08 janeiro, 2009

24 anos de eterna saudade do “Mestre”

José Maria Pedroto
nascido em 21 de Outubro de 1928
falecido em 08 de Janeiro de 1985

José Maria Pedroto é reconhecidamente um dos maiores vultos do futebol português, quer pela excelente carreira que protagonizou como futebolista na década de 50 do século passado, quer, em especial, pela carreira que realizou como técnico, sendo que é para muitos considerado, ainda hoje, como o melhor treinador de sempre do futebol português.

O seu nome ficará para sempre ligado a história do futebol em Portugal, como sendo um dos grandes responsáveis pela profunda alteração geográfica ocorrida no mapa futebolístico nacional, nomeadamente, acabando com a hegemonia dos dois grandes clubes da capital na conquista das principais competições, ou com a preponderância dos clubes da zona sul, que invariavelmente passaram a estar em minoria na 1ª Divisão Nacional, em relação às equipas sedeadas na zona norte.

Foi protagonista em vários clubes nacionais, especialmente nortenhos, assumindo um relevante papel na afirmação nacional de equipas como o Varzim SC, o Boavista FC, o Vitoria de Setúbal, ou o Vitoria de Guimarães. Mas seria no FC Porto, especialmente ao lado de Jorge Nuno Pinto da Costa, que José Maria Pedroto empreenderia a maior transformação, levando a principal formação da cidade invicta a conquistar os títulos nacionais que sucessivamente teimavam em fugir para os clubes da capital, ou projectando e implantando a organização interna que ainda hoje prevalece no FC Porto, reconhecido presentemente como um dos maiores clubes do mundo.

José Maria Carvalho Pedroto, nasceu no dia 21 de Outubro de 1928 na freguesia de Almacave, no concelho de Lamego. Segundo reza a história de Portugal, Almacave foi o local onde D. Afonso Henriques realizou as primeiras Cortes para a fundação do nosso país. Talvez imbuído do mesmo espírito do nosso primeiro Rei, também José Maria Pedroto iria tornar-se um conquistador no futebol português.

Filho de um militar, Capitão do Exercito português, Pedroto deixou aos 7 anos de idade o interior de Portugal e rumou ao Porto, para onde seu pai foi colocado para prestar serviço num quartel desta cidade. Após o falecimento do progenitor o jovem José Maria foi internado no Colégio Araújo Lima, ali bem próximo do Campo da Constituição na cidade invicta, onde começou a nascer o sonho de tornar-se jogador de futebol.

Começou a dar os primeiros pontapés na bola naquele mítico recinto portista, pela mão do austríaco Gutkas, o responsável das camadas jovens do FC Porto. Pedroto tinha como ídolo de infância o futebolista Pinga da equipa principal do FC Porto.

Com 10 anos de idade foi viver com a família para a zona de Pedras Rubras, onde, juntamente com um grupo de amigos, fundou o FC Pedras Rubras, clube onde exerceu o cargo de Presidente e foi naturalmente o capitão da equipa de futebol. Pela distância entre o local onde residia e o centro da cidade invicta foi obrigado a deixar o FC Porto.

Seria no Leixões SC, a partir de 1946, que começaria a praticar futebol, digamos que mais a sério, na equipa de juniores leixonense, já com 18 anos de idade bem vividos. Aí começou a deslumbrar com o seu potencial futebolístico todos aqueles que assistiam as partidas da jovem equipa da cidade de Matosinhos. Actuava preferencialmente a meio campo, numa posição que naquela época se apelidava de interior.

