24 dezembro, 2009

O sócio 100.000 (um conto de Natal)

Ele tinha ansiado por aquele dia, décadas a fio. Dia após dia, deitado na cama, na escuridão, mantendo os olhos abertos, sonhando com o sossego. O descanso. Os anos sucedendo-se, na mesma monotonia de sempre. Crianças petulantes, duendes arrogantes, renas teimosas e aquela noite. Desejada incondicionalmente por todas as crianças do Mundo. E ele, enregelado, envergando o fato vermelho, reconhecível em qualquer lado, sentando-se no trenó, a abarrotar de embrulhos coloridos. O bafo gelado, as mãos frias, as dores nas costas. Ironicamente, quando a humanidade fazia da noite de 24 de Dezembro e do dia seguinte uma trégua no egoísmo, no capitalismo selvagem, nos interesses individuais, ele era obrigado a trabalhar. Arduamente. E tinha dado por si, a cada nova passagem de calendário, mais amargurado. Com menos paciência. Angustiado pelo rumo stressante que a sua vida tinha tomado. E assim, a resolução radical que tinha congeminado surgiu, após longa maturação, como algo que tinha que fazer. Para manter a sanidade que lhe restava. Era o Pai Natal – e ele sabia disso – mas tinha limites. E o seu tinha chegado. Numa fria manhã de Inverno, levantou-se determinado. Cofiou a sua longa barba branca. Acendeu a lareira. Sentou-se no velho cadeirão, companhia inseparável de tantas ocasiões. Fez aquilo que à muito desejava. Retirou o seu fato vermelho e, sem qualquer hesitação, deitou-o ao lume. Sorriu. Não um sorriso de alegre bonomia. Mas um esgar selvagem, de puro deleite. Abominava aquele fato. Detestava o tom encarnado. Era um pesadelo ver a sua imagem associada, pela mediatização da quadra, àquela cor. Não evitou um arrepio, fruto da excitação. Estava livre.

Ficou até ao fim, vendo o fogo consumir cada fibra da vestimenta. Exalou, no final, um longo suspiro. Ergueu-se, pesarosamente, sentindo as articulações protestarem pelo esforço. Pegou na sua mala de viagem, coçada pelo tempo, e preparou-se para sair. Olhou em volta, surpreendido por não sentir qualquer saudade. Deixou um simples bilhete, escrito à pressa, num rabisco quase ininteligível, dirigido ao duende-mor. “Um cabrão, por sinal”, cogitou, satisfeito pelo pensamento mesquinho. Finalmente, podia sair dos espartilhos morais onde tinha vivido, amordaçado pelo politicamente correcto. Passou os olhos, pela última vez, pelo teor do bilhete. “Estou farto. Fui de férias. Aliás, eternas. Chamem-lhe uma reforma. Não volto. Arranjem outro. Olha, tens um bom substituto. O Paulo Bento está desempregado. Ou tens o Jesus. Só tens que o domesticar para ele deixar de mascar chiclete de boca aberta. Adeus.” Riscou o insulto final. Os duendes, sendo uma raça abominável pelo tom incansável que conferiam a cada tarefa, desempenhando-a como se fossem autómatos, não mereciam, apesar das agruras do relacionamento que tinha mantido com eles, ser insultados.

Bateu com a porta e partiu.

O duende-mor, um ser rezingão, mesquinho e pouco afável, amarrotou pela enésima vez o bilhete. Sentia raiva pelo vazio que a partida do Pai Natal tinha deixado. Era obrigado, a míseros dias da data assinalada no calendário gigante que existia na oficina das prendas, a arranjar um substituto. Rangeu os dentes, tentando controlar a onda de fúria que ameaçava imergir. Mas, lá no fundo dos seus sentimentos, sentia o aguilhão da inveja. E esse doía-lhe na alma. O Pai Natal tinha sido capaz. De fugir daquele emprego sem horários. Da azáfama de todos os dias. Dos caprichos dos pedidos das crianças. Olhou para a pilha de cartas, recebidas diariamente, arquivadas por ordem alfabética. Levou as mãos à cabeça. Cada ano, a pilha subia uns centímetros. Já não eram só as crianças que pediam coisas mais elaboradas. Já não se contentavam com piões, bonecos articulados ou afins. Agora, era só mp3, consolas e videojogos. Foi passeando, contornando os montes de cartas, que subiam até ao tecto do edifício. Crianças, adolescentes e jovens. Todos pedindo. Todos exigindo. Até adultos. O Sócrates, que queria “acabar com o défice das contas públicas, sem aumentar os impostos”. Ou o Vara, “que queria safar-se de mais uma argolada que tinha cometido”. Tinha ainda o Orelhas, “que pedia o título de campeão”. Sorriu, ao recordar os erros ortográficos do presidente do clube da 2ª circular, sempre obcecado com a vitória, que teimava em lhe escapar. Despertou dos seus devaneios ao ouvir um estrondo. Uma das fadas, recrutada à pressa para dar uma ajuda nos embrulhos, tinha derrubado a estante onde estavam os telemóveis para oferecer. O duende-mor recuperou o porte militar. Berrou duas imprecações, deu três ordens, e foi supervisionar...

