30 julho, 2009

Dissertações

Com o calor, os corpos despidos e as imperiais frescas, acompanhadas por esta inimitável brisa marítima, que faz maravilhas no humor de um tipo que tem que trabalhar durante o período de canícula, é difícil arranjar algo que sirva de tema, para a crónica semanal.

A silly season é, como se sabe, repetida ad nauseum, ano após ano, com os títulos a serem repisados. A mesma euforia, o mesmo estranho e incompreensível endeusamento de jogadores desconhecidos [a Bola conseguiu descobrir, no 1º treino de Javi Garcia, que “este revelou uma maturidade impressionante”], que me fazem ter vontade de carregar num imaginário botão de fast-forward, pondo o tempo a andar para a frente, apressado, até ao início das competições oficiais. Mas, até alguém inventar essa máquina capaz de adulterar o tempo, temos que nos munir de uma paciência digna de Confúcio.

Por cá, nem o calor parece tirar a vontade a alguns de ver Bruno Alves pelas costas. Prestes a tornar-se uma espécie de obsessão dos escribas encartados, o capitão portista, por “coincidência” um dos melhores centrais do mundo, é colocado diariamente na rota de vários clubes, conforme o grau imaginativo do guru da escrita. Com predominância em terras de Sua Majestade, com o Chelsea de Ancelloti e o Manchester City, brinquedo novo do árabe endinheirado, ou passando por terras catalãs, metendo o vigente campeão europeu na corrida, o central de azul e branco vestido é mantido numa espécie de maquina centrifugadora, impedindo o normal sossego e concentração do atleta naquilo que o devia nortear: ganhar títulos pela sua entidade patronal actual.

Enquanto isso, em latitudes sulistas, a exaltação enjoativa conhece, este defeso, o seu enésimo capítulo da era Orelhas. Recebidos com total pompa e circunstância, os reforços apressadamente elogiados mantêm os adeptos encarnados numa espécie de redoma de bem-estar desportivo. Incapazes de pensarem pela própria cabeça, como demonstra o facto de aplaudirem sistematicamente o director-desportivo, capaz de negócios ruinosos como gastar 4M em Balboa ou enterrar 7M num trinco desconhecido, num afã de conseguir um mísero título, os simpatizantes da águia colocam-se invariavelmente a jeito para a depressão anual.

Até lá, aproveitam para afinar vozes gritando, mesmo que timidamente, “campeões, campeões”, com a entrega em bandeja de ouro do título de juniores. Abrindo um precedente gravíssimo, o Conselho de Disciplina decidiu atribuir um título na secretaria, beneficiando claramente a atitude provocatória, incendiária e beligerante da principal claque dos encarnados, empossados assim como vencedores de uma competição fajuta.

A comunicação social ficou, mais uma vez, a “vê-los passar”, assobiando para o alto. Depois do Verão Quente de 2008 e da rábula do Apito Dourado, com a Justiça Desportiva a contradizer as sentenças da Justiça Civil, a única que investigou as acusações, o trabalho de sapa é feito por outros, na internet, colocando a promiscuidade, as ligações perigosas, as dependências de várias espécies, visíveis e prontas a serem investigadas. Sucedendo a Ricardo Costa, o paladino pateta, presença assídua nos camarotes da Luz, temos agora o bonacheirão presidente do Conselho de Disciplina, Marques da Silva. Em comum, o amor não escondido pelo emblema da águia. E é vê-lo a decidir a atribuição de um título, nada preocupado com a sua presença anterior em festas benfiquistas, de cachecol pressurosamente colocado ao pescoço. Eles não querem um desporto digno, limpo e honesto, como demagogicamente gostam de proferir. Querem o regresso do “polvo”, que tudo permitia, uma teia enorme de interesses promíscuos, responsável pelo palmarés conquistado nas décadas longínquas de 50, 60 e 70. Não importam os meios para atingir os fins. O despudor está à vista…