Pedroto era um miúdo cheio de talento, mas ao mesmo tempo um pouco sobranceiro, o que lhe valeria fortes reprimendas do seu técnico, que lhe serviriam de lição para o futuro de reconhecido técnico disciplinador. Conta Pedroto um episodio da sua carreira de miúdo no Leixões: “No final de um jogo disputado no Bessa, a certa altura pedi a bola ao guarda-redes, driblei quantos adversários me apareceram pela frente, incluindo o guarda-redes contrário e, sozinho, parei a bola em cima do risco da baliza. Ufano, puxei os calções, alisei o cabelo e, cheio de sobranceria, toquei o esférico com o calcanhar para dentro da baliza. No fim do desafio os colegas levaram-me aos ombros para as cabinas. Mas o treinador Armando Martins pregou-me um sermão que até me fez chorar. Nunca mais esqueci essa lição de que um futebolista deve jogar para a sua equipa e não para a galeria”.

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O CF Belenenses e o FC Porto lançaram-se numa frenética corrida a sua aquisição. Ganhou o CF Belenenses, que ofereceu a Pedroto 25.000 escudos como prémio de assinatura e um emprego no Ministério da Marinha e pagava outro tanto ao Lusitano FC pela desvinculação do jogador.

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Mesmo antes de assinar pelo clube da Cruz de Cristo, o FC Porto ainda enviou um emissário que lhe colocou nas mãos um cheque no valor de 80.000 escudos, uma astronómica quantia naquela época, como prémio para rubricar contrato com o clube da cidade do Porto.

Porém, Pedroto não voltou com a palavra atrás cumprindo o acordo verbal que tinha assumido com o CF Belenenses e assim rumou ao clube da capital. Alem do FC Porto, José Maria Pedroto recusou ainda propostas de clubes como o SL Benfica, Académica de Coimbra, Vitoria de Setúbal e Vitoria de Guimarães.

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Em 1952/53, Pedroto transferiu-se finalmente para o FC Porto depois de muita insistência dos responsáveis azuis e brancos. Alias, o jovem jogador – que auferia um bom salário no CF Belenenses ao que lhe juntava aquilo que arrecadava como escriturário na empresa Hidroeléctrica do Zêzere - fez um pedido megalómana aos emissários do FC Porto, dado que a bem da verdade não tinha intenção alguma de abandonar o clube da Cruz de Cristo. Pedroto pediu ao FC Porto 150.000 escudos!

O FC Porto aceitou, protagonizando assim a transferência mais cara do futebol português até então. Foram no total 500.000 escudos a maquia despendida pelo FC Porto na aquisição de Pedroto, arrecadando o CF Belenenses o montante de 335.000 escudos, pela transferência, verba essa que seria usada pelo clube da cidade de Lisboa na construção do Estádio do Restelo.

Ao serviço do FC Porto, o médio Pedroto, conquistou títulos e tornou-se internacional português, uma vez que tratava-se reconhecidamente de um dos melhores jogadores portugueses. Faria a sua estreia pela Selecção Nacional de Portugal no dia 20 de Abril de 1952, pela mão do seleccionador Cândido de Oliveira, que o lançou no decorrer do desafio que opôs a França à equipa portuguesa no Estádio Colombes na cidade de Paris, entrando para o lugar de Joaquim Machado.

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Ao serviço do FC Porto permaneceu durante oito épocas consecutivas como jogador de futebol onde conquistaria dois títulos de Campeão Nacional e venceu uma Taça de Portugal.

O FC Porto, que já não vencia o Campeonato Nacional da 1ª Divisão há mais de 15 anos, sagrou-se campeão na época de 1955/56 e venceu a Taça de Portugal, sob o comando técnico de Dorival Yustrich, com Pedroto a alinhar em 24 desafios e a apontar 2 golos na competição.

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Três anos depois renovou a conquista do Campeonato Nacional da 1ª Divisão de 1958/59, já sob a égide do treinador húngaro Bela Guttman, que substitui Otto Bumbel naquela temporada. José Maria Pedroto, com 30 anos de idade e perto do final da carreira, jogou apenas 5 partidas oficiais sem ter apontado qualquer tento.

Aquele título azul e branco foi o último antes de dar início a um longo jejum que apenas viria a ser quebrado em 1977/78 já com José Maria Pedroto no cargo de treinador principal do FC Porto.