O Pai Natal, vestido com umas calças de bombazina castanhas, um colete apertado até ao último botão e um largo casaco de cabedal, parecia uma pessoa normal. Um avôzinho, com a sua barba branca a decorar um rosto sorridente, enquadrando-se na perfeição com o nariz rechonchudo e com as bochechas coradas. Ele estava feliz. Ali, no meio dos humanos, era um deles. Exultou de alegria. Tinha lido as parangonas dos jornais, nos dias anteriores

“Pai Natal desaparece sem deixar rasto”. “Natal em risco para milhões de crianças”. “Arranjado substituto desconhecido para o lugar de Pai Natal”. “Duende-mor promete um Natal inesquecível às crianças”.

Os títulos fatalistas tinham sido substituídos, com o passar do tempo, pelas mais prosaicas tentativas de adivinhar o paradeiro dele. Uns aventavam a possibilidade de o Pai Natal ter rumado a uma qualquer ilha paradisíaca, deixando que as águas cálidas lhe massajassem os exaustos pés. Outros lançavam a ideia de ele se ter refugiado nas montanhas distantes do Canadá, vivendo como um eremita, no meio da floresta, dedicando-se à contemplação da natureza e à pesca nos lagos remotos. Proliferava também a sugestão de que o Pai Natal, farto de anos na Lapónia, vivia agora numa grande metrópole, beneficiando da ampla oferta cultural das cidades. Teatro, ópera, cinema, concertos, exposições de pintura. O Pai Natal riu-se, com vontade, de todas as especulações. Levantou-se, naquele exacto momento, imitando a multidão que o rodeava. Gritou, a plenos pulmões: “GOOOLOOOOO”, brandindo o cachecol azul e branco, enquanto comemorava ruidosamente a marcação de um golo do Porto.

Era ali que ele ficaria, para o resto da sua vida. Junto ao Estádio do Dragão. Foram décadas a fio, sofrendo silenciosamente pelo clube que aprendeu a amar. Solitário, folheando jornais que lhe chegavam com semanas de atraso ou, depois do advento da internet, seguindo diariamente as noticias sobre o clube. Abanou a cabeça, satisfeito, como se quisesse provar a si mesmo que aquilo não era um sonho. Ele estava ali, com a sua gente. Todos os credos. Todas as classes sociais. Irmanadas, quase por milagre, naquela devoção religiosa. Sentiu o pulsar da afeição a acelerar-lhe o batimento cardíaco. Adorava aquele clube. A sua história. A forma como tinha alcançado a glória. A custo, de forma árdua, até chegar ao topo. Tirou do bolso o seu novo tesouro. Um cartão de plástico, com a sua fotografia bem visível. Releu, pela milésima vez, o que lá estava escrito. Sócio 100.000. Pai Natal. Gargalhou, fazendo estalar a sua voz rouca e profunda. Tinha conseguido convencer o prestável funcionário a colocar o seu nome, no lugar adequado. Pai Natal. Sócio do melhor clube português.

Sentia-se ansioso. Era o seu primeiro jogo no Dragão. Sabia as coreografias e cânticos todos de cor. Tinha já participado, com uma alegria juvenil, num dos hinos da claque:

“Allez Porto, allez
Nós somos a tua voz
Queremos esta vitória
Conquista-a por nós”


