06 dezembro, 2007

Realidade virtual

Imagine o leitor que não pertence a este cantinho à beira-mar plantado. Por momentos, deixe-se levar no mundo do faz-de-conta. Não é um nativo, indígena ou o que quer que seja a este País. Não percebe nada das tricas políticas, do mundo crispado das finanças ou sequer das tácticas de guerrilha habituais no futebol luso. Nunca ouviu falar no processo Casa Pia, do rocambolesco caso chamado Apito Dourado ou da existência de escutas telefónicas, a qualquer um, em qualquer local, sem o mínimo de controlo, ao bom estilo do Big Brother totalitário.

Resumindo, o leitor encarna um bom vivant, adepto do cosmopolitismo, vivendo no 1º Mundo, num qualquer País abastado e evoluído. Sem nada para fazer ao tempo, resolve embarcar numa viagem turística. Escolhe Portugal. Atrai-o a ideia de radicalismo, mesmo que isso represente apenas a experiência de viver frugalmente num 5 estrelas, neste estado democrático. Sente aquela pontada de ansiedade, misturada com a excitação de desvendar os segredos de um local milenar, onde os homens arrotam sonoramente depois do almoço, usam grandes bigodes, palitam os dentes em público e as mulheres, de forma reverente, caminham sempre dois passos atrás dos maridos.

Aterra em Lisboa. Disseram-lhe que é a capital. Encolhe os ombros. Para si, pouco importa. Tentaram convencê-lo, na agência de viagens, a viajar em low-cost, para o pitoresco Norte. Recusou liminarmente. Não pelos baixos preços, que conferiam até uma aura de algum romantismo à viagem, relembrando tempos passados, mas porque se recordou de ter lido, num qualquer jornal de economia, sobre o conflito de interesses que envolviam a companhia de aviação e a entidade que gere os aeroportos.

Acha piada ao futebol. Não como um verdadeiro adepto, capaz de berrar até à rouquidão pelo emblema que venera, ou exultando em saltos acrobáticos com a marcação de um golo, mas com um interesse mais sociológico. Poliglota, resolve comprar, durante a estadia, os jornais desportivos. Lê-os atentamente, devorando os artigos de opinião, fascinado pelas parangonas. Dia após dia após dia após dia. Percebe as loas, os hossanas, os elogios rasgados, o orgulho exaltado. Sente o coração de um Povo a pulsar. Consegue comungar e partilhar desse sentimento de fé, genuíno. Embarca de regresso.

Dias depois, num daqueles habituais e circunspectos colóquios sociais, num qualquer salão de chá, murmura para os seus companheiros de tertúlias:
“Lá em Portugal, existe uma grande equipa de futebol, adorada pelos adeptos, movimentando milhões. Todos se curvam à sua passagem, quase como se vissem ali um milagre, tal é o nível de paixão religiosa que lhe devotam”, proclama, sentindo a satisfação tomar conta de si, ao ver o ar interessado dos companheiros.

Um deles, pousando o Financial Times exclama, excitado:
“Eu sei. É o Porto. Belíssima equipa. Vi-os a jogar…”, mas a frase foi interrompida pelo primeiro.

“O Porto?”, pergunta ele, intrigado. “Quem são esses?”, e um sorriso trocista baila-lhe nos lábios. “Estive lá uma semana e nunca li nada sobre eles… agora sobre o Benfica, era todos os dias”. Finalizou, contente com o seu argumento. Não gostava de ser contrariado.

O seu interlocutor soltou uma gargalhada divertida. Abanou a cabeça, perplexo. “Estiveste lá uma semana?”, questionou, de forma retórica. “Pois eu vivi lá uns meses… e sei do que falo. A melhor equipa portuguesa é o Porto, sem dúvida alguma. Venceram a UEFA e a Champions, em anos seguidos, são os campeões em título…”

“Mas… mas… tens a certeza?", pergunta o 1º, já com a sombra da dúvida instalada na face. "Esses não foram derrotados contundentemente pelos ingleses do Liverpool?", e sorriu, novamente satisfeito com a sua réplica. "E o Benfica, ao invés, bateu o pé ao campeão europeu...". Vendo o ar malicioso no seu companheiro, resolveu acrescentar um pormenor que lhe pareceu a prova definitiva:

"E um jornal até titulou que foi o regresso às grandes noites europeias. Ah pois"!, suspirou, levando delicadamente a chávena de chá aos lábios.