Como um bom exemplo de jornalismo limitado de ideias, submisso na vontade e deferente na abordagem, assistimos ao óbito de um dos seus maiores esteios. Rui Cartaxana, à imagem de Alfredo Farinha ou Aurelio Marcio, foi um lacaio do verdadeiro sistema. Um homem minado por um ódio corrosivo, tacanho nas concepções, subjugado a interesses obscuros, incapaz de seguir o código deontológico, esquecendo as lições de sociologia, que aconselham ao distanciamento do objecto de estudo. Ao contrário do apregoado, com o politicamente correcto elogio fúnebre estampado nas páginas dos pasquins, o seu desaparecimento constitui uma esperança em todos aqueles que acreditam num jornalismo desempoeirado, profissional, sem coleira ou mordaças. A ver vamos se algo muda…

Provando, se ainda fosse preciso, que o jornalismo de investigação nacional é um nado-morto, o recente livro de Fernando Mendes passou quase despercebido nos escaparates lusitanos. Com a praia a aconselhar leituras mais suaves, o volume do ex-jogador não acrescenta nada de novo, caindo nos habituais lugares comuns, lançando suspeitas sem nada revelar, à boa maneira octaviana do “sabem do que é que eu estou a falar”. Mas, mesmo assim, alguns pormenores deliciosos vão-se sabendo, saindo da obscuridade a que alguns gostavam de os ver remetidos. Novamente na ribalta, a musa de João Botelho, essa Pinhão que gosta de se arvorar em profissional eticamente irrepreensível foi, pasme-se, a intermediária na negociação da contratação do jogador…pelo SLB. Confusa, por certo, do que a cédula profissional de jornalista obriga, a conhecida adepta benfiquista vê revelada uma faceta ainda desconhecida: a de empresária de jogadores. Ora toma!

Mas o pormenor suculento foi a revelação da existência de doping no mundo do futebol indígena. Situação sussurrada por alguns, alvo da desconfiança de outros, a presença de anabolizantes e afins sempre foi uma espécie de tabu. Mas daí até à total ausência de umas linhas nos jornais ou de uns minutos na tv vai um grande passo. Explico melhor:

O jogador confessa que, "em determinada temporada (...) sou convocado para um encontro particular da Selecção Nacional. (...) Faço uma primeira parte fantástica, mas ao intervalo começo a sentir-me cansado e tenho medo de não aguentar o ritmo (...) O jogo realiza-se num estádio português (...) Estão lá um médico e um massagista de um clube onde jogo (...) No intervalo, peço a esse médico para me dar uma das suas injecções de doping. Saio do balneário da Selecção, sem que ninguém se aperceba, e entro numa salinha ao lado. É aí que me dão a injecção pedida por mim. Volto a frisar que ninguém da Selecção se apercebeu".

Não sendo difícil descobrir que o jogador, com 11 internacionalizações, e com passagens pelo Belenenses, Sporting, Benfica, Porto e Boavista, se estaria a referir a um destes clubes, por onde anda a averiguação? Será assim tão problemático deslindar o enigma que constitui o nome do clube envolvido? Por onde anda agora o Ministério Público, a Federação, Laurentino Dias ou o responsável nacional pelo combate ao doping, Luís Horta? E, para que não subsistam dúvidas, uns minutos perdidos no Google e fica-se a saber que a última internacionalização do jogador aconteceu antes do Euro-96, frente à Grécia, jogava ainda no Belenenses. Ou seja, o Porto, que contratou o atleta no ano seguinte, fica ilibado das acusações de uso de substâncias dopantes. Retirado um clube ao lote de potenciais suspeitos, dão-se alvíssaras a quem descobrir o nome do prevaricador…

De resto, tudo na mesma. Com Jesualdo a poder confiar no quarteto defensivo mais competente do campeonato, o Porto mostra não estar abalado com as partidas de atletas de eleição. Hulk continua a fazer, claramente, a diferença, enquanto os novos reforços se vão adaptando. Entre estes, destaque para o sentido posicional de Alvaro Pereira, seguro na lateral-esquerda, para os pormenores técnicos brilhantes de Belluschi e, para já, para a agressividade e discernimento mostrados por Falcao, nos poucos minutos que tem jogado. Mais do que a promessa, fica uma certeza: teremos uma equipa capaz de lutar por tudo, a nível interno.