Dali a nada, iria para outro local. Ali perto. O Dragãozinho, onde tinha adquirido um lugar anual. Tinha-o escolhido, beneficiando de uma paciência beatífica do referido funcionário, de forma cirúrgica. Uma bancada atrás de um grupo de sócios e adeptos especial. Nas suas deambulações pela internet, nas sombrias e gélidas noites da Lapónia, tinha encontrado um espaço de tertúlia. Um sitio onde, para alem do debate sobre o quotidiano do clube do Dragão, se vivia, de forma intensa, a colectividade. Com paixão. Nunca tinha comentado. Nem participado naquelas discussões quase intermináveis. Mas lia-o religiosamente. Todos os dias. Dali a nada iria colocar rostos em nicknames que decorara. Lucho, Blue Boy, Mafaldinha, Vila Pouca, Dragão 66, Estilhaço, Dragão Penafiel, Sevilha03, Jorge Aragão e tantos outros [a Heliantia, o açoriano RCBC ou o emigrante Porto Maravilha]. Talvez se cruzasse, na entrada, com os irmãos Rocha. O mestre das tácticas e o homem da calçada. Veria, in loco, o rapaz da bandeira, esse Tripeiro convicto e de fé inabalável. E, sem eles saberem a sua verdadeira identidade, cumprimentaria cada um. Desejando o prosaico FELIZ NATAL. E Bibó Porto, Carago!

26 comentários:

  1. Votos de um Feliz NAtal a toda a equipa do BIbó Porto e aos seus visitantes.

    Um abraço!

    http://legionofdragons.blogspot.com

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  2. Espectáculo!

    É por essas razões que eu ainda continuo a acreditar no Pai Natal e a acreditar que ele nos vai trazer boas prendinhas.

    Um abraço e Feliz Natal para todos

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  3. A todos os amigos e participantes aqui no Blog deixo os meus votos de um Feliz Natal.
    Um abraço e saudaç~es portistas.

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  4. OH OH OH
    Para todos os participantes do Blog, bem como para todos os PORTISTAS convictos, e respectivas famílias, votos de um Feliz Natal, cheio de prendinhas e saúde.
    Saudações Azuis.

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  5. Para toda a equipa do Blog e para todos os leitores do Blog um Santo e Feliz Natal...

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  6. Boas festas, azuis e brancas!
    Belo conto de Natal.

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  7. Paulo Pereira:

    Neste dia tão especial um grande abraço para ti. Os meus parabéns pelo teu fantástico e belíssimo conto de natal...Gostei particularmente do pormenor do dragãozinho:)

    UM BOM NATAL PARA TODOS OS PORTISTAS E DESPORTISTAS. uM GRANDE ABRAÇO A TODOS.

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  8. Feliz Natal para todos e muitas vitórias do FC Porto no sapatinho! :)

    Um abraço!

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  9. Biba PP.
    Até me arrepiei com o teu conto de Natal. Magnifico, 5 estrelas!!!

    E posso ainda confirmar que o Pai Natal esteve já connosco no Dragão na última partida.
    Eu bem disse ao pessoal do sector 5.
    Eles é que não quiseram acreditar.

    Vou no entanto é tapar a chaminé aqui do estaminé.
    Não quero, de maneira alguma, que me surja um Pai Natal com tranquilidade ou um da orelhasnet, com ou sem a boca fechada :-)

    Bom Natal para todos.

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  10. Viva !

    Excelente !

    Bom Natal para todas e todos !

    E Viva o Porto !

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  11. Votos de um Feliz Natal para todos, e que este novo ano que se aproxima vá de encontro, da melhor forma, a todos os nossos desejos, sendo que a Saúde, a Família e a Amizade são os nossos bens mais preciosos.

    Façamos votos também para que o nosso grande Futebol Clube do Porto consiga atingir os seus objectivos e nos dê aquelas habituais alegrias, que, por vezes, demasiadas vezes, acabamos por desvalorizar de tão recorrentes serem.

    Não nos devemos esquecer que necessitamos estar unidos pois "eles" fazem de tudo para nos minar, para criar a dúvida, a confusão, a desunião dentro de nós e do nosso grupo. Já basta a propaganda mediática que branqueia tudo o que eles fazem e constantemente nos desvaloriza e nos tenta humilhar. Com alguns de nós, eles conseguem seus intentos, seus objectivos. Cabe-nos estar atentos e firmes, e saber separar quem realmente luta por nós, nos serve, nos engrandece e valoriza, daqueles que fazem do seu dia-à-dia, seja a nível nacional ou mesmo local, uma tentativa e obsessão constante de difamação do nosso bom nome.

    Um abraço a todos

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  12. Aieeeeeee, que Pai Natal mais fofinho este :)

    Parabéns Paulo pelo encantador conto de Natal, e aproveito-o para desejar a todos os Portistas do mundo UM SANTO NATAL E UM 2010 com tudo de bom :)

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  13. Mais um Grande texto do nosso Amigo Paulo Pereira!
    Desejo um feliz natal a todos cheios de doces e coisas boas!
    PS: A menina Heliantia teve falta de comparência no jogo em Braga com o Abc x F C PORTO !!!!!
    Abraço

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  14. Desculpem não ter a ver com este "post" mas gostaria de colocar aqui uma nota de louvor ao Amigo Meirelesportuense pelas suas ideias e pela maneira com as expõe...!
    Talvez assim ele tome conhecimento desta opinião.

