para a cultura, duma excepção desportiva.

    A notícia já começa a circular nas edições desportivas on line. E é bem aceite.

    Os argumentos de Blatter parecem consistentes.

    A ver vamos !

    E viva o Porto !

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  5. Paulo :

    Não sei se saí fortalecido...

    Mas sei que (apesar de Malquerença)perdemos uma oportunidade soberana de ganhar a TAÇA .

    Assim tivéssemos tido outra atitude!

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  6. Cuidado com esse senhor do chapéu que é um portista como poucos!!!!
    Homenageado pelo seu grande portismo por parte do nosso presidente.

    O Carnaval e o Porto são as suas maiore alegrias.

    Digo com a certeza de quem conhece a pessoa.

    Saudações azuis e brancas
    Carlos Pinto

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  7. Nem acredito no nome que me disseram para treinador adjunto do Benfica.

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  8. Viva !

    Esqueci acrescentar o seguinte.

    Ando mais que atarefado.

    Se o diário " Le Monde " dá tanta importância às palavras de Blatter é porque sem dúvida estas são tomadas em consideração.

    O " Le monde" não é mais que a montra do "Quai d'Orsay " ( sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros ). Por outras palavras... há que começar a pensar na ideia de Blatter.

    Escrevi já um artigo sobre o assunto, mas o título saíu-me mal.

    Acho que este deveria ter sido 6+5.

    Aqui anda tudo a ferver com as declarações de Blatter !

    Creio que o Porto só tem a ganhar com tal excepção desportiva !

    Porque nunca é dito que o Porto foi o único clube Português a ganhar competições europeias com treinadores Portugueses ?

    E Viva o Porto !

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  9. Paulo mais um belo post.

    "E, confesso, ouvindo os humilhantes “olés” da claque adversária, naquelas bancadas de cimento, com a cara fustigada pelas bátegas de água despejadas por um céu inclemente, senti-me orgulhoso. De ser PORTISTA"

    Lindas palavras. Parabéns.

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