6 comentários:

  1. Deixa lá Paulo, os cães ladram, cada vez ladram mais e nós, em proporção aos latidos, vamos continuar a ganhar, porque a nossa caravana conhece o caminho, tem o rumo traçado e não são os cães de um circo ambulante, que vão travar a caminhada do Dragão.

    Um abraço

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  2. Gostei particularmente deste parágrafo.

    «Como um bom exemplo de jornalismo limitado de ideias, submisso na vontade e deferente na abordagem, assistimos ao óbito de um dos seus maiores esteios. Rui Cartaxana, à imagem de Alfredo Farinha ou Aurelio Marcio, foi um lacaio do verdadeiro sistema. Um homem minado por um ódio corrosivo, tacanho nas concepções, subjugado a interesses obscuros, incapaz de seguir o código deontológico, esquecendo as lições de sociologia, que aconselham ao distanciamento do objecto de estudo. Ao contrário do apregoado, com o politicamente correcto elogio fúnebre estampado nas páginas dos pasquins, o seu desaparecimento constitui uma esperança em todos aqueles que acreditam num jornalismo desempoeirado, profissional, sem coleira ou mordaças. A ver vamos se algo muda…»

    :) grande PP!

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  3. Já faltou mais.
    Mudar, mudará.
    E não levará mais de um par de gerações.

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  4. Paulo Pereira, on fire ;)

    De Bruno Alves, olha, tanto me faz como fez se eles querem que vá ou que fique... o que sei, é que antes de Bruno Alves, havia FC Porto vencedor... e tenho a certeza absoluta que depois de Bruno Alves, continuará a haver FC Porto vencedor... se se puder juntar o útil ao agradável (FCP c/ BA), óptimo; se não for possivel, boa viagem, obrigado, mto obrigado, mas siga pra nova estrela!

    quando ao ratazana, só me apraz dizer, sem medo das palavras... que esse FdP arda no inferno e pague por todo o maldizer que sempre nos lançou... este, era daqueles que andava acordado, a dormir e a sonhar com o FC Porto... portanto, qual bláblá, qual meio bláblá... este já foi... e já foi tarde, dasseee!!!

    por fim, o esquerdino, olha se o suspeito "confirmado" fosse alguém que nós bem sabemos, o fórró que por ai não iria... mas como são os da rotunda, pois, tasse bem, tá tudo na paz do senhor... PQosP!!!

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  5. Viva !

    Texto brilhante !

    Uma coisa é certa : Por muito que queiram os jornalistas nunca ferão a actualidade. O povão não é bobo.

    O Porto é o clube mais reconhecido internacionalmente.

    E, desculpem a critica, o Porto poderia ser ainda maior se a apresentação de todas as modalidades convergissem na ideia que é o mesmo clube.

    Lembro-me perfeitamente, não estou a fantasmar, que, aquando do Paris Porto, em andebol, pessoas ao meu lado me perguntaram se se trava do mesmo clube que o Porto futebol.

    Deste ponto de vista, dou razão ao Lucho. Não é normal que no site do Porto quase não hajam informações sobres as modalidade.

    E Viva o Porto !

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  6. "... regresso do “polvo”, que tudo permitia, uma teia enorme de interesses promíscuos, responsável pelo palmarés conquistado nas décadas longínquas de 50, 60 e 70. Não importam os meios para atingir os fins. O despudor está à vista…"

    Caro Senhor,
    esqueceu-se de incluir as décadas de 80 e 90, que foram, de facto,o maior exemplo de honestidade desportiva. Ter uma opinião imparcial custa muito.

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