O outro não respondeu de imeadiato. Limitou-se a abanar a cabeça. Pousou o jornal que lia, com gestos vagarosos, levantou-se sem pronunciar palavra, e saiu.

O recém-chegado de Portugal, perante o ar interrogativo dos restantes companheiros de discussão, limitou-se a encolher os ombros, replicando: "Não tenho culpa que ele não tenha poder de encaixe!". No seu íntimo, sentia-se a regozijar. O sorriso, no entanto, foi efémero, perante a entrada do outro.

Este, sem pronunciar palavra, sentou-se novamente à mesa, abriu uma pasta de cabedal, fingiu que procurava algo, e retirou um jornal, algo amarelecido. Folheou as páginas, puxou de um marcador vermelho, e sublinhou algo, perante a crescente curiosidade dos amigos. Finalmente, com gestos estudados, pousou um jornal na mesa do outro, onde se destacavam as partes sublinhadas. Maliciosamente, estudou o rosto do amigo que tinha elogiado os encarnados. Estava branco como a cal, com a cor sumida repentinamente do rosto.

Este pequeno exercício de imaginação serve apenas para desnudar a falta de pudor e seriedade a que se assiste, com crescente preocupação, nos meios de comunicação social, ou me(r)dia, como muito bem os apostrofou o Estilhaço. A noite de quarta-feira (semana anterior) foi, no mínimo, surrealista. A onda de euforia que varreu o País, de lés a lés, faria supor ao mais incauto espectador, que o Benfica tinha cometido uma proeza. Mas não. Pese o empate frente ao Milão [resultado que chegava aos italianos], os encarnados viram-se automaticamente excluídos da prova. A excitação continuou, numa escalada debochada, até à noite de sábado, com o combate de titãs previsto, onde "apenas" 4 pontos separavam as duas equipas. Numa espécie de realidade virtual, parecia que o papéis estavam invertidos. Pois. Isso era no início. O Porto, como quase sempre, respondeu da forma habitual, jogando com classe e vencendo com contundência. São cerca de 740 dias na liderança, consecutivamente. E, para os adversários, nada pior do que olharem, semana após semana, para a classificação e verem, lá no alto, dominador, intransigente, o nome do clube que lhes esmaga os sonhos, sem piedade: FUTEBOL CLUBE DO PORTO!

ps - Tentou fazer-se um caso, nado-morto à nascença, do arrufo no final entre Jesualdo e Nuno Gomes. Confesso que ao ler o motivo do desaguizado, o treinador portista subiu exponencialmente na minha consideração. Passar 90 minutos a ser apostrofado, vaiado, insultado, vendo dezenas de objectos a serem arremessados na sua direcção, esmaga o lado de bom samaritano de qualquer um de nós. Foi o que aconteceu ao nosso Mister. Pena que não tenha respondido com a elevação necessária ao comentário viperino de Nuno Gomes. Mais do que mandá-lo fo**r, era a altura indicada para deixar um singelo "obrigado, Nuno, não nos defraudaste". O avançado do Benfica foi igual a ele próprio, dentro do campo. E, quando assim é, os adversários podem sorrir de satisfação.

12 comentários:

  1. Excelente Paulo.
    O protótipo do turista distraído.
    E tendo o nosso Pais uma enorme vertente para o turismo não admira que ande muita boa gente distraída.

    Afinal não são só as capas e as letras, enormes e garrafais, que contam.
    Se as imagens não forem suficientes aconselha-se a leitura dos conteúdos e quiçá das letras de menor dimensão.

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  2. Eu diria q teremos aí uns 6 milhões de turistas distraídos...Aliás até pq são turistas podiam finalmente regressar aos Países de onde são realmente naturais... Ponham-se a andar bando de frustrados...