Pedroto colocou um ponto final na carreira de futebolista no final da época de 1959/60 abraçando imediatamente a função de treinador. Foi o primeiro treinador português a fazer um curso de treinador ministrado pela afamada Federação Francesa de Futebol, com apenas 31 anos de idade, apresentando uma tese final com aquilo que considerava ser os 17 princípios de jogo, obtendo na altura uma brilhante classificação. Entre 87 inscritos, apenas 5 foram aprovados, sendo José Maria Pedroto o único estrangeiro a obter o diploma.

Com 25 anos de idade José Maria Pedroto já tinha o curso de treinador de futebol, obtido na frequência de uma formação ministrada por Cândido de Oliveira sob a égide da Associação de Futebol Porto.

Assumiu prontamente o cargo de treinador nas camadas jovens do FC Porto e também na Selecção Nacional da categoria de juniores, juntamente com David Sequerra, onde conquistaria o Torneio Internacional da Uefa naquela categoria, numa prova disputada pelas 13 melhores selecções do velho continente. Conquistou assim com a equipa de Portugal, onde pontificavam jogadores como Simões, Peres, Carriço e Serafim, o primeiro título europeu nas camadas jovens, recebendo Pedroto de prémio pela conquista a quantia de 2.250 escudos.

Das camadas jovens do FC Porto passa para o comando da equipa principal da Académica de Coimbra, a sua primeira experiência como treinador de uma equipa sénior, onde se mantém nas épocas de 1961/62 e 1962/63.

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Das camadas jovens do FC Porto passa para o comando da equipa principal da Académica de Coimbra, a sua primeira experiência como treinador de uma equipa sénior, onde se mantém nas épocas de 1961/62 e 1962/63. Segue-se o Leixões SC, uma casa a que regressa agora como treinador, e mais tarde o Varzim SC.

No Varzim SC, modesto clube do litoral norte de Portugal, o treinador José Maria Pedroto fez um trabalho notável colocando a equipa poveira como verdadeira sensação do Campeonato Nacional da 1ª Divisão da temporada de 1965/66. Alem do brilhante 8º lugar obtido no final da competição, avulta acima de tudo a excelência do sempre elogiado estilo de futebol praticado pelo Varzim SC.

A qualidade do trabalho que realizava e a bagagem de experiência que acumulou abriu-lhe as portas do regresso ao FC Porto em 1966, concretizando assim o seu sonho de tornar-se treinador principal da equipa azul e branca.

Permaneceu no FC Porto - nesta que seria a sua primeira passagem como técnico - três épocas consecutivas, onde nunca conquistou o Campeonato Nacional da 1ª Divisão, mas venceu a Taça de Portugal na temporada de 1967/68, o seu primeiro titulo como treinador, derrotando na final da competição o Vitoria de Setúbal por 2-1.

A última época desta sua primeira passagem pelo FC Porto, na temporada de 1968/69, a conquista do principal ceptro nacional esteve bem próxima. A equipa iria claudicar na ponta final da prova perdendo o título para o grande rival SL Benfica.

Este desiderato e alguns episódios intermédios azedaram as relações de José Maria Pedroto e Afonso Pinto Magalhães, principal dirigente portista, de forma que o treinador acabou por ser afastado da função de técnico principal do FC Porto.

No final de um jogo no Estádio da Luz frente ao SL Benfica a contar para os dezasseis avos de final da Taça de Portugal da época de 1968/69, em que o FC Porto foi derrotado por inapeláveis 3-0, José Maria Pedroto visivelmente irritado não esteve para contemplações e impeliu todos os jogadores portistas a permanecer em estagio no Lar do Jogador até ao encontro seguinte a contar para o Campeonato Nacional.

Custodio Pinto, Américo, Gomes e Alberto, atletas do FC Porto, que alem de futebolistas eram também empresários, desobedeceram às ordens do técnico com o argumento de que não poderiam deixar os seus negócios durante tanto tempo, só para ficarem reunidos em estágio.