    Caro Meirelesportuense!

    Ainda a sua análise (este é um dos tais comentários com significado):

    Meireles: ...Por isso eu achava que seria oportuno avançar com o Fucile para uma posição de ala direito, conjugado com a acção do Sapunaru ou do Miguel Lopes, tirava todas as hipóteses do Benfica jogar pelo lado esquerdo e mais, destroçaria aquele corredor até à área do Benfica...Também não percebo porque o Varela não jogou de início, no lado direito ou esquerdo dá indiscutivelmente, mais consistência ao meio campo...
    ...claro que se jogarem dois médios mais defensivos, têm de jogar também dois médios mais criativos e esses só podem ser Belluschi e Valeri...
    ( áparte meu: não sabemos é se o Valeri estaria apto para jogar)

    ...Portanto reparem: Fucile, Rolando, Bruno Alves e Pereira...Fernando, Raul Meireles, Belluschi e Valeri...Varela e Falcao.
    Os dois laterais têm bom poder ofensivo, teríamos sempre dois médios a poder cobrir esses flancos se eles subissem, e se eles subissem ficávamos sempre com um quinteto no ataque!

    Dragaoatento: Meirelesportuense! Gosto da maneira como escreve e expõe as suas ideias!

    Aliás eu próprio já defendi num comentário elaborado por mim no blog dragãoatento a tese de que é fundamental colocar nas faixas laterais um médio e um lateral que formem asa (que fechem nas laterais) ou seja, que cooperem um com o outro, tanto no aspecto defensivo como no capítulo ofensivo.

    Um abraço

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  15. Mas estava lá em pensamento :P
    Vocês é que estavam distraídos..

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  16. Ah! Antes que me esqueça, quero desejar a todos os Amigos Dragões que como eu sofrem nas derrotas e exultam com as vitórias do FC Porto,

    Um Natal repleto, ou seja, preenchido com tudo aquilo que mais fervorosamente desejarem e um Ano de 2010 com o Azul e Branco no topo da classificação no final da Liga Sagres. Tudo bom para vós.

    Um abraço

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  17. Sem sombras de duvidas um dos melhores contos de Natal que tenho lido.
    Eu bem que desconfiava que o bom velhinho seria Portista.
    Renovo os meus votos de um santo e feliz natal a todos.

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  18. Saudações

    Um feliz natal na companhia daqueles que mais amam. Um sapatinho cheio de alegria, saúde, e que todos os vossos sonhos se possam realizar.

    Abraço

    marinheiroaguadoce a navegar

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  19. Eu também acho que o vi no Dragão. E de certeza que no próximo jogo ele vai lá estar, tal como eu, por que todos somos poucos para ultrapassar esta desvantagem (espero é que o Prof. Pardal dê uma ajuda porque se não nem o Pai Natal nos vale).

    Um magnífico Natal cheio de presentes azuis e brancos para todos os leitores e escritores deste fantástico blog.

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  20. Belo conto! :))

    UM SANTO E FELIZ NATAL A TODOS VOCÊS!

    ABRAÇO AZUL E BRANCO

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  21. Depois de mais um conto de natal à PP, nada mais para dizer senão que, nesta data, desejo a todos os meus Amigos/as, fabulásticos/as colaboradores/as deste blog e também para todos os nossos leitores, um mto bom Natal em tons de azul-e-branco... a côr do PENTA!!!

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  22. Paulo Pereira, o teu conto está fantástico!

    A todos os Portistas um Santo e Feliz Natal, cheio de saúde, prendinhas e muitas vitórias do nosso Porto, a caminho do Penta!

    BIBÓ PORTO

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  23. Olá sou admin do blog Desporto 3 tudo sobre os 3 grandes da Liga Portuguesa (Futebol) e ando á procura de alguns blogs para escreverem crónicas sobre os seus clubes neste caso do FC Porto, essas crónicas iram ser publicadas no meu blog junamente com o link do blog. Caso aceite contacte-me livetvshows@gmail.com

    www.desporto3.blogspot.com

    Cumprimentos, e continuação de um bom Natal

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  24. Para um grande Blog,com grandes escritores,grandes seguidores e movido por esta paixão azul tão bonita,os meus sinceros votos de boas festas.

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