    Pensando melhor, deixem-se ficar. Dá mais gozo ganhar de trivela contra vocês:)

    Grande Paulo, sempre de espada apontada aos mouros.

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  3. Caro Paulo Pereira, como sabe um dos admnistradores do Bi-Campeões do Mundo, onde, com assiduidade, recebemos, com agrado, a Sua visita e comentários.

    Este post só confirma a ideia que já há muito tenho da sua escrita: bom portuês, fina ironia, oportunidade rara, assertividade especial.Portanto, muito obrigado.

    Eu, por mais fanático que seja, também às vezes que penso que vivo não em Portugal, mas no Pavilhão da Realidade Virtual (era em Lx, não era?).

    Mas sabe uma coisa? por mim, até prefiro que assim continue, ou seja: uns a ganhar na corja jornaleira, o outro (o NOSSO FCP) a ganhar em campo em canecos!!!

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  4. Paulo Pereira sempre com a 'pena' em riste contra «invejosos e rídiculos».

    Mesmo podendo cair na repetição, ler as tuas prosas, são uma maravilha... eu gosto!

    Ahhh... e cuidado com as referências pouco abonatórias aos 'turistas', não vá ainda seres acusado de não ajudar ao crescimento da economia nacional :-P

    aKeLe aBrAçO,

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  5. Viva !

    Bonito estilo que agrada muito como já o referi.

    E aqui existe também uma grande descriminação quanto ao Porto, no que diz respeito à transmissão dos jogos via a rtpi ( o canal de excelência para todas e todos portugueses residentes no estrangeiro dizem / só que até agora só é para os clubes da capital). Em breve, quando for a hora, focarei este aspecto com dados concretos.

    E Viva o Porto

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  6. http://estadiodragao.com/o-joao-pinto-e-que-sabe/

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  7. os numeros falam por si ......


    equipa record da semana na nossa liga privada...hehhehe

    amigo blue boy esse sir guedes é limpa-lo dai que esse gajo nao pagou e esta-me a fu###....lol


    abraço

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  8. Adorei este post...

    E tenho um episodio que posso conta-lo rápidamente neste blog amigo.

    Enquanto estudante no Porto, tive um colega que no 3º ano veio de França para Portugal. O seu clube lá é o PSG. Dizia que o Porto era muito conhecido (devido aos sucessos a nivel europeu) e que o benfica era so conhecido pelos "emigras" e pouco se falava nele. Nos primeiros meses na universidade apercebeu-se do meu portismo e de outro colega com quem eu costumava falar de bola. Nos primeiro dias ele dizia que nós eramos doentes, que viamos fantasmas etc etc etc. O que é certo é que ao longo dos tempos foi dando razao aos ditos "doentes", admitindo que em França é dado mais valor ao FC PORTO do que em Portugal. Ele chegou mesmo ao ponto de criticar as capas do jornal record nos dias seguintes aos exitos do FC PORTO!

    (os doentes riram-se muito interiormente e até hoje nunca lhe dissemos nada sobre isso)

    Actualmente é portista!

    E porquê?

    Porque percebeu!

    Ouviu e pensou o contrário... mas a realidade mostrou-lhe ser verdade!

    Abraço a todos

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  9. Peço desculpa aos meus amigos portistas deste blog mas esta ideia é boa para um post :)

    Nao levem a mal se copiar qualquer coisinha no futuro...

    O meu próximo post será sobre a cidade de Leiria e os seus adeptos. (rir muito)!

    Abraço a todos

    www.tribunaldofutebol.blogspot.com

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  10. Paulo Pereira :

    ...Qualquer semelhança com a realidade ...não é (digo eu) pura coincidência !

    Excelente !

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  11. nao há mais nada a dizer, esta td dito neste post que por sinal ta nota 10....

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  12. É bem verdade, um turista que não ande muito atento bem que pode sair daqui induzido em erro. Excelente texto Paulo.
    Um abraço.

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