Pedroto, disciplinador rigoroso, deixou aqueles quatro jogadores de fora da equipa, colocando alguns deles a treinar na formação das reservas. No jogo seguinte para o Campeonato Nacional, o FC Porto, que liderava a prova, apostou numa equipa alternativa sem aqueles titulares, mas acabou por ser surpreendido em casa por 0-1 pela Académica de Coimbra.

Na semana imediata, novo resultado negativo, desta feita cedendo um empate, novamente nas Antas, frente ao modesto União de Tomar, hipotecando assim irremediavelmente a conquista do titulo de campeão nacional da época de 1968/69.

Os adeptos não perdoaram Pedroto, culpabilizando-o pela perda do título, nem tão pouco os dirigentes portistas que o afastaram definitivamente do comando da equipa no dia 11 de Abril de 1969, substituindo-o pelo seu fiel adjunto António Morais. José Maria Pedroto reagiu exigindo ao FC Porto uma compensação de 452.000 escudos decorrente de prémios, salários e danos morais.

Esta afronta de José Maria Pedroto levou o assunto à Assembleia-geral do FC Porto que aprovou uma moção, sob proposta de Sebastião Ribeiro, que impedia o técnico português de regressar ao clube portista.

Banido nas Antas e impedido de trabalhar no seu clube do coração, José Maria Pedroto prosseguiu a sua carreira no Vitoria de Setúbal, assinando um contrato válido por 5 épocas, com um prémio de assinatura de 350.000 escudos.

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Entretanto, enquanto Pedroto fazia carreira no Vitoria de Setúbal e depois no Boavista FC, o seu FC Porto coleccionava insucessos. Desilusões atrás de desilusões que invariavelmente terminavam com as vitorias dos principais clubes de Lisboa. Desde 1958/59 que o FC Porto não conseguia conquistar o Campeonato Nacional da 1ª Divisão e a Taça de Portugal não a vencia desde 1967/68. Desde esta ultima temporada que o principal clube da cidade invicta não conquistava um único troféu de relevo percorrendo assim um longo jejum.

Porque acreditavam ser José Maria Pedroto o único homem capaz de alterar o “status quo”, um grupo de associados do FC Porto, que incluía Jorge Nuno Pinto da Costa, decidiu requerer um Assembleia Geral visando amnistiar o técnico da sanção que havia sido alvo em 1969. Em 21 de Março de 1975 realizou-se a mencionada Assembleia-Geral onde foi aprovado por unanimidade perdoar José Maria Pedroto, que assim, enfim, poderia regressar.

Quando tudo levava a crer que José Maria Pedroto iria regressar ao FC Porto, inesperadamente, no dia 31 de Março de 1975, poucos dias após a Assembleia Geral da amnistia, o Boavista FC acerta a renovação do contrato com o técnico que assim permaneceu na equipa do Bessa, cumprindo o acordo verbal que havia estabelecido com o Major Valentim Loureiro.

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Assina contrato com o FC Porto (76/77), após uma investida directa de Pinto da Costa, que estava devidamente autorizado pelo Presidente Américo Sá para contratar a qualquer custo o treinador português. José Maria Pedroto apenas colocou uma condição que se verificou: Que Pinto da Costa foi o Chefe de Departamento de Futebol Profissional. Começava assim uma dupla que marcou e marcará inquestionavelmente para sempre uma época no futebol português.

Pinto da Costa e José Maria Pedroto traçaram uma estratégia que visava afrontar todos os poderes instalados no futebol português e de uma vez por todas acabar com a hegemonia bicéfala dos clubes da capital.

A temporada de 1976/77 foi altamente conflituosa. O FC Porto acabou apenas em 3º lugar no Campeonato Nacional da 1ª Divisão a 10 pontos do SL Benfica que foi o Campeão Nacional. Venceu porem a Taça de Portugal numa final onde derrotou o SC Braga por 1-0.

No ano seguinte, finalmente, foi quebrado o longo jejum de vitórias dos FC Porto no Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Os azuis e brancos sagraram-se Campeões Nacionais depois de um competição disputadíssima, decidida na “goal average”, com o SL Benfica, que foi 2º classificado, com a proeza inacreditável protagonizada pelo clube da Luz, que não perdeu qualquer encontro na prova e não foi campeão.

Renovou o título de Campeão Nacional na época seguinte de 1978/79 em mais um campeonato extremamente disputado com o SL Benfica. Em 1979/80 perdeu o título para o Sporting CP, quedando-se o FC Porto no 2º lugar do Campeonato Nacional da 1ª Divisão somente a 2 pontos dos leões de Alvalade.

Depois destes 3 anos a frente da equipa do FC Porto o clima de “guerrilha” no futebol português, envolvendo os principais clubes e os poderes de decisão na FPF, estava extremamente intenso e fortemente acicatado por José Maria Pedroto e Pinto da Costa. Era um chorrilho de polémicas e um constante ambiente fervente entre os protagonistas.

Mário Wilson, durante o período em que foi treinador do SL Benfica, ou mesmo na Selecção Nacional, foi sempre um alvo privilegiado de José Maria Pedroto, como se tratasse de um verdadeiro ódio de estimação.

Como exemplo do clima que se vivia e as repercussões nas pessoas destaca-se recorrentemente um episódio ocorrido na época de 1979/80. Naquele período, Mário Wilson era o seleccionador nacional que convocou vários jogadores do FC Porto para representar Portugal num jogo particular contra a Espanha que seria disputado na cidade de Vigo. Esse jogo seria realizado entre os dois jogos do FC Porto para a Taça dos Campeões Europeus frente ao AC Milan o que evidentemente prejudicava a preparação da equipa portista.

Por isso, José Maria Pedroto não se conteve, chamando “palhaço” a Mário Wilson. Os jogadores do FC Porto iriam juntar-se ao grupo da Selecção Nacional que vinha de Lisboa na Estação de Comboios da Campanhã no Porto. Aí, em vez dos jogadores do FC Porto estava uma verdadeira multidão em fúria que apedrejou o comboio que transportava a equipa de Portugal.

O FC Porto acabou por eliminar o AC Milan. José Maria Pedroto foi multado pelas instâncias federativas em 500 escudos. O popular “Zé do Boné” não emendou, em jeito de reacção acrescentou: “Quando disse que Mário Wilson, como treinador, era um palhaço, não tive intenção de ofender os palhaços.”

A verdade é que este tipo de discurso era recorrente em José Maria Pedroto. Frases como “temos de lutar contra os roubos de igreja no Estádio da Luz”, ou “passamos de pombinhos provincianos a falcões moralizados”, ou ainda “é tempo de acabar com a centralização de todos os poderes na capital” eram frequentes no linguajar do técnico.

Depois do FC Porto perder o Campeonato Nacional da 1ª Divisão da época de 1979/80, não conquistando o tri, José Maria Pedroto foi afastado do cargo de treinador principal do azuis e brancos pelo Presidente Américo Sá que se dizia farto das polémicas e conflitos gerados pela dupla Pinto da Costa e Pedroto.

A saída de José Maria Pedroto e de Pinto da Costa do FC Porto foi conturbada originando o celebre verão quente de 1980, quando 14 jogadores do FC Porto, onde constavam nomes como o de Costa, Oliveira, Octávio, Sousa, Frasco, Gomes, entre outros, fizeram uma autêntica rebelião não comparecendo aos trabalhos no arranque da temporada de 1980/81.

O Presidente do FC Porto Américo Sá deixava o nome de Pinto da Costa fora das listas concorrentes aos órgãos sociais. Em forma de protesto e demonstrando estar ao lado do actual presidente portista, 14 jogadores não compareceram aos trabalhos de preparação para a nova época sob os comandos do austríaco Herman Stessl, entretanto escolhido para suceder a José Maria Pedroto.

Esses 14 jogadores trabalhavam no Pinhal de Santa Cruz do Bispo às ordens de Hernâni Gonçalves, preparador físico de José Maria Pedroto, enquanto que os jogadores do FC Porto, os apelidados de “alinhados”, prosseguiam a sua preparação em Leiria.

Desempregado, José Maria Pedroto, foi alegadamente seduzido por responsáveis do SL Benfica para assumir o cargo de treinador principal dos encarnados. Esse facto não se consumou porque, dizem, alguns dirigentes benfiquistas vetaram o ingresso do técnico no clube, outros, afirmam que foi o técnico que não aceitou rumar a Lisboa pois pretendia continuar a trabalhar no norte do país.

Também o Sporting CP, presidido naquela época por João Rocha, fez tudo para José Maria Pedroto ingressasse no clube de Alvalade. Diz-se que o acordo estava praticamente selado entre ambas as partes, com todas as cláusulas integrantes do contrato devidamente combinadas.

A verdade é que a entrada de José Maria Pedroto como treinador do Sporting CP em Alvalade nunca se consumou. Conta-se que no dia aprazado para que as partes rubricassem o contrato, Pedroto terá feito marcha-atrás, alegadamente, pelo facto do Presidente do Sporting CP não lhe ter garantido que “controlava” os árbitros.

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Mas afinal qual o verdadeira essência que distinguia Pedroto dos restantes técnicos naquela época. Onde residia a diferença que fazia e faz dele, para muitos, como o melhor treinador português de sempre?

José Maria Pedroto era acima de tudo um homem profundamente inteligente com ideais sobre o futebol totalmente avançadas e surpreendentes para aquela época. Era também assustadoramente frontal e directo, o que para muitos era uma virtude e para outros um defeito que não suportavam.

Adepto confesso do espectáculo, era um apologista do futebol ofensivo, onde a eficácia e o pragmatismo tinham contudo que imperar, pois não admitia perder já que reagia muita mal as derrotas. Usava como ninguém a vertente psicológica, não só potenciando o rendimento dos seus jogadores, ou quais defendia como ninguém, como tentando pressionar adversários.

Cedo percebeu que a evolução do futebol, essencialmente o português, dependia do aperfeiçoamento físico e técnico dos jogadores, o que necessitava que os atletas se tornassem verdadeiramente profissionais e aplicados. Mas alem das exigências aos jogadores, também se mostravam necessárias um conjunto de outras medidas que sustentassem o progresso do futebol português.

Pedroto sempre se bateu pela concretização dessas medidas estruturais, tais como melhores campos de futebol, melhores condições para os jogadores, mais e melhores bolas, botas e outros cuidados médicos.

Destacam-se, desde já, os princípios da fórmula vencedora do mestre José Maria Pedroto: Em primeiro lugar a equipa tinha que ser unida, o espírito de grupo, a coesão entre os atletas que compõe a formação que comandava era essenciais para o êxito. Pedroto não hesitava nunca em sacrificar algum jogador, mesmo que fosse dos mais credenciados, em prol do grupo. Por outro lado, defendia os seus jogadores “com unhas e dentes” mesmo que para isso tivesse que enfrentar os dirigentes.

Em segundo lugar, a estratégia de Pedroto, para quando perdia, passava por imputar as responsabilidades pelas derrotas ao exterior. Quando perdia, a culpa ou era do arbitro, ou dos poderes instituídos no futebol português que teimavam em prejudicar a sua equipa.

Com os jogadores mantinha uma relação muito própria. A disciplina era exigência máxima. O empenho tinha que ser total. Mas Pedroto conseguia motivar os seus jogadores como ninguém. Incutia-lhes sempre um espírito de vitória onde ressaltava, naturalmente, a vertente psicológica em muitas conquistas.

De resto, José Maria Pedroto destacava-se também pela sua característica indumentaria onde o xadrez nas suas roupas ou no singular boné que usava marcaram um estilo. Além disso, o Zé do Boné era extremamente supersticioso, obedecendo frequentemente a determinados rituais antes e durante as partidas. A título de exemplo, Pedroto nunca usava roupa nova nos dias dos jogos, nem tão pouco admitia que alguém do seu grupo usasse.

Adorava jogar as cartas, um dos passatempos preferidos, mas mesmo aí não admitia de forma alguma perder. Gostava de pescar e de estar em reunido com os amigos, alem de que era um noctívago por natureza.

Após a passagem pelo Vitoria de Guimarães a sua carreira no futebol prosseguiu regressando novamente ao FC Porto, já com Pinto da Costa na presidência do principal clube da cidade invicta.

O Vitoria SC e os seus dirigentes tudo fizeram para manter José Maria Pedroto no cargo de treinador da equipa principal. Os vimaranenses terão mesmo oferecido um salário de 1.500 contos por mês, quantia superior aquela que José Maria Pedroto foi auferir como técnico do FC Porto.

Foi a partir da época de 1982/83 que a dupla José Maria Pedroto e Pinto da Costa começaram a lançar os alicerces do FC Porto que na década de 80 chegou a conquistar os títulos de Campeão Europeu e do Mundo.

Este regressou ficou marcado todavia pela grave doença que apoquentou o técnico. Conquistou ainda no activo a Taça de Portugal na temporada de 1983/84 derrotando na final da competição a celebre equipa do Rio Ave FC por 4-1.

Foi a 10ª jornada do Campeonato Nacional da 1ª Divisão da época de 1983/84 que José Maria Pedroto se viu obrigado a abandonar a orientação da equipa do FC Porto por causa do cancro que lhe havia sido diagnosticado. Em Janeiro de 1984 foi internado em Londres afim de ser submetido a tratamentos deixando o comando da equipa aos seus adjuntos António Morais e João Mota.

Nessa mesma época assistiu em casa à final da Taças das Taças em Basileia entre o seu FC Porto e a Juventus de Itália. O FC Porto foi derrotado por 2-1 perdendo a competição para a equipa transalpina.

José Maria Carvalho Pedroto acabou por falecer na manha do dia 8 de Janeiro do ano de 1985, com 56 anos de idade, sucumbido à doença que o corroía imparavelmente. Durante a madrugada do dia do seu falecimento, já visivelmente debilitado, tentou satisfazer os seus últimos desejos, bebendo whisky por uma colher e tentando fumar o último cigarro.

Terminou assim a vida de homem invulgar que seguramente marcou uma época e um estilo no futebol português. Não viu, em vida, cumprir-se o seu maior sonho, ver o FC Porto Campeão da Europa e do Mundo.

Terminou a vida, mas não terminou de forma alguma o mito que permanece no futebol português de um mestre José Maria Pedroto, o carinhoso e popularmente conhecido como o “Zé do Boné”.

# todos os textos (excertos) e fotos foram «raptados sem autorização» do blog Glórias do Passado, neste fantástico artigo.

7 comentários:

  1. Este homem viveu a conquista de 27 de Maio de 1987...

    Ninguém o viu mas ele esteve lá.

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  2. Meu caro Blue, bela homenagem a uma figura ímpar da história do F.C.Porto.
    Pedroto e P.Costa foram os capinadores, os que criaram os alicerces, para que o F.C.Porto desse o passo em direcção ao Céu que nós apenas em soonhos, pensavamos ser possível.
    Um abraço

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  3. A devida homenagem.
    Nunca serão demais!

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  4. Robson, Pedroto e Mourinho, exactamente por esta ordem, são os meus treinadores de eleição.

    Por mais que se escreve sobre este Senhor, nunca será demais.
    Juntamente com Jorge Nuno Pinto da Costa, fizeram do FCP o que é hoje.

    Algumas frases de José Maria Pedroto:

    - As gentes do Porto são ordeiras porque, se não fossem, há muitos anos teriam recorrido à violência perante os enganos dos árbitros que têm decidido da perda de muitos campeonatos e Taças de Portugal."

    - No FC PORTO, os problemas não se levantam porque nunca chegam a existir."

    - O FC PORTO cada vez mais aparece como potência do nosso futebol, capaz de conseguir a hegemonia e é claro que isto preocupa o Benfica e o Sporting."

    - É tempo de acabar com a centralização de todos os poderes da capital."

    - No FC Porto não há contestatários maricas, nem os problemas se levantam, porque nunca chegam a existir".

    - Jorge Nuno Pinto da Costa, para além de ser um cidadão respeitável, afirmou-se como um competentíssimo dirigente. A ele se deve, em grande parte, a projecção que o FC Porto atingiu, a nível nacional e europeu. O tempo há-de fazer-lhe justiça."

    - Não tenho dúvidas de qualquer espécie de que ao Artur Jorge não faltará onde trabalhar e que, em qualquer parte, triunfará. Mas também acredito que vai ser no FC Porto que ele acabará por ser revelar como um homem predestinado para a direcção e comando de equipas de futebol".

    - Não vai ser preciso nenhum milagre para que o F.C. Porto alcance finalmente o título que ambiciona a anos.”

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  5. Estes textos sobre Pedroto que aparecem na imprensa e na Net com frequência anual (quase sempre nesta altura do ano) deixa-me deliciado.

    Este foi mais um que me deixou de lágrimas no olhos e desejando ter mais que 4 anos em 1978 para ter vivido de outra forma essa histórica época.

    Não mais esqueço quando lia um livro sobre Pedroto («o Mestre») de Alfredo Barbosa e dizia este grande jornalista que Pedroto no último domingo que viveu ainda arranjou forças para perguntar à esposa o resultado do FC Porto nesse fim de semana. Adormeceu feliz nessa noite. Eternamente o nosso Mestre. O verdadeiro. Depois de ler esse capítulo e porque estava na presença de outras pessoas retirei-me para não me perguntarem o que se estava a passar...

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  6. Já há algum tempo que conhecia este texto aqui transcrito, mas na íntegra, onde acabei por o encontrar por um mero acaso das minhas pesquisas através do Google.

    Na altura, deliciei-me ao lê-lo, até porque vi uma grande maioria expressiva de fotografias do Pedroto, que desconhecia em absoluto.

    Quanto mais sei da história do Pedroto, mais pena tenho de as minhas memórias serem minimas quanto ao próprio... até porque há altura da sua morte, ainda só tinha uns poucos mais de 10 anitos e se é verdade que o FC Porto já fazia, como sempre fez, parte da minha vida, só mais tarde me tornei um invertebrado Dragão de jamais torcer ou quebrar.

    Esta homenagem... é mais que merecida.

    Tal como o Lima já o aqui disse ao de leve, acrescentaria até que todas as glórias até hoje conhecidas, têm um "dedo" da forma de viver o FC Porto ao bom estilo "Pedrotiano".

    Mestre, descansa em paz... e lá em cima, no céu, jamais te esqueças de torcer por nós... todos juntos, nunca somos demais para o fazer!!

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  7. Jorge da Silva09 janeiro, 2009

    Parabens!
    Grande homenagem feita aqui a um
    grande Homem da história do nosso
    FCPORTO.Pedroto será Eterno!
    Estive em 83/84 no estádio de Oeiras em que vencemos o Rio Ave por 4-1.Tinha 12 anos na altura e fui com os meus falecidos Pai e Avô.Grandes Portistas,obviamente!
    Tenho em casa o livro ´O Mestre´ de
    Alfredo Barbosa que já li e reli
    algumas vezes.Com ele,no meu vêr,
    começaram os alicerçes que fez do
    FCPORTO aquilo que é hoje :
    - O MELHOR CLUBE DO MUNDO ...

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